Calendário Litúrgico

Advento – Ano B  [Ver: Arquivo do Ano A – 2011]

ESTRUTURA DO ANO LITÚRGICO – ANO “B” [2011/12]

CALENDÁRIO LITÚRGICO 2011-2012

1. CICLO DO NATAL

1.1 ADVENTO
1.2 NATAL
1.2.1 EPIFANIA

1.3 CICLO DO TEMPO COMUM – 1a.Parte
2. CICLO DA PÁSCOA
2.1 TRÍDUO PASCAL
2.1.1 QUARESMA
2.1.1.1 QUARTA-FEIRA DE CINZAS
2.1.1.2 DOMINGO DE RAMOS
2.1.1.3 QUINTA-FEIRA DA PAIXÃO
2.1.1.4 SEXTA-FEIRA DA PAIXÃO
2.1.1.5 VIGÍLIA PASCAL / DOMINGO PASCAL
2.1.2 TEMPO PASCAL
2.1.2.1 VIGÍLIA PASCAL / DOMINGO PASCAL
2.1.2.2 ASCENSÃO
2.1.2.3 PENTECOSTES

3. CICLO DO TEMPO COMUM – 2a.Parte
3.1 TRINDADE
3.2 AÇÃO DE GRAÇAS
3.3 REFORMA
3.4 CRISTO REI DO UNIVERSO

1o. Domingo do Advento – Ano B (Cor litúrgica: roxo/variações dessa cor)

27 de novembro – 2011

I. DOMINGO DO ADVENTO – ANO “B”

Isaías 64,1-9 – Tu vais ao encontro de quem pratica a justiça
Salmo 122 –  Lá está o trono de justiça

1Coríntios 1,3-9 –  A fé e a esperança significam mais que o conhecimento

Marcos 13,24-37 – A justiça vem habitar entre nós

O Advento lembra uma grande crise. A história da humanidade é feita de crises, momentos de reorganização do caos político, ou social, ou econômico. Devemos também considerar as crises religiosas, como a que observamos nos tempos atuais, que afirmam a religião de mercado impondo-se sobre a fé histórica, e se declarando vitoriosa sobre o movimento unificador da Igreja de Cristo. As crises se repetem, mas a interpretação religiosa desses acontecimentos se presta a muitos matizes, e não poucas vezes a falsas promessas. A coação da linguagem apocalíptica frequenta púlpitos e comunidades, revela nossas crises de identidade. O oportunismo se instala, a morte é anunciada com poder maior que a vida; o temor constrange à aceitação de uma mensagem  desesperada de ganância, ambição particular iniludível, associada ao julgamento de cada um segundo suas posses materiais. É o que se pensa. 

A vinda do Senhor, Advento, no entanto significa esperança para os desagregados, humilhados, pisoteados e esmagados deste mundo. Desigualdades profundas, intolerância, preconceito, exclusão, serão julgadas no juízo de Deus. A ignorância, a humilhação, a pobreza, apontadas na vigilância diária que permite ver os sinais do Reino, constituem tudo aquilo contra o qual se luta, no anúncio do Advento do Senhor. Fazer pressão sobre os interesses hostis contra a vida; corrigir a miopia sobre o real sentido de nossas próprias vidas diante da mensagem do Reino de Deus, é a palavra de ordem do Advento. Algo como alcançar e aprofundar o amor de Deus pelos homens e mulheres, amor que se aproxima de nossas realidades mais tenebrosas. Deus habita conosco na forma do homem que percorre os nossos caminhos. Essa dimensão é alcançada quando mergulhamos em nossos silêncios ou omissões, enfrentando nossas negativas, saindo da superfície para o compromisso e aprofundamento da fé no Deus que se encontra conosco através de Jesus de Nazaré. Estamos em pleno Advento. O Senhor virá em breve. 

