Teologia & Liturgia e Culto Cristão

2012/02/26

QUARESMA – 2o. Domingo – Ano “B” (2012)

Filed under: Sem categoria — Derval Dasilio @ 11:24

QUARESMA – 2o. DOMINGO  – ANO ‘B’ (2012)
Gênesis 17.1-7 – Cada um levará na própria carne a marca da pertença ao seu Deus
Salmo 22,23-31 –  A ti me entreguei desde o meu nascimento
Romanos 4,13-25 – Acreditar no impossível, manter a esperança
Marcos 8,31-38 – Quem perde a sua vida, por causa de mim, vai salvá-la

Ter fé é jogar-se inteira e confiadamente nos braços de Deus. Como o fez Abraão (Rm 4,13-25). Acreditar, especialmente quando todas as coisas parecem impossíveis. Abraão era velho, e Sara, sua mulher, era estéril. Foi aí, desse terreno do impossível segundo os homens, que Deus prometeu que nasceria um grande povo. E Abraão acreditou, confiou plenamente na promessa de Deus. “Acreditar no impossível…”, e Abraão esperou firmemente contra toda esperança. Por isso a promessa se tornou realidade: e nasceu Isaac, o filho da promessa. Abraão ensina que ter fé não é fazer cálculos sobre as possibilidades, ou não, da revelação e promessa de Deus. Ter fé é aceitar com ternura a revelação de Deus, confiando e entregando-se plenamente a Deus. Como um filho que confia nos braços do pai (Mauro Strabeli).

Marcos nos conduziu até aqui para aprendermos a prática de Jesus, a fim de provocar nossa adesão à pessoa de Jesus e ao Evangelho do Reino de Deus, a Boa Notícia (Mc 8,31-38). Jesus, porém, deixa bem claro que aceitar a participação nos riscos e na luta sem negar Jesus e a sua causa é condição sine qua para participar de sua glória: “Se alguém se envergonhar de mim e das minhas palavras diante dessa geração adúltera e pecadora, também o Filho do Homem se envergonhará dele, quando vier na glória do seu Pai com seus santos anjos” (8,38).

Não basta ficar ao lado dele, como espectador descomprometido, admirando seus feitos e suas palavras. A palavra de ordem é “adesão” ao Evangelho, fé na causa essencial, a missão de Deus. Agora somos convidados explicitamente a nos empenha  na sua causa. Muitas personagens que encontramos pelo caminho do Evangelho começaram a se “envergonhar” de Jesus, não aceitando o que ele fazia: os fariseus fazem um plano para matá-lo (3,6); os doutores da Lei o consideram possuído pelo demônio (3,22); as pessoas de Gerasa querem que ele vá embora quanto antes (5,17); seus parentes ficam escandalizados (6,3); Pedro o repreende, não aceitando o caminho que Jesus vai percorrer (8,32). E nós, diante das exigências agora colocadas, será que na “hora do vamo vê” também não nos envergonharemos de Jesus?
 
Podemos ver isso, hoje em dia, nas pessoas sem-teto que são mortas nas calçadas e nas ruas de nossas cidades  (todos os jornais: 27.fev.2012), solução cruel de exterminar a miséria… e nem nos comovemos? Por que, como maioria, dizemos “não” ao desarmamento e “sim” ao incremento da indústria armamentista? Por que nos recusamos a jogar luz nos porões do nosso mundo, nossa sociedade, lá onde estão os desesperançados, des-graçados, vítimas de todas as violências, sociais, legais, criminais, necessitados de gestos concretos que expressam a Graça de Jesus Cristo?
 
A contradição vivida, muitas vezes, está no adiamento das prioridades sob o pretexto: urge crescer para garantir os mínimos para que milhões pudessem comer e, por políticas sociais, serem inseridos na sociedade. Primeiro garantem-se para o sistema financeiro a fim de pagar a dívida pública, depois para os grandes projetos. Somente a fração menor cabe às imensas maiorias que só agora estão ascendendo. Um terço da população brasileira conhece a desgraça de viver nos bolsões de miséria que a economia oficial ignora.

