Teologia & Liturgia e Culto Cristão

2012/05/28

Domingo da Trindade – Ano B (2012)

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Domingo da Trindade – Tempo Comum –  Ano B (2012)

Isaías 6,1-11 – Experiência transcendental de Deus

Salmo 29 – A voz que faz tremer os desertos!

Romanos 8,12-17 – O Espírito permite que  o chamemos de Paizinho

João 3,1-17 –  A natureza do Espírito é a liberdade

Alguém sugere: “Fale-nos sobre Deus…”. Silenciamos, é melhor. E se falamos, é melhor perguntar: “Quantos estão pensando no ar? Por favor, levantem uma mão…” Ninguém levantará a mão. Ninguém está pensando no ar. Ninguém sabe direito o que é o ar. E, no entanto, todos nós o respiramos. Se não morreríamos. O ar é a nossa vida e não precisamos pensar nele e nem dizer o seu nome para que ele passe a existir, visível e sensível à inteligência. Só quem duvida utiliza os desenhos sobre Deus. Não é preciso pensar em descrevê-lo e pronunciar o seu nome. Ao contrário, quando se pensa nele, para afirmá-lo  o tempo todo, é porque está se afogando… 

“Deus é como o vento”, disse João. Sentimos na pele quando ele passa, ouvimos a sua música nas folhas das árvores e o seu assobio nas gretas das portas. Mas não sabemos de onde vem nem para onde vai. “Deus é uma suspeita de que o universo tem um coração que pulsa como o nosso” (Rubem Alves). E tudo o que vive é pulsação de um coração sagrado. As aves dos céus, os lírios dos campos… Até o mais insignificante grilo, no seu cri-cri-cri rítmico, sabe que Deus é o grande coração do universo.

Tertuliano, que tornou-se um religioso radical – nos rigores do montanismo ético, “pentecostal” – foi o primeiro a pensar em imagens aceitáveis para a Trindade. Apresenta como Divindade três configurações ou papeis distintos. Familiarizado com o anfiteatro greco-romano, onde o palco (skene) eram muito simples e circular. O público sentava-se em degraus de pedra em volta do ator. Nos dias de festa, as apresentações tinham lugar durante o dia ao ar livre. Em Atenas, tanto comédias quanto tragédias eram frequentemente representadas nos ritos religiosos. Tertuliano foi genial, quando imaginou o Deus dos cristãos no teatro da vida. Os dramaturgos da antiguidade apresentavam, em geral, três tragédias a cada vez. Às vezes, um só ator representava vários papéis trocando as máscaras (persona), como se faz hoje no teatro infantil.

A fé dos primeiros momentos viu-se obrigada a construir imagens, retratos, de Deus. Então, como metáfora para seduzir a inteligência, desenhou-se a Trindade Santa: Deus Pai, Deus Filho, Deus Espírito Santo. Imagens de um retroprojetor, visibilidade artificial para uma realidade que só a fé alcança. Deus é ao mesmo tempo Pai e Mãe, Cristo é o Filho, o Espírito Santo é a presença invisível, mas sensível, do Pai e do Filho ao mesmo tempo. Uma família! Há algo mais concreto que uma família? Sem essa família somos órfãos…

A Trindade sempre foi um desafio, regularmente calcada na ideia de um monobloco petrificado de Deus. A fé cristã, porém, é o molde flexível trinitário, revelação de Deus, quando trata de exigências humanas de entender-se ou ensinar-se o mistério da fé. Através de representações corporais, físicas, sensíveis aos olhos, ouvidos e tato. Esbarramos no inexplicável, no entanto. Com Jesus Cristo, porém, a suavidade poética da revelação se manifesta na dimensão amorosa de Deus, o mais misericordioso, o doador espontâneo da graça, que continua sendo um mistério. Se alguém gosta de um “deus” feio, irado, mau, vai torná-lo feio, raivoso e cruel. Quando o descrevemos conivente com os horrores do nosso mundo; quando o recusamos como o Paínho de Jesus (Abbá), fazemos dele a nossa imagem.

Dizer que Deus é um espírito imutável, símbolo de poder, de sabedoria, de santidade suprema, falar que Ele é a verdade, que é onipresente, onisciente, é o jeito humano de desenhar uma imagem, apenas. Alguns desenham essa imagem como um juiz implacável, ou como um tirano torturador de chicote na mão; outros o desenham como um velhinho sentado num trono celestial mandando anjos fazer o serviço de segurança e proteção de cada um de nós; e outros, como um pai complacente, que tira por menos as estripulias dos filhos estúpidos. Pois é, nós apenas desenhamos o que pensamos. Nada tem a ver com a experiência das pessoas sobre o que realmente Deus deveria ser para elas. O deus inflexível, feio, raivoso, cruel, que está na violência, na miséria, nas desigualdades, na fome, nas doenças que pode curar e não cura; egoísta e autoaprecitivo, não confere com o Pai de Cristo.

Uma canção nicaraguense confessa: “Tu és o Deus dos pequenos, o Deus humano e sofrido, o Deus de mãos calejadas, o Deus de rosto curtido pelo sol” (L.C.Susin). Temos aqui a união possível da divindade transcendente com o corpo que luta pela vida; que ama e tem compaixão; que sofre a opressão como mártir do povo. Aqui está o mistério inacessível da Trindade. Deus redimiu a humanidade ferida, humilhada, assumindo a natureza humana (Concílio de Calcedônia). É por isso que a condição humana de Deus pode ser entendida em Jesus de Nazaré (Karl Barth). Então, conhecemos Deus além do espetáculo, da representação ou máscaras doutrinárias (persona). Agora podemos dizer que temos o Primogênito, solidário e cooperativo com os que sofrem. O irmão de todos nós, dos desgraçados e abandonados, “sentado à direita de Deus-Pai”.

Perguntaram a Rubem Alves: Qual seria a sua reposta se uma criança de dez anos de idade lhe perguntasse o que é fé? – “Usaria uma metáfora poética para dizer o que é fé. Fé é aquilo que uma pessoa que voa de asa delta tem de ter no momento de se lançar no espaço vazio, do alto. Sem medo. A fé só existe diante do abismo das incertezas”, respondeu.

A Trindade é mistério porque a alma humana parece inclinar-se para o lado contrário. Quer certezas, garantias, catecismos; firmeza doutrinal concreta. Até mesmo nas imagens bíblicas de Deus, onde ele é visto ora como um general comandando um genocídio de infiéis, outra vez como um espírito vigilante implacável e sem compaixão pelos erros humanos, contradiz a Santa Trindade dos cristãos. Podemos entender Deus, quando o vemos separado de todas as imagens construídas sobre o que não se pode dizer, porque não há palavras ou línguas sagradas que possam defini-lo.  Porém, todas as vezes que lidamos com a beleza, a misericórdia, o amor e a bondade, estamos lidando com os nomes sagrados de Deus Pai, Deus Filho, Deus Espírito Santo.

Derval Dasilio

 

2012/05/23

O Pentecostes e a cidade pentecostal

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OPINIãO

O Pentecostes e a ganância urbana

“Todos se encheram do Espírito Santo e começaram a falar…” (Atos 2.1-11)
A pluralidade do mundo atual reflete-se nas cidades gigantescas de nossos dias. Complexidade é a palavra identificadora. Um grande problema urbano. Transporte, trabalho, saneamento, esgotos, hospitais, escolas, logradouros, lazer, etc.. Pluralidade de ideias, de estilos de vida, de culturas, de etnias e línguas. Incompreensão e intolerância marcam o comportamento urbano. A maioria apresenta um cenário desfocado, que nenhuma ditadura, subordinação, ordenação regulamentar, lei, consegue controlar. Construir uma nova ordem a partir da cidade, com políticas públicas razoáveis, igualitárias, é o sonho do administrador eleito. As responsabilidades sobre o governo, porém, estão com os habitantes, levando-se em conta as complexas relações sociais, uma rede desprotegida, desamparada, desarmada e exposta à violência em toda parte. Consagração completa da ruptura humana.
 
Instalam-se na periferia ou nos bairros mais pobres, as regras caóticas que dominam os centros urbanos. É impossível resistir à lógica da cidade, onde dominam critérios e racionalidades inspiradas em negócios, competição, disputa e dominação. A cidade não é o lugar onde prevalece o desejo claro de se receber o sustento e alcançar qualidade de vida coletiva. É só observar as diferenças entre os núcleos habitacionais populares, a elitização da moradia dentro da geografia urbana, e os lugares preferidos, shopping centers e “thematical parks”. 
 