Os sinais dos tempos sempre têm sido um critério profético de como crer, de como viver, como esperar por Deus. Qual seria a razão? Por que os profetas pensavam que Deus não havia abandonado a história, não entregara homens e mulheres à desumanização, à indignidade, à impiedade, à maldade e às maldições próprias do reinado adverso do “mundo do malígno”? Está na mesa, inclusive, uma grande questão: por que Deus abandonaria à sua própria sorte o mundo que ele criou com tanto desvelo, como se vê na abóbada da capela Sistina: fiat lux? Por que estariam descartadas a salvação e a liberação daqueles que ele havia criado, do Oriente ao Ocidente? A  proposta de reinado e governo de Deus sobre o mundo e sobre os homens é a resposta.

Uma obra de arte é sempre maior que seu intérprete, já ouvimos isso. Ouvimos também que a obra de um bom autor é melhor que o melhor artigo escrito por qualquer crítico literário. Carlos Mesters diz que o assunto “apocalipsismo” merece essa analogia: os escritos são mais importantes que seus intérpretes. Nos agrada a idéia de Mircea Eliade: “monstros e fenômenos sísmicos e climáticos povoam o passado mitológico da humanidade, onde elementos cósmicos catastróficos são evocados em situações extremamente críticas, crises, através de uma linguagem reveladora, como a desorganização cósmica onde o poder sagrado se oculta”. Uma forma de castigo como o retorno ao caos vem e identifica forças naturais descontroladas operando contra a vida humana enquanto tsunamis e terremotos revelam também a geografia social do mundo. Através da experiência do sagrado, como em todos os povos, simbolismos religiosos interferem na interpretação da catástrofe e do caos. É a crise. O Deus-Redentor de Israel, nos primeiros tempos, fazia-se acompanhar de manifestações grandiosas na natureza: Yahweh! Quando saíste de Seir, quando avançaste nas planícies de Edom, a terra tremeu, os céus trovejaram, as nuvens desaguaram em tormentas. Os montes deslizaram na presença de Yahweh, o Deus de Israel (Jz 5,4-5, comentário: Westermann,).

Marcos 13,1-8 – No Novo Testamento, um discurso escatológico! Marcos bate de frente com a realidade presente face ao futuro que Deus oferece, como salvação e libertação ao final da vida e dos tempos.  Nada do que fala é estranho ao que se pregava e foi registrado na literatura judaica da época: o juízo de Deus irromperia para mudar o rumo da história humana e do mundo. Há muitas semelhanças, embora os outros escritores evangelistas adaptassem seus conceitos à sua própria mensagem. Devemos reconhecer o apocalipse sinótico nesta perícope. Presta-se a muitas interpretações, sem dúvida. O Templo reconstruído seguidas vezes no sentido de representar a unidade nacional, enquanto representa o centro do culto de Israel, gerador de comportamentos, naquele momento, alienante, intimista, disperso, desconcentrado da originalidade, abriga a idolatria pagã convivente com a “idolatria” da Lei. Toda a precariedade da idolatria, ou do culto idolátrico, manifesta-se em tempos de desgraça (Claus Westermann). É a crise.

Os ídolos como também a própria Lei, impõem pesadas cargas, necessitam de “bestas” para transportar seu peso. Uma analogia é construída sobre a incrível debilidade dos mesmos, diante de um Deus que é independente dos estatutos religiosos: o Deus de Jesus é diferente, é ele quem carrega as pesadas cargas impostas sobre seu povo, e as transportará até o fim (cf.Is 46,1-4). A história se resolve ao pé da letra?

Evoca-se o profeta Daniel, não sem motivo; a resistência dos macabeus aos helênicos, ao mesmo tempo [ricos comerciantes acabaram por comprar terras, surgindo uma classe de grandes latifundiários e outra de desempregados e mendigos, causando descrença na política atuante e fomentando a divisão ideológica. O helenismo se implantava, enquanto as tradições centradas no Templo eram cultivadas. Surgiram então três grupos, de características sociais religiosas e políticas distintas: Tzedukim (Saduceus), Prushim (Fariseus) e os Issiim (Essênios); ocorria o desaparecimento dos movimentos proféticos (tão a gosto do povo), enquanto sacerdotes da religião oficial, hierárquica, tomam seu lugar; a liturgia, do Templo e da sinagoga reflete a submissão]. Isso indicaria a leitura, a escuta, a aplicação da Palavra no testemunho (marturia) para unificar a comunidade na luta contra a injustiça. Mas a resistência é substituída pelo quietismo, ou fatalismo, ou pela equidistância na religião. Pior ainda, o sincretismo cultual  idolátrico, mais uma vez, é admitido sem protesto.

