6º Domingo do Tempo Comum  (depois da Epifania) – Ano “B”                                                                                                                  [Alternativa: Comentário ao Domingo da Transfiguração. Ver abaixo: Comentários]                                                                                               
2Reis 5,1-14 –  A doença humilha e causa exclusão
1Coríntios 10,31-11 – Um só corpo um só espírito… para a glória de Deus
Marcos 1,40-45 – Desapareceu a doença, e ele ficou limpo…

Temos uma página bastante comum no evangelho de Marcos: Jesus cura, não somente prega, enquanto  associa palavras e atos.  Suas ações trazem libertação, porém libertação integral, espiritual e corporal ao mesmo tempo. Seu modo de expressar a religião que professa inclui a misericórdia, o cuidado, o amor libertador, valores espirituais elevados para muito acima da religiosidade comum, sem misericórdia, sem sentimentos, catártica, regulamentar, preceitualista.  Jesus não pratica essa religião. Ao contrário, combate a religião moralista que impede a abertura para o outro, ou para a comunidade em si. Para ele, amar é libertar. O corpo doente obstaculiza a vida plena e o próprio amor. Jesus não discute em nenhum lugar as ambiguidades de corpos e espíritos separados. Ou almas liberadas das enfermidades demoníacas de sua época. Ele simplesmente cura as pessoas, mereçam ou não seu cuidado. O Reino de Deus  está próximo… ele anuncia. O reino é a justiça que tudo alcança; é  compromisso com a causa de Deus, e  não uma abstração sobre o Mal e o Bem. Quando um usuário de drogas, ou um doente qualquer,  é curado diz: “fiquei limpo”. Concretamente, e não “espiritualmente”. Precisamos aprender com o Evangelho.

Os monges gregos ainda no começo da Idade Média diziam: “o espírito é para Deus, o corpo é para o imperador” (“espírito” é nous, e soma é “corpo”, no grego ático e no koinê, Novo Testamento). Mas isto não corresponde ao pensamento paulino  no NT (E.Käsemann). Nenhuma escola rabínica ensinaria tal coisa, e Paulo foi instruído na concepção rabínica. O modelo de espiritualidade religiosa que prevaleceu no cristianismo cultural não tem que ver com a revelação bíblica, mas sim com uma religião pagã do século 6 a.C.,“Religião Órfica da Trácia”. Porém, desde os primeiros séculos da era cristã essa concepção se tornou dominante no cristianismo histórico (Renold Blank). E prevalece no cristianismo ainda hoje.

Trata-se de cultura comum no mundo mediterrânico, onde o cristianismo teve início. Para as pessoas mais simples, desse modo, “o espírito é tudo, o corpo não vale nada; o espírito valoriza o corpo e a matéria degrada o espírito”. Assim, o modelo antropológico dualista (espírito separado do corpo) tem suas raízes numa cultura alheia à do povo bíblico. A depreciação do corpo prossegue com o equívoco (“carne” em oposição ao “espírito”). O Novo Testamento, porém, tem outro enfoque. Não absorver as razões culturais e ideológicas de um cristianismo aculturado já distante das fontes apostólicas do pensamento cristão primitivo sobre o ser e a vida. A concepção bíblica refere-se ao ser total, que é corpo, que é alma e que é espírito, finalmente entrelaçados e indivisíveis.

Adão (’adam), humanidade, coletivo de homens e mulheres (cf.: o feminino de Adão é adamah, terra fecunda), tem um corpo, começa a viver com o “alento”  do Criador. A intensidade da vida é variável, de momento para outro. Um enfermo e/ou um morto, são vidas, corpos debilitados, prejudicados, porque incompletos, privados das possibilidades do corpo sadio (2Rs 8,8; 10; 14,20 e 1-7; Gn 25,30 e 32; Is 5,27). Despertar, curar, ressuscitar o corpo, significa recuperar faculdades, dispor novamente de toda capacidade na vida oferecida por Deus. Isso aparece aos olhos do israelita como um bem inestimável do qual dependem todos os bens. Ou seja, a vida é a mais preciosa das bênçãos, nada é superior a poder-se viver com dignidade (Pv 3,16). A vida e o corpo são inseparáveis e indissociáveis.

Sob o tema, integridade espiritual do crente, Paulo discutirá com os cristãos coríntios o bom emprego das palavras “espírito” e “espiritualidade”. Quase sempre nos referimos a esta palavra pensando como os filósofos gregos, e não como o israelita, que nunca imaginou um possível estado de perfeição do espírito dissociado do corpo; que a abstração espiritual requer um afastamento do corpo; que fora do corpo e das realidades humanas é que se dá o melhor estado espiritual, aquele alcançado pela mortificação do corpo.

Essa concepção, além de tudo, não é uniforme, comparada à do evangelista Marcos e do apóstolo Paulo. Paulo prossegue nesta linha, como um bom israelita: “quer comam ou bebam, ou que façam qualquer outra coisa, façam tudo para a glória de Deus”. Não só as atividades religiosas tradicionais têm a ver com essa espiritualidade, mas o comum do cotidiano de cada um e de todos “…porque nós, embora muitos, somos um só corpo” (1Cor 10,17; 10,31-11). Corpo! Esse acréscimo identifica outros aspectos, como os que envolvem a igreja, a comunidade, a sociedade e o crente. Somos o que somos porque somos um “corpo”, meu corpo é parte de outros corpos, da igreja, da comunidade, da sociedade, da coletividade humana. A unidade do corpo reconhece-se no locus teologicus  que é a sociedade humana. Porém, ambos privilegiam a libertação integral do ser humano. A cura do corpo identifica a redenção alcançada no reinado de Deus. Aqui, o socius é o companheiro, irmão, membro integrante da mesma sociedade. Preocupar com o corpo é o mesmo que cuidar da responsabilidade de todos, sejam cristãos ou não.

Jesus é também representante do pensamento sobre a vida. Pensamento que prevalece na Bíblia Hebraica e se estende ao Segundo Testamento.  O israelita pensava que a vida não é simplesmente a existência, ou a experiência humana individual. A vida (hayyîn), na melhor tradição israelita, é algo definido no plural intenso da experiência em sociedade (R.Martin-Achard). Além do grupo religioso. Viver é mais do que “ser”, nenhuma abstração cabe aqui, nem racionalismos. Vida é sangue… “o sangue é a alma do corpo”, combustível concreto da vida, como o Deuteronômio dirá (12,23). A vida se confunde também com o “fôlego”, no momento da criação do ser-homem, quando Deus soprou nas narinas do homem “um fôlego de vida”.  

Jesus cura, não prega uma abstração sobre o mal da doença. Inclusive as doenças da sociedade humana.  Suas ações trazem libertação, porém libertação integral, espiritual e corporal ao mesmo tempo. Seu modo de expressar a missão do Reino inclui a misericórdia, o cuidado, o amor libertador pelos enfermos, valores espirituais elevados para muito acima da religiosidade comum, sem misericórdia, sem sentimentos, catártica, preceitualista. Tiago reforçará: “a religião verdadeira é a misericórdia”.

Derval Dasilio

Livro: O Dragão que habita em nós, Metanoia, 2010

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