Carências, provações, também são temas que acompanham esta cultura. Nas periferias das cidades e metrópoles milhões conhecem os mesmos sofrimentos, as mesmas doenças, as mesmas desigualdades. Cooptados pela propaganda que incita à ganância, ao consumo, as classes bem-postas fecham os olhos para os desgraçados, financiadas pelo sistema bancário, na “indústria da felicidade aparente”, e seus inúmeros postos de venda. Não importa se o dinheiro é imundo, o sistema financeiro manipula-o para seus fins. 
 
A rede de atendimento aos “famintos de felicidade” tornou-se um negócio rendoso, e os usuários, para mantê-la, exigem mais exploração dos que já são super-explorados. Os jovens são mantidos em excitação permanente. Ecstasy, Viagra e “fast-food” são sinalizações orientadoras. Alguma coisa semelhante a uma imensa jaula onde se prende e se controla a fé através da ganância, templos gigantescos propõem as possibilidades de um grande mercado, uma grande produção de fieis à mercê de personalidades midiáticas também disponíveis no melhor lugar das salas evangélicas e católicas. 
 
Os valores da vida são fluidos e dispersivos. A luta, a competição, o esforço pela supremacia, porém, são sólidos e constantes, citando Sigmunt Baumann. Cada dia é um verdadeiro calvário, na busca de altos níveis e qualidades aceitáveis para os que habitam nossas cidades, incluindo moradias, locais “próximos de tudo”. Que tudo é esse? O problema maior, no entanto, são os valores veiculados em substituição aos tradicionais, sobre amor, solidariedade, compaixão e cuidado com o outro.
 
Ideias voyeuristas expõem o ser humano como mercadoria barata, afirmando isoladamente a falta de importância do mesmo. Vive-se uma cultura sitiada pelo dinheiro, segundo Jurandyr Freire. Todos ficam felizes em falar de moral, ciência, religião, política, esportes, amor, filhos, saúde, alimentação saudável, esteira rolante, eletrocardiograma, mamografia, ultrassom, próstata, colonoscopia, e mesmo assim, nas palavras de Woody Allen, chega o dia inevitável.
 
Um fantasma assombra quem vive na cidade calcada na confiança nas tecnologias que a “salvarão”. Repercussões do racionalismo instrumental. De um lado os gordos e bem alimentados, “joging” e academias de ginástica; os que procuram espaços públicos como formigas, gozando da escassa natureza; aqueles que absorvem doses cavalares de solidão, carentes de comunhão diante de “palm-tops” e “tablets”. Comem de tudo e em qualquer lugar, barris de pipocas, hambúrgueres de três andares. Nos aeroportos, nas ruas, no teatro e no cinema, nos templos… 
 
Entram nas farmácias procurando calmantes, medicamentos contra a tensão cotidiana, drogas que serão consumidas em pilhas de caixas. De outro lado o imenso contingente de pobres e carentes. Os famintos, alvos do nojo da cidade, os que comem lixo e sobras, pivetes, crackeiros, viciados, moradores de rua. Na periferia e favelas um contingente monumental, nem ousamos falar de suas carências.
 
Paradigma perfeito da torre de Babel, “portal dos deuses”, na tradução mais próxima da verdade linguística. Ultimamente, a religião gananciosa, pentecostal “soft”, carismática, pretende ocupar o lugar da torre símbolo da cidade. A cidade pentecostal é símbolo da desordem na linguagem; da ganância, do desespero da própria humanidade, que quer uma torre para projetos egoístas e individualistas, aos privilegiados que nela poderão subir, utilizando como escada ou elevadores os ombros e as costas dos outros.
 
O ser humano quer a divinização de si mesmo, nas maiores alturas, galgando os céus. Há uma premência de invadir a área do divino, um projeto de controle e dominação do mundo. Ter, acumular, consumir. Enquanto a Divindade é bajulada, é também pressionada para atender desejos egoístas e gananciosos. Por isso, para reintroduzir a linguagem do reinado de Deus, que é a da solidariedade, do amor, da dignidade, do cuidado, da misericórdia, e da compaixão (Gn 11.1-9: “E era toda a terra de uma mesma língua e de uma mesma fala”; At 2. 1-11: “… e numa só linguagem, ouvirmos falar das grandezas de Deus”), a cidade caótica e desordenada precisa de Pentecostes. E não do oportunismo midiático “pentecostal”. Mais que isso, precisa do Pai, do Filho e do Espírito Santo, juntos, de uma só vez, como anuncia o Evangelho.
 
Derval Dasilio

É pastor da Igreja Presbiteriana Unida do Brasil e autor do livro “O Dragão que Habita em Nós” (2010).

2012/05/15

Páscoa – Ascensão do Senhor – 7o.Domingo – Ano B (2012)

Filed under: Sem categoria — Derval Dasilio @ 20:23

7º. DOMINGO DA PÁSCOA (ASCENSÃO DO SENHOR) – ANO “B”

Atos 1,6-11-  Com os olhos fitos no céu viram a Ascensão do Senhor

Salmo 1 – O Senhor conhece o caminho dos que praticam a justiça

1João 5,9-13 – Testemunhamos a vida eterna

João 17,6-19 – “Não peço que os tires do mundo…”

O astronauta brasileiro foi elevado ao espaço através de uma viagem que teria custado cerca de 10 milhões de dólares aos cofres da nação. Depois, foi premiado com gorda aposentadoria precoce. Acompanhado de outros, o aeronauta sorridente se encantava com as estrelas, ao mesmo tempo em que, distante das realidades terrenas, via a terra “a partir do céu”. Não é a toa que, quando oramos, imaginamos Cristo elevado ao céu contemplando-nos “aqui em baixo”, e vai nos ajudar a chegar até lá em cima, de alguma maneira.

De certo modo, de acordo com a tecnologia espacial desenvolvida, muitos se imaginam como futuros astronautas celestiais que, um dia, percorrerão as distâncias em anos luz  que nos separariam do “céu” e chegarão a um lugar onde as Escrituras dizem que está o “Deus que habita  numa estrela flamejante como o brilho de milhões de lumens”. Pensam sobre a vida no além, como se fossem “doentes terminais”, maldizendo o presente. Então, sem alternativas, recorro a Fernando Pessoa, para falar do mistério: “Sempre que olho para as cousas / e penso no que os homens pensam delas,/ rio como um regato que soa fresco numa pedra./ Porque o único sentido oculto das cousas/ é elas não terem sentido oculto nenhum”.

Como se poderia calcular, como ferrenhos e desesperados religiosos, o fim dos tempos e classificar “quem poderá entrar no céu?” A opacidade do mundo de Deus; a impossibilidade de se enxergar a “luz divina onde Deus habita”; a falta de instrumentos para medir o tempo da eternidade, e a ausência de lentes oftálmicas que capacitem qualquer um de nós para tanto, são impedimentos definitivos? Não. A razão quer explicar a fé. Quando Anselmo, dos primeiros escolásticos medievais, estabelecia que a fé requer inteligência (fides quaerens intelectus), falava deste assunto, referia-se ao que a carta petrina apontava: “… estejais sempre preparados a todos que vos pedirem a razão da esperança que há em vós ”(1Pd 3,15).

Agora, a fé sem inteligência, crença em tudo que a tecnologia produz, é exigida para darmos como verdadeiros os argumentos cinzentos do racionalismo fundamentalista. A Billy Grahan Evangelistic Association, sediada em Minneapolis, que influencia significativamente os caminhos do imperialismo norte-americano, se acha capaz de medir o céu: “o Paraíso celestial mede 1.500 milhas quadradas”. Muçulmanos, cujas escrituras sagradas estão no Alcorão, que proíbe o uso do vinho aqui na terra, porém, garantiria tonéis do precioso produto vinícola no céu (Caxias do Sul fará parte desse paraíso?); que condena o adultério aqui, mas promete belas virgens em quantidade para quem chegar lá (Jardins das Delícias é o clássico da literatura islâmica sobre o céu… para os homens, porque não há um céu reservado às mulheres; porém, jovens mancebos também prestarão favores sexuais aos agraciados ). Aproximam-se dos cristãos? Dispensamos o céu erótico muçulmano? 

