Teologia & Liturgia e Culto Cristão

2012/01/30

Omissão – 5o. Domingo do Tempo Comum – (depois da Epifania)

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5o.DOMINGO DO TEMPO COMUM – ANO “B”

Isaías 40,21-31 – Deus é fiel, apesar de tudo
Salmo 147, 1-11;20c – O Senhor sempre amparará o pobre    

1Coríntios 9,16-23 –  Lutar contra a ganância, é preciso

Marcos 1,29-39 – Jesus cura, salva e liberta o ser inteiro

Não se pode falar do sofrimento e da origem do mal sem tocar na jóia literária que é o livro de Jó.  O que é o mal, um problema metafísico? O mal é uma constante da vida humana? Uma reflexão sapiencial sobre problemas insolúveis, mistérios insondáveis que a Bíblia Hebraica reconhece, o eterno problema do mal? Pecados estruturais denunciam-no. Um problema da “teodicéia”, como reflexão filosófica que se esforça por demonstrar a existência de Deus, não é suficiente. Mas a questão tem outro enfoque, na teologia do apóstolo Paulo. Se temos avançado, no plano tecnológico, científico, falta-nos a sabedoria fundamental para ver, ouvir, falar com clareza do mal que nos cerca.

O mal não é uma abstração. Na sociedade perversa, violenta; na economia que produz riqueza para poucos, nas desigualdades, quando se distribuem os bens sociais em migalhas para um contingente populacional gigantesco. A maior parte dos brasileiros. Vemos, ouvimos e falamos corretamente da realidade concreta do sofrimento?

A palavra de Cristo situa os cristãos entre realidades conflitantes, excludentes à primeira vista. Um mundo de desigualdades gritantes, assassinatos, exploração ou abandono de doentes, violência contra moradores de rua, doenças sexuais ou doenças sazonais, fome, desemprego; um mundo onde falta habitação, saúde pública, escola, hospitais, em contraste com o outro, perverso, estrábico, prospero e egoísta. Um chora de sofrimento, outro dá gargalhadas no gozo do que há de melhor. A palavra de Jesus, no entanto, é para os sofredores: “Bem-aventurados os que choram”; “No mundo terás aflições; coragem, porém, eu venci o mundo”.  Ele nos convida a verificar, examinando com atenção a intensidade e o agravamento do sofrimento humano nos dias de hoje.

Como no Salmo 73,  o mesmo enfoque de Jó, a experiência de Deus nos leva à sinceridade e honestidade sobre nossas visões do mundo (Paulo Rückert), deveríamos ser capazes de enfrentar a inveja e a ganância que nos sobrevêm ao observarmos o  sofrimento do fraco e o sucesso dos “perversos”: eles têm riqueza, bem-estar garantido nos níveis que implicam em saúde, previdência social, escolaridade em todos os graus, habitação e lazer. Os perversos têm tudo, e suscitam inveja, enquanto desfrutam a vida como se estivessem em férias de verão permanentes: praia, suor e cerveja…

A prática da cura, a luta contra o mal, nas ações de Jesus, tem a ver diretamente com a liberação do ser inteiro para a vida plena (Mc 1,29-39). Não há divisões, dicotomias, ambivalências, duplicidades, no intento de Jesus em curar alguém. Os evangelhos jamais falam que Jesus salvava almas separadas do corpo (ou dos corpos…), em favor do espírito das pessoas. Recuperar a saúde de alguém é recuperar o corpo, a capacidade de trabalhar, de produzir, de alcançar dignidade, possibilitando-se a reintegração social do doente, geralmente considerado um peso para a sociedade. Curar é salvar e libertar.

Mas o comum, ao tempo dos apóstolos, e de Jesus, era que os enfermos fossem considerados “possuídos por maus espíritos”. Os alijados, excluídos, não se atreviam a aproximar-se, o mesmo ocorria com os membros “sãos” da sociedade, também não olhavam os desgraçados e doentes. Jesus  contrariava as regras, dispunha-se a servir os mais fracos com dedicação e cuidado, para curá-los.

Ser cristão, entre muitas coisas, é também lutar contra o mal, seja o que origina a desigualdade e exclusão, seja o que impõe a marginalização social, dividindo as pessoas em indivíduos de primeira, segunda e terceira classes. Num mundo que experimenta indicadores escabrosos de miséria, enfermidades endêmicas e  fome, anunciar o Reino de Deus é uma tarefa de suma importância. A omissão é intolerável.

Não há luz sobre 13 bolsões de miséria escondidos, no país; 600 municípios, sem urbanização, hospitais, escolas; 20 milhões de pessoas vivendo sob todas as fomes do mundo…  municípios carecem dos mínimos recursos modernos, como eletricidade, água potável, esgotos sanitários, escolas razoáveis; pessoas cujas rendas diárias per capita média não ultrapassa 2 reais. Nas periferias das cidades e metrópoles 90 milhões conhecem o mesmo sofrimento, as mesmas doenças, as mesmas desigualdades. O palco não foi desmontado.

