DOMINGO APÓS O NATAL – ANO “B”

Isaías 61,10-62;3 – Boa notícia para os que sofrem.                                
Salmo 148 –  A majestade do Senhor está acima dos céus e da terra.                             
Gálatas 4,4-7 –  Por causa de Cristo podemos chamar o Senhor de Paínho (Abba).  
Lucas 2,22-42 – Filho de Maria, filho da terra…     

O grande texto da Natalidade refere-se a uma adolescente judia, mãe solteira, numa sociedade patriarcal impiedosa. Mas lembra a mulher que, pelo menos, não tem responsabilidades nas decisões sobre os genocídios seguidos que caracterizam a cultura insensível ao infanticídio sistemático em todos os quadrantes. O cotidiano da fome, e da desnutrição infanticida, que tão bem conhecemos, não é estranho à Bíblia.

O nascimento de Jesus é anunciado a uns pastores que, como o menino nascido num estábulo, nada significa para a sociedade. Essa mesma que se locupleta de comidas caras, perus, lombos defumados, champanhe e vinhos finos, frutas cristalizadas, castanhas, nozes; que enche as sacolas de presentes e regalos festivos nesta data, como um excelente pretexto para o consumo de inutilidades, no natal pagão tradicional.  De fato, o que se quer esquecer é o aniversariante, o que Ele é e o que Ele representa. Contrariamente, esquecendo-o como membro da sociedade humana à margem do paraíso  social e tecnológico, ela o ignora.

A natividade do Senhor apontará o início histórico da vida de Jesus. Desde o início ele pertence ao escalão mais baixo do espaço que cabe aos nascituros indigentes, carentes, oprimidos pela pobreza, para onde  confluem todos os afluentes da miséria humana: os pobres de pão e de recursos culturais, enfermos do corpo e da alma, desprezados pela religião e pela sociedade. Polaridades perversas numa sociedade impiedosa. A realidade da kenosis (esgotamento, renúncia, despojamento, esvaziamento de posses e riquezas), espelha algo bem diferente do que a tradição apontava como realeza reconhecível, num Messias salvador, a não ser que o reconhecessem com “rei do lixo”.

  • Jesus mergulha profundamente na miséria humana, em todas as suas formas. Experimenta tudo que é parte do sofrimento, expondo-se às catástrofes naturais – como ocorreu certa vez, num pequeno barco com seus discípulos, enfrentando um maremoto ou furacão – ; solidariza-se com mães que perdem filhos prematuramente, com viúvas que sofrem abusos; desespera-se com o absurdo assassinato político do primo e amigo; vive a tremenda solidão dos excluídos, catástrofes sociais, mendigos, moradores de rua, doentes, deficientes físicos e mentais; a dor física de todas as formas e graus de crueldade de uma sociedade impiedosa, como a cristã de nossos dias; a dor da exclusão política, cultural ou religiosa à qual  se diz: “nada temos a ver com isso”.(Andrés Queiruga).
  • O privilégio da hermenêutica cristã é apresentar o ventre disponível da mulher para uma grandeza libertadora, a partir do que lemos num poema delicado, sobre uma vila periférica, Belém, da importante Jerusalém, sede política e religiosa do povo. Deus intervém em nossa história humana para nos unir contra tudo que destrói o sentido original da humanidade criada. Maria entrega seu útero acolhedor para abrigar aquele que representa a misericórdia e o amor incondicional de Deus: a Graça se fez carne num ventre de mulher (Jo 1,14)!

Maria representa a fé madura, fé verdadeira, fé que procura sentido. Maria não teve a fé  da religião cultural, das crendices, dos amuletos, das rezas e dos mantras que soam como gemidos e se perdem nos abismos humanos. Sua fé não é fácil, nem simplória. É uma fé que sabe das consequências dos compromissos com a justiça de Deus. Diferente de João Batista, o profeta decapitado por amor a essa mesma justiça, que nasceu na mesma casa familiar de Jesus, e cujo nascimento foi celebrado por parentes e vizinhos (Lucas1,57-58). Jesus nasceu no maior desamparo, nem sequer teve uma casa para nascer; nasceu na solidão desoladora de uma estrebaria, pois nenhuma pousada abrigaria seu nascimento numa noite fria do inverno palestino (Lucas 2,7). Este sofrimento foi causado pelos interesses da sociedade que pretendia esconder crimes contra a vida e a economia do povo, até o último centavo (Lucas 2,1-5). Opressão intermediada por um batalhão de arrecadadores e religiosos que blindavam suas ações, além de aprová-las.

Assim, o fato de o filho de Maria ter nascido num estábulo não ter nada de romântico, comovente e terno, também as palavras que Simeão dirige a Maria não têm nada de mel e doçura: aquele que seria chamado o Cristo de Deus, é simplesmente mais um excluído, um explorado, como as crianças que nascem devendo o que não compraram, entre os tantos  desta terra que pagam dívidas contraídas em seu nome (imaginemos o custo dos estádios milionários para a Copa do Mundo, bem próximos de favelas e palafitas). Sem excluir as dívidas sociais permanentes, jamais resgatadas: habitação precária,  urbanização deficiente, escola, saúde e previdência mal assistidas, entre outras.