A estátua do imperador é levada ao Templo para que este seja adorado como deus. As opiniões são variadas, e diferentes, sobre isso, no entanto (cf.simbologia apocalíptica). O perfil sinótico apocalíptico reconhece quem são os seguidores de Jesus diante da crise da religião que não vê a economia  que alimenta desigualdades e injustiças sociais; diante da guerra em andamento, da perseguição, do novo exílio (Jerusalém cairá mais uma vez, no ano 70 d.C., resultado da crise na província da Síria, envolvendo o imperador romano Calígula e o legado comandado por Petrônio, 30 anos antes). Os cristãos estão envolvidos, agora: o dia do Senhor (kyriaquê ’emera) “virá, entretanto, como ladrão, o dia do Senhor, no qual os céus passarão com estrepitoso estrondo e os elementos se desfarão abrasados; também a terra e as obras que nela existem serão atingidas” (2Pedro 3,10). Mas não há dúvida do envolvimento dos primeiros cristãos, também influenciados pela corrente apocalíptica e sua linguagem de resistência profética. É preciso observar os sinais dos tempos…


II. DOMINGO DO ADVENTO – ANO “B”
Isaías 40,1-11 – Caminhar é preciso…                      
Salmo 85,1-2;8-13 – Tu nos perdoaste, e caminhando saímos do cativeiro!                                            
2Pedro 3,8-15a –  Para Deus, um dia é como mil anos: eternidade
Marcos 1,1-8 –  Nos caminhos do deserto se anuncia o Advento

Diferentemente de estarmos caminhando na solidão e reflexão que o deserto inspira, estamos imersos numa sociedade povoada de distrações, onde nos movimentamos descuidadamente em todos os tipos de relações. Somos açoitados com chicotes de veludo para consumirmos valores de um certo tipo de riqueza ou prosperidade; cedemos ao estímulo cultural de prestígio e visibilidade. Somos guiados pelo individualismo. Pode, isto, desviar um cristão das relações verdadeiras com Deus, no sentido do caminhar no deserto, que é proposto para cada um a partir do batismo? Talvez estejamos equivocados, talvez não… tomamos um rumo estranho ao proposto no Advento do Senhor. Porém, quando sentimos que o problema de muitos se apresenta na falta de sensibilidade para com os compromissos da fé cristã, quando fizemos profissão de fé e declaramos nossa adesão à causa do Cristo de Deus (imagem:.Cláudio Pastro).

O prólogo do evangelho de Marcos marca as diferenças e os vínculos do Primeiro Testamento. João Batista é o profeta do Advento. Há consenso de que João Batista representa o anúncio de um tempo decisivo que chega (Advento).  Marcos reflete muito claramente o pensamento do cristianismo primitivo. Mais que isso, sua proximidade, do ponto de vista escriturístico, torna-o representante das primeiras camadas interpretativas do kérigma das comunidades iniciais.

O Batista é um profeta apocalíptico no melhor sentido (evita o catastrofismo e a linguagem generalizada sobre o fim do mundo, substituída pela denúncia das injustiças e desigualdades que obstaculizam o reinado de Deus). A seus olhos tudo será transformado com a irrupção do Reino. Sua presença é destacada com semelhanças extraordinárias ao profeta Elias (2Rs 1,8; Mal 3,23), o que dá uma grandeza inominável ao evangelho que João Batista prega. Ele é o profeta da nova Aliança. Destaca-se sua autoridade, especialmente: foi ele quem batizou Jesus! É ele quem afirma em primeiro lugar a irrupção do Reino de Deus nos evangelhos, depois de séculos de silêncio profético em Israel. O batismo com o Espírito Santo (1,8) indica que o Messias de Deus concederá a capacidade de discernimento sobre o “mundo novo possível”. O mesmo que distinguir as  possibilidades e as exigências do caminho de Deus.