Torna-se importantíssimo reagir às teologias salvacionistas que “espiritualizam” a pobreza e a miséria, e a teologia da ganância que explora a pobreza com falsas bem-aventuranças (Maria Lucia de A.Gama). Elas são motivo de sofrimento para muitos, milhões de brasileiros. Repetem-se as atitudes dos adversários de Jesus, omissão intencional, que recusavam-se a ver o pecado estrutural da sociedade, gerador de insanidades, desigualdades, violências, enfermidades de toda ordem. Tentavam impedi-lo de salvar e libertar, quando estava demonstrando que na pessoa doente estavam cristalizados todo os males deste mundo. Especialmente aqueles que vêm da má consciência sobre os  verdadeiros e concretos problemas humanos, quando se negam suas origens e responsabilidades. 

2012/01/25

COMO PILATOS… 4o. Domingo do Tempo Comum (depois da Epifania)

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4o.Domingo do Tempo Comum (Depois da Epifania) – Ano  “B”
                                                                                                                                      

Deuteronômio 18,15-20 – A Lei é  dádiva  em nome  da misericórdia de Deus                                                                          
Salmo 111 –  As obras do Senhor são a verdade e a justiça                                                                                                                 
1Coríntios 8,1-13 – “…pecam golpeando a consciência fraca dos irmãos”                                                                                              
Marcos 1,21-28 – “Que temos contigo, Jesus Nazareno”?

 ”A droga é como o pecado de Adão, sempre existiu”; “a ONU declarava guerra à droga estimulada pelo moralismo religioso dos EUA…” “Guerra à droga?, a paz com usuários é que deve ser buscada”, diz o sociólogo Fernando Henrique Cardoso (Documentário: Quebrando o Tabu). Toda guerra favorece à indústria da morte. Envolve interesses econômicos e oportunismo políticos. Matar, anular, castrar, reprimir, excluir, dessocializar, é o nome da guerra à droga. Quem lucra são os traficantes, o crime organizado e a polícia corrupta que não sobrevivem sem a droga. Quem não pensa nas consequências sobre a família, a comunidade, a sociedade,  a coletividade, necessita saber da “pacificação”  diante das drogas, e não da guerra. Paz com as drogas significa compaixão, inclusão, aceitação, cuidado, misericórdia. Doentes precisam de tratamento e não de cadeia, onde a droga é liberada e consumida à luz do dia (Dráuzio Varella). Hospitais, ambulatórios, medicina da saúde, são direitos humanos que devem ser buscados.

A capacidade de discernir cada situação particular foi uma das coisas que as multidões mais admiravam em Jesus (Mc 1,21-28). Enquanto os mestres da religião respondiam com explicações detalhadas, exaustivas, citando códigos, leis, regulamentos, preceitos e doutrinas, Jesus respondia com a verdade simples e cristalina. Estava interessado em cada situação particular do ser humano, especialmente aquelas referentes ao tolhimento da liberdade e negação de direitos fundamentais. O tormento moralista no controle das consciências impedia, como ainda impede, a espontaneidade da fé enquanto esconde a compaixão e a misericórdia. O interesse moralista não encobre a  ideologia do poder, do controle político ou religioso das massas. Muitos movimentos e grupos religiosos mostram interesse pelo indivíduo enquanto servem como prosélitos de causas materialistas, mercadológicas, sem fraternidade (filia), sem comunhão (koinonia) e sem serviço ao próximo (diaconia). Jesus declarou-se abertamente contra  a idolatria da letra morta, ou seja: a lei moralista; manifestou-se contra o sábado (“… o homem não foi feito para o sábado”; ninguém foi feito para a lei!) e exigências que ignoram o ser humano e suas necessidades; pronunciou-se contra os costumes, prescrições que engessam a misericórdia, o cuidado, o serviço ao próximo. Enfim, Jesus se prontificava a combater a religião sem misericórdia e solidariedade, porque esta omitia o essencial: o homem e suas carências.

Diante da repressão e violência inaceitáveis contra pessoas doentes ou drogadas, em dez anos Portugal reduziu drasticamente o consumo de drogas tratando o usuário de como paciente tratamento médico e não como criminoso (52% deixam a droga). Enquanto isso reduzia o campo de atuação do traficante. A saúde pública incluía substitutivos da droga clandestina nos receituários de pacientes usuários de drogas; busca a aproximação espontânea do doente, não a repulsa e a repressão; dizia não aos riscos da clandestinidade, fazia o papel da medicina regular, que se abre ao que quer ser tratado. Ou seja, a maioria dos usuários.