Mas não ficamos nisso, o anti-céu também existe; cristãos, muçulmanos, hindus, budistas, muçulmanos, jainistas e taoístas acreditam em algum tipo de inferno, se diz por aí. Dois cientistas do Departamento de Física Aplicada, na Universidade de Santiago de Compostela, garantem que o inferno tem a exata temperatura de 279º (centígrados), embora não se possa saber como fizeram a pesquisa local (Eduardo Galeano).

Nós, porém, seres cerebrais, exigentes de demonstrações de conhecimento empírico, em favor da fé inexplicável, embora tantas vezes mencionado no cotidiano de cada um, compreendemos debilmente a fé como a esperança acima do conhecimento. A fé não pensa num Cristo que transita de um espaço a outro, dentro do tempo, portanto sujeito às coordenadas dos caminhos para o céu, os quais “navegadores religiosos” conheceriam, quando calculam as trajetórias dos crentes a partir de púlpitos ou concílios teológicos doutrinários. Nos evangelhos, porém, Cristo, foi entronizado na esfera divina, com a Ascensão, além das estrelas, das galáxias. Além de todos os poderes deste mundo. Muito acima do cosmo e de todas as realidades espaciais e temporais, para além do mundo físico e suas possibilidades.

Necessitamos compreender melhor essas coisas. Uma linguagem de símbolos necessita de um cuidado semântico adequado. Cristo “subiu aos céus”, confessamos, e observaremos o plural celestial que as Escrituras apontam (Atos 1,6-11). Quando oramos, dizemos: “Pai nosso que estais nos céus”, conforme o plural evangélico. Um dos céus é a fé para a qual não existe tempo (kronos) ou um espaço presente desde o início dos tempos (telos), em Deus, que a epístola indica “habitar em uma luz inacessível” aos homens e mulheres desta terra (1Tm 6,16). Outro é o Reino dos Céus partilhado no mundo terreno (justiça, solidariedade, dignidade humana, direitos fundamentais para todos os povos e raças).

Uma bênção anônima:“Que aquele que ressurgiu dos mortos nos faça cada vez mais firmes na esperança de toda a criação. Que aquele que nos protege do alvorecer ao anoitecer, da aurora ao crepúsculo, desde o nascer até o morrer, nos abençoe e nos dê a paz que excede o entendimento opaco do nosso viver no céu. Que o conforto do alcance da plenitude nos permita ver além da compreensão turva da vida eterna, que sempre existiu, existe e existirá, e do céu que o Reinado de Deus alcança, e que nos dê coragem para enfrentar e vencer o que não compreendemos, mas havemos de experimentar, como já experimentaram os que viveram na fé, para todo o sempre. Amém” (Cf.Selah- Liturgias – Clai).

Derval Dasilio

2012/05/07

Páscoa – 6o. Domingo – Ano B (2012)

Filed under: Sem categoria — Derval Dasilio @ 9:37

6º. DOMINGO DA PÁSCOA – ANO “B”                                                
Atos 10,44-48 – E caiu o Espírito Santo sobre ele                            
Salmo 98 – Ele vem julgar a terra com amor                                 
1João 4,7-21 – Deus nos amou primeiro                                              
João 15,9-17 – Amai-vos assim como eu vos amei 

Ai dos que ao mal chamam bem, que fazem da escuridade luz, e da luz escuridade; põem o amargo por doce, e o doce por amargo (Is 5,20).

A última palavra sobre o amor, conforme a piedade cristã em vigor, poderia envolver considerações inspiradas nas novelas da TV? Ou filmes em cartaz: “Terapia do Amor”; ou nos romances rasteiros disponíveis nas bancas de revista: amor-cor-de-rosa, sensual, prazenteiro, edulcorado, se não é o amor platônico, “abstrato”, filosófico. Seria este o amor do qual João nos fala? Os valores prioritários que invocariam, antes, a possibilidade de amar a fidelidade, a autenticidade, a honestidade, a plenitude do amor, quem sabe. Em comparação com essas virtudes e considerações tradicionais, o que assistimos é uma grande inquietação sobre a “desordem amorosa” que tomou nosso tempo. “Quais são as prioridades do amor?”, perguntaremos insistentemente.

O amor sem igual, sem medida, concreto, relacional, “full contact”, de Jesus, tem alguma coisa a ver com as imagens sentimentais da linguagem cotidiana? Pode a cruz, símbolo de morte e sofrimento, ser um símbolo de amor? Na realidade, o amor extremo de Jesus é um desafio ainda maior que aquele apresentado na parábola: “ama a teu próximo como a ti mesmo…”. Por quê? Porque João vai além, acrescentando, quando escreve o que sai da boca de Jesus: “…amai-vos uns aos outros como eu vos amei”. Um manual de regras sobre a prática do amor poderia muito bem ser pregado numa cruz, e estaria bem posto, e escrito na capa: “Cruz – Mandamento do Amor”.

A cruz pode ser também a medida do ódio, da inveja e do orgulho, de emoções que transformam as pessoas. “Até os animais sentiriam isso”, explicaria o Dalai Lama, mestre budista, sobre a natureza bruta dos seres: “Enquanto a fé cristã luta por extinguir o pecado, o budismo quer suprimir o sofrimento causado por tais sentimentos”, seguramente sob um duvidoso acordo semântico, poderia ser visto aqui. No entanto, para os cristãos, a história da cruz, escrita com o sangue dos mártires, chega até à nossa miséria profunda, nossa ignorância, denunciando a incapacidade de compreendê-la como expressão do esvaziamento (do poder) de Deus em Cristo, por puro amor à justiça.

A cruz de Cristo está fincada entre inumeráveis cruzes enfileiradas junto aos caminhos dos torturados e torturadores (cf. Comissão da Verdade; projeto Brasil: Nunca Mais; O Pastor dos Torturados), violentados e violentadores, como diria Jürgen Moltmann. Do Circo Romano à Prisão Tiradentes, Carandiru, Serra Pelada, Curumbiara, Eldorado dos Carajás, Catedral da Candelária, o amor revelado na cruz mostra-nos Jesus Cristo como o companheiro de sofrimento de todos os oprimidos e abandonados, massacrados, torturados e violentados deste mundo.

O amor é também juiz das consciências, do mesmo modo que é juiz dos algozes, e dos que torturam e matam os que amam a causa de Deus. O Cristo intencionalmente violentado, torturado, crucificado por amor, lembrar-nos-á, como se fazia na antiguidade – e nos apóia a história do Brasil imperial ou recente, e do autoritarismo das tiranias: Tiradentes esquartejado; insurgentes como Paulo Wright, Anivaldo Padilha, Dilma Rousseff, Eliana Rolemberg – tal qual a demonstração pública dos cadáveres dos mártires, com intenção intimidadora.

Estêvão, Tiago, Pedro, Paulo, e quantos mais?, também sofreriam o martírio pela causa de Deus. A ressurreição, como nos lembramos, também em todas as Páscoas, é parte significativa do amor que julga e faz ressuscitar: os mortos voltam à vida na primavera, como as flores ressurgem depois do frio inverno. A questão está sob o juízo de Deus. A justiça de Deus vinga os torturados, os violentados, trazendo à tona o testemunho dos que foram mortos por causa da justiça. São a semente (sperma) de um mundo transformado. Os torturados e assassinados pelos poderes deste mundo têm no Cristo ressuscitado o símbolo desse amor pela justiça, a exemplo do insurgente rev. Jaime Wright (Pastor dos Torturados, O, Derval Dasilio, em preparo)*. A solidariedade de Deus estava no Cristo morto, crucificado, trazido à ressurreição para toda a eternidade, para que todos possam ressuscitar e gozar da justiça de Deus.

Trata-se de um amor libertador, o de Cristo, e ele o leva ao extremo, porque visa a libertação de homens e mulheres das injunções estruturais, poderes opressores (políticos, econômicos, religiosos), sistemas de pensar que “eternizam” a injustiça e desviam seus direitos fundamentais para  fins de dominação e servidão: “Eu vos ordeno: amai-vos [’agapâte]  uns aos outros”.  Há um mandamento que requer obediência, e o amor filial de Jesus, por fidelidade, leva-o a cumprir e exigir obediência ao imperativo divino, ao mesmo tempo (E. Brunner, Divine Imperative).

