5o.DOMINGO DO TEMPO COMUM – ANO “B”

Isaías 40,21-31 – Deus é fiel, apesar de tudo
Salmo 147, 1-11;20c – O Senhor sempre amparará o pobre    

1Coríntios 9,16-23 –  Lutar contra a ganância, é preciso

Marcos 1,29-39 – Jesus cura, salva e liberta o ser inteiro

Não se pode falar do sofrimento e da origem do mal sem tocar na jóia literária que é o livro de Jó.  O que é o mal, um problema metafísico? O mal é uma constante da vida humana? Uma reflexão sapiencial sobre problemas insolúveis, mistérios insondáveis que a Bíblia Hebraica reconhece, o eterno problema do mal? Pecados estruturais denunciam-no. Um problema da “teodicéia”, como reflexão filosófica que se esforça por demonstrar a existência de Deus, não é suficiente. Mas a questão tem outro enfoque, na teologia do apóstolo Paulo. Se temos avançado, no plano tecnológico, científico, falta-nos a sabedoria fundamental para ver, ouvir, falar com clareza do mal que nos cerca.

O mal não é uma abstração. Na sociedade perversa, violenta; na economia que produz riqueza para poucos, nas desigualdades, quando se distribuem os bens sociais em migalhas para um contingente populacional gigantesco. A maior parte dos brasileiros. Vemos, ouvimos e falamos corretamente da realidade concreta do sofrimento?

A palavra de Cristo situa os cristãos entre realidades conflitantes, excludentes à primeira vista. Um mundo de desigualdades gritantes, assassinatos, exploração ou abandono de doentes, violência contra moradores de rua, doenças sexuais ou doenças sazonais, fome, desemprego; um mundo onde falta habitação, saúde pública, escola, hospitais, em contraste com o outro, perverso, estrábico, prospero e egoísta. Um chora de sofrimento, outro dá gargalhadas no gozo do que há de melhor. A palavra de Jesus, no entanto, é para os sofredores: “Bem-aventurados os que choram”; “No mundo terás aflições; coragem, porém, eu venci o mundo”.  Ele nos convida a verificar, examinando com atenção a intensidade e o agravamento do sofrimento humano nos dias de hoje.

Como no Salmo 73,  o mesmo enfoque de Jó, a experiência de Deus nos leva à sinceridade e honestidade sobre nossas visões do mundo (Paulo Rückert), deveríamos ser capazes de enfrentar a inveja e a ganância que nos sobrevêm ao observarmos o  sofrimento do fraco e o sucesso dos “perversos”: eles têm riqueza, bem-estar garantido nos níveis que implicam em saúde, previdência social, escolaridade em todos os graus, habitação e lazer. Os perversos têm tudo, e suscitam inveja, enquanto desfrutam a vida como se estivessem em férias de verão permanentes: praia, suor e cerveja…

A prática da cura, a luta contra o mal, nas ações de Jesus, tem a ver diretamente com a liberação do ser inteiro para a vida plena (Mc 1,29-39). Não há divisões, dicotomias, ambivalências, duplicidades, no intento de Jesus em curar alguém. Os evangelhos jamais falam que Jesus salvava almas separadas do corpo (ou dos corpos…), em favor do espírito das pessoas. Recuperar a saúde de alguém é recuperar o corpo, a capacidade de trabalhar, de produzir, de alcançar dignidade, possibilitando-se a reintegração social do doente, geralmente considerado um peso para a sociedade. Curar é salvar e libertar.

Mas o comum, ao tempo dos apóstolos, e de Jesus, era que os enfermos fossem considerados “possuídos por maus espíritos”. Os alijados, excluídos, não se atreviam a aproximar-se, o mesmo ocorria com os membros “sãos” da sociedade, também não olhavam os desgraçados e doentes. Jesus  contrariava as regras, dispunha-se a servir os mais fracos com dedicação e cuidado, para curá-los.

Ser cristão, entre muitas coisas, é também lutar contra o mal, seja o que origina a desigualdade e exclusão, seja o que impõe a marginalização social, dividindo as pessoas em indivíduos de primeira, segunda e terceira classes. Num mundo que experimenta indicadores escabrosos de miséria, enfermidades endêmicas e  fome, anunciar o Reino de Deus é uma tarefa de suma importância. A omissão é intolerável.

Não há luz sobre 13 bolsões de miséria escondidos, no país; 600 municípios, sem urbanização, hospitais, escolas; 20 milhões de pessoas vivendo sob todas as fomes do mundo…  municípios carecem dos mínimos recursos modernos, como eletricidade, água potável, esgotos sanitários, escolas razoáveis; pessoas cujas rendas diárias per capita média não ultrapassa 2 reais. Nas periferias das cidades e metrópoles 90 milhões conhecem o mesmo sofrimento, as mesmas doenças, as mesmas desigualdades. O palco não foi desmontado.

Torna-se importantíssimo reagir às teologias salvacionistas que “espiritualizam” a pobreza e a miséria, e a teologia da ganância que explora a pobreza com falsas bem-aventuranças (Maria Lucia de A.Gama). Elas são motivo de sofrimento para muitos, milhões de brasileiros. Repetem-se as atitudes dos adversários de Jesus, omissão intencional, que recusavam-se a ver o pecado estrutural da sociedade, gerador de insanidades, desigualdades, violências, enfermidades de toda ordem. Tentavam impedi-lo de salvar e libertar, quando estava demonstrando que na pessoa doente estavam cristalizados todo os males deste mundo. Especialmente aqueles que vêm da má consciência sobre os  verdadeiros e concretos problemas humanos, quando se negam suas origens e responsabilidades. 

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