Teologia & Liturgia e Culto Cristão

2012/03/20

MORRER PARA VIVER – QUARESMA – 5o. Domingo – Ano “B” (2012)

Filed under: Sem categoria — Derval Dasilio @ 12:08

QUARESMA – 5º. Domingo – Ano B
Jeremias 31,34 – A Lei de Deus não nunca estará num livro de papel…
Salmo 107,1-3;17-22 –  Salvos porque bradaram contra o sofrimento de todos
Hebreus 5,5-10 –  Foi Cristo que orou pela salvação de todos
Evangelho: João 12, 20-33 – Se o grão de trigo morrer, produzirá muito fruto
 
Estamos diante de “paradoxos” do evangelho? “Perder” a vida por amor é a forma de “ganhá-la” para a vida eterna (ou seja, ir de encontro aos valores definitivos do evangelho de Jesus, aplicando-os). Morrer para si mesmo é a verdadeira maneira de viver; entregar a vida é a melhor forma de retê-la; oferecer a vida (à causa de Jesus) é a melhor forma de receber a vida eterna, hoje e sempre (P.Tillich, A vida eternal é agora!). Paradoxo é uma contradição aparente, como perder ou ganhar, morrer ou viver, entregar ou reter, dar ou receber, desabrochar ou murchar, amadurecer ou apodrecer. Parecem dimensões ou realidades contraditórias. Mas não são.

Descobrir o evangelho, para João, é alcançar novas sensibilidades.  O húmus da terra encarrega-se de dar vida à semente que morre e forma novas raízes. Saberes, conhecimentos, símbolos, significados, valores, sentimentos, emoções, sensibilidades, são eixos de orientação que precisamos aprender (C.R.Brandão), quando buscamos o sentido do evangelho de Jesus sobre a semente que morre para que ressuscitar a vida.

Físico de renome fala com muita delicadeza sobre este assunto: “Tudo que vive é dissipativo, se desmancha, se dissolve para alimentar outras coisas, outras vidas” (Yilia Prigonine). A morte alimenta a vida, quis João dizer? Pergunta que faço para mim mesmo, bom aprendizado para a vida de fé. Como a roseira na minha varanda, cujos galhos já não florescem precisando ser podados, para que brotem novos galhos do tronco que lhes dá a vida; para que novos botões aflorem, novas cores seduzam o observador; novos perfumes se lancem no ar úmido, em sensações deliciosas que anunciem o renovo, a ressurreição da vida. Permanecerá, sempre, a vida em renovo. Se os galhos improdutivos forem podados.

Uma águia real pode viver 70 anos, se aos 40 assumir o que deve ser feito. O bico enfraqueceu com a idade e se curvou, impedindo que a águia continue sua caça normalmente. As unhas estão gastas e enfraquecidas, a penas estão murchas, o corpo pesado desliza com dificuldade nas correntes de ar.  A águia, então, toma a decisão necessária, sobe ao ninho na alta montanha para reorganizar suas forças e potenciais. O processo se completará em cinco meses. A águia começa por bater insistentemente o bico na pedra até arrancá-lo completamente. Depois, aguarda nascer o novo bico. Após semanas, com o bico renovado, arranca as unhas gastas, uma por uma. Em seguida, retira uma a uma as velhas penas e aguarda o renovo das duas.  A partir daí viverá mais 30 anos.

O ser humano também se caracteriza por ser capaz de amar, de sair de si mesmo, e entregar sua vida ou entregar-se a si mesmo por amor. A humanização seria a “descentralização” de si mesmo, que é sair de si mesmo e encontrar-nos com os demais no amor… A parábola que estamos refletindo expressa um ponto alto desse amadurecimento, tanto que pode ser considerada uma expressão acima do amor. No fundo, esta parábola equivale ao mandamento novo: “Este é o meu mandamento, que se amem uns aos outros ‘como eu’ vos tenho amado; não há maior amor que ‘dar a vida’” (Jo 15,12-13). As palavras de Jesus têm ai a pretensão de síntese. Aí se encerra toda a sua mensagem. Amor para Jesus se traduz em misericórdia, compaixão, cuidado, solidariedade, partilha. Amor concreto, sem abstrações filosóficas. É preciso sacrificar as velhas convicções, os equívocos religiosos ou filosóficos, e ingressar no renovo que sustenta a vida.

No evangelho de João (12, 20-33) vemos judeus gentílicos que vêm a Jerusalém. Convertidos ao judaísmo no mundo greco-romano mediterrânico, comemorarão a Páscoa. Buscam a Jesus. Mais um gesto do evangelho ecumênico de João, ou  pleno, total, universal (katholicos), pois este lhes informa: “inclusive os pagãos buscam a Jesus”.  A ocasião é aproveitada para se anunciar que o tempo das palavras e sinais está chegando ao seu fim, pois se aproxima a “hora” do “sinal” maior: a paixão e morte na cruz, para a redenção do mundo. O testemunho da Ressurreição universal está na pauta do evangelho joanino.

Devemos perguntar se a mensagem da pequena parábola do grão de trigo é uma “uma revelação única”, particular, para eleitos, ou foi revelada para todos os homens e mulheres desta terra. As pessoas podem descobri-la, sem a interpretar? A mensagem que Jesus propõe, é uma “revelação” vinda do alto, à qual nunca poderíamos chegar se ele não nos tivesse manifestado aos crentes? Se o grão de trigo não cai na terra morre, não fecunda. O grão de trigo entrega-se à morte, enterra-se, perde-se, ou “ressuscita” para ser fecundo? A condição da fecundidade é saber morrer para muitas coisas e ressuscitar para outras, como nos lembrará, também, Paulo, o apóstolo e mártir do evangelho de Jesus Cristo.

Tratamos aqui das sementes e das raízes do evangelho de Jesus sobre a ressurreição. O Evangelho fala de gestos fundadores da vida humana na partilha do amor (Roland Barthes).  Penso eu, você concorda?, Jesus recorre À  parábola, “só o grão de trigo que morre dá muito fruto” como lição fundamental do Evangelho inteiro. O ponto máximo da mensagem de Jesus é o amor concreto, solidário, cooperativo; amor que reforça o primado da pessoa e da vida; amor que se dá a si mesmo em renúncia, e “perder-se a si mesmo” em entrega sem medo; amor que, por esse perder-se, morrendo para si mesmo, enquanto se gesta a vida nova em ressurreição do ser inteiro; amor sem fronteiras, como um poço profundo ao qual nenhuma sonda encontra o fundo.

Discordará dele o evangelho dopado pela religiosidade  emocional pentecostal ou carismática, que evita sistematicamente a cruz, o sofrimento e as provações de quem ousa contestar, indignar-se contra a injustiça, desejando a felicidade “química” comprada com dinheiro e sustentada pelo evangelical show business  que tomou as igrejas cristãs.

2012/03/15

SAINDO DA ESCURIDÃO Quaresma – 4o. Domingo (Ano “B” 2012)

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4o.DOMINGO DA QUARESMA – ANO “B”
Números 21,4-9 –  A serpente livra da morte repentina…
Salmo 107, 1-3; 17-22 – Comunhão do Oriente ao Ocidente
Efésios 2,1-10 – A graça exige uma resposta de fé
João 3,14-21 – Na crise, um novo nascimento

João está dizendo: Jesus, ao vir ao mundo, à luz (luz = photós, imagem bem contemporânea, mesmo no mundo digital), revela-se atuando com um julgamento de separação quanto aos atos humanos contrários às intenções do Deus Salvador. O tema é clássico, também apresentando a polaridade da luz e das trevas, uma inversão de valores. O perverso busca a escuridão para esconder suas indignidades, injustiças; para alcançar a impunidade. A escuridão é também o refúgio de quem comete um delito. A luz é uma metáfora do Deus Criador, a quem Jesus serve, em sua missão. “A luz inunda o mundo com claridade e calor” (L.C.Susin).

Escuridões tenebrosas ocultam a perversidade e escondem crimes horrorosos contra a humanidade. Inundando o mundo com sua claridade, Jesus permite “que venha a luz”. Tudo que se espera ver com clareza, transparência, vem ao “julgamento” da luz. Porém, a escuridão despudorada não percebe a luz em sua invisibilidade. São necessárias lentes especiais que aguçam a percepção das realidades nela ocultas. Em Jesus se pode ver a verdade com clareza, e através dele as realidades que se ocultam. O que seria? Seriam, talvez, esferas de interesse humano, como quer Andrés Queiruga.

