4o.Domingo do Tempo Comum (Depois da Epifania) – Ano  “B”
                                                                                                                                      

Deuteronômio 18,15-20 – A Lei é  dádiva  em nome  da misericórdia de Deus                                                                          
Salmo 111 –  As obras do Senhor são a verdade e a justiça                                                                                                                 
1Coríntios 8,1-13 – “…pecam golpeando a consciência fraca dos irmãos”                                                                                              
Marcos 1,21-28 – “Que temos contigo, Jesus Nazareno”?

 “A droga é como o pecado de Adão, sempre existiu”; “a ONU declarava guerra à droga estimulada pelo moralismo religioso dos EUA…” “Guerra à droga?, a paz com usuários é que deve ser buscada”, diz o sociólogo Fernando Henrique Cardoso (Documentário: Quebrando o Tabu). Toda guerra favorece à indústria da morte. Envolve interesses econômicos e oportunismo políticos. Matar, anular, castrar, reprimir, excluir, dessocializar, é o nome da guerra à droga. Quem lucra são os traficantes, o crime organizado e a polícia corrupta que não sobrevivem sem a droga. Quem não pensa nas consequências sobre a família, a comunidade, a sociedade,  a coletividade, necessita saber da “pacificação”  diante das drogas, e não da guerra. Paz com as drogas significa compaixão, inclusão, aceitação, cuidado, misericórdia. Doentes precisam de tratamento e não de cadeia, onde a droga é liberada e consumida à luz do dia (Dráuzio Varella). Hospitais, ambulatórios, medicina da saúde, são direitos humanos que devem ser buscados.

A capacidade de discernir cada situação particular foi uma das coisas que as multidões mais admiravam em Jesus (Mc 1,21-28). Enquanto os mestres da religião respondiam com explicações detalhadas, exaustivas, citando códigos, leis, regulamentos, preceitos e doutrinas, Jesus respondia com a verdade simples e cristalina. Estava interessado em cada situação particular do ser humano, especialmente aquelas referentes ao tolhimento da liberdade e negação de direitos fundamentais. O tormento moralista no controle das consciências impedia, como ainda impede, a espontaneidade da fé enquanto esconde a compaixão e a misericórdia. O interesse moralista não encobre a  ideologia do poder, do controle político ou religioso das massas. Muitos movimentos e grupos religiosos mostram interesse pelo indivíduo enquanto servem como prosélitos de causas materialistas, mercadológicas, sem fraternidade (filia), sem comunhão (koinonia) e sem serviço ao próximo (diaconia). Jesus declarou-se abertamente contra  a idolatria da letra morta, ou seja: a lei moralista; manifestou-se contra o sábado (“… o homem não foi feito para o sábado”; ninguém foi feito para a lei!) e exigências que ignoram o ser humano e suas necessidades; pronunciou-se contra os costumes, prescrições que engessam a misericórdia, o cuidado, o serviço ao próximo. Enfim, Jesus se prontificava a combater a religião sem misericórdia e solidariedade, porque esta omitia o essencial: o homem e suas carências.

Diante da repressão e violência inaceitáveis contra pessoas doentes ou drogadas, em dez anos Portugal reduziu drasticamente o consumo de drogas tratando o usuário de como paciente tratamento médico e não como criminoso (52% deixam a droga). Enquanto isso reduzia o campo de atuação do traficante. A saúde pública incluía substitutivos da droga clandestina nos receituários de pacientes usuários de drogas; busca a aproximação espontânea do doente, não a repulsa e a repressão; dizia não aos riscos da clandestinidade, fazia o papel da medicina regular, que se abre ao que quer ser tratado. Ou seja, a maioria dos usuários.

Para o Evangelho, o endereço   poderia ser o despoderado (anawin), encurvado, dobrado pelas circunstâncias, humilhado pela própria vida, na Bíblia Hebraica, e no Novo Testamento (ptochos), são os ignorados e desprezados pela própria sociedade. Como o usuário de drogas. A sociedade religiosa é a primeira a excluí-lo e  identificá-lo como pecador e eximir-se de culpa pela injustiça que sofre. Ou seja, a compaixão escapa aos regimentos e declarações doutrinais. Devemos nos surpreender  com isso, uma vez que a sociedade, biblicamente, é casa, lar, oikos, como a igreja. O socium é o companheiro, um irmão de grupo numa mesma sociedade eclesiástica. Essas duas realidades fundamentais de todos os seres humanos encontram o sofredor  no usuário de drogas, no deficiente, no portador de HIV, no oprimido pelas enfermidades físicas ou sociais (tabagismo, alcoolismo, drogadismo, sexoaholismo, etc.), no meio e junto ao grupo maior responsável pelo todo, ou  à coletividade humana.