Este amor escrito com o apoio de verbos dinâmicos, exige a práxis, está provado. Não cuida somente das nossas relações cotidianas. Ultrapassa em muito o trivial. Não há mística ou abstração que possa esconder a prática do imperativo de Jesus, pois o amor não se refere aqui a uma “felicidade” amorosa que se busca em boa vizinhança, ou na estabilidade familiar ou  conjugal. Não se trata aqui de “amor à virtude”, e sim de colocar-se em prontidão para a ação concreta no campo do amor justo e misericordioso, como é o amor de Jesus Cristo, nosso Senhor. O escravo (doulos) do amor serve à justiça de Deus, acima de tudo. Deus é amor, disse João. O evangelista nos lembra para amar-nos uns aos outros com o amor sem medida de Jesus. Não há amor maior que este. Amor que liberta, destrava, deslancha cada um de nós para o exercício da liberdade, estrutural e sistematicamente. [Nota: Um paradoxo, o texto joanino. Sua síntese poderia levar-nos à idéia mestra de que nada existe mais “escravizante” que o amor, seja para quem dá ou para quem o recebe. Podemos imaginar um precedente em Isaías 5, que coloca a ação concreta no campo do amor justo e ao mesmo tempo misericordioso de Yahweh (ahavah = amor que palpita no peito de cada um); que o fruto esperado seria a prática da justiça para o exercício dos direitos fundamentais do homem e da mulher, igualitariamente, sem considerar ódios raciais, preconceitos religiosos e classificações sociais, sob o ethos principialista que organiza a justiça. Isaías aponta o amor que julga: “Ai dos que ao mal chamam bem, que fazem da escuridade luz, e da luz escuridade; põem o amargo por doce, e o doce por amargo ” (Is 5,20). ]

Derval Dasilio

Em memória do rev. Jaime Wright (1927- 1999)*

Ver comentário abaixo

2012/04/30

Páscoa – 5o. Domingo – Ano B (2012)

Filed under: Sem categoria — Derval Dasilio @ 10:17

PÁSCOA – 5º DOMINGO – ANO “B” (2012)

Atos 8,26-40 – Como crer, se não são claras, mas díspares, as mensagens de salvação?

Salmo 22,25-31 – Que sejam um, para que o mundo creia cf.Jo 17,21

João 15,1-8 –  Eu sou a videira verdadeira, permanecei em mim

Esses textos cabem na forma lembrada na Semana de Oração pela Unidade dos Cristãos, certamente. As igrejas ecumênicas terão celebrações em todos os dias, na semana do último domingo da Páscoa, antes de Pentecostes. O amor de Jesus pelo seu povo, traduzido em união, comunhão e sintonia com sua causa, caracteriza a unidade cristã. A Semana de Oração pela Unidade é um tempo de crescimento na fé, na fraternidade, na comunhão e na transformação, das pessoas e da sociedade, como experiência concreta de comunhão entre diferentes denominações cristãs. Uma oportunidade não só para a oração comum e para a oração pela unidade em cada igreja, mas também para buscar e acolher mais irmãos e irmãs para que se juntem na caminhada ecumênica pela unidade da Igreja de Cristo. Esta, neste momento, infelizmente, polarizada, fragmentada, invadida pela discordância de princípios e de finalidades nas tarefas a serem cumpridas.

Em sua persistente missão de acolher e partilhar, organismos ecumênicos conseguiram tecer uma consistente rede de parceria social entre igrejas, conselhos e organizações ecumênicas. Jesus, agora, em favor da unidade, denomina-se a si mesmo como “a verdadeira videira”. Só ele é capaz de produzir os frutos que Deus espera (direitos fundamentais, justiça social, julgamento das desigualdades); só nele uma comunidade pode realizar o que o Pai anseia, que é o cumprimento da missão do Reino. Ele se apresenta como a única alternativa para a realização do direito e da justiça para o pobre e o oprimido. Nesse sentido ele é verdadeiro, autêntico e fiel: ele é a verdadeira videira.

Sem a comunidade (ramos), o projeto do Pai arrisca-se à esterilidade. No início da primavera – o tempo da Páscoa na geografia bíblica –, o viticultor seleciona os melhores ramos. Podam-se e eliminam-se os galhos que não serão produtivos (Jo 15,1-8). É a “poda seca”, quando os ramos secaram. Algum tempo depois, quando os novos ramos já se desenvolveram razoavelmente, a ponto de mostrar os cachos ainda pequenos, procede-se à poda verde, eliminando os brotos que não apresentam frutos. É importante lembrar que sem a poda a videira torna-se estéril e acaba morrendo. Podar, portanto, não é fazer a videira sofrer perdas, algo semelhante a um castigo ou punição. Nem mesmo tem o sentido de “limpar”, “purificar”, a videira, e sim de dar condições para a produção em abundância. Uma poda não é uma provação, e sim a graça do renovo pretendido. A poda é um cuidado indispensável, porque sem ela a videira morre. A poda é uma ‘denúncia’ sobre depauperação e contaminação, parasitismo e doenças, impedimentos de frutificação. Não nos indivíduos, mas na comunidade.

Jesus é a videira, mas os frutos da justiça e da dignidade reconhecida brotam das comunidades que a ele aderiram, delas nascem dos ramos. É aqui que a consciência sobre a sociedade da qual fazem parte, buscando justiça social, política, jurídica, para a coletividade inteira. Especialmente numa nação que prima pelas desigualdades (90 milhões, nas periferias das metrópoles, moram em situações precárias quanto à segurança policial, saúde, transporte, saneamento básico, trabalho, escola…; o Brasil é uma nação contaminada pela corrupção política e um judiciário suspeito de favorecer elites econômicas e de virar as costas aos direitos das classes populares).

Fala-se do risco de esterilidade das comunidades cristãs, por excesso de ramos improdutivos.  Não basta estar simplesmente unido a Jesus para sempre, como se diz, é preciso demonstrar a unidade, produzindo a esperança e buscando a colheita de um mundo novo possível. Mais ainda: quem não produz frutos de justiça, de sabedoria e dignidade humana não poderá afirmar que está unido a Jesus, como ramo sadio da videira. Representam os ramos secos (poda seca) e os ramos improdutivos (poda verde), que merecem ficar à parte da missão. Quem permanece em Jesus produz muito fruto; o que não permanece nele é jogado fora para secar e ser queimado. Em outras palavras, quem não se entrega à missão do Reino de Deus; quem não luta pelo direito e não se esforça pela justiça incorre no julgamento (poda), como aconteceu com a videira descrita em Isaías (Is 5,7).

Por isso orar pela unidade reflete um tempo de crescimento na fé, na fraternidade para a transformação do mundo mergulhado na economia de acumulação, no egoísmo que se explica nas desigualdades, na exploração dos mais fracos e no esquecimento dos direitos fundamentais das pessoas e das comunidades. Como experiência concreta de comunhão entre diferentes denominações cristãs. Renovando nossas consciências, estaremos unidos, somos um no amor de Jesus: “Disse Jesus, eu sou a videira, vós sois os ramos… permanecei em mim”. É esse o sentido que interessa à Igreja de Cristo. A única alternativa para a autenticidade é a produção dos frutos esperados pelo Agricultor que plantou a videira. “Conheceis a árvore pelos frutos”, diz o Evangelho. E Jesus também reclama dos discípulos a unidade com Deus, que ele representa quando ora: “Pai, que eles sejam um, como eu e tu somos um”… “para que o mundo creia” no evangelho do Reino de Deus, na salvação e na libertação que alcance povos e raças na totalidade do mundo. Esperamos a salvação que vem de Deus, que se concretize nos sistemas construidos pelas sociedades humanas: política, economia, religião e justiça jurídica. A esperança está em Jesus, contra toda desesperança e desespero. Nele está a salvação para um mundo novo possível, sob o reinado de Deus.

Derval Dasilio

(NOTAS EXEGÉTICAS – Ler comentários, abaixo)

2012/04/23

PÁSCOA – 4º DOMINGO – ANO “B” (2012)

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4º. DOMINGO DA PÁSCOA – ANO “B”

Atos 4,5-12 – Da obediência cega que não pergunta

Salmo 23 –  O meu pastor nada deixa faltar

1João 3,16-24 –  Aprender com o amor de Deus

João 10,11-18 –  O Bom Pastor ‘dá vida’ às suas ovelhas

Não podemos pronunciar a palavra “pastor” sem que a memória histórica, ou o imaginário coletivo, nos obrigue a evocar os rostos patriarcais de Abraão, Isaac e Jacó, primeiros pais da nossa fé. Precisamos de condutores que nos transportem em segurança pelos caminhos do tempo e da vida de fé. Dois paralelos se apresentam, para os nossos dias: um de vida calma para o pastor, respeitando-se o cotidiano, outro de incertezas, no rareamento alimentar, no discipulado da fé. Num plano estão as dificuldades. O pastor é tudo para suas ovelhas. É guia, companheiro de destino, garantia de sobrevivência.  Noutro se denuncia a “lobos de uma ‘malta’ voraz”, pastores politiqueiros, ladrões do erário, interesseiros, manipuladores, abusivos e equivalentes. Apropriam-se dos descuidados, desinteressados, omissos, como aponta Ezequiel: “Ai dos pastores de Israel que se apascentam a si mesmos! À ovelha fraca não fortalecestes, à doente não curastes, não aplicastes curativos nas suas feridas, não buscastes as desgarradas, não procurastes as perdidas e oprimistes as que resistiam ao teu comando” (cf. Ez 34,2-4: TEB, BJ, TLH).