  • O sinal dado aos pastores de que tudo o que foi dito sobre o menino está certo, é mais do que desconcertante diante da extrema pobreza em que ele nasce (Lucas 2,12). Maria nem vê, nem ouve os anjos. Ela recebe a mensagem dos anjos por meio dos pastores, menos informados e comprometidos com a tradição do que ela. Não são judeus, nem freqüentadores do templo. A reação de Maria diante de tudo isto não é algo passageiro, mas um fato permanente. Não é uma atitude passiva. Ela procura entender, refletindo sobre o que significava a saudação do anjo na anunciação (v.29), e como perguntou de que maneira havia de cumprir sua missão de mãe do Messias de Deus (v.34), assim também se esforça por compreender todo o bem que seu filho significa –  como  Caetano Velozo: “O povo oprimido nas filas, nas vilas, favelas / Da força da grana que ergue e destrói coisas belas /  Da feia fumaça que sobe, apagando as estrelas / Tuas oficinas de florestas, teus deuses da chuva –, como salvador e libertador (v.19).
  • O anjo lhes anuncia que este é um motivo de grande alegria (Lucas 2,10), no entanto; que este pequenino é o Messias de Deus, o Salvador (v.11). O herdeiro real do Reino da Justiça e da Paz, completas (shalom = bem-estar, vida econômica, social, política, com dignidade, direitos sociais, humanos, civis, atendidos em todos os níveis). O porta-voz de Deus anuncia a Luz que traz a vida plena e abundante: a salvação das misérias, das fomes e das opressões humanas. A revelação celestial nos diz que nele brilha a glória de Deus, que com Ele chega a paz (shalom) do Senhor (v.14;cf. Isaías 9,6). Esse é o Príncipe da Paz.

NATAL

Isaías 9, 2-27 – Uma luz de justiça virá sobre o povo  
Salmo 90 – Volta-te, Senhor, e tem compaixão do seu povo           
Tito 2,11-14 – A Graça fez-se presente…                                         
Lucas 2,1-14 (15-20) – A glória do Senhor envolveu os pastores em grande Luz!

Por que Deus quis nascer entre os homens? Por que há Deus, e não simplesmente o “nada”, a escuridão dos tempos? A palavra  “deus”, como as palavras “dia” e “divino”, não é de tradição bíblica. No sânscrito indo-europeu “deus” significa “luz”. A luz, de fato, é uma poderosa e complexa metáfora do divino. Ela é presente e discreta por toda parte, como o calor. Como o vento – metáfora do Espírito Santo – a luz é sutil, discreta, enquanto emana a vida  opondo-se à metáfora das trevas (L.C.Susin). Mas não é só isso. Pode expressar ídolos, sobretudo ídolos de poder e de medo, divindades da dominação, opressão, que é bem melhor que estejam mortas, ou extintas. A palavra “Luz” evoca a experiência bíblica e cristã do menino nascido em Belém, ou seja, no coração da miséria.  O lado trevoso e obscuro da humanidade em todas as eras.

A tragédia do não reconhecimento do desenho poético de Deus nos condena à perplexidade. No menino de Nazaré vê-se o lado mais sombrio e efêmero do  presente, que não só abandona os sofredores de injustiça, mas mergulha na impiedade.  O mundo violento, egoísta, ganancioso, declara não depender de Deus, enquanto venera o Natal mercantilista e pagão. Muito menos mostra precisar do menino – e são as crianças que haverão de sobreviver a ele. No entanto, na voz melodiosa de Maria, a mulher: “a misericórdia de Deus continua de geração em geração… sua força dispersa os planos dos soberbos e arrogantes… derruba dos tronos os que detém poder, e valoriza a gente humilde que não tem com quem contar… cumula de alimentos os famintos, e manda os ricos para os quintos dos infernos… socorre o seu povo, conforme prometera no passado, recordando sua lealdade e fidelidade, para sempre” (Lc 1,46-55: paráfrase minha). Não há alegria maior, quando uma criança nasce para tal fim. Deus está conosco, “Jesus é a alegria do mundo”. Com a palavra o hino de J.S.  Bach, que cantaremos em toda a sua profundidade e extensão neste dia de Natal, lembrando a solidariedade de Deus com os humilhados.