Para o Evangelho, o endereço   poderia ser o despoderado (anawin), encurvado, dobrado pelas circunstâncias, humilhado pela própria vida, na Bíblia Hebraica, e no Novo Testamento (ptochos), são os ignorados e desprezados pela própria sociedade. Como o usuário de drogas. A sociedade religiosa é a primeira a excluí-lo e  identificá-lo como pecador e eximir-se de culpa pela injustiça que sofre. Ou seja, a compaixão escapa aos regimentos e declarações doutrinais. Devemos nos surpreender  com isso, uma vez que a sociedade, biblicamente, é casa, lar, oikos, como a igreja. O socium é o companheiro, um irmão de grupo numa mesma sociedade eclesiástica. Essas duas realidades fundamentais de todos os seres humanos encontram o sofredor  no usuário de drogas, no deficiente, no portador de HIV, no oprimido pelas enfermidades físicas ou sociais (tabagismo, alcoolismo, drogadismo, sexoaholismo, etc.), no meio e junto ao grupo maior responsável pelo todo, ou  à coletividade humana.

O seguimento de Jesus envolve a Salvação, antes que qualquer condenação humana, como é comum nos nossos dias. Seguir a Jesus é um exercício constante de humildade. “Propôs Jesus esta parábola a uns que confiavam em si mesmos, como se fossem justos, e desprezavam os outros: Subiram dois homens ao templo para orar: – um fariseu, e outro um popular. O fariseu orava de pé (com suposta autoridade), e dizia assim: Graças te dou, ó meu Deus, por não ser como os outros homens, que são ladrões, injustos, adúlteros (e drogados, tabagistas, alcoolistas…). E não ser também (moralmente) como um homem comum. Eu, por mim, (religioso convicto) jejuo duas vezes por semana e pago o dízimo de tudo quanto possuo. Apartado a um canto, o popular nem sequer ousava erguer os olhos para o céu; batia no peito, e exclamava: Meus Deus, tem piedade de mim, pecador. Digo, acrescentou Jesus, que este voltou justificado para sua casa, e o outro não, porque todo aquele que se exalta será humilhado, e todo aquele que se humilha será exaltado.” (Lucas, 18:9-14).

Precisamente por isso, Jesus luta contra os demônios que dominam a consciência social (sistemas de pensar: da religião, da política, da economia, da cultura, da justiça civil). Lutou contra as ideologias instaladas nas sinagogas, no Templo e na sociedade. Jesus não se identificou com propósitos religiosos moralista no combate às doenças socializadas; não aprovou oportunistas, exploradores da credulidade popular, invadidos por “espíritos imundos”. “Hipócritas”, “túmulos caiados”, “tira primeiro a trave do teu olho, antes de julgares”, são imprecações de Jesus dirigido aos condutores da sociedade civil ou religosa. O povo simples se encantava com a ousadia de Jesus expondo à luz do dia a ideologia religiosa reinante, a mesma que sustenta pessoas e grupos nos dias de hoje, propondo regras com ênfase moralista.

Como dizia alguém, talvez Oscar Wilde, “o moralismo é o último refúgio de um canalha”, exatamente porque é suficientemente abrangente para deixar todas as patifarias, corrupções, protegidas, ao abrigo de um suposto interesse coletivo por justiça  ou transparência. O político evangélico é ardoroso, contra a inclusão homossexual; usa a camisa preta contra a pedofilia, na campanha, e é pego pelo Ministério Público roubando do erário sem qualquer pudor, mas permanece impune. O mais inexpugnável dos inimigos da justiça é o falso moralista, o oportunista de quaisquer matizes, ideológico, partidário, intelectual, político, religioso. Em todos os moralistas existe a voracidade insaciável e destruidora de uma “aids social”, de um “câncer dos costumes” (Wagner Siqueira) , como se diz da droga.

Que faremos, para seguir Jesus? Ouviremos suas propostas, ou ouviremos os encantadores de multidões com o brilho grosseiro das ideologias de poder, do moralismo e outras modas que vão e voltam nas comunidades eclesiásticas? Prefere-se aplacar a consciência religiosa do pecado, do mal, que o vício representa? Faz-se uma declaração sobre o assunto, regulamentando a condenação e exclusão da vítima, e acredita-se cumprido o papel eclesiástico diante da   sociedade civil? Essa é a religião de Pilatos… Aliás, é lavando as mãos que Pilatos entra no Credo das igrejas cristãs. O caráter normativo do Evangelho há de nos lembrar: o Reino de Deus está diante nós. Aos perseguidos, discriminados, pobres, desfavorecidos, desgraçados e enganados deste mundo, o Reino é anunciado… e “bem-aventurado é aquele que não se escandalizar com a minha causa” (Lc 7,23). Aqui, nesta passagem, se expressa o centro vital da mensagem de Jesus.

É esse o sentido que Jesus dará à sua hermenêutica fundamental: preservar a vida, a dignidade das pessoas, a intimidade e liberdade de cada ser humano. Traduzidos na observação dos direitos humanos fundamentais. Isso significa que Jesus sabia das palavras de Jeremias: “(…) cada um levará a Lei  no coração”. Ou seja, terá consciência da justiça. A Lei não é uma obrigação, mas uma dádiva orientadora para todo o povo. Envolve o uso da terra, da moradia, do trabalho, da responsabilidade social para com os oprimidos e esmagados deste mundo.

