EPIFANIA – Ano B    (2011-2012) – Tempo Comum
Isaías  60,1-6  –  Que permaneça a Glória do Senhor                               
Salmo 72 – Que todos os povos, todas as gentes, o  sirvam                    
Efésios 3,2-6  –  Todas as gentes são herdeiras                                                                                                                                  
Mateus 2,1-12  –  Os magos do Oriente acorrem para adorá-lo

Um poema é cantado com desenvoltura (Is 60,1-6), explode em harmonia, força e beleza, em esplêndidas imagens, enquanto o entusiasmo se manifesta em alegria, como no Coro dos Nabucos de Wagner. Festeja-se uma “Luz” sobre Jerusalém, destinada à peregrinação dos povos. A cidade se transforma num símbolo de longo alcance, função de luz, referência do Monte de Sião. No sol permanente, sem ocaso, a aurora é tomada de um brilho permanente. Ocorre no meio uma reconstrução em torno da religião. À opressão, escravidão, noite das eras, escuridão universal, a sentinela anuncia a aurora (“Tal qual o guarda espera pela alvorada, assim minh’alma anseia por ti, ó Deus” – Sl 129).

Agora, o dia vai clareando, não no Oriente, mas sobre  todo o universo; todos se voltam para  contemplar a Luz; esta, na prática, convoca a todos para ser vista. Agora, põem-se em movimento os filhos dispersos, e os povos estrangeiros se oferecem para transportá-los (reis magos); um deslizar de navios, camelos enchendo o espaço das ruas, enquanto  o dia vai clareando em Jerusalém. Começa o trabalho da reconstrução da fé israelita (os últimos 400 anos quase a destruíram, e com isto, a acumulação de tesouros), substituída pelo racismo e legalismo, exclusivismo religioso. Passa o dia… e não vem a noite! O dia sem fim e luz, de vida  e  fecundidade, não termina. Um dia mais glorioso que aquele após a travessia do Mar Vermelho, o êxodo do Egito. Como possibilidade de escapar ao jugo romano, as portas da cidade não precisam mais ser fechadas ao anoitecer, não há mais o perigo da agressão… o trabalho diuturnamente continua, sem cansaço ou desânimo. É um tempo de “transfiguração”, a luz orientadora permanece sobre todos os viventes.

“Não temam” (Lc 2,8-20), a mensagem transmitida por anjos aos pastores, sobre a natividade, prossegue em sua validade, sem tempo de prescrição. Uma  fração significativa do mundo moderno, no século 21, clama por rasgos de audácia, denúncia, gestos de coragem, valentia, (des)corporativismo e desaprovação política; manifestações da força da fé e da solidariedade, sem amolecimentos que dissolvam a alma. De quê há medo? O comodismo e conforto a que estamos acostumados, resultados das tecnologias de bem-estar, na habitação, no transporte; nas comunicações e no lazer eletrônico; na segurança do trabalho bem remunerado, nos leva a ter medo do outro, o qual pode competir ou nos usurpar as  comodidades alcançadas? Por que construir condomínios verticais ou horizontais, bunkers  modernos de concreto, muros eletrificadas ou concertinas de arame farpado para nos proteger de um inimigo imaginário? Não será o medo da miséria, da invasão de uma legião de famintos para comer na nossa mesa (cf. Luis Buñuel, Viridiana, 1961: a falsa  caridade cristã abriga a hipocrisia da sociedade inteira; algo parecido como o que vimos alguns anos atrás:  levar favelados ao shopping center ultra sofisticado)?

Sem mutilar a soteriologia (soter = salvação) exposta no Evangelho, testemunhar os atos de salvação na  “epifania” de Jesus, Salvador e Libertador, significará sempre afirmar a fé perene e universal que dá sentido à existência e à unidade do mundo, como revelada nas Escrituras. O principal tema do livro de Colossenses é a importância de Jesus Cristo: “Cristo é tudo. Ele é nosso Senhor. A meta central e esperança do evangelho é que Cristo viva em nós (1,27); “Cristo é tudo em todos” (3,11). A sabedoria das outras tradições espirituais, portanto, tem uma percepção de Deus, em muitas situações, equivalente à dos cristãos, judeus e islâmicos, do mesmo tronco profético. Não sendo assim, por que o Evangelho chama a atenção para os “Magos do Oriente”? A presença de uma estrela nos sonhos humanos pode ser uma “epifania” de Deus? Quantas são as manifestações concretas da busca de liberdade e redenção na vida dos seres humanos, em todas as partes do mundo… muitas vezes fora de do meio religioso?