Todos ganham, mas de forma desigual. Tratar de forma desigual a iguais é grande injustiça. “Nunca houve políticas redistributivas: tirar dos ricos (por meios legais) e repassar aos que mais precisam. Haveria equidade. Para as classes já atendidas, precisa-se cobrar menos crescimento e mais prosperidade: melhorar a qualidade do bem viver, da educação, das relações sociais menos desiguais, e mais solidariedade a partir dos últimos” (L.Boff). Cooptados pela propaganda que incita à ganância, ao consumo, as classes ricas ou bem-postas fecham os olhos para os des-graçados, financiadas pelo sistema bancário, na indústria da felicidade aparente e seus inúmeros postos de venda. O dinheiro imundo é meta garantida, uma vez que banqueiro não vai pra cadeia, embora a falsa justiça não desmonte o circo nos espetáculos pro forma de todos os dias.

“Penso que as instituições bancárias são mais perigosas para as nossas liberdades que exércitos inteiros prontos para o combate. Se o povo americano permite um dia que os bancos privados controlem a sua moeda, os bancos e todas as instituições que venham a florescer em torno aos bancos privarão as pessoas de toda posse, primeiro por meio da inflação, em seguida pela recessão até o dia em que seus filhos (e filhas) acordarão sem casa e sem teto sobre a terra que seus pais conquistaram” (frase atribuída a Thomas Jefferson – 1802). Não deu outra… não há sociedade mais imitada, no mundo.
 
Renunciar não é uma atitude passiva, mas espiritualidade que nos leva ao dinamismo da construção de novas relações dentro das quais não há lugar para os instintos egoístas. O seguimento de Jesus se dá dentro da história de uma sociedade sem compaixão, que se pauta pela ambição do poder, de “ter” e aparecer a qualquer custo, enquanto vai gerando relações injustas e opressoras. Os discípulos terão de enfrentar situações adversas e perseguições (tomar a sua cruz!). Jesus vai além, na sua instrução, para deixar bem claro em que implica segui-lo em plena consciência: “Quem quiser salvar a sua vida, vai perdê-la; mas, quem perde a sua vida por causa de mim e do Evangelho, vai salvá-la”(8,35).

Sem cuidarmos dos pecados estruturais da sociedade onde nos encontramos, atentos às nossas responsabilidades cidadãs; sem diminuir esse lado difícil do seguimento, buscar “salvar a vida” significará também colocar a própria segurança naquilo que não pode fornecer essa segurança: o bem-estar egocêntrico entre as riquezas deste mundo (Euclides Balancin). Nem grades nem muros nos salvarão da violência existente, sinais de morte que não respeitam a privacidade de ninguém – a mídia se encarrega da tarefa de impor nos acontecimentos diários essa correlação. As falsas seguranças que escondem a realidade não podem salvar ninguém… nem mesmo a sociedade da qual somos parte responsável.

Contudo, o martírio seria uma escolha suicida se fosse visado como uma finalidade de vida. Buscar a morte pela morte não tem nada de evangélico. Quem quiser salvar a sua vida de falsas seguranças, vai perdê-la… ao contrário, ganhará sua vida quem se entrega às consequências de um testemunho (martyria) e de uma prática que busca a justiça e a fraternidade, como princípio de fidelidade a Deus, enquanto se valoriza a solidariedade entre homens e mulheres, oprimidos e bem-postos, pontua de muitas maneiras as renúncias exigidas do compromisso com  a Graça salvadora de nosso senhor Jesus Cristo, Deus fiel salvador.