Perigo iminente é configurar uma vida de fé fulgurante através das crenças, ritos e orações, como “luz”, para se alcançar algo que pertence somente a Deus. No outro lado, também é equívoco identificar a incredulidade com uma vida obscura, sem Deus. De fato, as duas esferas percorrem órbitas coincidentes sem se chocarem jamais. Outra consideração refere-se à consciência humana de si mesma. Nascer de novo é como experimentar nosso próprio nascimento. Sobrevivemos aparentemente sem nenhum problema, sem assombro, sem considerar nosso próprio nascimento, sobrevivendo ao desaparecimento de milhões de células, numa espécie de sorteio germinal entre milhões, num encontro fecundante que gerou nossa própria vida. Quando foi que debatemos conosco mesmo a ideia do “infinito”? Quando foi que olhamos para o mar e indagamos sobre os milhões de anos nos quais as ondas batem na praia e rolam sobre a areia, sempre retornando, maré após maré? O mistério da vida é tão grande quanto o mistério da fé.

Jesus já respondera a Nicodemos sobre os significados do seio materno, donde brotam águas primordiais, ambiente de onde nascem todas as coisas (Gn 1,2: “a terra era sem forma e vazia, e o Espírito pairava sobre a face das águas…”). Segundo a tradição, a água é o elemento feminino da Criação. O Espírito, em hebraico, também é uma palavra feminina (rûah), porém usada como se fosse o elemento masculino da fecundação, Deus é Pai e Mãe ao mesmo tempo. Em grego o sentido é o mesmo: (pneuma) Deus, Espírito, é um vento, um alento, um sopro criador. A objeção: “como pode um homem velho nascer de novo?”,  já havia sido respondida, à feição da tradição hebraica. “Aquele que nasce vê a luz de um novo dia” (Sl 49,20; Jó 3,16); o novo nascimento permite visões, como nas noites iluminadas, madrugada cheia de luzes de utopias libertadoras. O Reino de Deus é o raiar de um novo dia no cosmo inteiro.

Mas Nicodemos se expõe ao julgamento de suas questões sem reconsiderar sua realidade humana envolta em escuridão. A luz de Jesus é também uma realidade para a fé, quando responde à gratuidade divina, na reconciliação, na solidariedade, na busca de dignidade humana. Também na psicologia da profundidade a dualidade exemplar do ser humano é lembrada. Um mundo de escuridão convivendo com a claridade, como Carl Jung poderia ter demonstrado. A psique humana se envolve com o duplo signo da ‘anima’ e do ‘animus’ (alma e espírito),  lado a lado, inseparáveis, habitando um corpo.  Portanto, é preciso pensar que entre a luz e a escuridão há uma zona cinzenta. Nem tudo é luz, nem tudo é escuridão. Ou melhor, luz e escuridão constituem um casamento para sempre, uma união indissolúvel e eterna.

Uma pergunta: a não-salvação pode ser entendida aqui como “julgamento” para condenação previamente anunciada, em função da incredulidade? A escuridão fecha homens e mulheres para o dom do amor, por isso está condenada? Não crer, não ver a luz, é um ato positivo de liberdade? Subtrair-se da salvação é uma escolha diante da decisão requerida? Chegamos ao ápice dessa perícope (Jo 3,14-21): um momento de crise! No grego, ‘krisis’ significa julgamento e condenação ao mesmo tempo. Mas também significa distinção e separação: “no princípio, Deus separou a luz das trevas”, polaridade inevitável (Gn 2,4).

Nicodemos não escapa à espiritualidade simplesmente reformista, essa que pede demonstrações, depende de provas, de sinais externos para uma compreensão terrena da gratuidade e da revelação. A Graça divina testificada à luz da razão. O mistério da Graça, da iniciativa de Deus na direção do homem e da mulher, dos oprimidos pela sociedade humana, nas expressões identificados pelos sistemas de pensar a religião, a política, a economia, só poderá ser compreendido nas respostas  que direcionam à plenitude, vida plena e abundante, conforme a promessa do Evangelho. Plenitude é tema da teologia de Paulo, também, assim como a “largura”, a “extensão”, a “altura” e a “profundidade”: …“nada poderá nos separar do amor de Deus” (Rm 8,38-39).

Sentença após sentença João encadeia os temas da fé na salvação, tudo retirado do cotidiano, das coisas terrenas, cenários obrigatórios para identificar-se a intervenção de Deus: semente (spermatos), água (‘udatos),  são palavras-chaves para se compreender a  geração do novo, da novidade de vida. 

Derval Dasilio

2012/03/07

Templo é dinheiro – Quaresma – 3o.Domingo do Ano B

Filed under: Sem categoria — Derval Dasilio @ 10:25

3ºDomingo da Quaresma – Ano B (2012)
Êxodo 20,1-17 – A Palavra está firmada na Aliança

Salmo 19 – Os preceitos do Senhor são retos

1Coríntios 1,18-25 – Só a ignorância desculpa o erro

João 2,13-22 – Fizestes da casa de meu Pai um mercado…

 
Nas semanas que  antecedem a Páscoa, em Vitória-ES, diante das câmeras, um líder era preso pela Polícia Federal, juntamente com um suplente de senador, do bloco evangélico no Congresso Nacional. Era trancafiado enquanto exibia um exemplar da Bíblia diante das câmeras. A acusação era de roubo ao erário e formação de quadrilha, estava ligado a um senador também evangélico. “Usam-se igrejas como fachadas, e como negócios religiosos”, sugere a imprensa – Cf. Jornal A Gazeta; Rede Globo de Televisão: 8.março.2006. Também na Quaresma, 2012, na mesma localidade, a Igreja Cristã Maranata e a Assembleia de Deus, noticia o mesmo jornal, passam por investigação policial e pelo Ministério Público Federal. Pelos mesmo motivos. Para os novos evangélicos, “religião é dinheiro”, enquanto cometem abusos (evidentemente consentidos) contra a comunidade de fieis.

Essa era a situação do Templo na época de Jesus: um grande banco, controlado pelo poder econômico, político e religioso (que também impunham as ideologias, ou sistemas de pensar, ao povo). A religião de mercado se impõe. Religiosos se imaginam como empresa e mercador, mandam e orientam. Há “banqueiros”, financeiras, comerciantes e compradores desse produto. Os fieis não se dão conta e contribuem. Tributaristas religiosos cuidariam dos aspectos “legais” da exploração. Templo é capital e lucro, lição bem aprendida por evangélicos pentecostalistas recentes. O Templo  bíblico era ao mesmo tempo uma secretaria fazendária, agência bancária e shoping religioso com clientela cativa (emporion), sem outra alternativa senão consumir obrigatoriamente sob indução religiosa (comp. Kümmel, Käsemann, Milton Schwantes). Os fieis não percebem o abuso, e contribuem.

Abrigados no centro da opressão e da exploração, o Templo, símbolo da religião, os dirigentes e lideranças sabiam muito bem manipular a religião em vista da preservação de seus lucros e privilégios. Jesus fica irado, furiosamente expulsa a todos do Templo. Com isso, o evangelista indignado denuncia: com Jesus chegaram os tempos novos, tempo da intervenção de Deus (kayrós); tempos em que a religião não pode ser misturada com comércio nem servir à opressão e injustiças contra o povo. Ao expulsar todos do Templo, Jesus diz aos que vendiam pombas: “Não transformem a casa de meu Pai num mercado (emporion)”. As pombas eram o sacrifício dos pobres, tinham de pagar muito caro para “ter acesso a Deus”(cf. 1,17).
 
Três semanas antes da Páscoa (greg.pásca / heb.pessah) os arredores do Templo de Jerusalém se tornavam um grande mercado (Jo 2,13-22). O clero, a organização sacerdotal enriquecia com o aluguel dos espaços para as barracas dos vendedores e cambistas. Os animais criados nos latifúndios eram conduzidos a Jerusalém e vendidos a preços que, nessas ocasiões, aumentavam assustadoramente. Todo religioso maior de idade devia ir a essa festa e pagar os impostos previstos para o Templo (hiero = raiz de hierarquia). O Templo adotara a moeda “tíria” como moeda oficial (cunhada em Tiro, cidade pagã), pois ela não desvalorizava com a inflação que, na época de Jesus, era muito alta. A ironia disso está no fato que a Lei proibia o ingresso no Templo de “moedas pagãs”. Mas os gananciosos dirigentes religiosos burlavam a Lei em vista de seus privilégios. Os cambistas faziam a troca.
 
Os dirigentes religiosos reagem com energia diante do que Jesus faz. De fato, de que modo reagem os que, como a nobreza sacerdotal daquele tempo, mancomunada com as elites políticas, vêem se desfazer qual fumaça sua fonte de lucro baseada na religião? Por isso os dirigentes querem saber com que autoridade (sinal?) Jesus está fazendo isso. Quem o autorizaria? Em vez de lhes dar uma resposta direta, Jesus acrescenta uma denúncia velada: “Destruam esse Templo, e em três dias eu o levantarei” (versículo 19). Nessa afirmação misteriosa está presente a denúncia de que o poder religioso será responsável pela destruição do corpo de Jesus (morte), mas Jesus irá ressuscitar, e com ele o sinal da ressurreição possível (um mundo novo possível), destruindo o poder religioso que favorece a morte. As lideranças religiosas, bem como os discípulos de Jesus, entendem esse gesto como uma reforma do sistema religioso. De fato, os discípulos pensam que Jesus tenha feito isso por seu zelo pelo Templo. Isso demonstra que para aderir a Jesus é necessário longo aprendizado sobre a honestidade religiosa, a justiça, a cidadania dos que o seguem, sugere João (o evangelista). Só depois da ressurreição é que os discípulos tiveram a compreensão exata do fato: Jesus estava falando do seu próprio corpo (21-22), e das possibilidades de ressurreição para o mundo inteiro. Inclusive a ressurreição moral.  Por isso acreditaram na Escritura e na palavra de Jesus (José Bortolini).