Isaías 40,1-11 – Aqui se ensina um maravilhoso canto de consolação para o povo desterrado na Babilônia. O exílio babilônico atirara por terra todas as seguranças ideológicas e religiosas (séc.VI a.C., cai a última dinastia de Israel). O credo fundante no qual se confessa Jahweh como Deus de Israel evocava uma “Aliança” de Deus com um grupo que nada representava na história da humanidade. Trata-se de uma aliança protetora e salvadora que ignora as grandes forças políticas e econômicas, grandes povos, grandes nações, culturas expressivas do mundo de então, em seu cuidado, refletindo o interesse de empoderar o fraco contra toda forma de opressão.

“Abram um caminho no deserto, para que passe o nosso Deus; que os vales se ergam, que as colinas e montes se inclinem, que o torto se endireite e que o escabroso se torne suave e liso”. A escravidão, a miséria, a fome e a exclusão vão cessar. Este livro (Segundo Isaías), não tem um autor conhecido, mas leva o nome do profeta mestre de quase três séculos antes. Mas o profeta é novo, como nova é a situação.

Todo mundo deve entender que os caminhos de Deus são aqueles que promovem a vida plena e a dignidade, a felicidade e a paz. O profeta entende o que é o caminho de Deus, momento mágico que transforma as escravidões em liberdades; as injustiças – em face da impiedade prática que  ensina  a violação dos direitos do outro; a ganância e arrogância de poder – em misericórdia, solidariedade, tolerância dos diferentes; as economias concentradoras de privilégios em solidariedade e partilha; o mal em bem-estar geral na sociedade humana. Com a volta do desterro, o futuro está aberto para as liberdades ansiadas; à esperança: um mundo novo… Perguntamos: por que, posteriormente, com o consentimento dos persas, o que veio foi uma nova  religião autoritária, racista, legalista,  entre os israelitas (judaísmo), mancomunada com os sucessores dos mesmo, gregos e romanos, sufocando a memória do profetismo em Israel? Por que os principais adversários de Jesus e dos apóstolos são apontados  exatamente entre os titulares e dirigentes da religião em vigor? Por que Jesus se insurge abertamente contra   o tipo de religiosidade legalista, formal, que esconde as realidades da opressão?

2Pedro 3,8-15a – As primeiras gerações de cristãos, já convivendo com as que se seguiram, assumem um perfil apocalíptico – ênfase no final dos tempos, fim do mundo –, enquanto doutrinas perigosas vão se introduzindo. Mas é preciso considerar o que significa a palavra “tempo” em 2Pedro: “… um dia é como mil anos”. Praticamente uma eternidade. O apelo à paciência está bem claro: se Deus é paciente, devemos ser também pacientes. Não se pode esperar a vinda do Senhor em termos catastróficos, anunciando a destruição geral. Porque, depois de tanto “tempo”, na espera da fé, devemos crer que as transformações ocorridas em nossa vida, com o advento do Senhor, são o sinais do que ocorrerá com o mundo. E “o homem é um mundo num grão de areia…”, todas as possibilidades lhe vem ao encontro (W.Blake). A consumação da História, se vista no mundo transformado, é um mundo novo possível. Se somos reconciliados com o projeto de Deus, devemos esperar o mesmo para o mundo onde estamos. Se formos transformados, o mundo também pode ser transformado.