O evangelho aponta o que Jesus significa para as suas ovelhas (Jo 10,11-18): pastor modelo (ego eimi poiemen), uma imagem compacta de segurança diante de uma realidade concreta. Não se trata de uma abstração, ou mera representação poética. Estamos diante de fatos concretos. Sobretudo quando o evangelista lembra: “Ele é o pastor a caráter, agente do bem, capaz de dar a vida por suas ovelhas”. As evocações da tradição, quando compreendemos o que significa a frase “dar a vida por…”, não nos permitem pensar no suicídio de uma liderança que se coloca como vítima exemplar, heróica, enquanto o rebanho é devorado pelos lobos. Mas, se exigirá sacrifícios e enfrentamentos dolorosos, com exigência de se correr risco de vida lutando contra feras que ameaçam o rebanho para defendê-lo e protegê-lo. Clarear a imagem de Jesus, o pastor de Deus, é uma exigência para os discípulos de todos os tempos, o rebanho de Deus e cada pastor.

Pastores recentes, modelos evangélicos na vitrine religiosa, instruídos sob configurações confusas de marketing religioso, preferem explorar o campo da superstição religiosa às últimas consequências, simbologias rituais, orações de poder – cuja origem é situada no paganismo helênico desenvolvido no cristianismo medieval. Não levam em conta os sentidos que a literatura bíblica sapiencial, ou pré-cristã, confere à recompensa, retribuição divina ao crente fiel. Eles não compreendem o sentido bíblico da retribuição (paqad), vida próspera para alguém que preza a hospitalidade e solidariedade; recompensa para quem recebe o necessitado em sua casa (gamal), abrigando-o, dando-lhe lugar para dormir e mesa para se alimentar.

Lembrariam aquele que questiona o legalismo escriturístico na  Tanah (Bíblia Hebraica); o culto religioso sem o sentido verdadeiro de aproximação do Pai, em liturgia emocional e intimista; o orientador espiritual que impõe o distanciamento “pentecostalista” (shekinah); o pastor que despreza o homem ético que se indigna contra a injustiça e denuncia a falsa moral, o desprezo à compaixão ou omissão da solidariedade?  Abusos não acontecem da noite para o dia. No mais das vezes são consentidos. O pastor abusivo acredita que Deus o usa para mandar recados à sua congregação, passa a ser uma referência na vida da pessoa. O fiel, por sua vez, sente uma grande gratidão por aquele que o ajudou a mudar sua vida para melhor (cf. escândalo financeiro na Maranata). O pastor está gostando de mandar na vida dos outros, terreno amplo de abuso religioso. Enquanto isso “profetisa” contra o homossexualismo, pedofilia e pecados sexuais dos outros, convocando os fieis a uma vida de “pureza e santificação” das quais não dá exemplo.

Ninguém manda nele. Ele quer abençoar o indivíduo porque largou as drogas, ou parou de beber, ou parou de bater na mulher, ou porque canseguiu comprar um carro, uma casa, ou arrumou um emprego. O crente, então, começa a lhe dar presentes, enquanto deposita polpudas ofertas no gazofilácio. Se for um grande empresário, ele dá um carro importado para o pastor. E o pastor usa a bíblia fundamentalista para legitimar essas práticas (Marília de Camargo).

As igrejas novas evangélicas que estão surgindo pregam a religião da prosperidade às avessas, sem hospitalidade, compaixão, e sem solidariedade. Estão retomando a figura do “ungido de Deus”, e dela se apossando. Como a figura do profeta, do sacerdote, que existia no Antigo Testamento. No Novo Testamento, Jesus Cristo é o único mediador, mas o pastor dessas igrejas mais novas está se tornando um mediador indispensável (Ed René Kivitz). Em vez de ensinar a desenvolver a espiritualidade da solidariedade, da compaixão, o pastor determina se aquele homem ou aquela mulher é a pessoa de sua vida. Mas você não se meta na dele… ele pode trocar de mulher  como troca de igreja quando lhe dá na telha. Os exemplos estão bem próximos.

O texto, em contraponto ao abuso evangélico cultivado e consentido, mantém duas expressões fortes, cada uma com sua importância, por vez: – Jesus é categórico e incisivo quando diz que “dá a vida por…”, e que também “dá vida às suas ovelhas”.  E a igreja, redil do rebanho de Deus, deve ser o lugar da proteção, não dos abusos, da espoliação, do engodo ou do aliciamento às causas da opressão moralista de falsa-santificação e falsa-purificação. Sem tirar nem por. Há diferenças marcantes para a hermenêutica de fato bíblica (Jo 10,10-11;17).

A salvação do crente está em Jesus, aquele que “dá a sua vida” voluntariamente, sem exigir retribuição. Jesus entrega-se à causa de Deus enfrentando o legalismo protetor dos lobos, pastores políticos; confrontando-se com os abusos pastorais; rejeição ou indiferença às propostas de justiça e paz. Em foco está o reinado do Pai. Na compaixão e misericórdia, e não nos sacrifícios do altar. Jesus morre para a salvação de todos. Sua relação com as ovelhas é real, pessoal, presencial, situacional, íntima. Ele “conhece” as suas ovelhas. Essa relação também representa o que o Pai significa para todos nós. Ele, Jesus, faz tudo isso como executor fiel das tarefas designadas pelo Pai. Sua relação pessoal com as ovelhas equivale às relações que todos temos com Deus.

Derval Dasilio

Livro recente: O Dragão Que Habita Em Nós (Metanoia, 2010)

2012/04/18

PÁSCOA – 3º DOMINGO – ANO “B” (2012)

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3º DOMINGO DA PÁSCOA – ANO “B”
Atos 3,10-19 – Arrependei-vos, sejam cancelados os vossos pecados
Salmo 4 – O Senhor distingue o piedoso do justo
Lucas 24,36b-48 – O ressurreto está no meio de nós!
 
Estamos falando de um testemunho valente e corajoso sobre as transformações possíveis das pessoas e das comunidades ressuscitadas. Na cultura do conformismo à morte há estruturas feudais ainda vigorando nos tempos modernos, aristocracias econômicas e elites acentuando profundas desigualdades. Numa mesma sociedade, profundos contrastes são vistos a olho nu. Há sistemas de pensar de dominação, recalcitrantes, persistentes, que exigem adaptação, submissão, como se fossem definitivos, irrefutáveis em si mesmos, sem opção para os que ficam à margem. Há o cultivo de privilégios racistas, classistas, sexuais, funcionalistas.

Há politicagem e corrupção incorporadas à cultura nacional, regional ou local. Há a domesticação exercida pela mídia, para o consumismo e o desperdício de recursos. Há a religião de mercado que vende a “graça barata” como quinquilharias  em cada esquina. Há religiosos que enriquecem e perseguem homossexuais enquanto roubam dos fiéis e da nação. Há pais que educam para que crianças e jovens sejam receptores e transmissores dessas culturas. Os homens e as comunidades de amanhã, que se buscam, os progressos na história, observados em cada cultura, apenas denunciam que o novo ainda está por nascer.  
 