Derval Dasilio

Pastor da Igreja Presbiteriana Unida do Brasil

[Gravura: Cerezo Barredo: Ladrões no Templo]

2012/02/26

QUARESMA – 2o. Domingo – Ano “B” (2012)

Filed under: Sem categoria — Derval Dasilio @ 11:24

QUARESMA – 2o. DOMINGO  – ANO ‘B’ (2012)
Gênesis 17.1-7 – Cada um levará na própria carne a marca da pertença ao seu Deus
Salmo 22,23-31 –  A ti me entreguei desde o meu nascimento
Romanos 4,13-25 – Acreditar no impossível, manter a esperança
Marcos 8,31-38 – Quem perde a sua vida, por causa de mim, vai salvá-la

Ter fé é jogar-se inteira e confiadamente nos braços de Deus. Como o fez Abraão (Rm 4,13-25). Acreditar, especialmente quando todas as coisas parecem impossíveis. Abraão era velho, e Sara, sua mulher, era estéril. Foi aí, desse terreno do impossível segundo os homens, que Deus prometeu que nasceria um grande povo. E Abraão acreditou, confiou plenamente na promessa de Deus. “Acreditar no impossível…”, e Abraão esperou firmemente contra toda esperança. Por isso a promessa se tornou realidade: e nasceu Isaac, o filho da promessa. Abraão ensina que ter fé não é fazer cálculos sobre as possibilidades, ou não, da revelação e promessa de Deus. Ter fé é aceitar com ternura a revelação de Deus, confiando e entregando-se plenamente a Deus. Como um filho que confia nos braços do pai (Mauro Strabeli).

Marcos nos conduziu até aqui para aprendermos a prática de Jesus, a fim de provocar nossa adesão à pessoa de Jesus e ao Evangelho do Reino de Deus, a Boa Notícia (Mc 8,31-38). Jesus, porém, deixa bem claro que aceitar a participação nos riscos e na luta sem negar Jesus e a sua causa é condição sine qua para participar de sua glória: “Se alguém se envergonhar de mim e das minhas palavras diante dessa geração adúltera e pecadora, também o Filho do Homem se envergonhará dele, quando vier na glória do seu Pai com seus santos anjos” (8,38).

Não basta ficar ao lado dele, como espectador descomprometido, admirando seus feitos e suas palavras. A palavra de ordem é “adesão” ao Evangelho, fé na causa essencial, a missão de Deus. Agora somos convidados explicitamente a nos empenha  na sua causa. Muitas personagens que encontramos pelo caminho do Evangelho começaram a se “envergonhar” de Jesus, não aceitando o que ele fazia: os fariseus fazem um plano para matá-lo (3,6); os doutores da Lei o consideram possuído pelo demônio (3,22); as pessoas de Gerasa querem que ele vá embora quanto antes (5,17); seus parentes ficam escandalizados (6,3); Pedro o repreende, não aceitando o caminho que Jesus vai percorrer (8,32). E nós, diante das exigências agora colocadas, será que na “hora do vamo vê” também não nos envergonharemos de Jesus?
 
Podemos ver isso, hoje em dia, nas pessoas sem-teto que são mortas nas calçadas e nas ruas de nossas cidades  (todos os jornais: 27.fev.2012), solução cruel de exterminar a miséria… e nem nos comovemos? Por que, como maioria, dizemos “não” ao desarmamento e “sim” ao incremento da indústria armamentista? Por que nos recusamos a jogar luz nos porões do nosso mundo, nossa sociedade, lá onde estão os desesperançados, des-graçados, vítimas de todas as violências, sociais, legais, criminais, necessitados de gestos concretos que expressam a Graça de Jesus Cristo?
 
A contradição vivida, muitas vezes, está no adiamento das prioridades sob o pretexto: urge crescer para garantir os mínimos para que milhões pudessem comer e, por políticas sociais, serem inseridos na sociedade. Primeiro garantem-se para o sistema financeiro a fim de pagar a dívida pública, depois para os grandes projetos. Somente a fração menor cabe às imensas maiorias que só agora estão ascendendo. Um terço da população brasileira conhece a desgraça de viver nos bolsões de miséria que a economia oficial ignora.

Todos ganham, mas de forma desigual. Tratar de forma desigual a iguais é grande injustiça. “Nunca houve políticas redistributivas: tirar dos ricos (por meios legais) e repassar aos que mais precisam. Haveria equidade. Para as classes já atendidas, precisa-se cobrar menos crescimento e mais prosperidade: melhorar a qualidade do bem viver, da educação, das relações sociais menos desiguais, e mais solidariedade a partir dos últimos” (L.Boff). Cooptados pela propaganda que incita à ganância, ao consumo, as classes ricas ou bem-postas fecham os olhos para os des-graçados, financiadas pelo sistema bancário, na indústria da felicidade aparente e seus inúmeros postos de venda. O dinheiro imundo é meta garantida, uma vez que banqueiro não vai pra cadeia, embora a falsa justiça não desmonte o circo nos espetáculos pro forma de todos os dias.

“Penso que as instituições bancárias são mais perigosas para as nossas liberdades que exércitos inteiros prontos para o combate. Se o povo americano permite um dia que os bancos privados controlem a sua moeda, os bancos e todas as instituições que venham a florescer em torno aos bancos privarão as pessoas de toda posse, primeiro por meio da inflação, em seguida pela recessão até o dia em que seus filhos (e filhas) acordarão sem casa e sem teto sobre a terra que seus pais conquistaram” (frase atribuída a Thomas Jefferson – 1802). Não deu outra… não há sociedade mais imitada, no mundo.
 
Renunciar não é uma atitude passiva, mas espiritualidade que nos leva ao dinamismo da construção de novas relações dentro das quais não há lugar para os instintos egoístas. O seguimento de Jesus se dá dentro da história de uma sociedade sem compaixão, que se pauta pela ambição do poder, de “ter” e aparecer a qualquer custo, enquanto vai gerando relações injustas e opressoras. Os discípulos terão de enfrentar situações adversas e perseguições (tomar a sua cruz!). Jesus vai além, na sua instrução, para deixar bem claro em que implica segui-lo em plena consciência: “Quem quiser salvar a sua vida, vai perdê-la; mas, quem perde a sua vida por causa de mim e do Evangelho, vai salvá-la”(8,35).

Sem cuidarmos dos pecados estruturais da sociedade onde nos encontramos, atentos às nossas responsabilidades cidadãs; sem diminuir esse lado difícil do seguimento, buscar “salvar a vida” significará também colocar a própria segurança naquilo que não pode fornecer essa segurança: o bem-estar egocêntrico entre as riquezas deste mundo (Euclides Balancin). Nem grades nem muros nos salvarão da violência existente, sinais de morte que não respeitam a privacidade de ninguém – a mídia se encarrega da tarefa de impor nos acontecimentos diários essa correlação. As falsas seguranças que escondem a realidade não podem salvar ninguém… nem mesmo a sociedade da qual somos parte responsável.

Contudo, o martírio seria uma escolha suicida se fosse visado como uma finalidade de vida. Buscar a morte pela morte não tem nada de evangélico. Quem quiser salvar a sua vida de falsas seguranças, vai perdê-la… ao contrário, ganhará sua vida quem se entrega às consequências de um testemunho (martyria) e de uma prática que busca a justiça e a fraternidade, como princípio de fidelidade a Deus, enquanto se valoriza a solidariedade entre homens e mulheres, oprimidos e bem-postos, pontua de muitas maneiras as renúncias exigidas do compromisso com  a Graça salvadora de nosso senhor Jesus Cristo, Deus fiel salvador.