No tempo de Jesus, a desconfiança diante do pobre, estrangeiro que competia com nativos, crescia constantemente. Faz poucos anos, vimos manifestações na França, na revolta dos discriminados. O Brasil é anunciado, ainda agora, como a “quinta economia do mundo”. Deus aparece como justificador de comportamentos dominadores, autoritários, discriminadores ou excludentes. Aceitaremos estas formas de particularizar a Revelação de Deus? A nova política, para a qual não é mais o proletariado que carrega o sentido da história como queria Karl Marx, é próspera. Fala de bolsa-família para milhões, mas anda de Honda ou Toyota. Senadores e deputados  evangélicos milionários, aproveitam a chance. Não veem a fome endêmica, a desnutrição alimentar, as filas de doentes nos corredores dos poucos hospitais. Acredita que o papel da política, mesmo corrupta ou clientelista, em busca do lucro a qualquer custo, pronuncia que “o fim justifica os meios”. A visão do homem sem responsabilidade moral pode até justificar a irreversibilidade do mal, que “estaria sempre na classe social abastada”, mas é estrábica quanto as relações econômicas, diante das omissões e da opressão do poder.

Na visão medieval, é a graça de Deus que redime o mundo. No Brasil, é a política. Conceito complexo,  fugidio, abstrato, face à realidade da população pobre socialmente desassistida, faminta, doente, ignorada no partir do bolo da prosperidade econômica. Na redenção política, é sempre o coletivo, o grupo que está no poder que assume o papel de redentor. Provisoriamente, claro. Cabe a negação das mulheres violadas, crianças ainda morrendo como moscas, jovens morrendo por morte violenta aos 18 ou 20 anos, povos indígenas roubados em seus direitos ancestrais, imigrantes ilegais, como sobras à margem do crescimento econômico”. Dissemos com Drummond de Andrade: “vai ser gauche na vida”, e o mesmo poeta já descobria que “no caminho tinha uma pedra”, que é o espírito do capitalismo egoísta que não nos abandona.

Como atualizaremos a Epifania do Senhor nestes dias (Mt 2,1-12)? A partir do conceito já discutido no Segundo Testamento, que significa, hoje, sustentar o egoísmo  da idéia de “povo eleito”, tomada da tradição israelita, à força de uma afirmação da revelação inclusiva do mundo inteiro? Onde e como estranhos à tradição de Israel alcançariam a “salvação” por meio do Deus Salvador? A presença dos Magos nos mostra como podemos rechaçar a presença nova de Deus, não o reconhecendo nas situações de opressão, cerceamento e exclusão. A reprodução da atitude de Herodes e dos dirigentes israelitas daquela época frente ao recém-nascido reflete isso. Se quisermos aplicar uma hermenêutica adequada a esta história oriental.

Muitas vezes Emanuel, Deus-conosco, está agindo em outras visões e realidades que não as nossas. Especialmente do ponto de vista religioso. Pode ser que não estejamos entendendo muito bem a presença de uma “estrela” nos sonhos humanos como uma manifestação concreta do Deus Libertador, bênção para toda a humanidade, raças e povos, na forma do menino da estrebaria adorado por estrangeiros obscuros do Oriente. Reconhecidos nas várias raças e povos. Os Magos do Oriente devem representar nosso reconhecimento da Epifania de um Deus  que se apresenta livre para salvar a quem ele elege, e não o contrário. “O Espírito sopra onde quer” (Jo 3,3), acima de todos os impedimentos, barreiras, muros ou paredes doutrinais particulares. Afirmando o “Deus conosco” seríamos humildes, e não arrogantes, quanto à posse da “única” experiência possível da revelação de Deus.

A realização da bênção de Deus na história humana, como parte da “História da Salvação”, a “Epifania”, na liturgia cristã, mostra que Deus se dá a conhecer a muitas gentes, mais que isso: a todas as gentes, povos, religiões e culturas. Não só ao povo judeu. Não só aos discípulos do “movimento do Nazareno”. Os mais distantes, “do Oriente”, vislumbram a estrela mágica que orienta para o caminho onde se encontrará o Salvador. Os Magos do Oriente renderam-se à revelação de Deus no menino depositado no cocho da estrebaria de Belém.

Derval Dasilio   
Pastor da Igreja Presbiteriana Unida do Brasil

Anúncios