A solidariedade de Cristo com os que sofrem nos situa diante de duas realidades, nua e cruamente (E.Gestenberg/W.Schrage): os assassinatos, os sequestros, a privação da liberdade de ir e vir (morar num prédio sitiado pela violência urbana, p.exemplo); o “bulling” nas escolas, mesmo naquelas onde as crianças são vigiadas por câmeras até nos banheiros; pessoas homossexuais espancadas e assassinadas nas ruas, simplesmente por serem o que são; os assaltos constantes nas mercearias e nos sinais fechados, ou nos portões de garagem; as milícias paramilitares substituindo o crime organizado, escorchando as populações faveladas; a fome e o desemprego; a escola de periferia onde professores são agredidos por alunos armados; os hospitais abarrotados de doentes nos corredores, e os que morrem nas ruas, recusados pelos mesmos hospitais…

A segunda realidade, exposta no evangelho, é a da solidariedade de Deus com o sofredor e a sofredora, apontando a ressurreição possível, novos homens e mulheres, a vitória sobre os poderes da morte, através de Jesus: que exorciza o mal, cura os doentes de todos os males, perdoa os pecados, reconcilia com a verdade – apontando as realidades sociais ocultadas pelas autoridades –; que alivia as dores e enxuga as lágrimas dos que sofrem. Jesus agradeceu ao Pai (eucaristein). Não pelo sofrimento comprometido nas lutas por redenção, que virão escatologicamente, mas através da solidariedade com os discípulos na grande causa do Reino de Deus.

Em Jesus podemos reconhecer, como diria Whitehead, “o grande companheiro, camarada no sofrimento que compreende”. A cruz simboliza a compaixão daquele que sofre junto. A ceia de Emaús traz os significados da solidariedade de Deus contra toda impotência, acusações injustas; violações da dignidade, de direitos; cerceamento da liberdade. Homens e mulheres sofrem, por imposição dos poderes da morte. “Bem-aventurados os que choram… os perseguidos, por causa da justiça… eis que eu estou com vocês… coragem, eu venci o mundo”. Disse Jesus.

A Ceia de Emaús tem agora o sentido do anúncio escatológico no futuro, enquanto o presente o realiza na comunhão universal (koinonia), reconhecido o Senhor, agora: “fica conosco”… Ela, a eucaristia e o partir do pão, a Ceia do Senhor, é o sinal do mundo novo, os poderes deste mundo não têm ingerência sobre ela (Von Allmen). Ao contrário, há uma substituição de relações. O fraternal, comunitário, equalitário, são dominados pelo novo espírito relacional, norteado pelo Espírito do Ressuscitado. O acumulativo de riqueza, de força e de poder, gerador das desigualdades, cede lugar à partilha e ao compartilhar das mesmas lutas e oportunidades. A solidariedade é a chave hermenêutica desse fato eucarístico de suma importância no Segundo Testamento. E o Senhor é reconhecido no partir do pão: “ele está no meio de nós”.

E aqui cuidaremos de não confundir a bondade, a generosidade dos que detém poder político, religioso, econômico, oferecendo pão e circo, bolsa família e copa do mundo em 1914 (“a esmola vicia, ou envergonha o cidadão” – Luis Gonzaga). Já não se pode abordar este assunto para interpretá-la no sentido alegórico ou moral, ou segundo o esquema de uma evolução cultural, um céu abstrato de promessa e de cumprimento das promessas no além, distante das realidades histórico-salvíficas concretas (Ernst Käsemann). A afirmação, de fato, é esta: celebrar a Ceia do Senhor é realizar concretamente, aqui, a “fraternidade do partir do pão”. Sem esquecer as “ervas amargas” da escravidão (Ex 12,8). A gratuidade divina nos lembrará disso tudo. “O ressurreto está no meio de nós, foi reconhecido no partir do pão” (Lc 24,36b–48).

Desse gesto de partilha nasce o mundo novo, começa a nova história; desse gesto novas relações entre homens e mulheres se iniciam, superam-se as desigualdades, as mútuas opressões dos ódios e das intolerâncias; desse gesto virá o combate à indignidade  enquanto se reafirmam os direitos humanos, em toda parte. Neste texto de Lucas a partilha começa com os primeiros e os últimos espectadores da ressurreição. O crucificado é também o que reparte o pão. Com Jesus, podemos dizer: “nunca o Pai esteve tão perto de nós, tão unido conosco na cruz do Senhor e nas cruzes que carregamos” (Queiruga). Convém insistir, porque o sofrimento é a terrível marca de nossa finitude, da exclusão e da negação da vida. O lugar dos desamparados. Porém, a palavra da “ressurreição” transborda na renovação da vida.

2012/04/11

PÁSCOA – 2º DOMINGO – ANO “B” (2012)

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2º DOMINGO DA PÁSCOA  – ANO “B” (2012)
Atos 4,32-35 – Com grande poder, davam testemunho da ressurreição
Salmo 133 – Como é gostoso que os irmãos vivam em união!
1João 1; 1-2; 2,1-6  – Ele oferece o perdão dos pecados do mundo inteiro
João 20,19-31 – Eu creio, Senhor e Deus meu!

A ressurreição é um acontecimento único, como um processo que inicia uma consciência envolvente de emoções íntimas sobre a misericórdia de Deus (miserere + cordis), começa com o perdão dos pecados  e termina com lágrimas enxugadas, em sua totalidade: Cumpriu-se o que Isaías dissera sobre o servo sofredor, sobre quem “repousaria o pecado de toda a nação de Israel”: “Mas ele foi traspassado pelas nossas transgressões e moído pelas nossas iniqüidades; o castigo que nos traz a paz estava sobre ele, e pelas suas pisaduras fomos sarados” (Is 53:5). Redenção plural, e não individual.

E o profeta do Apocalipse completará: “Ele enxugará de seus olhos toda lágrima; e não haverá mais morte, nem haverá mais pranto, nem lamento, nem dor…” (Ap 21:4). Eis os extremos da solidariedade. Inverte-se a concepção fundamentalista ou ortoxa sobre a “satisfação” de Deus no sofrimento do Cristo. Deus sofre como e com o homem. A justificação na cruz deixa de ser um ato de poder para ser um ato solidário de entrega. Cristo é  o Deus fraco, esvaziado de poder, para solidarizar-se com a fraqueza de todo homem e de toda mulher. Deus “sofre e morre”, como todos os viventes. Eis o paradoxo da infinitude.

Para que Cristo morreu? Para que Cristo ressuscitou? O que  se oculta   na morte e na ressurreição de Cristo, como e quando será revelado? As respostas devem ser colocadas dentro de um espaço  escatológico aberto. Pensar escatologicamente significa pensar um assunto até o fim, esgotando-se todas as possibilidades (J.Moltmann). Os sofrimentos de Cristo mostram-nos Deus humano e solidário: é Deus que está conosco! Deus caminha e sofre conosco. Enquanto isso, indagaremos sobre a história dos sofrimentos e sobre a ressurreição de Cristo. Da história de Cristo resultam horizontes interessantes para homens e mulheres, como alvo e como sentido para a vida: a fé justificadora; o domínio sobre “mortos” e “vivos”; a superação da morte enquanto inauguração do novo possível; da nova criação; da novidade de vida para tudo que morre; da glorificação de Deus por meio de um mundo que conheça e experimente a redenção de toda a criação.

Nem sempre a morte foi um tabu na história da humanidade. A consciência de quem está mais próximo da natureza, diferentemente das pessoas de nossos dias, envolvidas e absorvidas nas tecnologias instrumentais, permitiam ao ser humano sentir-se parte desse conjunto. A morte era aceita como parte da existência (Evaldo D’Assunção). Distanciando-se da natureza e ignorando-se os ciclos vitais naturais, a morte tornou-se um terror. Passamos a ignorar a impermanência, e com ela a finitude. Freud foi capaz de afirmar que, talvez por isso, nunca pensamos na nossa própria morte. Ou melhor, passamos a negar aquilo que se constitui na mais importante pedagogia da vida, observando a morte e suas consequências.

Há medo entre as pessoas, e na comunidade, depois da morte de Jesus (Jo 20,19-31). Como o povo israelita no deserto, e antes disso, na forte perseguição que o faraó egípcio lhe movera (Ex 14,10). Vulnerável, insegura, indefesa, sentem impotência sob ameaças de sempre. Correspondendo a uma diminuição, ou corte das funções vitais, como até mesmo as culturas da antiguidade concebiam, estar doente, ser deficiente, é estar próximo da morte. E a morte é irreversível. Maria Madalena, sem dúvida, não aliviara os discípulos, eles ainda sentiam temor. A notícia do sepulcro vazio  não era bastante…

A “ausência” de Jesus, diante das hostilidades aguardadas,  atemorizavam os discípulos. A causa corria o risco do fracasso. Imperava o fatalismo ou a consciência de finitude de todas as coisas na morte?  A morte é o inimigo da vida, em todos os momentos da existência. Lançado no mundo, o ser humano deve ter consciência dessas realidades, que o acompanham dentro da existência. “A própria finitude vem à consciência como iminência da própria morte”, como quer Wolfhart Pannemberg: Heidegger encontrou o conceito acertado: “o homem é um ser-para-a-morte”, em sentido genuíno. “Não temos a experiência da morte dos outros”. No máximo, estamos apenas ‘juntos’ com os outros. A morte ocorre no interior do mundo e será lembrada pelos que permanecem vivos. Nada mais importante que afirmar a ressurreição, portanto, e a reconciliação com a vida. Oferta do Senhor Jesus Cristo na cruz.