Derval Dasilio

Pastor da Igreja Presbiteriana Unida do Brasil

Leia os demais comentários sobre este domingo, abaixo:

2012/02/22

Quaresma – 1o.Domingo – Ano B

Filed under: Sem categoria — Derval Dasilio @ 15:32

1o DOMINGO DA QUARESMA – ANO ‘B’ (2012)
Gênesis  9, 8-17 – “… juro não irar-me contra ti nem reprovar-te”
Salmo 25,1-10 – Deus, perdoa os meus pecados por maiores que sejam
1Pe 3,18-22 –  Cristo desceu ao mundo dos mortos para resgatá-los
Marcos 1,9-15 – No homem Jesus reaviva-se para os oprimidos

Por que o ponto de contato com a “quaresma”, neste texto? O Dilúvio dura quarenta dias e quarenta noites… do ponto de vista sacerdotalista (Gn 7,24); cento e cinqüenta dias para “J” (Gn 8,3), porém, há evidências semelhantes de uma Tradição Primitiva que cuida também das origens da humanidade, referindo-se ao assunto (André Feullet). Desse modo, podemos aproximar-nos do sentido que os autores “sacerdotalistas” desejaram colocar para o Dilúvio e a Aliança: Javé não faz uma aliança bi-lateral com os homens, simplesmente toma a iniciativa de salvá-los. Está implícito que as alianças humanas são passíveis de corromperem-se ao sabor dos interesses do homem.  É graça, misericórdia, hesed, “gratuidade absoluta” de Javé, no Primeiro Testamento.

Deus não pedirá contas do sangue do homem, nem mesmo dos assassinos, os que matam ou cultivam a morte, impondo-a a outros homens… inclusive as feras (Gn 9, 8-17 Lev 17,10-14; 19,26; Dt 12,23).  Finalmente, a fonte “javista”, no final do capítulo 8 (21-22), em consequência do sacrifício de Noé, relata uma repercussão dessa aliança gratuita: “Não amaldiçoarei mais a terra por causa do homem… nunca mais castigarei os vivos como tenho feito. Enquanto durar a terra, semeaduras e messes, frio e calor, verão e inverno, dia e noite não terão fim”!

Na tradição pascal veterotestamentária, a celebração da Páscoa precedia o deserto. Na tradição sinótica (NT), o deserto precede a Páscoa. O deserto marcou o início do ministério de Jesus, além de aparecer em algumas vezes na história do seu ministério. Após o batismo, Jesus retirou-se ao deserto onde jejuou, orou e foi tentado. No deserto, após vencer a tentação, sujeito a inimigos naturais, lobos, serpentes, ele foi servido pelos anjos que o protegiam e preservavam. Deste modo, o deserto é lugar de provação e da providência protetora divina. Diferentemente do povo de Deus na história da peregrinação no deserto (que blasfema, idolatra a prosperidade, a ganância por riqueza, através do bezerro de ouro…), Jesus venceu com a ajuda da Providência. Superou a provação (sem-lar, sem-terra, sem-saúde assistida, sem orientação escolar, por exemplo) e manteve-se fiel a Deus.

Lembramo-nos de 2 bilhões que passam fome, no Planeta; dos moradores de periferia, 90 milhões no Brasil. Não há luz sobre 13 bolsões de miséria escondidos, no país; 600 municípios, sem urbanização, hospitais, escolas; 20 milhões de pessoas vivendo sob todas as fomes do mundo…  municípios carecem dos mínimos recursos modernos, como eletricidade, água potável, esgotos sanitários, escolas razoáveis; pessoas cujas rendas diárias per capita média não ultrapassa 2 reais. Nas periferias das cidades e metrópoles 90 milhões conhecem o mesmo sofrimento, as mesmas doenças, as mesmas desigualdades. Os mesmos  desertos que os poderes públicas hesitam conhecer e atender.  Seus habitantes continuam sob constante provação.  Por isso, ele, Jesus, não experimentaria a morte às portas da terra prometida, como aconteceu com Moisés. Assim, juntam-se deserto e ressurreição na história de Cristo, ressurreição em todos os significados possíveis, unindo batismo e eucaristia (ceia pascal) em um mesmo movimento. Batismo e deserto marcam o início do ministério de Jesus, enquanto a eucaristia e a ressurreição marcam o final.

Mateus dedica-se a mostrar que também Jesus foi tentado no deserto por quarenta dias, antes de iniciar seu ministério, ou a pregação da chegada do Reino de Deus. A partir daí, a Igreja Cristã, especialmente nas comunidades do Apocalipse, sob resistência política, enxerga sua provação como o deserto, onde as águas do “dragão” (fome, abandono político, opressão, miséria) tentam engolir a comunidade (‘provação’), e o deserto engole a água (‘providência’). São figuras e símbolos apocalípticos presentes nos momentos de crise (cf. Carlos Mesters, Apocalipse).

Jesus é o Filho de Deus. Nada de bom se poderia esperar desse homem na luta pela justiça, vindo da obscura Nazaré, uma localidade insignificante ao norte da Judéia. Jesus é  alguém sem nenhuma carta de apresentação, sem pistolão, sem partido ou protetor político (Mc 1,9-15). Jesus é um judeu nazareno sem compromisso com essênios, fariseus, hasmoneus, saduceus, ou extremistas zelotas. No entanto, é com ele que acontece algo de inesperado: “Logo que Jesus saiu da água, viu o céu se rasgando, e o Espírito, como pomba, desceu sobre ele. E do céu veio uma voz: ‘Tu és o meu Filho amado; em ti encontro o meu agrado’ ” (1,10-11). A manifestação do inesperado, do novo, é descrita pelo evangelista através de um rasgão do céu e de uma voz que de lá veio. O céu se rasgou – Marcos diz que em Jesus se realiza outra profecia de Isaías. De fato, o desejo do profeta era: “Estamos como outrora, quando ainda não governavas, quando o teu nome, Iaweh, nunca fora invocado. Quem dera rasgasses o céu para descer (a justiça)!” (Is 63,19).

Pois bem, esse desejo agora acontece. O céu se rasga para que Deus esteja presente entre os homens. O que é que faz com que o céu se rasgue e o Espírito de Deus desça sobre Jesus? O livro do Êxodo mostra claramente por que Deus desce: “Iaweh disse: Eu vi bem a miséria do meu povo que está no Egito. Ouvi o seu clamor contra seus opressores, e conheço os seus sofrimentos. Por isso, desci para libertá-lo do poder dos egípcios [escravidão econômica] e para fazê-lo subir para uma terra fértil e espaçosa, terra onde corre leite e mel…” (Ex 3,7-8). O cenário, porém, é dominado agora pelos assírios, e depois pelos babilônios.
 
No homem Jesus, portanto, reaviva-se para os oprimidos a experiência de Deus agindo na história para libertá-los. Memória do “êxodo”. A presença do Espírito em Jesus é muito importante porque indica a presença do divino no homem de Nazaré (remeto ao comentário sobre a Transfiguração do Senhor – entre meus comentários do 7o. Domingo do Tempo Comum, próximo passado, 19.fev.; ver também o comentário abaixo: 1Pe 3,18-22 ).

Mais uma vez, são as Escrituras que ajudam a entender o texto de Marcos. A voz vinda do céu, ao declarar Jesus como Filho amado, no qual o Pai encontra o seu agrado, nos faz lembrar duas passagens do Antigo Testamento: Salmo 2,7 e Isaías 42,1. Marcos, portanto, já confessa a sua fé: Jesus é o Messias, o Filho de Deus, que reinará sobre os homens. Mas, de que reino fala? Certamente é o Reino de Deus, cerne da pregação de Jesus nos evangelhos. No entanto, esse rei é o servo escolhido por Deus Pai, a serviço da justiça (“promover o direito entre as nações”). Para entender claramente as características desse “rei” recorreremos às parábolas: “o Filho do Homem veio para servir e não para ser servido”, cf. 10,42-45.  E não pronunciamentos, julgamentos, como o falso senso-comum acredita, de Mateus 25; especialmente a última, referente à solidariedade diaconal aos desgraçados: “Quando te vimos”? (Mt 25). O batismo de Jesus não é apenas um exemplo de humildade de Jesus, mas a revelação de que ele é o Messias esperado, o Filho de Deus presente no mundo (E. M. Balancin).

Derval Dasilio

Pastor da Igreja Presbiteriana Unida do Brasil

2012/02/13

7º Domingo do Tempo Comum (depois da Epifania) – Ano “B”

Filed under: Sem categoria — Derval Dasilio @ 18:50

7º Domingo do Tempo Comum (depois da Epifania) – Ano “B”
Alternativa: Domingo da Transfiguração                                                                                                                                    Isaías 43,18-15 – O povo parece ser cego e surdo…
Salmo 41 – Cura-me, tenho pecado contra ti
2 Coríntios 1,18-22 –  Sim e não?
Marcos 2,1-12 – Levanta, sai da cama… anda.

 “Há mansões nesse lindo país”, diz o antigo hino evangélico. Não só, mas edifícios, residências caras, proventos de milhões dos fieis para os parentes e laranjas eclesiásticos. O momento é identificado como “grandes igrejas, grandes negócios”. É possível conceber  passivamente, sem indignação, a existência de “profissionais da santidade”, pessoas destacadas e separadas para a busca pessoal do “estado de perfeição espiritual” onde as preocupações com a justiça e a solidariedade para com os fracos desaparecem, enquanto a graça é distribuída por mãos levianas? Tem preço, essa “graça”, e o custo é permanecer nas mãos de imperadores eclesiásticos milionários do evangelical business que se apropriaram do tesouro da fé para enriquecerem? A graça preciosa é jogada no lixo? Oferecendo-se um perdão equivocado, que não muda ninguém, conforto provisório, resolve-se o problema permanente da culpa não perdoada? O “perdão” eclesiástico, sujeito a prestações em dízimos e ofertas compulsórias, cessa quando o fiel pára de pagar? Mesmo depois do escândalo, da fraude trazida a público, o fiel ainda acredita que a escravidão religiosa lhe dará liberdade?