Marcos 1,1-8 – A conversão cristã é ressaltada, aqui. A “terra prometida vem”, um mundo novo é possível,  seguramente, pela fé, mas é preciso caminhar no deserto, antes de tudo. A conversão é necessária, para que se veja o novo que está chegando. Como diz Miguel Burgos, essa conversão é também um sinal de alegria, revisando e atualizando a pregação de João Batista. E aqui se destaca o compromisso cristão. Por isso, chamar o povo para caminhar na direção de uma nova libertação, tão prodigiosa como a primeira, o êxodo do Egito, a travessia do Mar Vermelho, também dá sentido ao Advento. Se bem que o deserto está logo adiante.

III Domingo do Advento – Ano “B”

Isaías 61,1-4 – O Espírito me ungiu para anunciar a libertação…
Salmo 126 – O Senhor restaurou a sorte de Sião                              

1Tessalonicenses 5,16-24 –  O dia do Senhor vem inesperadamente…                               

João 1,6-8; 19-27 – Há esperança para os que padecem sob a opressão

Neste terceiro domingo do Advento nos deparamos com os símbolos da missão individual de cada cristão; dos ministros ou oficiais da igreja, homens ou mulheres, bispos, pastores, presbíteros, diáconos, presidentes, moderadores. Jesus está em primeiro lugar, ninguém deve querer suplantá-lo? Nem sempre… o jogo do poder é como um tabuleiro de xadrez que se joga até nas associações de bairro. Jesus e sua missão são a coisa maior de nossas vidas? Dedicar a vida para abrir caminho à causa do Messias de Deus; criar visibilidade para o Messias de Deus e os significados do Reino; ser precursor da libertação das opressões, cegueiras, prisões religiosas, políticas, econômicas, sociais, seria o que o profeta João Batista representa para todos nós, quando prepara o caminho do Senhor? Neste momento da vida nacional quando várias marcas apontam urgências de políticas a serem corrigidas, quando as velhas oligarquias se unem às novas classes políticas, conspiram e apaixonam o povo, enquanto se jogam para debaixo do tapete as questões de fundo, esmerando-se em ocultar o que sempre faz quando está no poder; insinuando que as “espertezas”, a imoralidade por trás das ações políticas, são “defeitos dos outros” e “virtudes nossas” quando estamos governando. O Congresso Nacional tem arquitetura simbólica esclarecedora, que Niemayer não imaginou: a abóbada convexa esconde; a côncava recolhe as vantagens que interessam aos parlamentares.

Nunca se fez a revolução na educação e na saúde; o povo continua doente e ignorante: neste fim de ano veremos o de sempre, filas nos ambulatórios hospitalares e pais madrugando ou dormindo na calçada para obterem uma ficha na abertura do expediente de matrícula das escolas. A busca da estabilidade macro-econômica governamental impede a visão que se precisa ter sobre a permanente instabilidade social; as tantas crises que acometem seguidamente a comunidade nacional em dramas proporcionais ao distanciamento político existente, são reveladoras. As colocações proféticas, harmonizando o que se dizia séculos antes na escola profética de Isaías, agora na boca de João Batista, passam a ser muito importante para os cristãos. Perguntamos: como a messianidade de Jesus se reflete como “evangelho”, boa-notícia para os pobres, esmagados e esquecidos? Por que damos mais importância às aparências; por que a realidade oculta é tão menos importante que as guirlandas, as luzes, os presentes do paganismo natalino que tanto apreciamos?

Um pobre entra no templo evangélico, pergunta ao pastor o que tem de fazer para sair do miserê  em que vive. O religioso enfia um carnê de dízimos no bolso coitado, em resposta. O pastor senador, milionário através de mandatos seguidos, à custa do eleitorado evangélico, em busca de reeleição, procurado por um eleitor preocupado com a situação social de sua comunidade entrega-lhe um maço de modelos da cédula com seu número assinalado para a votação eletrônica, como solução. Seu partido, torre de força do bloco evangélico no Congresso, controlará um ministério que movimenta verbas astronômicas no governo…  A tipologia do “baixo proletariado espiritual” que o elege sugere que as fileiras se incham com rapidez e seus tormentos escorrem, com profusão, de cima para baixo, saturando camadas cada vez mais espessas da pirâmide social.