Derval Dasilio

Pastor da Igreja Presbiteriana Unida do Brasil

Leia os demais comentários sobre este domingo, abaixo:

2012/02/22

Quaresma – 1o.Domingo – Ano B

Filed under: Sem categoria — Derval Dasilio @ 15:32

1o DOMINGO DA QUARESMA – ANO ‘B’ (2012)
Gênesis  9, 8-17 – “… juro não irar-me contra ti nem reprovar-te”
Salmo 25,1-10 – Deus, perdoa os meus pecados por maiores que sejam
1Pe 3,18-22 –  Cristo desceu ao mundo dos mortos para resgatá-los
Marcos 1,9-15 – No homem Jesus reaviva-se para os oprimidos

Por que o ponto de contato com a “quaresma”, neste texto? O Dilúvio dura quarenta dias e quarenta noites… do ponto de vista sacerdotalista (Gn 7,24); cento e cinqüenta dias para “J” (Gn 8,3), porém, há evidências semelhantes de uma Tradição Primitiva que cuida também das origens da humanidade, referindo-se ao assunto (André Feullet). Desse modo, podemos aproximar-nos do sentido que os autores “sacerdotalistas” desejaram colocar para o Dilúvio e a Aliança: Javé não faz uma aliança bi-lateral com os homens, simplesmente toma a iniciativa de salvá-los. Está implícito que as alianças humanas são passíveis de corromperem-se ao sabor dos interesses do homem.  É graça, misericórdia, hesed, “gratuidade absoluta” de Javé, no Primeiro Testamento.

Deus não pedirá contas do sangue do homem, nem mesmo dos assassinos, os que matam ou cultivam a morte, impondo-a a outros homens… inclusive as feras (Gn 9, 8-17 Lev 17,10-14; 19,26; Dt 12,23).  Finalmente, a fonte “javista”, no final do capítulo 8 (21-22), em consequência do sacrifício de Noé, relata uma repercussão dessa aliança gratuita: “Não amaldiçoarei mais a terra por causa do homem… nunca mais castigarei os vivos como tenho feito. Enquanto durar a terra, semeaduras e messes, frio e calor, verão e inverno, dia e noite não terão fim”!

Na tradição pascal veterotestamentária, a celebração da Páscoa precedia o deserto. Na tradição sinótica (NT), o deserto precede a Páscoa. O deserto marcou o início do ministério de Jesus, além de aparecer em algumas vezes na história do seu ministério. Após o batismo, Jesus retirou-se ao deserto onde jejuou, orou e foi tentado. No deserto, após vencer a tentação, sujeito a inimigos naturais, lobos, serpentes, ele foi servido pelos anjos que o protegiam e preservavam. Deste modo, o deserto é lugar de provação e da providência protetora divina. Diferentemente do povo de Deus na história da peregrinação no deserto (que blasfema, idolatra a prosperidade, a ganância por riqueza, através do bezerro de ouro…), Jesus venceu com a ajuda da Providência. Superou a provação (sem-lar, sem-terra, sem-saúde assistida, sem orientação escolar, por exemplo) e manteve-se fiel a Deus.

Lembramo-nos de 2 bilhões que passam fome, no Planeta; dos moradores de periferia, 90 milhões no Brasil. Não há luz sobre 13 bolsões de miséria escondidos, no país; 600 municípios, sem urbanização, hospitais, escolas; 20 milhões de pessoas vivendo sob todas as fomes do mundo…  municípios carecem dos mínimos recursos modernos, como eletricidade, água potável, esgotos sanitários, escolas razoáveis; pessoas cujas rendas diárias per capita média não ultrapassa 2 reais. Nas periferias das cidades e metrópoles 90 milhões conhecem o mesmo sofrimento, as mesmas doenças, as mesmas desigualdades. Os mesmos  desertos que os poderes públicas hesitam conhecer e atender.  Seus habitantes continuam sob constante provação.  Por isso, ele, Jesus, não experimentaria a morte às portas da terra prometida, como aconteceu com Moisés. Assim, juntam-se deserto e ressurreição na história de Cristo, ressurreição em todos os significados possíveis, unindo batismo e eucaristia (ceia pascal) em um mesmo movimento. Batismo e deserto marcam o início do ministério de Jesus, enquanto a eucaristia e a ressurreição marcam o final.