Confirmando a graça e a misericórdia de Jesus com coerência (Mc 2,1-12), obtemos, através dos termos  hesed e xáris (misericórdia, no AT e NT), um exemplo de gratuidade. O deficiente é trazido por outros, que se arriscavam no meio da multidão por causa da restrição religiosa, que também o obriga ao confinamento e marginalização. A sociedade religiosa  reage, pois sua estrutura está montada em princípios que impõem a exclusão, sintonizada com a sociedade que naturalmente impõe a marginalização do doente e do deficiente. Qualquer mudança, qualquer alternativa além dos preceitos, da carga de tributos dizimais compulsórios, impostos religiosos, além dos ritos de purificação, lhe parecia impossível. Para ela a religião interesseira está acima da vida. E a vida dos seus fieis lhe pertencem. Ninguém tasca… elas possuem a alma do povo.

Detendo-nos, vamos encontrar o tema recorrente da cura e do destravamento das pessoas,  nessa passagem: uma pessoa dependente das outras, tipicamente um deficiente físico, como tantos, rechaçado socialmente; impedido de participar produtivamente da sociedade onde se encontra. Compreendendo que somos envolvidos pela misericórdia de Deus (a Bíblia não discute conceitos de espiritualidade). A misericórdia dá solidez ao corpo de Cristo. Somos convidados a concretizar a prática libertadora do Evangelho. No testemunho do Reino de Deus e sua justiça, prepara-se o Reino. Por outro lado, como diria Paulo Freire: “ninguém se liberta sozinho, nós nos libertamos em comunhão”. O primeiro passo é abandonar a ganância nos comprometendo com a vida. Buscando a justiça e a solidariedade para com os que sofrem. No encontro com Jesus, Zaqueu, popular que enriquece roubando seu povo, passa por uma mudança profunda e permanente (Lc 19 1-10). Por exemplo, Lutero teria dito dessa passagem: “Foi a graça preciosa que transformou sua existência por inteiro. Teve que largar tudo e seguir o Mestre”. A Graça de Deus atinge-nos na essência da vida e chama-nos para o discipulada. Baratear, ou jogar a graça no lixo, pela venda ou manipulação do dinheiro consagrado no altar, é desprezar o próprio Deus.

Jesus inicia seu trabalho a partir da relação cultural existente: pecado e castigo. A doença ou a invalidez são atribuídos ao pecado hereditário. Diz ao entrevado: “por que não levantas, se não és inválido por causa de pecados que atribuem a ti?” A saúde espiritual, para ser recuperada completamente, necessita de um “remédio” eficaz: vontade para fugir de determinismos culturais, religiosos ou não. Como é a crença na irreversibilidade do Mal, da inevitabilidade do pecado, da doença e da deficiência. A liberação da culpa não mais existente se estabelece através da autoridade da Palavra de Jesus. Diante de todos, o deficiente precisa “levantar” e exigir seus direitos. Nem a igreja, nem a sociedade  representam o Reino. Não podem cobrar nada mais, depois do perdão de Deus. A graça, contudo, não liberta de compromissos com o Reino, nem nos coloca nas mãos de charlatães milionários, ou donos de igrejas, que “perdoam pecados” exigindo a retribuição de quem é perdoado. O perdão de uma culpa tida como hereditária é dado de graça. Jesus nega a culpa herdada, divida a ser paga em prestações como o imposto religioso.

O sofrimento do deficiente é complexo e misterioso. Não pode ser explicado de maneira simplista. Jesus mesmo rejeita a interpretação do “castigo de Deus” no doente ou deficiente. Não aceita, também, o preconceito. Critica e repele o pretexto de “pureza ritual”, de santidade, para excluir pessoas do convívio fraterno e da comunhão da mesa. O que é a santidade religiosa, senão uma forma de omissão, ou exclusão espontânea? Jesus exalta a vida em primeiro lugar: todos têm direito à vida; todos gozam  dos direitos humanos e do exercício da cidadania. Jesus resgata a pessoa para o uso dos seus direitos fundamentais, inclusive de trabalhar e produzir o desenvolvimento da sociedade na qual elas, as pessoas deficientes, ou o enfermas, se inserem. O poder oculto da pessoa deficiente e dependente também aflora com a libertação da consciência de pecados ancestrais atribuídos injustamente (Mc 2,1-12).

Temos uma mensagem de salvação, hoje. Devemos anunciá-la. Mas ficamos obrigados, mesmo com gestos simbólicos, a tornar essa pregação em prática. O Reino é de Deus  deve ser anunciado, sim. Mas deve ser também construído, sendo que somos ferramentas, massa de construção, cimento e tijolos do projeto de Deus divulgado por Jesus. O Reino deve “concretizar-se” em nós e no mundo. Não desconhecemos o que pode fazer a força (dynamis) do Evangelho contra o mundo corrompido comandado pelos inimigos de Deus; contra os adversários do Reino encastelados na religião da ganância, no sistema econômico egoísta, nas ideologias políticas oportunistas, opressivas, permissivas na exploração dos fracos, abusando da consciência pela propaganda enganosa, materialista, de falsa prosperidade… a não ser para os impérios religiosos e seus beneficiários.

Por tudo isso, o Reino requer ações concretas da parte dos cristãos. Deus não se comunica com o mundo, e nenhuma pregação fará efeito sem os testemunhos das comunidades de fé, no sentido de se apresentar a salvação com visibilidade: Deus está agindo para tornar mais humana a vida dos homens e das mulheres deste mundo. Palavra e ação, teoria e prática, falar e fazer. Jesus é o cimento desta unidade. Roger Garaudy nos lembra a importância do evangelho como um alerta para a realidade do Reino. Na missão de Deus (missio dei), não se entra sem privação, sem luta, sem indignação e reação (disse Jesus: levanta e anda!). Jamais se entra no Reino pela “posse”, pelo “sucesso”, pelo exercício da “ganância”, ou pela “santidade” e omissão geradas na religião interesseira que produz impérios financeiros e se omite na salvação do mundo. 

Derval Dasilio

Pastor da Igreja Presbiteriana Unida do Brasil

2012/02/07

6º Domingo do Tempo Comum (depois da Epifania) – Ano “B”

Filed under: Sem categoria — Derval Dasilio @ 9:33

6º Domingo do Tempo Comum  (depois da Epifania) – Ano “B”                                                                                                                  [Alternativa: Comentário ao Domingo da Transfiguração. Ver abaixo: Comentários]                                                                                               
2Reis 5,1-14 –  A doença humilha e causa exclusão
1Coríntios 10,31-11 – Um só corpo um só espírito… para a glória de Deus
Marcos 1,40-45 – Desapareceu a doença, e ele ficou limpo…

Temos uma página bastante comum no evangelho de Marcos: Jesus cura, não somente prega, enquanto  associa palavras e atos.  Suas ações trazem libertação, porém libertação integral, espiritual e corporal ao mesmo tempo. Seu modo de expressar a religião que professa inclui a misericórdia, o cuidado, o amor libertador, valores espirituais elevados para muito acima da religiosidade comum, sem misericórdia, sem sentimentos, catártica, regulamentar, preceitualista.  Jesus não pratica essa religião. Ao contrário, combate a religião moralista que impede a abertura para o outro, ou para a comunidade em si. Para ele, amar é libertar. O corpo doente obstaculiza a vida plena e o próprio amor. Jesus não discute em nenhum lugar as ambiguidades de corpos e espíritos separados. Ou almas liberadas das enfermidades demoníacas de sua época. Ele simplesmente cura as pessoas, mereçam ou não seu cuidado. O Reino de Deus  está próximo… ele anuncia. O reino é a justiça que tudo alcança; é  compromisso com a causa de Deus, e  não uma abstração sobre o Mal e o Bem. Quando um usuário de drogas, ou um doente qualquer,  é curado diz: “fiquei limpo”. Concretamente, e não “espiritualmente”. Precisamos aprender com o Evangelho.

Os monges gregos ainda no começo da Idade Média diziam: “o espírito é para Deus, o corpo é para o imperador” (“espírito” é nous, e soma é “corpo”, no grego ático e no koinê, Novo Testamento). Mas isto não corresponde ao pensamento paulino  no NT (E.Käsemann). Nenhuma escola rabínica ensinaria tal coisa, e Paulo foi instruído na concepção rabínica. O modelo de espiritualidade religiosa que prevaleceu no cristianismo cultural não tem que ver com a revelação bíblica, mas sim com uma religião pagã do século 6 a.C.,“Religião Órfica da Trácia”. Porém, desde os primeiros séculos da era cristã essa concepção se tornou dominante no cristianismo histórico (Renold Blank). E prevalece no cristianismo ainda hoje.