Derval Dasilio

Pastor da Igreja Presbiteriana Unida do Brasil

2012/01/17

CONVERSÕES – 3o. Domingo do Tempo Comum [depois da Epifania]

Filed under: Sem categoria — Derval Dasilio @ 14:11

CONVERSÕES – 3º Domingo do Tempo Comum – Ano B  
Jonas 3, 1-5.10 – Os ninivitas converteram-se a contra-gosto do profeta                  
Salmo 62,5-11 – Minha alma espera em silêncio            
1Coríntios 7, 29-31 – As coisas passam, neste mundo        
Marcos 1,14-20 – Convertei-vos e crede no Evangelho! 

A conversão consiste em mudar de religião ou simplesmente adotar a causa de Jesus? O conceito de conversão necessita também alguma reformulação entre os próprios cristãos. O evangelho de hoje é, por assim dizer, “o primeiro sermão de Jesus”. Marcos o coloca ao início de seu evangelho como um manifesto programático. Possui todos os elementos centrais do que vem a ser a pregação  de Jesus. Todo o evangelho põe em relevo a importância central do Reino de Deus na missão de Jesus (“buscai em primeiro lugar o Reino”; a proposta de Deus para transformar o mundo e seus pensares religiosos, políticos, econômicos…). O Reino não é mais um elemento, mas o centro da pregação de Jesus. Se não se entende isto, não se entende, nem se entende o que é ser cristão e discípulo de Jesus. Ser religioso não representa garantia alguma, pois a própria religião à qual pertenciam Jesus e os Apóstolos recusou e julgou-o.

Jonas 3, 1-5.10 – Esta leitura do livro do profeta Jonas (história contada com datação provável no III séc. a.C.; trata-se de um livro “rebelde”, entre outros, ao judaísmo formativo e suas ênfase racistas, legalistas, e ênfase numa eleição exclusivista), prepara a leitura do evangelho de Marcos, que será centro do lecionário ao longo de todos os domingos do tempo comum depois da Epifania. Como Jesus, Jonas também é enviado por Deus a proclamar sua salvação, a chamar todos os povos e raças à conversão. Que conversão? Certamente ao projeto de Deus para toda a humanidade. Recordemos que os escritores bíblicos não sabiam dos povos distantes do Oriente (Índia, China, etc.), nem sabiam dos povos do Continente australiano ou americano.

Como Jesus, Jonas também experimenta a fragilidade humana (Mateus 4), a tentação de fugir, de não carregar o peso da vontade de Deus que se lhe oferece. Finalmente Jonas vai à cidade pagã de Nínive, a grande capital do império assírio, 700 anos antes de Cristo, e proclama, como Jesus, mais tarde, a vinda salvadora de Deus, ante a qual não resta outra atitude que a de converter-se à vontade de Deus (e não à lei, como querem muitos evangélicos e judeus, simultaneamente).

Jonas é uma denúncia contra todo nacionalismo, centralismo, fundamentalismo, anti-ecumenismo, integrismo, racismo, exclusivismo religioso que pretenda excluir a qualquer ser humano da Graça amorosa de Deus Pai. O pequeno livro de Jonas foi escrito numa época difícil para o povo judeu, quando se sentia a tentação de fecharem-se privilégios religiosos, considerando-os como escolhidos exclusivos. Ao retornarem do exílio, e já reorganizando a nação em torno de uma religião dura, implacável, com ênfase no legalismo religioso. Ali nasceu o fundamentalismo bíblico-religioso ressuscitado recentemente entre evangélicos e católicos, por isso cristãos, para afirmarem o falso exclusivismo, numa hermenêutica da eleição do povo bíblico exclusivamente como tal, adotam a exclusão social, leis racistas, homo e heterofóbicas, interna  e externamente.

Também sofreram a tentação de condenarem todos os demais povos, os quais não partilhavam de sua cultura, de sua fé religiosa e de sua história. Através de Jonas, Deus está dizendo aos judeus que sua salvação há de ser partilhada com todas as nações, inclusive com as nações opressoras, como fora a nação dos assírios. Lição de universalismo, de máxima tolerância, de ecumenismo e de abertura amorosa aos braços de Deus.  A religião exclui, mas Deus deseja acolher todos os seres humanos em sua casa (Jesus disse: “Na casa de meu pai há muitas moradas…”). Algo tão válido em nossos tempos de exclusivismos e fundamentalismos, como nos velhos tempos do Antigo Testamento.

Marcos 1, 14-20 – Depois de narrar o início do evangelho com João Batista batizando a Jesus, com a unção messiânica de Jesus no rio Jordão e com suas tentações no deserto, Marcos relata o início da atividade pública de Jesus: é o humilde carpinteiro de Nazaré que agora percorre sua região, a próspera, mas mal falada Galiléia, pregando nas aldeias e cidades, nas encruzilhadas do caminho, nas sinagogas e nas praças. Sua voz chega a quem quer ouvi-lo, sem exigir nada em troca. Uma voz clara e vibrante como a dos antigos profetas. Marcos resume todo o conteúdo da pregação de Jesus nestes dois momentos: o reinado de Deus começou – pois terminou o prazo de sua espera; perante o reinado de Deus só cabe converter-se à causa de Jesus, o Reino de Deus, acolher e aceitá-lo com fé.