Mateus dedica-se a mostrar que também Jesus foi tentado no deserto por quarenta dias, antes de iniciar seu ministério, ou a pregação da chegada do Reino de Deus. A partir daí, a Igreja Cristã, especialmente nas comunidades do Apocalipse, sob resistência política, enxerga sua provação como o deserto, onde as águas do “dragão” (fome, abandono político, opressão, miséria) tentam engolir a comunidade (‘provação’), e o deserto engole a água (‘providência’). São figuras e símbolos apocalípticos presentes nos momentos de crise (cf. Carlos Mesters, Apocalipse).

Jesus é o Filho de Deus. Nada de bom se poderia esperar desse homem na luta pela justiça, vindo da obscura Nazaré, uma localidade insignificante ao norte da Judéia. Jesus é  alguém sem nenhuma carta de apresentação, sem pistolão, sem partido ou protetor político (Mc 1,9-15). Jesus é um judeu nazareno sem compromisso com essênios, fariseus, hasmoneus, saduceus, ou extremistas zelotas. No entanto, é com ele que acontece algo de inesperado: “Logo que Jesus saiu da água, viu o céu se rasgando, e o Espírito, como pomba, desceu sobre ele. E do céu veio uma voz: ‘Tu és o meu Filho amado; em ti encontro o meu agrado’ ” (1,10-11). A manifestação do inesperado, do novo, é descrita pelo evangelista através de um rasgão do céu e de uma voz que de lá veio. O céu se rasgou – Marcos diz que em Jesus se realiza outra profecia de Isaías. De fato, o desejo do profeta era: “Estamos como outrora, quando ainda não governavas, quando o teu nome, Iaweh, nunca fora invocado. Quem dera rasgasses o céu para descer (a justiça)!” (Is 63,19).

Pois bem, esse desejo agora acontece. O céu se rasga para que Deus esteja presente entre os homens. O que é que faz com que o céu se rasgue e o Espírito de Deus desça sobre Jesus? O livro do Êxodo mostra claramente por que Deus desce: “Iaweh disse: Eu vi bem a miséria do meu povo que está no Egito. Ouvi o seu clamor contra seus opressores, e conheço os seus sofrimentos. Por isso, desci para libertá-lo do poder dos egípcios [escravidão econômica] e para fazê-lo subir para uma terra fértil e espaçosa, terra onde corre leite e mel…” (Ex 3,7-8). O cenário, porém, é dominado agora pelos assírios, e depois pelos babilônios.
 
No homem Jesus, portanto, reaviva-se para os oprimidos a experiência de Deus agindo na história para libertá-los. Memória do “êxodo”. A presença do Espírito em Jesus é muito importante porque indica a presença do divino no homem de Nazaré (remeto ao comentário sobre a Transfiguração do Senhor – entre meus comentários do 7o. Domingo do Tempo Comum, próximo passado, 19.fev.; ver também o comentário abaixo: 1Pe 3,18-22 ).

Mais uma vez, são as Escrituras que ajudam a entender o texto de Marcos. A voz vinda do céu, ao declarar Jesus como Filho amado, no qual o Pai encontra o seu agrado, nos faz lembrar duas passagens do Antigo Testamento: Salmo 2,7 e Isaías 42,1. Marcos, portanto, já confessa a sua fé: Jesus é o Messias, o Filho de Deus, que reinará sobre os homens. Mas, de que reino fala? Certamente é o Reino de Deus, cerne da pregação de Jesus nos evangelhos. No entanto, esse rei é o servo escolhido por Deus Pai, a serviço da justiça (“promover o direito entre as nações”). Para entender claramente as características desse “rei” recorreremos às parábolas: “o Filho do Homem veio para servir e não para ser servido”, cf. 10,42-45.  E não pronunciamentos, julgamentos, como o falso senso-comum acredita, de Mateus 25; especialmente a última, referente à solidariedade diaconal aos desgraçados: “Quando te vimos”? (Mt 25). O batismo de Jesus não é apenas um exemplo de humildade de Jesus, mas a revelação de que ele é o Messias esperado, o Filho de Deus presente no mundo (E. M. Balancin).