Trata-se de cultura comum no mundo mediterrânico, onde o cristianismo teve início. Para as pessoas mais simples, desse modo, “o espírito é tudo, o corpo não vale nada; o espírito valoriza o corpo e a matéria degrada o espírito”. Assim, o modelo antropológico dualista (espírito separado do corpo) tem suas raízes numa cultura alheia à do povo bíblico. A depreciação do corpo prossegue com o equívoco (“carne” em oposição ao “espírito”). O Novo Testamento, porém, tem outro enfoque. Não absorver as razões culturais e ideológicas de um cristianismo aculturado já distante das fontes apostólicas do pensamento cristão primitivo sobre o ser e a vida. A concepção bíblica refere-se ao ser total, que é corpo, que é alma e que é espírito, finalmente entrelaçados e indivisíveis.

Adão (’adam), humanidade, coletivo de homens e mulheres (cf.: o feminino de Adão é adamah, terra fecunda), tem um corpo, começa a viver com o “alento”  do Criador. A intensidade da vida é variável, de momento para outro. Um enfermo e/ou um morto, são vidas, corpos debilitados, prejudicados, porque incompletos, privados das possibilidades do corpo sadio (2Rs 8,8; 10; 14,20 e 1-7; Gn 25,30 e 32; Is 5,27). Despertar, curar, ressuscitar o corpo, significa recuperar faculdades, dispor novamente de toda capacidade na vida oferecida por Deus. Isso aparece aos olhos do israelita como um bem inestimável do qual dependem todos os bens. Ou seja, a vida é a mais preciosa das bênçãos, nada é superior a poder-se viver com dignidade (Pv 3,16). A vida e o corpo são inseparáveis e indissociáveis.

Sob o tema, integridade espiritual do crente, Paulo discutirá com os cristãos coríntios o bom emprego das palavras “espírito” e “espiritualidade”. Quase sempre nos referimos a esta palavra pensando como os filósofos gregos, e não como o israelita, que nunca imaginou um possível estado de perfeição do espírito dissociado do corpo; que a abstração espiritual requer um afastamento do corpo; que fora do corpo e das realidades humanas é que se dá o melhor estado espiritual, aquele alcançado pela mortificação do corpo.

Essa concepção, além de tudo, não é uniforme, comparada à do evangelista Marcos e do apóstolo Paulo. Paulo prossegue nesta linha, como um bom israelita: “quer comam ou bebam, ou que façam qualquer outra coisa, façam tudo para a glória de Deus”. Não só as atividades religiosas tradicionais têm a ver com essa espiritualidade, mas o comum do cotidiano de cada um e de todos “…porque nós, embora muitos, somos um só corpo” (1Cor 10,17; 10,31-11). Corpo! Esse acréscimo identifica outros aspectos, como os que envolvem a igreja, a comunidade, a sociedade e o crente. Somos o que somos porque somos um “corpo”, meu corpo é parte de outros corpos, da igreja, da comunidade, da sociedade, da coletividade humana. A unidade do corpo reconhece-se no locus teologicus  que é a sociedade humana. Porém, ambos privilegiam a libertação integral do ser humano. A cura do corpo identifica a redenção alcançada no reinado de Deus. Aqui, o socius é o companheiro, irmão, membro integrante da mesma sociedade. Preocupar com o corpo é o mesmo que cuidar da responsabilidade de todos, sejam cristãos ou não.

Jesus é também representante do pensamento sobre a vida. Pensamento que prevalece na Bíblia Hebraica e se estende ao Segundo Testamento.  O israelita pensava que a vida não é simplesmente a existência, ou a experiência humana individual. A vida (hayyîn), na melhor tradição israelita, é algo definido no plural intenso da experiência em sociedade (R.Martin-Achard). Além do grupo religioso. Viver é mais do que “ser”, nenhuma abstração cabe aqui, nem racionalismos. Vida é sangue… “o sangue é a alma do corpo”, combustível concreto da vida, como o Deuteronômio dirá (12,23). A vida se confunde também com o “fôlego”, no momento da criação do ser-homem, quando Deus soprou nas narinas do homem “um fôlego de vida”.  

Jesus cura, não prega uma abstração sobre o mal da doença. Inclusive as doenças da sociedade humana.  Suas ações trazem libertação, porém libertação integral, espiritual e corporal ao mesmo tempo. Seu modo de expressar a missão do Reino inclui a misericórdia, o cuidado, o amor libertador pelos enfermos, valores espirituais elevados para muito acima da religiosidade comum, sem misericórdia, sem sentimentos, catártica, preceitualista. Tiago reforçará: “a religião verdadeira é a misericórdia”.

Derval Dasilio

Livro: O Dragão que habita em nós, Metanoia, 2010

2012/01/30

Omissão – 5o. Domingo do Tempo Comum – (depois da Epifania)

Filed under: Sem categoria — Derval Dasilio @ 10:18

5o.DOMINGO DO TEMPO COMUM – ANO “B”

Isaías 40,21-31 – Deus é fiel, apesar de tudo
Salmo 147, 1-11;20c – O Senhor sempre amparará o pobre    

1Coríntios 9,16-23 –  Lutar contra a ganância, é preciso

Marcos 1,29-39 – Jesus cura, salva e liberta o ser inteiro

Não se pode falar do sofrimento e da origem do mal sem tocar na jóia literária que é o livro de Jó.  O que é o mal, um problema metafísico? O mal é uma constante da vida humana? Uma reflexão sapiencial sobre problemas insolúveis, mistérios insondáveis que a Bíblia Hebraica reconhece, o eterno problema do mal? Pecados estruturais denunciam-no. Um problema da “teodicéia”, como reflexão filosófica que se esforça por demonstrar a existência de Deus, não é suficiente. Mas a questão tem outro enfoque, na teologia do apóstolo Paulo. Se temos avançado, no plano tecnológico, científico, falta-nos a sabedoria fundamental para ver, ouvir, falar com clareza do mal que nos cerca.

O mal não é uma abstração. Na sociedade perversa, violenta; na economia que produz riqueza para poucos, nas desigualdades, quando se distribuem os bens sociais em migalhas para um contingente populacional gigantesco. A maior parte dos brasileiros. Vemos, ouvimos e falamos corretamente da realidade concreta do sofrimento?

A palavra de Cristo situa os cristãos entre realidades conflitantes, excludentes à primeira vista. Um mundo de desigualdades gritantes, assassinatos, exploração ou abandono de doentes, violência contra moradores de rua, doenças sexuais ou doenças sazonais, fome, desemprego; um mundo onde falta habitação, saúde pública, escola, hospitais, em contraste com o outro, perverso, estrábico, prospero e egoísta. Um chora de sofrimento, outro dá gargalhadas no gozo do que há de melhor. A palavra de Jesus, no entanto, é para os sofredores: “Bem-aventurados os que choram”; “No mundo terás aflições; coragem, porém, eu venci o mundo”.  Ele nos convida a verificar, examinando com atenção a intensidade e o agravamento do sofrimento humano nos dias de hoje.

Como no Salmo 73,  o mesmo enfoque de Jó, a experiência de Deus nos leva à sinceridade e honestidade sobre nossas visões do mundo (Paulo Rückert), deveríamos ser capazes de enfrentar a inveja e a ganância que nos sobrevêm ao observarmos o  sofrimento do fraco e o sucesso dos “perversos”: eles têm riqueza, bem-estar garantido nos níveis que implicam em saúde, previdência social, escolaridade em todos os graus, habitação e lazer. Os perversos têm tudo, e suscitam inveja, enquanto desfrutam a vida como se estivessem em férias de verão permanentes: praia, suor e cerveja…

A prática da cura, a luta contra o mal, nas ações de Jesus, tem a ver diretamente com a liberação do ser inteiro para a vida plena (Mc 1,29-39). Não há divisões, dicotomias, ambivalências, duplicidades, no intento de Jesus em curar alguém. Os evangelhos jamais falam que Jesus salvava almas separadas do corpo (ou dos corpos…), em favor do espírito das pessoas. Recuperar a saúde de alguém é recuperar o corpo, a capacidade de trabalhar, de produzir, de alcançar dignidade, possibilitando-se a reintegração social do doente, geralmente considerado um peso para a sociedade. Curar é salvar e libertar.

Mas o comum, ao tempo dos apóstolos, e de Jesus, era que os enfermos fossem considerados “possuídos por maus espíritos”. Os alijados, excluídos, não se atreviam a aproximar-se, o mesmo ocorria com os membros “sãos” da sociedade, também não olhavam os desgraçados e doentes. Jesus  contrariava as regras, dispunha-se a servir os mais fracos com dedicação e cuidado, para curá-los.