No meio, a classe média evangélica em ascensão adere à religião da prosperidade, até para justificar-se. No vértice, o alto clero neoevangélico, rico, milionário, ostentando alto luxo  nos costumes, conduzindo a manada inocente ao matadouro. Com salários em torno dos R$100 mil, programas televisivos e de rádio, adornados com griffes internacionais, jóias e relógios caros; mansões e sítios de R$10 milhões para cima (IstoÉ.09.09.2011), saem pela cidade para cumprir suas obrigações de carros importados, blindados e escoltados por seguranças, ou voando em helicóptero de R$ 2,5 milhões. João Batista está fazendo falta.

Hoje, quando há quem pense que estamos em posição bem diferente daquela sociedade denunciada por João Batista, o que se observa é apenas uma mudança coreográfica: muda-se o cenário, instrumentos cênicos, gelo seco, spots, holofotes, para enfocar detalhes. Presépios iluminados com lâmpadas led e animados com vacas mecânicas que só dizem sim, em constrangedor assentimento quanto as injustiças. As personagens são as mesmas de sempre e o roteiro permanece inalterado.  O drama da miséria, porém, alcança a ausência de cidadania e direitos fundamentais. Uma sociedade com fortes contrastes e injustiças, controlada por mecanismos que associam a religião com a política e a economia, convence-se de direitos consuetudinários e posterga as transformações necessárias.

O drama dos oprimidos continua. João Batista não será lembrado nos presépios pré-natalinos. Nessa personagem profética encontraremos um ensinamento para o nosso próprio testemunho, no anúncio da vinda do Senhor. As situações que apontam o caos social, como vemos hoje; as questões das pessoas mais injustiçadas, estão na mira do Reino de Deus.  Mais que nunca, a visão da realidade transmudada pode ser desoladora, a partir da grande maioria, enganada, submissa, conformada com o enfoque do detalhe que esconde o todo e o entorno, no conjunto dos fatos sociais. A esperança, porém, brota com o Advento do Senhor. O que aconteceu em Belém não é apenas uma história piedosa sacro-romântica que os autores bíblicos construíram com carinho e cuidado, visando comover o observador.

A missão do Messias, tal como percebida pelos profetas, com séculos de antecipação, cristaliza os conceitos de Evangelho e de evangelização (João 1,6-8;19-27). A meditação demorada de Jesus, leitura orante, íntima, profunda, da realidade opressiva, fazia-o seguro de que cumpria as Escrituras. Apresentou-a na sinagoga como um sinal claro de messianidade, e ante a comissão oficial que veio perguntar-lhe se era o Messias (Lc 4,16ss). Aí está: O Messias de Deus vê que o povo é vítima da voracidade e da indiferença da elite corrupta que exclui o pobre e o faminto; os que não podem comparecer ao sacrifício de expiação no templo, conforme a teologia da ganância ensina, encastelada nos centros de poder, apoiada por religiosos também ambiciosos.

Isaías 61,1-4 –  O profeta Isaías (Trito Isaías), mais de dois séculos depois do fundador da escola profética que leva seu nome,  convida ao retorno do desterro na Babilônia, inclusive no pensar no novo êxodo. Há incerteza, porém não maiores que a esperança; a ação de Iahweh será eficaz; Jerusalém, que agora se encontra arruinada, destruída, virá a ser um centro de peregrinações, no futuro, à qual acorrerão todas as nações da terra. A realidade é dura, no cativeiro; a pobreza e tristeza fazem a rima perversa que induz ao fatalismo e à acomodação. É a este povo que se dirige a palavra profética, instilando a esperança de transformação da realidade. Se as coisas estão difíceis, podemos sair das mesmas, porque Iahweh não abandona o seu povo, sugere o profeta.  O Senhor veste seu povo com  roupas protetoras, salvadoras, diante de todas as dificuldades;  devolver-lhe-á a terra usurpada, enquanto faz germinar os frutos da justiça; enquanto for lembrado e  louvado, Iahweh não dará as costas para seu povo. A religião fundada, logo após, negará a energia e dinamismo do javismo, atrelando-se seguidamente com os poderes dominantes (cf. Esdras e Nehemias, Malaquias e Jonas, I e II Macabeus, para entender o judaísmo formativo).