Derval Dasilio

Pastor da Igreja Presbiteriana Unida do Brasil

2012/02/13

7º Domingo do Tempo Comum (depois da Epifania) – Ano “B”

Filed under: Sem categoria — Derval Dasilio @ 18:50

7º Domingo do Tempo Comum (depois da Epifania) – Ano “B”
Alternativa: Domingo da Transfiguração                                                                                                                                    Isaías 43,18-15 – O povo parece ser cego e surdo…
Salmo 41 – Cura-me, tenho pecado contra ti
2 Coríntios 1,18-22 –  Sim e não?
Marcos 2,1-12 – Levanta, sai da cama… anda.

 “Há mansões nesse lindo país”, diz o antigo hino evangélico. Não só, mas edifícios, residências caras, proventos de milhões dos fieis para os parentes e laranjas eclesiásticos. O momento é identificado como “grandes igrejas, grandes negócios”. É possível conceber  passivamente, sem indignação, a existência de “profissionais da santidade”, pessoas destacadas e separadas para a busca pessoal do “estado de perfeição espiritual” onde as preocupações com a justiça e a solidariedade para com os fracos desaparecem, enquanto a graça é distribuída por mãos levianas? Tem preço, essa “graça”, e o custo é permanecer nas mãos de imperadores eclesiásticos milionários do evangelical business que se apropriaram do tesouro da fé para enriquecerem? A graça preciosa é jogada no lixo? Oferecendo-se um perdão equivocado, que não muda ninguém, conforto provisório, resolve-se o problema permanente da culpa não perdoada? O “perdão” eclesiástico, sujeito a prestações em dízimos e ofertas compulsórias, cessa quando o fiel pára de pagar? Mesmo depois do escândalo, da fraude trazida a público, o fiel ainda acredita que a escravidão religiosa lhe dará liberdade?

Confirmando a graça e a misericórdia de Jesus com coerência (Mc 2,1-12), obtemos, através dos termos  hesed e xáris (misericórdia, no AT e NT), um exemplo de gratuidade. O deficiente é trazido por outros, que se arriscavam no meio da multidão por causa da restrição religiosa, que também o obriga ao confinamento e marginalização. A sociedade religiosa  reage, pois sua estrutura está montada em princípios que impõem a exclusão, sintonizada com a sociedade que naturalmente impõe a marginalização do doente e do deficiente. Qualquer mudança, qualquer alternativa além dos preceitos, da carga de tributos dizimais compulsórios, impostos religiosos, além dos ritos de purificação, lhe parecia impossível. Para ela a religião interesseira está acima da vida. E a vida dos seus fieis lhe pertencem. Ninguém tasca… elas possuem a alma do povo.

Detendo-nos, vamos encontrar o tema recorrente da cura e do destravamento das pessoas,  nessa passagem: uma pessoa dependente das outras, tipicamente um deficiente físico, como tantos, rechaçado socialmente; impedido de participar produtivamente da sociedade onde se encontra. Compreendendo que somos envolvidos pela misericórdia de Deus (a Bíblia não discute conceitos de espiritualidade). A misericórdia dá solidez ao corpo de Cristo. Somos convidados a concretizar a prática libertadora do Evangelho. No testemunho do Reino de Deus e sua justiça, prepara-se o Reino. Por outro lado, como diria Paulo Freire: “ninguém se liberta sozinho, nós nos libertamos em comunhão”. O primeiro passo é abandonar a ganância nos comprometendo com a vida. Buscando a justiça e a solidariedade para com os que sofrem. No encontro com Jesus, Zaqueu, popular que enriquece roubando seu povo, passa por uma mudança profunda e permanente (Lc 19 1-10). Por exemplo, Lutero teria dito dessa passagem: “Foi a graça preciosa que transformou sua existência por inteiro. Teve que largar tudo e seguir o Mestre”. A Graça de Deus atinge-nos na essência da vida e chama-nos para o discipulada. Baratear, ou jogar a graça no lixo, pela venda ou manipulação do dinheiro consagrado no altar, é desprezar o próprio Deus.