Ser cristão, entre muitas coisas, é também lutar contra o mal, seja o que origina a desigualdade e exclusão, seja o que impõe a marginalização social, dividindo as pessoas em indivíduos de primeira, segunda e terceira classes. Num mundo que experimenta indicadores escabrosos de miséria, enfermidades endêmicas e  fome, anunciar o Reino de Deus é uma tarefa de suma importância. A omissão é intolerável.

Não há luz sobre 13 bolsões de miséria escondidos, no país; 600 municípios, sem urbanização, hospitais, escolas; 20 milhões de pessoas vivendo sob todas as fomes do mundo…  municípios carecem dos mínimos recursos modernos, como eletricidade, água potável, esgotos sanitários, escolas razoáveis; pessoas cujas rendas diárias per capita média não ultrapassa 2 reais. Nas periferias das cidades e metrópoles 90 milhões conhecem o mesmo sofrimento, as mesmas doenças, as mesmas desigualdades. O palco não foi desmontado.

Torna-se importantíssimo reagir às teologias salvacionistas que “espiritualizam” a pobreza e a miséria, e a teologia da ganância que explora a pobreza com falsas bem-aventuranças (Maria Lucia de A.Gama). Elas são motivo de sofrimento para muitos, milhões de brasileiros. Repetem-se as atitudes dos adversários de Jesus, omissão intencional, que recusavam-se a ver o pecado estrutural da sociedade, gerador de insanidades, desigualdades, violências, enfermidades de toda ordem. Tentavam impedi-lo de salvar e libertar, quando estava demonstrando que na pessoa doente estavam cristalizados todo os males deste mundo. Especialmente aqueles que vêm da má consciência sobre os  verdadeiros e concretos problemas humanos, quando se negam suas origens e responsabilidades. 

2012/01/25

COMO PILATOS… 4o. Domingo do Tempo Comum (depois da Epifania)

Filed under: Sem categoria — Derval Dasilio @ 11:25


4o.Domingo do Tempo Comum (Depois da Epifania) – Ano  “B”
                                                                                                                                      

Deuteronômio 18,15-20 – A Lei é  dádiva  em nome  da misericórdia de Deus                                                                          
Salmo 111 –  As obras do Senhor são a verdade e a justiça                                                                                                                 
1Coríntios 8,1-13 – “…pecam golpeando a consciência fraca dos irmãos”                                                                                              
Marcos 1,21-28 – “Que temos contigo, Jesus Nazareno”?

 ”A droga é como o pecado de Adão, sempre existiu”; “a ONU declarava guerra à droga estimulada pelo moralismo religioso dos EUA…” “Guerra à droga?, a paz com usuários é que deve ser buscada”, diz o sociólogo Fernando Henrique Cardoso (Documentário: Quebrando o Tabu). Toda guerra favorece à indústria da morte. Envolve interesses econômicos e oportunismo políticos. Matar, anular, castrar, reprimir, excluir, dessocializar, é o nome da guerra à droga. Quem lucra são os traficantes, o crime organizado e a polícia corrupta que não sobrevivem sem a droga. Quem não pensa nas consequências sobre a família, a comunidade, a sociedade,  a coletividade, necessita saber da “pacificação”  diante das drogas, e não da guerra. Paz com as drogas significa compaixão, inclusão, aceitação, cuidado, misericórdia. Doentes precisam de tratamento e não de cadeia, onde a droga é liberada e consumida à luz do dia (Dráuzio Varella). Hospitais, ambulatórios, medicina da saúde, são direitos humanos que devem ser buscados.

A capacidade de discernir cada situação particular foi uma das coisas que as multidões mais admiravam em Jesus (Mc 1,21-28). Enquanto os mestres da religião respondiam com explicações detalhadas, exaustivas, citando códigos, leis, regulamentos, preceitos e doutrinas, Jesus respondia com a verdade simples e cristalina. Estava interessado em cada situação particular do ser humano, especialmente aquelas referentes ao tolhimento da liberdade e negação de direitos fundamentais. O tormento moralista no controle das consciências impedia, como ainda impede, a espontaneidade da fé enquanto esconde a compaixão e a misericórdia. O interesse moralista não encobre a  ideologia do poder, do controle político ou religioso das massas. Muitos movimentos e grupos religiosos mostram interesse pelo indivíduo enquanto servem como prosélitos de causas materialistas, mercadológicas, sem fraternidade (filia), sem comunhão (koinonia) e sem serviço ao próximo (diaconia). Jesus declarou-se abertamente contra  a idolatria da letra morta, ou seja: a lei moralista; manifestou-se contra o sábado (“… o homem não foi feito para o sábado”; ninguém foi feito para a lei!) e exigências que ignoram o ser humano e suas necessidades; pronunciou-se contra os costumes, prescrições que engessam a misericórdia, o cuidado, o serviço ao próximo. Enfim, Jesus se prontificava a combater a religião sem misericórdia e solidariedade, porque esta omitia o essencial: o homem e suas carências.

Diante da repressão e violência inaceitáveis contra pessoas doentes ou drogadas, em dez anos Portugal reduziu drasticamente o consumo de drogas tratando o usuário de como paciente tratamento médico e não como criminoso (52% deixam a droga). Enquanto isso reduzia o campo de atuação do traficante. A saúde pública incluía substitutivos da droga clandestina nos receituários de pacientes usuários de drogas; busca a aproximação espontânea do doente, não a repulsa e a repressão; dizia não aos riscos da clandestinidade, fazia o papel da medicina regular, que se abre ao que quer ser tratado. Ou seja, a maioria dos usuários.

Para o Evangelho, o endereço   poderia ser o despoderado (anawin), encurvado, dobrado pelas circunstâncias, humilhado pela própria vida, na Bíblia Hebraica, e no Novo Testamento (ptochos), são os ignorados e desprezados pela própria sociedade. Como o usuário de drogas. A sociedade religiosa é a primeira a excluí-lo e  identificá-lo como pecador e eximir-se de culpa pela injustiça que sofre. Ou seja, a compaixão escapa aos regimentos e declarações doutrinais. Devemos nos surpreender  com isso, uma vez que a sociedade, biblicamente, é casa, lar, oikos, como a igreja. O socium é o companheiro, um irmão de grupo numa mesma sociedade eclesiástica. Essas duas realidades fundamentais de todos os seres humanos encontram o sofredor  no usuário de drogas, no deficiente, no portador de HIV, no oprimido pelas enfermidades físicas ou sociais (tabagismo, alcoolismo, drogadismo, sexoaholismo, etc.), no meio e junto ao grupo maior responsável pelo todo, ou  à coletividade humana.

O seguimento de Jesus envolve a Salvação, antes que qualquer condenação humana, como é comum nos nossos dias. Seguir a Jesus é um exercício constante de humildade. “Propôs Jesus esta parábola a uns que confiavam em si mesmos, como se fossem justos, e desprezavam os outros: Subiram dois homens ao templo para orar: – um fariseu, e outro um popular. O fariseu orava de pé (com suposta autoridade), e dizia assim: Graças te dou, ó meu Deus, por não ser como os outros homens, que são ladrões, injustos, adúlteros (e drogados, tabagistas, alcoolistas…). E não ser também (moralmente) como um homem comum. Eu, por mim, (religioso convicto) jejuo duas vezes por semana e pago o dízimo de tudo quanto possuo. Apartado a um canto, o popular nem sequer ousava erguer os olhos para o céu; batia no peito, e exclamava: Meus Deus, tem piedade de mim, pecador. Digo, acrescentou Jesus, que este voltou justificado para sua casa, e o outro não, porque todo aquele que se exalta será humilhado, e todo aquele que se humilha será exaltado.” (Lucas, 18:9-14).

Precisamente por isso, Jesus luta contra os demônios que dominam a consciência social (sistemas de pensar: da religião, da política, da economia, da cultura, da justiça civil). Lutou contra as ideologias instaladas nas sinagogas, no Templo e na sociedade. Jesus não se identificou com propósitos religiosos moralista no combate às doenças socializadas; não aprovou oportunistas, exploradores da credulidade popular, invadidos por “espíritos imundos”. “Hipócritas”, “túmulos caiados”, “tira primeiro a trave do teu olho, antes de julgares”, são imprecações de Jesus dirigido aos condutores da sociedade civil ou religosa. O povo simples se encantava com a ousadia de Jesus expondo à luz do dia a ideologia religiosa reinante, a mesma que sustenta pessoas e grupos nos dias de hoje, propondo regras com ênfase moralista.

Como dizia alguém, talvez Oscar Wilde, “o moralismo é o último refúgio de um canalha”, exatamente porque é suficientemente abrangente para deixar todas as patifarias, corrupções, protegidas, ao abrigo de um suposto interesse coletivo por justiça  ou transparência. O político evangélico é ardoroso, contra a inclusão homossexual; usa a camisa preta contra a pedofilia, na campanha, e é pego pelo Ministério Público roubando do erário sem qualquer pudor, mas permanece impune. O mais inexpugnável dos inimigos da justiça é o falso moralista, o oportunista de quaisquer matizes, ideológico, partidário, intelectual, político, religioso. Em todos os moralistas existe a voracidade insaciável e destruidora de uma “aids social”, de um “câncer dos costumes” (Wagner Siqueira) , como se diz da droga.