De que rei falava agora Jesus? Daquele anunciado pelos profetas e esperado com ânsias pelos justos. Um rei divino que garantiria a justiça e o direito aos pobres e aos humildes, e excluiria de sua vista os violentos e opressores. Um rei universal que anularia as fronteiras entre os povos e faria confluir a seu monte santo, Sião, a todas as nações, inclusive as mais bárbaras e sanguinárias, para instaurar no mundo uma era de paz e fraternidade, só comparável à era paradisíaca relatada no gênesis.

Este reinado de Deus que Jesus anunciava há 2.000 anos pela Galiléia continua sendo a esperança, de todos os pobres e oprimidos da terra, e está em andamento desde que Jesus o proclamara. Os que o seguem anunciando seus discípulos, os que Ele chamou em seu seguimento para confiar-lhes a tarefa de “pescar”, trazendo às redes do Reino os seres humanos de boa vontade. É o reino que a Igreja deveria proclamar (mas ela reverte a ordem: de coadjuvante quer ser protagonista do Reino, como autoridade religiosa, em equívoco histórico escabroso e inaceitável teologicamente). A tarefa pertence  aos cristãos do mundo se empenham em preparar o Reino de mil maneiras, reflexos da vontade amorosa de Deus: curando os enfermos, dando pão aos famintos, acalmando a sede dos sedentos, ensinando aos que não sabem, perdoando aos ofensores e acolhendo-os na mesa fraterna da comunhão; denunciando com palavras e atitudes os violentos, opressores e injustos. A nós corresponde, como Jonas, Paulo, retomar as bandeiras do reinado de Deus e anunciá-lo em nosso tempo [Gravura: Cerezo Barredo].

Derval Dasilio

Pastor da Igreja Presbiteriana Unida do Brasil

Calendário Litúrgico – Ano B

2012/01/10

VOCAÇÕES – 2º Domingo do Tempo Comum – Ano B

Filed under: Sem categoria — Derval Dasilio @ 12:35

2º Domingo do Tempo Comum – Ano B
1Samuel 3,1-20 –  Tu me chamaste, eis-me aqui…
Salmo 139,1-6;13-18 – Senhor, tu me sondas e me conheces
1Coríntios 7,29-31 –  Sois o “templo” de Cristo.
João 1,43-51 – A quem buscais? Venham, vejam.

Nos dias atuais nossas relações estão cheias de interferências, ruídos perturbadores que afetam a voz interior vocacional. A capacidade de escutar o que Deus quer nos dizer é frequentemente perturbada por outros sons, como as guitarras e as baterias da música gospel (um flagelo que vai tomando conta do culto evangélico), o apelo carismático que aponta “dons” ministeriais bem estranhos às tradições do cuidado com a formação teológica para o culto, o ensino e a pregação. O preparo bíblico nos seminários parece andar capengando, a julgar pela visão teológica de alguns, perdida no fascínio por modismos carismáticos ou apologéticas fundamentalistas, que refletem o ajustamento à mediocridade teológica que vem tomando conta de nossas comunidades.

Jovens que passam o tempo ouvindo mp3, iPod, cativos da “cultura gospel”, hoje, diferem muito do que era um jovem “presbiteriano”, “anglicano”, “metodista” ou “batista”, de duas décadas atrás. A maioria jovem pluralista evangelical, hoje, sabe o nome das “divas” do gospel recente (Ana Paula Valadão é a pastora mais admirada por jovens evangélicos, mas perde o primeiro lugar para o midiático Silas Malafaia); cita de cor o nome das bandas gospel, mas não sabe quantos livros tem a Bíblia; quantos e quais são os livros dos profetas; o que é a Torá judaica no AT ou a que parte da literatura bíblica está vinculado o livro dos Salmos. Menos ainda, personagens evangélicos decisivos como John Wesley, Cranmer, Calvino, John Knox e Lutero (Tomaz Münzer seria pedir demais…), não representam nada nesse ambiente novo da juventude evangélica.

A vida dos mais pobres – devíamos dizer dos “sem-cidadania” – não tem nenhum valor. Não contam para a sociedade, que cada vez mais se parece com as do mundo chamado desenvolvido. A massa de pivetes, crackeiros, traficantes de cocaína, vê nos ricos  apenas consumidores de drogas, e “trabalham” pra valer para atendê-los. Formam-se vocações para assaltantes, estupradores, assassinos gratuitos, à margem e ao mesmo tempo dentro da sociedade que dela parece depender. Chico Buarque ironiza o comportamento desses “agentes do consumo”:  “Quando, seu moço /nasceu meu rebento / não era o momento / dele rebentar / já foi nascendo / com cara de fome / e eu não tinha nem nome / pra lhe dar”. Conheço o caso concreto da jovem rica do Leblon, com nome de celebridade, cujos pais vivem a maior parte do tempo na Europa gastando eurodólares, que conhece todos os pontos de venda de droga do Vidigal, e dos inferninhos da zona sul, no Rio.