Jesus inicia seu trabalho a partir da relação cultural existente: pecado e castigo. A doença ou a invalidez são atribuídos ao pecado hereditário. Diz ao entrevado: “por que não levantas, se não és inválido por causa de pecados que atribuem a ti?” A saúde espiritual, para ser recuperada completamente, necessita de um “remédio” eficaz: vontade para fugir de determinismos culturais, religiosos ou não. Como é a crença na irreversibilidade do Mal, da inevitabilidade do pecado, da doença e da deficiência. A liberação da culpa não mais existente se estabelece através da autoridade da Palavra de Jesus. Diante de todos, o deficiente precisa “levantar” e exigir seus direitos. Nem a igreja, nem a sociedade  representam o Reino. Não podem cobrar nada mais, depois do perdão de Deus. A graça, contudo, não liberta de compromissos com o Reino, nem nos coloca nas mãos de charlatães milionários, ou donos de igrejas, que “perdoam pecados” exigindo a retribuição de quem é perdoado. O perdão de uma culpa tida como hereditária é dado de graça. Jesus nega a culpa herdada, divida a ser paga em prestações como o imposto religioso.

O sofrimento do deficiente é complexo e misterioso. Não pode ser explicado de maneira simplista. Jesus mesmo rejeita a interpretação do “castigo de Deus” no doente ou deficiente. Não aceita, também, o preconceito. Critica e repele o pretexto de “pureza ritual”, de santidade, para excluir pessoas do convívio fraterno e da comunhão da mesa. O que é a santidade religiosa, senão uma forma de omissão, ou exclusão espontânea? Jesus exalta a vida em primeiro lugar: todos têm direito à vida; todos gozam  dos direitos humanos e do exercício da cidadania. Jesus resgata a pessoa para o uso dos seus direitos fundamentais, inclusive de trabalhar e produzir o desenvolvimento da sociedade na qual elas, as pessoas deficientes, ou o enfermas, se inserem. O poder oculto da pessoa deficiente e dependente também aflora com a libertação da consciência de pecados ancestrais atribuídos injustamente (Mc 2,1-12).

Temos uma mensagem de salvação, hoje. Devemos anunciá-la. Mas ficamos obrigados, mesmo com gestos simbólicos, a tornar essa pregação em prática. O Reino é de Deus  deve ser anunciado, sim. Mas deve ser também construído, sendo que somos ferramentas, massa de construção, cimento e tijolos do projeto de Deus divulgado por Jesus. O Reino deve “concretizar-se” em nós e no mundo. Não desconhecemos o que pode fazer a força (dynamis) do Evangelho contra o mundo corrompido comandado pelos inimigos de Deus; contra os adversários do Reino encastelados na religião da ganância, no sistema econômico egoísta, nas ideologias políticas oportunistas, opressivas, permissivas na exploração dos fracos, abusando da consciência pela propaganda enganosa, materialista, de falsa prosperidade… a não ser para os impérios religiosos e seus beneficiários.

Por tudo isso, o Reino requer ações concretas da parte dos cristãos. Deus não se comunica com o mundo, e nenhuma pregação fará efeito sem os testemunhos das comunidades de fé, no sentido de se apresentar a salvação com visibilidade: Deus está agindo para tornar mais humana a vida dos homens e das mulheres deste mundo. Palavra e ação, teoria e prática, falar e fazer. Jesus é o cimento desta unidade. Roger Garaudy nos lembra a importância do evangelho como um alerta para a realidade do Reino. Na missão de Deus (missio dei), não se entra sem privação, sem luta, sem indignação e reação (disse Jesus: levanta e anda!). Jamais se entra no Reino pela “posse”, pelo “sucesso”, pelo exercício da “ganância”, ou pela “santidade” e omissão geradas na religião interesseira que produz impérios financeiros e se omite na salvação do mundo. 