IV  DOMINGO DO ADVENTO – ANO “B”
Deuteronômio 18,15-20 – “O senhor teu Deus levantará um profeta no meio de ti”

Salmo 15 – “Habitará na tenda de Deus quem vive com integridade e pratica a justiça”

1Coríntios 8,1-13 – “Quando eu era criança, pensava e falava como uma criança”

Marcos 1,21-28 –  “Ameaçado, o demônio agitava-se ?”

Ao finalizarmos o tempo do Advento, já na proximidade da Natalidade do Senhor, seguimos ouvindo vozes e ecos proféticos, enquanto os acontecimentos da vida humana persistem reclamando dignidade para a vida, paz, comunhão, solidariedade, especialmente entre os que crêem. É tempo de salvação (kayrós), o Reino de Justiça e Paz chega aos homens e mulheres que clamam  por libertação do espírito desse tempo dos homens.

No tempo histórico de Jesus, dominava um forte temor, extraordinário, exagerado, em relação a demônios. O que ocorre com a Palestina islâmica ainda hoje serve de parâmetro para o que ocorria dois mil anos atrás: doenças, em muitas manifestações, eram atribuídas a demônios, particularmente as doenças psíquicas (uma lista enorme, se incluímos psicossomatismos), que externamente acusavam as vítimas que não mais tinham controle de si mesmas. Nada incomum nas igrejas pentecostais de hoje, quando doentes mentais escolhiam sinagogas e diante delas começavam a vociferar. Nossos hospitais deixam pouco espaço para os doentes mentais, entendemos a dimensão do grande medo de demônios.  Não menos quando os corredores dos ambulatórios dos hospitais públicos amontoam pacientes em estado grave aguardando atendimento. O poder público ignora drogaditos e pouco faz para indivíduos portadores de doenças sexualmente transmissíveis, entre outras.

Há uma visão de abismo da catástrofe irreversível, de um mundo dominado pelo mal, demônios por toda parte, quando os referenciais que expressam os valores do nosso tempo estão na emancipação da razão (uma ilusão). A possessão demoníaca, narrada na linguagem e na concepção desse tempo, era observada com frequência no mundo neotestamentário (J.Jeremias). Mas existe uma mudança, neste aspecto, quando Jesus aborda os casos que lhe chegam. No judaísmo (como hoje), os demônios eram considerados seres individuais, possuíam nomes. Quando Jesus liga os símbolos manifestos concretamente, as imagens são diferentes. Satã surge como comandante de uma “força militar”, um exército do mal (Lc 10,19), outras vezes como dirigente de um reino (Mt 12,26); demônios são soldados desse poder. Do filme Constantine, metáfora precisa da pós-modernidade, retiramos o diálogo do anjo com o exorcista:

– “Você, Gabriel, fala do meu ego.  Faz sentido, concordo. Os maus herdarão a terra. Homicídios, traições, genocídios… sou ingênuo”? E Gabriel retruca: – “Eu apenas busco inspirar a humanidade a cumprir o seu destino…”. Constantine  retoma: –  “Entregando a terra aos filhos do demônio? Explique…”. – “Vocês receberam essa preciosa dádiva, cada um alcança a redenção do Criador. Assassinos, estupradores, pedófilos, molestadores, políticos corruptos, todos vocês, basta arrependerem-se e serão salvos. Deus os salvará. Em todo o universo nenhuma criatura pode ter tanto, só o homem. Não há justiça nisso, por isso vou fazê-los dignos de salvação. Observo vocês faz tempo. Só diante da face do horror vocês revelam seu lado nobre. E vocês podem ser bem nobres… Então, vou proporcionar a experiência da dor, trazer sofrimento e horror, doenças, epidemias, para que vocês possam compreender tudo isso… Para os que sobreviveram ao inferno, ser-lhes-á dado por  mérito o amor salvador de Deus. O caminho da salvação começa nesta noite, neste momento”!