O símbolo do nosso tempo, contudo, é como  a dança das cadeiras, onde as posições  ocupam um lugar provisório, até a próxima rodada. Os anos do século 20 podem ser descritos como a “época dos grandes massacres”. Nunca se matou tanto como nos conflitos ocorridos no século passado, estendendo-se até ao momento presente. Em muitos países da Europa e da Ásia, o século foi largamente apelidado de “Século Sangrento” (G.Blainey). Assistiu-se a uma mudança notável na maneira como um vasto número de pessoas vivia, como resultado de inovações tecnológicas, médicas, sociais, ideológicas e políticas. Ao mesmo tempo, termos como ideologia política, guerra mundial, holocausto, genocídio, guerra nuclear e choque ambiental, entraram em uso comum, tornaram-se uma influência na vida cotidiana das pessoas. Especialmente no Ocidente, e aqui estamos os povos latinos, povos novos, na dependência das grandes nações do “primeiro mundo”.  O século começou com 1 bilhão, e este já inaugurou 7 bilhões de habitantes no planeta Terra.  

De fato, há deuses mortos que insistem em voltar através dos fundamentalismos e das ortodoxias religiosas escolásticas, escudados no imaginário natalino do céu presente. Não é. A luta terrível entre forças divinas regendo o universo – forças demoníacas que abrigam o poder, possibilidades que negam a vida – confunde o que se deveria pensar sobre Deus, diante de ídolos de poder, de conhecimento científico, de dominação religiosa. Para projeções de desejos de força, poder, e de medo, é melhor o nada. O vazio.

A tradição cristã abraça esse nada e esse vazio, apontando em escandalosas expressões o que está no coração da Natalidade: “A Palavra se fez Carne” (Jo 1,14), “Esvaziou-se a si mesmo, e assumiu a condição da servidão humana” (Fl 2,7). O “vazio” e o “nada” não são estranhos ao anúncio de Deus segundo a fé cristã. É preciso preenchê-los. Deus mostrou-se junto a quem não tinha poder ou riqueza, nem podia levar “sacrifícios” à religião da ganância. Vítimas da impiedade vigente, os que sofriam preconceito e intolerância, injustiças e desigualdades. Jesus seria o Deus dos que tinham fome, doenças, deficiências físicas e mentais; das prostitutas ou das mulheres relegadas, zero à esquerda. Como a mãe de Jesus. O menino seria o Deus dos fracos como sua mãe.

Da tipologia de Deus, agora no menino, o profeta garantia, no passado: “Eu habito em lugar santo, mas estou junto ao humilhado e esmagado” (Is 57,15). Portanto, não é olhando para os céus que ele é encontrado (Atos 1,10-11), mas no chão terreno onde a vida é aviltada. Não é zelando pela santidade, é no coração da miséria que o menino “nasce”, experimentando todas as fragilidades, injustiças, desigualdades, abandono e ameaças  constantes de intolerância e exclusão. Frágil e mortal, sofria os determinismos e as condenações dos pobres desde o berço. Outro profeta disse que ele seria o juiz das consciências e defensor das causas perdidas: “Praticou o direito e a justiça […], julgou a causa do pobre e do indigente abandonados” (Jr 22,15-16).

A Natalidade do Senhor não é uma exibição de grandeza política ou religiosa, nem de fascinantes altares transformados em palco de luzes modernas tremulantes, escondendo a treva dos tempos sombrios, pois o menino não veio para ser aplaudido pelo último sucesso da música sem força e sem os amargores da denúncia. O menino não quis ser um ídolo e, como ele, Tiago disse (com pudor, sem usar uma única vez a palavra dogmática Cristo): “O verdadeiro louvor e a verdadeira religião são o socorro ao pobre, ao órfão e à viúva” (Tg 1,27). Não há religião sem uma ética do cuidado, da misericórdia, da compaixão e da solidariedade. Voltada para o que sofre, o que é desprotegido, o que chora, o que é abandonado, torna-se  verdadeira.

Aqui nos deparamos com o destino humano, perspectivas abertas, horizontes infinitos, sem nos privarmos do esplendor da vida em todas as suas manifestações. Sonhamos com paraísos, no menino. Construímos utopias. Como os sons e as tonalidades do Universo, podemos dizer que há um céu em nós, como há um sol e estrelas; que não há um “eu” sozinho, mas muitos “eus” compartilhando a vida criada por Deus. Sempre em busca da plenitude, liberdade e dignidade. Paraísos são sempre sonhados para serem realizados. Paraísos são a Esperança. Precisam ser vividos, necessitam ser magnificados. O evangelho da Natalidade do Senhor recorre à poesia, poder da imaginação, porque um poeta imita Deus quando recorre à eficácia das belas imagens do mundo ideal (Lc 1,46-55). Um mundo sem males nem dores, um novo céu e uma nova terra (Is 65,17-25;Ap 21,1). Diria que “um belo poema, como o da Criação e do Universo inteiro (Salmo 19), não é mais que uma maravilhosa canção de amor pelo mundo criado”. Só os poetas, e o próprio Deus, crêem que a beleza do mundo inteiro, como nos seus mistérios, está nos olhos da criança. Neles, os céus declaram a poesia de Deus, e o firmamento declama a obra das suas mãos.

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