Derval Dasilio

Pastor da Igreja Presbiteriana Unida do Brasil

2012/02/07

6º Domingo do Tempo Comum (depois da Epifania) – Ano “B”

Filed under: Sem categoria — Derval Dasilio @ 9:33

6º Domingo do Tempo Comum  (depois da Epifania) – Ano “B”                                                                                                                  [Alternativa: Comentário ao Domingo da Transfiguração. Ver abaixo: Comentários]                                                                                               
2Reis 5,1-14 –  A doença humilha e causa exclusão
1Coríntios 10,31-11 – Um só corpo um só espírito… para a glória de Deus
Marcos 1,40-45 – Desapareceu a doença, e ele ficou limpo…

Temos uma página bastante comum no evangelho de Marcos: Jesus cura, não somente prega, enquanto  associa palavras e atos.  Suas ações trazem libertação, porém libertação integral, espiritual e corporal ao mesmo tempo. Seu modo de expressar a religião que professa inclui a misericórdia, o cuidado, o amor libertador, valores espirituais elevados para muito acima da religiosidade comum, sem misericórdia, sem sentimentos, catártica, regulamentar, preceitualista.  Jesus não pratica essa religião. Ao contrário, combate a religião moralista que impede a abertura para o outro, ou para a comunidade em si. Para ele, amar é libertar. O corpo doente obstaculiza a vida plena e o próprio amor. Jesus não discute em nenhum lugar as ambiguidades de corpos e espíritos separados. Ou almas liberadas das enfermidades demoníacas de sua época. Ele simplesmente cura as pessoas, mereçam ou não seu cuidado. O Reino de Deus  está próximo… ele anuncia. O reino é a justiça que tudo alcança; é  compromisso com a causa de Deus, e  não uma abstração sobre o Mal e o Bem. Quando um usuário de drogas, ou um doente qualquer,  é curado diz: “fiquei limpo”. Concretamente, e não “espiritualmente”. Precisamos aprender com o Evangelho.

Os monges gregos ainda no começo da Idade Média diziam: “o espírito é para Deus, o corpo é para o imperador” (“espírito” é nous, e soma é “corpo”, no grego ático e no koinê, Novo Testamento). Mas isto não corresponde ao pensamento paulino  no NT (E.Käsemann). Nenhuma escola rabínica ensinaria tal coisa, e Paulo foi instruído na concepção rabínica. O modelo de espiritualidade religiosa que prevaleceu no cristianismo cultural não tem que ver com a revelação bíblica, mas sim com uma religião pagã do século 6 a.C.,“Religião Órfica da Trácia”. Porém, desde os primeiros séculos da era cristã essa concepção se tornou dominante no cristianismo histórico (Renold Blank). E prevalece no cristianismo ainda hoje.

Trata-se de cultura comum no mundo mediterrânico, onde o cristianismo teve início. Para as pessoas mais simples, desse modo, “o espírito é tudo, o corpo não vale nada; o espírito valoriza o corpo e a matéria degrada o espírito”. Assim, o modelo antropológico dualista (espírito separado do corpo) tem suas raízes numa cultura alheia à do povo bíblico. A depreciação do corpo prossegue com o equívoco (“carne” em oposição ao “espírito”). O Novo Testamento, porém, tem outro enfoque. Não absorver as razões culturais e ideológicas de um cristianismo aculturado já distante das fontes apostólicas do pensamento cristão primitivo sobre o ser e a vida. A concepção bíblica refere-se ao ser total, que é corpo, que é alma e que é espírito, finalmente entrelaçados e indivisíveis.