Um mundo agonizante, como diria Hannah Arendt, criado pelo desvario quanto ao sentido da vida, onde a insensatez é constantemente renovada. Chocante, no Brasil, não é tanto a truculência das agressões noticiadas ao lado dos casos de milionários jogadores de futebol que não sabem o que fazer da vida, enquanto alugam patentes militares como segurança ou quebra-galhos nos seus frequentes deslizes. Chocante é a ausência de indignação com tudo isso. A tragédia da salvação individual gera desconforto com os problemas do trânsito, onde mortes violentas são cometidas diariamente por membros das classes bem-postas, mas desconhece bolsões de fome, miséria e doença, nas metrópoles e no interior do país (cf.vídeo).

O ideal da “boa vida” oferecida aos jovens paralisa-os num estado de ansiedade permanente, responsável, em grande parte, pela incapacidade que têm de olhar para outra coisa que não a si mesmos (já começou o Big Brother/2012 com transmissão 24 hs/dia no canal Multishow). A rede de atendimento aos “famintos de felicidade” tornou-se um negócio rendoso, e os usuários, para mantê-la, exigem mais exploração dos que já são super-explorados. Ecstasy, viagra e fast-food são símbolos da excitação permanente em que se mantém os jovens (Dasílio, Pedagogia da Ganância, em preparo).

É expressiva a multidão de “especialistas” em felicidade sexual, amorosa e química que, em coro, propagam e reforçam na mídia o mito da salvação individual, num Brasil moderno, informatizado, liberalizado eticamente e com todos os problemas resolvidos, de antemão, pelas leis do mercado. Há receitas e locais de aviamento para quem quiser. Notória, a cultura narcísica no Brasil, “acha” o país o melhor do mundo: nosso futebol, nossas praias lindas; nosso cachorro é o mais manso, nosso gato tem o pelo mais macio, nosso passarinho canta mais bonito, e agora nos faz arrotar como potência econômica entre o cinco maiores do mundo.  Tudo isso fez com que os afortunados se apaixonassem pelo lixo e as inutilidades que produzem, tornando-se seus cúmplices e reféns.

Criou-se um círculo vicioso, onde a demanda por cuidados com a juventude, a beleza, a forma física, a realização sexual e o bem-estar perene, substituem vocações para a vida  cidadã, responsabilidade social e solidariedade. Nutre-se da miséria econômica dos mais pobres, ou remediados, e alimenta-se da miséria psíquica dos ricos. Além do mais, paralelamente à inibição da esfera pública, a cultura   produz a desagregação das próprias instituições encarregadas de proteger o parco quinhão da “felicidade de shopping-center”  (Jurandyr Freire). O cenário dramático dos que vivem com 2 “real” por dia, no Brasil, ou à custa da bolsa-família (paliativo provisório em caráter de esmola social, porém com certo valor — melhor ter que não ter –; trabalho, saúde assistida com qualidade, urbanização humanizada, são mais importantes, para se evitar a pobreza  viciosa, dependente e a imobilidade: “ninguém se liberta sozinho…” – Paulo Freire); a ignorância sobre 13 bolsões de miséria, 600 municípios, sem urbanização, hospitais, escolas, 20 milhões de pessoas vivendo sob todas as fomes do mundo… mostram que o palco não foi desmontado.

João 1,43-51 – Discípulos de João escutam-no expressar-se sobre Jesus, o “cordeiro de Deus”. Sem vacilações, na mesma forma ingênua do jovem Samuel (1Sm 3,1-20), sem perguntar, de antemão sabendo os significados dos compromissos e das mudanças em suas vidas, ao optarem pelo caminho de Cristo. O diálogo que se entabula entre os “vocacionados” e  Jesus é significativo: “Que buscas?”; “Mestre, onde vives?”;  “Venham e verão” (35-36; 39).  E logo são acolhidos.  O gesto simbólico diz muito: não basta proferir uma lição teórica sobre quem é Jesus, como forma de evangelização. É preciso testemunhar pessoalmente sobre os significados, os valores, o sentido da vida em comunhão com Cristo.  Seguir a Jesus é estar pronto para o impacto da experiência de Deus ampla e sem restrições, que envolve a vida imersa no mundo, por inteiro. João dirá, mais tarde, sobre uma oração de Jesus: “Pai, não te peço que os tires do mundo, mas que os guardes do mal”. As vocações existem e necessitam ser despertadas.