O seguimento de Jesus envolve a Salvação, antes que qualquer condenação humana, como é comum nos nossos dias. Seguir a Jesus é um exercício constante de humildade. “Propôs Jesus esta parábola a uns que confiavam em si mesmos, como se fossem justos, e desprezavam os outros: Subiram dois homens ao templo para orar: – um fariseu, e outro um popular. O fariseu orava de pé (com suposta autoridade), e dizia assim: Graças te dou, ó meu Deus, por não ser como os outros homens, que são ladrões, injustos, adúlteros (e drogados, tabagistas, alcoolistas…). E não ser também (moralmente) como um homem comum. Eu, por mim, (religioso convicto) jejuo duas vezes por semana e pago o dízimo de tudo quanto possuo. Apartado a um canto, o popular nem sequer ousava erguer os olhos para o céu; batia no peito, e exclamava: Meus Deus, tem piedade de mim, pecador. Digo, acrescentou Jesus, que este voltou justificado para sua casa, e o outro não, porque todo aquele que se exalta será humilhado, e todo aquele que se humilha será exaltado.” (Lucas, 18:9-14).

Precisamente por isso, Jesus luta contra os demônios que dominam a consciência social (sistemas de pensar: da religião, da política, da economia, da cultura, da justiça civil). Lutou contra as ideologias instaladas nas sinagogas, no Templo e na sociedade. Jesus não se identificou com propósitos religiosos moralista no combate às doenças socializadas; não aprovou oportunistas, exploradores da credulidade popular, invadidos por “espíritos imundos”. “Hipócritas”, “túmulos caiados”, “tira primeiro a trave do teu olho, antes de julgares”, são imprecações de Jesus dirigido aos condutores da sociedade civil ou religosa. O povo simples se encantava com a ousadia de Jesus expondo à luz do dia a ideologia religiosa reinante, a mesma que sustenta pessoas e grupos nos dias de hoje, propondo regras com ênfase moralista.

Como dizia alguém, talvez Oscar Wilde, “o moralismo é o último refúgio de um canalha”, exatamente porque é suficientemente abrangente para deixar todas as patifarias, corrupções, protegidas, ao abrigo de um suposto interesse coletivo por justiça  ou transparência. O político evangélico é ardoroso, contra a inclusão homossexual; usa a camisa preta contra a pedofilia, na campanha, e é pego pelo Ministério Público roubando do erário sem qualquer pudor, mas permanece impune. O mais inexpugnável dos inimigos da justiça é o falso moralista, o oportunista de quaisquer matizes, ideológico, partidário, intelectual, político, religioso. Em todos os moralistas existe a voracidade insaciável e destruidora de uma “aids social”, de um “câncer dos costumes” (Wagner Siqueira) , como se diz da droga.

Que faremos, para seguir Jesus? Ouviremos suas propostas, ou ouviremos os encantadores de multidões com o brilho grosseiro das ideologias de poder, do moralismo e outras modas que vão e voltam nas comunidades eclesiásticas? Prefere-se aplacar a consciência religiosa do pecado, do mal, que o vício representa? Faz-se uma declaração sobre o assunto, regulamentando a condenação e exclusão da vítima, e acredita-se cumprido o papel eclesiástico diante da   sociedade civil? Essa é a religião de Pilatos… Aliás, é lavando as mãos que Pilatos entra no Credo das igrejas cristãs. O caráter normativo do Evangelho há de nos lembrar: o Reino de Deus está diante nós. Aos perseguidos, discriminados, pobres, desfavorecidos, desgraçados e enganados deste mundo, o Reino é anunciado… e “bem-aventurado é aquele que não se escandalizar com a minha causa” (Lc 7,23). Aqui, nesta passagem, se expressa o centro vital da mensagem de Jesus.

É esse o sentido que Jesus dará à sua hermenêutica fundamental: preservar a vida, a dignidade das pessoas, a intimidade e liberdade de cada ser humano. Traduzidos na observação dos direitos humanos fundamentais. Isso significa que Jesus sabia das palavras de Jeremias: “(…) cada um levará a Lei  no coração”. Ou seja, terá consciência da justiça. A Lei não é uma obrigação, mas uma dádiva orientadora para todo o povo. Envolve o uso da terra, da moradia, do trabalho, da responsabilidade social para com os oprimidos e esmagados deste mundo.

Derval Dasilio

Pastor da Igreja Presbiteriana Unida do Brasil

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