Adão (’adam), humanidade, coletivo de homens e mulheres (cf.: o feminino de Adão é adamah, terra fecunda), tem um corpo, começa a viver com o “alento”  do Criador. A intensidade da vida é variável, de momento para outro. Um enfermo e/ou um morto, são vidas, corpos debilitados, prejudicados, porque incompletos, privados das possibilidades do corpo sadio (2Rs 8,8; 10; 14,20 e 1-7; Gn 25,30 e 32; Is 5,27). Despertar, curar, ressuscitar o corpo, significa recuperar faculdades, dispor novamente de toda capacidade na vida oferecida por Deus. Isso aparece aos olhos do israelita como um bem inestimável do qual dependem todos os bens. Ou seja, a vida é a mais preciosa das bênçãos, nada é superior a poder-se viver com dignidade (Pv 3,16). A vida e o corpo são inseparáveis e indissociáveis.

Sob o tema, integridade espiritual do crente, Paulo discutirá com os cristãos coríntios o bom emprego das palavras “espírito” e “espiritualidade”. Quase sempre nos referimos a esta palavra pensando como os filósofos gregos, e não como o israelita, que nunca imaginou um possível estado de perfeição do espírito dissociado do corpo; que a abstração espiritual requer um afastamento do corpo; que fora do corpo e das realidades humanas é que se dá o melhor estado espiritual, aquele alcançado pela mortificação do corpo.

Essa concepção, além de tudo, não é uniforme, comparada à do evangelista Marcos e do apóstolo Paulo. Paulo prossegue nesta linha, como um bom israelita: “quer comam ou bebam, ou que façam qualquer outra coisa, façam tudo para a glória de Deus”. Não só as atividades religiosas tradicionais têm a ver com essa espiritualidade, mas o comum do cotidiano de cada um e de todos “…porque nós, embora muitos, somos um só corpo” (1Cor 10,17; 10,31-11). Corpo! Esse acréscimo identifica outros aspectos, como os que envolvem a igreja, a comunidade, a sociedade e o crente. Somos o que somos porque somos um “corpo”, meu corpo é parte de outros corpos, da igreja, da comunidade, da sociedade, da coletividade humana. A unidade do corpo reconhece-se no locus teologicus  que é a sociedade humana. Porém, ambos privilegiam a libertação integral do ser humano. A cura do corpo identifica a redenção alcançada no reinado de Deus. Aqui, o socius é o companheiro, irmão, membro integrante da mesma sociedade. Preocupar com o corpo é o mesmo que cuidar da responsabilidade de todos, sejam cristãos ou não.

Jesus é também representante do pensamento sobre a vida. Pensamento que prevalece na Bíblia Hebraica e se estende ao Segundo Testamento.  O israelita pensava que a vida não é simplesmente a existência, ou a experiência humana individual. A vida (hayyîn), na melhor tradição israelita, é algo definido no plural intenso da experiência em sociedade (R.Martin-Achard). Além do grupo religioso. Viver é mais do que “ser”, nenhuma abstração cabe aqui, nem racionalismos. Vida é sangue… “o sangue é a alma do corpo”, combustível concreto da vida, como o Deuteronômio dirá (12,23). A vida se confunde também com o “fôlego”, no momento da criação do ser-homem, quando Deus soprou nas narinas do homem “um fôlego de vida”.  

Jesus cura, não prega uma abstração sobre o mal da doença. Inclusive as doenças da sociedade humana.  Suas ações trazem libertação, porém libertação integral, espiritual e corporal ao mesmo tempo. Seu modo de expressar a missão do Reino inclui a misericórdia, o cuidado, o amor libertador pelos enfermos, valores espirituais elevados para muito acima da religiosidade comum, sem misericórdia, sem sentimentos, catártica, preceitualista. Tiago reforçará: “a religião verdadeira é a misericórdia”.

Derval Dasilio

Livro: O Dragão que habita em nós, Metanoia, 2010

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