A missão da comunidade, da igreja sobrevivente, não será outra coisa senão a de anunciar o perdão dos pecados para afirmar a vida em reconciliação para todos os seres humanos, salvar da morte, e pôr fim  a todas as formas de opressão e culpa, originadas em cada omissão, cada desprezo pelo outra e pela outra, cada ofensa, cada mentira, cada fraude, cada sinal de morte nas relações pessoais. Tanto quanto na marginalização, na exclusão, na opressão, em nível social. Porque não há pecados individuais sem a participação das estruturas de poder que a própria sociedade humana sustenta.
 
O efeito do encontro com Jesus é a alegria. A festa da Páscoa, festa de todas as ressurreições possíveis (Páscoa é pessah = passagem). O “exterminador”(mashit), o agente da morte, passará ao largo. A alegria já começou, a festa  da vida, da nova criação, do novo ser humano, festa de libertação, teve início. Este Cristo que se dá oferece também o exemplo de sua vida ressurreta. A Páscoa renovada, festa de libertação, prossegue. Jesus saúda os discípulos e discípulas, devolve-lhes a paz perdida: eles e elas não estão entregues à própria sorte, ao sabor do acaso. O fato concreto da presença do Senhor é constatado nas marcas da paixão e da morte (Jesus é preso, torturado, crucificado e morto pelos próprios irmãos, seu povo). Estes sinais de amor, de entrega, de obediência a Deus, são agora visíveis. Jesus venceu a morte, está vivo diante dos olhos de todos. As marcas da cruz, contudo, não foram apagadas.

Atenção, pois. Há um sinal de alerta: o sofrimento pela causa de Deus faz sentido, porque a ressurreição acontecerá, sempre, na obediência até a morte (“sê fiel até a morte, e dar-te-ei por coroa a vida” – Ap 2,10b). O ressurreto, porém, não quer a “satisfação”, nem quer vingança. O medo da morte, aqui, não pode mais afligir os discípulos. A prova cabal da vitória de Deus sobre o império da morte está diante deles, que têm agora como testemunhar a ressurreição, em todos os níveis e em todos os lugares. O Senhor saiu das sepulturas, ressurgiu do mortos. É inútil querer conservá-lo ali (Elben César). Em Jesus Cristo realizou-se a humanidade de Deus, em completa solidariedade com o sofrimento dos homens e das mulheres. Jesus viveu solidariamente a morte de todos os seres viventes, e ressuscitou para que tudo e todos pudessem também ressuscitar.

Derval Dasilio

2012/04/01

Páscoa – Domingo da Ressurreição do Senhor – Ano B (2012)

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DOMINGO DA PÁSCOA – RESSURREIÇÃO DO SENHOR – ANO “B”

Isaías 25,6-9 – Cântico à memória dos explorados e massacrados
Atos 10,34-43 – Testemunhas da ressurreição, escolhidas por Deus
João 20,1-18 – O ato de fé na ressurreição é maior que toda dúvida

Como falar de ressurreição, ou de vida para além da morte, em todos os sentidos? Certamente, destacando o corpo torturado e a ressurreição do Senhor Jesus Cristo, inaugurador da nova humanidade e sua vitória sobre a morte. A morte dos mártires de todos os tempos visa a ressurreição. Porém, nenhum deles foi mais importante para a humanidade que Jesus Cristo. Por isso, a obra do artista plástico Guido Rocha é tão reveladora (cf.foto), servindo aos relatórios de Jaime Wright na denúncia da tortura sob o regime militar, desde o Golpe de 1964. Podemos interpretar o pensamento religioso que ainda prevalece nos dias hoje, até nas pessoas mais simples: “o espírito é tudo, o corpo não vale nada; o espírito valoriza o corpo e a matéria degrada o espírito”. A depreciação do corpo prossegue. Equivocadamente! Para diminuir a discussão, precisamos lembrar-nos de que o modelo antropológico dualista (espírito separado do corpo) tem suas raízes numa cultura alheia ao povo bíblico.

Não sabendo acolher a vida biológica como dom divino, um dado natural na existência dos seres comuns, cuja mortalidade constitui-se na multiplicação da vida (…se o grão não morre, não produz frutos! – Jo 12,30-33 ), na incerteza traiçoeira que produz angústia e terror pela vida mortal, a compreensão judaico-cristã tornou a morte um castigo como consequência do pecado. E não erra no sentido. A destruição da vida identifica a ênfase de nosso tempo em diluir as referências da verdadeira estabilidade social, afirmativa de vida plena para todos. Reivindicando vida somente para alguns, na experiência do absurdo e do vazio, os pecados estruturais se destacam, confirmando a definição profética e escriturística para o pecado da humanidade incrustado no corpo do homem.

Sem o corpo não se pode explorar o ser humano! É o corpo da pessoa que é explorado como mercadoria, seja no BBB, na prostituição adulta ou infantil, na utilização de “guris” no tráfico de drogas. Tanto como na mercantilização do trabalho como no esporte de massas, o corpo dos atletas. O corpo está sempre nas agências da alegria  artificial, nas linha de montagem de máquinas exploradoras, no credicard e consumo da felicidade à venda oferecida em toda parte. O corpo é matéria, é carne, e o evangelista João acentuará: “A Palavra se fez carne (greg. logos; hebr. davar)”, e habitou no mundo como corpo, e não como “templo”, porque o Templo (religião) estava a serviço da opressão política desde o modo tributário de Salomão, o “rei sábio”, (cf. Jo 1,2ss; 2Cr 8,1-8). É impossível dissociar o corpo de outras opressões, desde a homofobia, a sexualidade reprimida, a xenofobia, o sexismo, ao direito de viver e de ir e vir em qualquer situação ou lugar.

Pra mim / Basta um dia, / Não mais que um dia, / Um meio dia, / Me dá só um dia, / E eu faço desatar / A minha fantasia ./ Só um  belo dia / Pois se jura, se esconjura, / Se ama e se tortura, se tritura, se atura e se cura (o corpo) / A dor na orgia, / Da luz do dia / É só o que eu pedia. / Um dia pra aplacar minha agonia, / Toda a sangria, / Todo o veneno de um pequeno dia (Chico Buarque). Pois a ressurreição é também uma forma de crítica radical a um mundo de ausências que precisa ser transformado, de todas as maneiras. O custo é o sofrimento das lutas libertárias. Ausências de reconciliação, de compaixão, de solidariedade, de fraternidade verdadeira.

Corpos que são castigados pela tortura, pela prisão, pelo exílio, fome, morte pelo descuido nas políticas públicas (saúde e escola pública, esgotos a céu aberto; criminalidade urbana, impunidade de figurões da política), sob controle de poderes mortais, forças bem visíveis atuam nas realidades humanas. Na memória de Zulu, Zumbí dos Palmares, Tiradentes, Calabar, sabe-se que sem o corpo não se pode torturar ninguém, nem aprisionar, nem exilar, nem matar de fome e de doença socializada, ou qualquer outro assassinato do corpo (Günther Wolf). Para sufocar a liberdade é preciso envenenar ideologicamente, torturar, esquartejar, carbonizar os corpos na inquisição. Sumir com corpos como o do presbítero Paulo Stuart Wright e o líder da UNE Ivan Motta Dias, depois de torturados, entre tantos outros, sob a ditadura resultante do golpe de 1964, no Brasil.

No Mártir, o Cristo Ressuscitado, Deus cria um novo mundo: “eis que faço novas todas as coisas” (Ap 21,5). A fé na ressurreição, por si mesma, é uma “ressurreição” do corpo na força da vida (J.Moltmann). Os horizontes humanos se ampliam, a esperança de uma nova criação se instala com a fé na ressurreição. Deus se revela sobre a impotência, no esvaziamento de quaisquer forças sobrenaturais (kénosis), na cruz e no sofrimento solidário, especialmente. Deus assume a condição humana exemplarmente, o corpo humano por inteiro, no sofrimento até a morte. Mas ressuscitou. Em Cristo, homens e mulheres experimentam também a ressurreição do corpo.