Uma teia de acontecimentos demoníacos e catastróficos – cada vez mais profundos e complexos – comprovariam a presença malévola de demônios na pós-modernidade, pós-iluminista, pós-industrial. O inferno também é observado de perto, através da proximidade estarrecedora do mal, aqui e agora. Só entenderemos isso se assimilarmos que Deus combate o mal no campo onde ele se manifesta, com suas figurações e representações simbólicas, tanto no mundo sagrado quanto no profano. A pergunta poderia ser: se há demônios aqui, onde Deus está?

Se compreendermos que Deus não ficou indiferente ao sofrimento humano habitando ou permanecendo em espaços celestiais distantes, entenderemos melhor a parousia de Jesus. Advento. Ao contrário do que se pensa, pela fé bíblica, Jesus encara o mal concreto em suas identificações simbólicas (enfermidades, descaso dos governantes quanto à saúde pública; desigualdade na utilização de tecnologias sanitárias, etc., [cf.: Marcos 5, o endemoniado de Gerasa]). Deus veio experimentar em carne e osso a perplexidade demoníaca da vida humana, quando homens e mulheres enfrentam o mal sistêmico na esperança do advento do Reino e a sua justiça (parousia).

Portanto, Jesus não considera o mundo do mal como alguma coisa fragmentada, e sim como uma unidade. Desse modo, o mal perde a característica isolada e fortuita que se lhe atribui. Por trás de tudo está o “inimigo”, por excelência o destruidor, o contraditório da vida e da criação. Os seres humanos estão indefesos, à mercê do “exército de maus espíritos comandados por Satanás”. Simbolicamente. Quando forças cegas presentes, invisíveis a olho nu, se manifestam em seres humanos concretos (Mc 1,24), são inquiridas no plural – pelo autor bíblico – entendemos a linguagem da Bíblia. São forças não individualizadas; não há um nome particular para cada uma dessas forças (“…que queres de nós?”, reage o representante dos espíritos imundos). Temos então uma concepção plural de poderes alienadores reunidos, juntados, malignamente em prontidão, enquanto se reconhece concomitantemente que o “mais forte” está entre eles, e fala em seu nome. A resposta também se refere ao reconhecimento do coletivo, por trás, voltando-se contra o exorcista: “Viestes para nos destruir?” O texto é esclarecedor.

A visão maniqueísta gosta de justificar-se na polaridade: mal irreversível/bem absoluto, afirmando concomitantemente a irreversibilidade do mal. A psicologia profunda oferece o diagnóstico, mas não se pode “curar” o passado ancestral de todos nós.  É preciso ser rico para beneficiar-se de modernos hospitais e medicina avançada. Em todos os setores. Se alguém duvida, basta procurar uma clínica para doentes mentais ou drogaditos e conferir as diárias hospitalares cobradas… preços diabólicos revelam o tipo de medicina que aplicam.

Dos 7 bilhões de habitantes do planeta, apenas o extrato rico nas ilhas de desenvolvimento, neste oceano de desigualdades, goza dos benefícios da sofisticada e avançada medicina moderna. Quem terá acesso, no mesmo tempo, aos benefícios das conquistas modernas contra os demônios das epidemias,  das doenças mentais socializadas e a destruição ambiental sistemática? É Deus quem doa a dignidade exorcizando o mal, diz o Evangelho. “O demônio agitava-se”, não é uma nova doutrina pentecostal. Os “espíritos imundos obedecem [a Jesus]”, afastando-se (Mc 1,27b). Este é o anúncio do Advento do Reino de Deus. Mensagem central da ação de Jesus Cristo pelo reinado de Deus. Aguardamos o Senhor.

Derval Dasilio

Pastor da Igreja Presbiteriana Unida do Brasil

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