Natanael, depois de duvidar das qualidades do homem de Nazaré – lugar do interior palestino tradicionalmente desprezado pelos judeus, por questões históricas e raciais –, ouve sobre Jesus e convence-se de que ele é verdadeiramente o filho de Deus, o Messias esperado para mudar o mundo. O reinado de Deus está começando, muitos ouvem o chamado, conscientemente. A vivência do homem de Nazaré, testemunhando o projeto de salvação, de Deus, causa impacto na vida de qualquer um. Muitos se comovem, quando tomam conhecimento da abrangência da proposta de Deus de transformar o mundo, os pensares humanos; visão sobre o que acontece nos escalões do poder político; visão sobre partidos e governos que comandam o destino de milhões de pessoas; sobre  dirigentes comunitários vendidos, religiosos que manipulam votos dos crentes e tornam igrejas em “laranjas” de políticos corruptos, ensinando a roubar da nação. Visão para a compreensão da economia de um povo inteiro, suas necessidades, carências e urgências; para mudar o entendimento do papel não cumprido pelos legisladores e juízes, pastores do povo, mancomunados na opressão. Mudar o modo de ser religioso acompanhando e defendendo o modelo dos exploradores, em acordo com o poder e a cultura do opressor. Onde estão as vocações?

2012/01/03

Epifania – Ano “B”

Filed under: Sem categoria — Derval Dasilio @ 19:06

EPIFANIA – Ano B    (2011-2012) – Tempo Comum
Isaías  60,1-6  –  Que permaneça a Glória do Senhor                               
Salmo 72 – Que todos os povos, todas as gentes, o  sirvam                    
Efésios 3,2-6  –  Todas as gentes são herdeiras                                                                                                                                  
Mateus 2,1-12  –  Os magos do Oriente acorrem para adorá-lo

Um poema é cantado com desenvoltura (Is 60,1-6), explode em harmonia, força e beleza, em esplêndidas imagens, enquanto o entusiasmo se manifesta em alegria, como no Coro dos Nabucos de Wagner. Festeja-se uma “Luz” sobre Jerusalém, destinada à peregrinação dos povos. A cidade se transforma num símbolo de longo alcance, função de luz, referência do Monte de Sião. No sol permanente, sem ocaso, a aurora é tomada de um brilho permanente. Ocorre no meio uma reconstrução em torno da religião. À opressão, escravidão, noite das eras, escuridão universal, a sentinela anuncia a aurora (“Tal qual o guarda espera pela alvorada, assim minh’alma anseia por ti, ó Deus” – Sl 129).

Agora, o dia vai clareando, não no Oriente, mas sobre  todo o universo; todos se voltam para  contemplar a Luz; esta, na prática, convoca a todos para ser vista. Agora, põem-se em movimento os filhos dispersos, e os povos estrangeiros se oferecem para transportá-los (reis magos); um deslizar de navios, camelos enchendo o espaço das ruas, enquanto  o dia vai clareando em Jerusalém. Começa o trabalho da reconstrução da fé israelita (os últimos 400 anos quase a destruíram, e com isto, a acumulação de tesouros), substituída pelo racismo e legalismo, exclusivismo religioso. Passa o dia… e não vem a noite! O dia sem fim e luz, de vida  e  fecundidade, não termina. Um dia mais glorioso que aquele após a travessia do Mar Vermelho, o êxodo do Egito. Como possibilidade de escapar ao jugo romano, as portas da cidade não precisam mais ser fechadas ao anoitecer, não há mais o perigo da agressão… o trabalho diuturnamente continua, sem cansaço ou desânimo. É um tempo de “transfiguração”, a luz orientadora permanece sobre todos os viventes.

“Não temam” (Lc 2,8-20), a mensagem transmitida por anjos aos pastores, sobre a natividade, prossegue em sua validade, sem tempo de prescrição. Uma  fração significativa do mundo moderno, no século 21, clama por rasgos de audácia, denúncia, gestos de coragem, valentia, (des)corporativismo e desaprovação política; manifestações da força da fé e da solidariedade, sem amolecimentos que dissolvam a alma. De quê há medo? O comodismo e conforto a que estamos acostumados, resultados das tecnologias de bem-estar, na habitação, no transporte; nas comunicações e no lazer eletrônico; na segurança do trabalho bem remunerado, nos leva a ter medo do outro, o qual pode competir ou nos usurpar as  comodidades alcançadas? Por que construir condomínios verticais ou horizontais, bunkers  modernos de concreto, muros eletrificadas ou concertinas de arame farpado para nos proteger de um inimigo imaginário? Não será o medo da miséria, da invasão de uma legião de famintos para comer na nossa mesa (cf. Luis Buñuel, Viridiana, 1961: a falsa  caridade cristã abriga a hipocrisia da sociedade inteira; algo parecido como o que vimos alguns anos atrás:  levar favelados ao shopping center ultra sofisticado)?