O centro da fé cristã é a ressurreição do corpo, da alma, do espírito, dias após dia. O NT faria implodir a crença posterior da supremacia do espírito (nous), se assim fosse lembrado. Ressurreição é libertação da morte do corpo, mas não em primeiro lugar. Esta centralidade da ressurreição em todo o ser proporciona uma descoberta de renovo, de vida nova, de transformações das coisas submissas ao domínio da morte. O corpo exprime a liberdade contra as opressões e exploração dos corpos das pessoas, porque é visível, concreto, participante das realidades do mundo onde se encontra.

Derval Dasilio


2012/03/26

DOMINGO DE RAMOS E DA PAIXÃO – Ano “B” (2012)

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DOMINGO DE RAMOS E DA PAIXÃO – ANO “B” (2012)
João 12,12-16 – “Bendito o que vem em nome do Senhor!”.
Salmo 118,1-2; 19-29 – “Entrarei pelas portas da justiça, esta é a porta do Senhor”.

Os cristãos estarão, neste domingo de Ramos, caminhando ao lado de Jesus? As implicações dessa caminhada envolvem o compromisso de levar a sério nossa adesão à causa de Jesus Cristo. Acompanhar Jesus em sua última jornada no caminho da cruz, enquanto Ele entra na cidade de Jerusalém aclamado como o rei que traz o shalom (paz) de Deus, implica em levar a sério as realidades que corroem o mundo e clamam pela paz. Não somente paz espiritual, pessoal, íntima. Que paz? Como falar de paz num tempo caracterizado pela violência em múltiplas impressões? Paz diante das violências do mundo inteiro. Na mesma semana do plebiscito de Pilatos: “Cristo ou Barrabás”, esse mesmo povo absolveu o criminoso e condenou o proponente da Paz.

Que significados têm o discurso da Paz, segundo o evangelho de Jesus, frente à multidão de homens e mulheres que vêm ao encontro de um rei sem poder político? Lemos os jornais, falam de conflitos no Oriente Médio, guerra ao terrorismo, Afeganistão, Iraque, Irã, Israel, EUA, Inglaterra, França, enfim, mais de cinquenta pontos conflituosos no mundo inteiro. As imagens que os meios de comunicação oferecem mostram os campos de batalha sangrentos exigindo atenção e os parlamentos internacionais debatendo o mesmo ponto: paz.

Esta perícope é antecedida por outras informações importantes (João 12,12-16), levando-se em conta que o capítulo é heterogêneo: a ressurreição física de Lázaro é relatada, uma excelente lembrança de que há várias ressurreições possíveis; Lázaro ressuscitou para viver o resto de sua vida, e certamente morreria, biologicamente, como todos os viventes que declinam seus dias. Pontua-se, diante de uma mulher, Marta, que a compaixão e a amizade são valores que acompanham uma “ressurreição”: “Jesus lhe diz: eu sou a ressurreição e a vida, quem crê em mim, ‘ainda que morra’, viverá; e, quem vive e crê em mim, ‘viverá para sempre’. Crês nisso?” Essa ressurreição, portanto, é anunciada antecipadamente. Difere da ressurreição do Senhor, no domingo da Páscoa. Lázaro tinha se transformado numa atração, em razão disso, perigo à vista para Jesus. O poder da morte domina o mundo, e toda ou qualquer ressurreição é indesejável. A tradição sobre o destino inevitável, o fatalismo, a rendição ao domínio da morte, é ferida em sua essência.

“Pesadelo” é o nome da canção que nos acompanha desde os tempos da repressão na ditadura militar, tanto quanto o “Matthäus Passion”, oratório de Johannes Sebastian Bach, profundo e transcendente, com destaque para o mote recorrente tão conhecido: “Oh, Fronte Ensanguentada”… e a cruz dos mártires. Desde o autoritarismo militar dos “anos de chumbo”, perseguidos pelos apoiadores do Golpe de 1964, nós ouvíamos o quarteto MP4, que fazia a sua parte. Estavamos também embalados  pela Paixão do Cristo crucificado, identificado  nos mártires sob os poderes violentos deste mundo:

“Quando o muro separa uma ponte une./ Se a vingança encara o remorso pune./ Você vem me agarra, alguém vem me solta./ Você vai na marra, ela um dia volta./ E se a força é tua, ela um dia é nossa./ Olha o muro, olha a ponte,/ olha o dia de ontem chegando…/ Que medo você tem de nós,/ olha aí!/Você corta um verso, eu escrevo outro;/ você me prende vivo, eu escapo morto./ De repente, olha eu de novo /perturbando a paz, exigindo o troco,/ vamos por aí, eu e meu cachorro./ Olha o verso, olha o outro;/ olha o velho… olha o moço… chegando./ Que medo você tem de nós:/ olha aí!” (Paulo César Pinheiro/Maurício Tapajós).

Mas João também dá um caráter transcendente ao “messianismo” de Jesus. Não é imposto pelo poder das armas, nem é acompanhado de decisões político-partidárias. Jesus faz um discurso decisivo em torno de sua proposta, o Reino. A palavra shalom é o eixo desse pronunciamento. Quais são os sentidos da Paz, segundo Jesus? Trata-se de uma nova visão da vida. Um mundo novo estará amanhecendo. Gandhi, Bonhoeffer, Niemöler, Paul Shneidder, Nelson Mandela, Luther King Jr., monsenhor Romero, Paulo Stuart Wright, Chico Mendes, Irmã Dorothy, mártires da Paz e da Fé, entenderam esse sentido: perdão e reconciliação entre povos e nações; libertação do poder de todos os pecados, inclusive dos pecados estruturais do nosso tempo; reconciliação dos que não têm a mesma tradição religiosa; nova vida no serviço da justiça de Deus; direito de herdar e gozar bem-estar num mundo transformado pela misericórdia; participação de um novo mundo sob  o empenho apaixonado da causa de Deus.

Atos de crueldade que costuram a história sangrenta vivida por muitos povos agregam destruição sistemática de bens culturais, o  coração e a alma dos povos e das etnias. O que significa a Paz, no âmbito do reinado de Deus? No campo doméstico não é menor o impacto da violência das armas, perturbando-nos permanentemente. Todos os dias observamos as notícias mais recentes sobre o crime organizado, combate ao tráfico de drogas, inocentes assassinados no meio das ruas, ontem, hoje… são 15 mil mortes violentas por ano, só no Brasil. O amanhã é pré-definido, só teremos que confirmar o estado de guerra permanente nos grandes centros urbanos vendo o noticiário. Enquanto se espera por dignidade da pessoa humana, nos setores mais corriqueiros da vida,  necessita-se de pão para quem tem fome; morada para quem não têm teto; educação para quem não têm escola;  saúde para quem não têm hospitais; trabalho para os alijados na  sociedade moderna.

Pode ser que a solidariedade com o mártir do Reino, como ocorreu com seus seguidores, imediatamente ao seu martírio, nos obrigue a abandonar postulados religiosos acomodatícios, fatalistas, quietistas; talvez nos force a romper com ideologias e dogmas políticos, para cantarmos com sinceridade o cântico das multidões: Hosanas! Bendito aquele que vem em nome do Senhor. E não o clamor popular na frustração política: crucifica-o!

O evangelho de João é mais sóbrio que os outros na narrativa que gera a Festa de Ramos na igreja cristã. Os entornos são mais importantes: trata-se de afirmar o poder de Jesus sobre a morte em todas as suas manifestações. Porém, a recepção não passará em branco. Um peregrino famoso poderia ter igual tratamento, mas a entrada de Jesus faz a diferença: Jesus é recebido como um rei messiânico. Um rei capaz de libertar o povo da opressão política de um império esmagador. O que se espera dele é a salvação para os males de uma sociedade inteira, alcança os problemas sociais enquanto atinge definições políticas sobre a vida nacional sem deixar de lado o problema da religião adaptada e conformada com a repressão, subserviente ao sistema sócio-econômico. Uma religião que aceita o papel de pára-choque cultural retira o Cristo de Deus do seu papel; ignora o texto de acolhida popular do Libertador, no Domingo de Ramos, e introduz no lugar a aclamação do projeto de morte dos poderes deste mundo. Jamais dirá: Hosanas, bendito aquele que vem em nome do Senhor!

Derval Dasilio

Pastor da Igreja Presbiterana Unida do Brasil (IPU)

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