Que faremos, para seguir Jesus? Ouviremos suas propostas, ou ouviremos os encantadores de multidões com o brilho grosseiro das ideologias de poder, do moralismo e outras modas que vão e voltam nas comunidades eclesiásticas? Prefere-se aplacar a consciência religiosa do pecado, do mal, que o vício representa? Faz-se uma declaração sobre o assunto, regulamentando a condenação e exclusão da vítima, e acredita-se cumprido o papel eclesiástico diante da   sociedade civil? Essa é a religião de Pilatos… Aliás, é lavando as mãos que Pilatos entra no Credo das igrejas cristãs. O caráter normativo do Evangelho há de nos lembrar: o Reino de Deus está diante nós. Aos perseguidos, discriminados, pobres, desfavorecidos, desgraçados e enganados deste mundo, o Reino é anunciado… e “bem-aventurado é aquele que não se escandalizar com a minha causa” (Lc 7,23). Aqui, nesta passagem, se expressa o centro vital da mensagem de Jesus.

É esse o sentido que Jesus dará à sua hermenêutica fundamental: preservar a vida, a dignidade das pessoas, a intimidade e liberdade de cada ser humano. Traduzidos na observação dos direitos humanos fundamentais. Isso significa que Jesus sabia das palavras de Jeremias: “(…) cada um levará a Lei  no coração”. Ou seja, terá consciência da justiça. A Lei não é uma obrigação, mas uma dádiva orientadora para todo o povo. Envolve o uso da terra, da moradia, do trabalho, da responsabilidade social para com os oprimidos e esmagados deste mundo.

Derval Dasilio

Pastor da Igreja Presbiteriana Unida do Brasil

2012/01/17

CONVERSÕES – 3o. Domingo do Tempo Comum [depois da Epifania]

Filed under: Sem categoria — Derval Dasilio @ 14:11

CONVERSÕES – 3º Domingo do Tempo Comum – Ano B  
Jonas 3, 1-5.10 – Os ninivitas converteram-se a contra-gosto do profeta                  
Salmo 62,5-11 – Minha alma espera em silêncio            
1Coríntios 7, 29-31 – As coisas passam, neste mundo        
Marcos 1,14-20 – Convertei-vos e crede no Evangelho! 

A conversão consiste em mudar de religião ou simplesmente adotar a causa de Jesus? O conceito de conversão necessita também alguma reformulação entre os próprios cristãos. O evangelho de hoje é, por assim dizer, “o primeiro sermão de Jesus”. Marcos o coloca ao início de seu evangelho como um manifesto programático. Possui todos os elementos centrais do que vem a ser a pregação  de Jesus. Todo o evangelho põe em relevo a importância central do Reino de Deus na missão de Jesus (“buscai em primeiro lugar o Reino”; a proposta de Deus para transformar o mundo e seus pensares religiosos, políticos, econômicos…). O Reino não é mais um elemento, mas o centro da pregação de Jesus. Se não se entende isto, não se entende, nem se entende o que é ser cristão e discípulo de Jesus. Ser religioso não representa garantia alguma, pois a própria religião à qual pertenciam Jesus e os Apóstolos recusou e julgou-o.

Jonas 3, 1-5.10 – Esta leitura do livro do profeta Jonas (história contada com datação provável no III séc. a.C.; trata-se de um livro “rebelde”, entre outros, ao judaísmo formativo e suas ênfase racistas, legalistas, e ênfase numa eleição exclusivista), prepara a leitura do evangelho de Marcos, que será centro do lecionário ao longo de todos os domingos do tempo comum depois da Epifania. Como Jesus, Jonas também é enviado por Deus a proclamar sua salvação, a chamar todos os povos e raças à conversão. Que conversão? Certamente ao projeto de Deus para toda a humanidade. Recordemos que os escritores bíblicos não sabiam dos povos distantes do Oriente (Índia, China, etc.), nem sabiam dos povos do Continente australiano ou americano.

Como Jesus, Jonas também experimenta a fragilidade humana (Mateus 4), a tentação de fugir, de não carregar o peso da vontade de Deus que se lhe oferece. Finalmente Jonas vai à cidade pagã de Nínive, a grande capital do império assírio, 700 anos antes de Cristo, e proclama, como Jesus, mais tarde, a vinda salvadora de Deus, ante a qual não resta outra atitude que a de converter-se à vontade de Deus (e não à lei, como querem muitos evangélicos e judeus, simultaneamente).

Jonas é uma denúncia contra todo nacionalismo, centralismo, fundamentalismo, anti-ecumenismo, integrismo, racismo, exclusivismo religioso que pretenda excluir a qualquer ser humano da Graça amorosa de Deus Pai. O pequeno livro de Jonas foi escrito numa época difícil para o povo judeu, quando se sentia a tentação de fecharem-se privilégios religiosos, considerando-os como escolhidos exclusivos. Ao retornarem do exílio, e já reorganizando a nação em torno de uma religião dura, implacável, com ênfase no legalismo religioso. Ali nasceu o fundamentalismo bíblico-religioso ressuscitado recentemente entre evangélicos e católicos, por isso cristãos, para afirmarem o falso exclusivismo, numa hermenêutica da eleição do povo bíblico exclusivamente como tal, adotam a exclusão social, leis racistas, homo e heterofóbicas, interna  e externamente.

Também sofreram a tentação de condenarem todos os demais povos, os quais não partilhavam de sua cultura, de sua fé religiosa e de sua história. Através de Jonas, Deus está dizendo aos judeus que sua salvação há de ser partilhada com todas as nações, inclusive com as nações opressoras, como fora a nação dos assírios. Lição de universalismo, de máxima tolerância, de ecumenismo e de abertura amorosa aos braços de Deus.  A religião exclui, mas Deus deseja acolher todos os seres humanos em sua casa (Jesus disse: “Na casa de meu pai há muitas moradas…”). Algo tão válido em nossos tempos de exclusivismos e fundamentalismos, como nos velhos tempos do Antigo Testamento.

Marcos 1, 14-20 – Depois de narrar o início do evangelho com João Batista batizando a Jesus, com a unção messiânica de Jesus no rio Jordão e com suas tentações no deserto, Marcos relata o início da atividade pública de Jesus: é o humilde carpinteiro de Nazaré que agora percorre sua região, a próspera, mas mal falada Galiléia, pregando nas aldeias e cidades, nas encruzilhadas do caminho, nas sinagogas e nas praças. Sua voz chega a quem quer ouvi-lo, sem exigir nada em troca. Uma voz clara e vibrante como a dos antigos profetas. Marcos resume todo o conteúdo da pregação de Jesus nestes dois momentos: o reinado de Deus começou – pois terminou o prazo de sua espera; perante o reinado de Deus só cabe converter-se à causa de Jesus, o Reino de Deus, acolher e aceitá-lo com fé.

De que rei falava agora Jesus? Daquele anunciado pelos profetas e esperado com ânsias pelos justos. Um rei divino que garantiria a justiça e o direito aos pobres e aos humildes, e excluiria de sua vista os violentos e opressores. Um rei universal que anularia as fronteiras entre os povos e faria confluir a seu monte santo, Sião, a todas as nações, inclusive as mais bárbaras e sanguinárias, para instaurar no mundo uma era de paz e fraternidade, só comparável à era paradisíaca relatada no gênesis.

Este reinado de Deus que Jesus anunciava há 2.000 anos pela Galiléia continua sendo a esperança, de todos os pobres e oprimidos da terra, e está em andamento desde que Jesus o proclamara. Os que o seguem anunciando seus discípulos, os que Ele chamou em seu seguimento para confiar-lhes a tarefa de “pescar”, trazendo às redes do Reino os seres humanos de boa vontade. É o reino que a Igreja deveria proclamar (mas ela reverte a ordem: de coadjuvante quer ser protagonista do Reino, como autoridade religiosa, em equívoco histórico escabroso e inaceitável teologicamente). A tarefa pertence  aos cristãos do mundo se empenham em preparar o Reino de mil maneiras, reflexos da vontade amorosa de Deus: curando os enfermos, dando pão aos famintos, acalmando a sede dos sedentos, ensinando aos que não sabem, perdoando aos ofensores e acolhendo-os na mesa fraterna da comunhão; denunciando com palavras e atitudes os violentos, opressores e injustos. A nós corresponde, como Jonas, Paulo, retomar as bandeiras do reinado de Deus e anunciá-lo em nosso tempo [Gravura: Cerezo Barredo].

Derval Dasilio

Pastor da Igreja Presbiteriana Unida do Brasil

Calendário Litúrgico – Ano B

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