Sem mutilar a soteriologia (soter = salvação) exposta no Evangelho, testemunhar os atos de salvação na  “epifania” de Jesus, Salvador e Libertador, significará sempre afirmar a fé perene e universal que dá sentido à existência e à unidade do mundo, como revelada nas Escrituras. O principal tema do livro de Colossenses é a importância de Jesus Cristo: “Cristo é tudo. Ele é nosso Senhor. A meta central e esperança do evangelho é que Cristo viva em nós (1,27); “Cristo é tudo em todos” (3,11). A sabedoria das outras tradições espirituais, portanto, tem uma percepção de Deus, em muitas situações, equivalente à dos cristãos, judeus e islâmicos, do mesmo tronco profético. Não sendo assim, por que o Evangelho chama a atenção para os “Magos do Oriente”? A presença de uma estrela nos sonhos humanos pode ser uma “epifania” de Deus? Quantas são as manifestações concretas da busca de liberdade e redenção na vida dos seres humanos, em todas as partes do mundo… muitas vezes fora de do meio religioso?

No tempo de Jesus, a desconfiança diante do pobre, estrangeiro que competia com nativos, crescia constantemente. Faz poucos anos, vimos manifestações na França, na revolta dos discriminados. O Brasil é anunciado, ainda agora, como a “quinta economia do mundo”. Deus aparece como justificador de comportamentos dominadores, autoritários, discriminadores ou excludentes. Aceitaremos estas formas de particularizar a Revelação de Deus? A nova política, para a qual não é mais o proletariado que carrega o sentido da história como queria Karl Marx, é próspera. Fala de bolsa-família para milhões, mas anda de Honda ou Toyota. Senadores e deputados  evangélicos milionários, aproveitam a chance. Não veem a fome endêmica, a desnutrição alimentar, as filas de doentes nos corredores dos poucos hospitais. Acredita que o papel da política, mesmo corrupta ou clientelista, em busca do lucro a qualquer custo, pronuncia que “o fim justifica os meios”. A visão do homem sem responsabilidade moral pode até justificar a irreversibilidade do mal, que “estaria sempre na classe social abastada”, mas é estrábica quanto as relações econômicas, diante das omissões e da opressão do poder.

Na visão medieval, é a graça de Deus que redime o mundo. No Brasil, é a política. Conceito complexo,  fugidio, abstrato, face à realidade da população pobre socialmente desassistida, faminta, doente, ignorada no partir do bolo da prosperidade econômica. Na redenção política, é sempre o coletivo, o grupo que está no poder que assume o papel de redentor. Provisoriamente, claro. Cabe a negação das mulheres violadas, crianças ainda morrendo como moscas, jovens morrendo por morte violenta aos 18 ou 20 anos, povos indígenas roubados em seus direitos ancestrais, imigrantes ilegais, como sobras à margem do crescimento econômico”. Dissemos com Drummond de Andrade: “vai ser gauche na vida”, e o mesmo poeta já descobria que “no caminho tinha uma pedra”, que é o espírito do capitalismo egoísta que não nos abandona.

Como atualizaremos a Epifania do Senhor nestes dias (Mt 2,1-12)? A partir do conceito já discutido no Segundo Testamento, que significa, hoje, sustentar o egoísmo  da idéia de “povo eleito”, tomada da tradição israelita, à força de uma afirmação da revelação inclusiva do mundo inteiro? Onde e como estranhos à tradição de Israel alcançariam a “salvação” por meio do Deus Salvador? A presença dos Magos nos mostra como podemos rechaçar a presença nova de Deus, não o reconhecendo nas situações de opressão, cerceamento e exclusão. A reprodução da atitude de Herodes e dos dirigentes israelitas daquela época frente ao recém-nascido reflete isso. Se quisermos aplicar uma hermenêutica adequada a esta história oriental.

Muitas vezes Emanuel, Deus-conosco, está agindo em outras visões e realidades que não as nossas. Especialmente do ponto de vista religioso. Pode ser que não estejamos entendendo muito bem a presença de uma “estrela” nos sonhos humanos como uma manifestação concreta do Deus Libertador, bênção para toda a humanidade, raças e povos, na forma do menino da estrebaria adorado por estrangeiros obscuros do Oriente. Reconhecidos nas várias raças e povos. Os Magos do Oriente devem representar nosso reconhecimento da Epifania de um Deus  que se apresenta livre para salvar a quem ele elege, e não o contrário. “O Espírito sopra onde quer” (Jo 3,3), acima de todos os impedimentos, barreiras, muros ou paredes doutrinais particulares. Afirmando o “Deus conosco” seríamos humildes, e não arrogantes, quanto à posse da “única” experiência possível da revelação de Deus.

A realização da bênção de Deus na história humana, como parte da “História da Salvação”, a “Epifania”, na liturgia cristã, mostra que Deus se dá a conhecer a muitas gentes, mais que isso: a todas as gentes, povos, religiões e culturas. Não só ao povo judeu. Não só aos discípulos do “movimento do Nazareno”. Os mais distantes, “do Oriente”, vislumbram a estrela mágica que orienta para o caminho onde se encontrará o Salvador. Os Magos do Oriente renderam-se à revelação de Deus no menino depositado no cocho da estrebaria de Belém.

Derval Dasilio   
Pastor da Igreja Presbiteriana Unida do Brasil

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