7º Domingo do Tempo Comum (depois da Epifania) – Ano “B”
Alternativa: Domingo da Transfiguração                                                                                                                                    Isaías 43,18-15 – O povo parece ser cego e surdo…
Salmo 41 – Cura-me, tenho pecado contra ti
2 Coríntios 1,18-22 –  Sim e não?
Marcos 2,1-12 – Levanta, sai da cama… anda.

 “Há mansões nesse lindo país”, diz o antigo hino evangélico. Não só, mas edifícios, residências caras, proventos de milhões dos fieis para os parentes e laranjas eclesiásticos. O momento é identificado como “grandes igrejas, grandes negócios”. É possível conceber  passivamente, sem indignação, a existência de “profissionais da santidade”, pessoas destacadas e separadas para a busca pessoal do “estado de perfeição espiritual” onde as preocupações com a justiça e a solidariedade para com os fracos desaparecem, enquanto a graça é distribuída por mãos levianas? Tem preço, essa “graça”, e o custo é permanecer nas mãos de imperadores eclesiásticos milionários do evangelical business que se apropriaram do tesouro da fé para enriquecerem? A graça preciosa é jogada no lixo? Oferecendo-se um perdão equivocado, que não muda ninguém, conforto provisório, resolve-se o problema permanente da culpa não perdoada? O “perdão” eclesiástico, sujeito a prestações em dízimos e ofertas compulsórias, cessa quando o fiel pára de pagar? Mesmo depois do escândalo, da fraude trazida a público, o fiel ainda acredita que a escravidão religiosa lhe dará liberdade?

Confirmando a graça e a misericórdia de Jesus com coerência (Mc 2,1-12), obtemos, através dos termos  hesed e xáris (misericórdia, no AT e NT), um exemplo de gratuidade. O deficiente é trazido por outros, que se arriscavam no meio da multidão por causa da restrição religiosa, que também o obriga ao confinamento e marginalização. A sociedade religiosa  reage, pois sua estrutura está montada em princípios que impõem a exclusão, sintonizada com a sociedade que naturalmente impõe a marginalização do doente e do deficiente. Qualquer mudança, qualquer alternativa além dos preceitos, da carga de tributos dizimais compulsórios, impostos religiosos, além dos ritos de purificação, lhe parecia impossível. Para ela a religião interesseira está acima da vida. E a vida dos seus fieis lhe pertencem. Ninguém tasca… elas possuem a alma do povo.

Detendo-nos, vamos encontrar o tema recorrente da cura e do destravamento das pessoas,  nessa passagem: uma pessoa dependente das outras, tipicamente um deficiente físico, como tantos, rechaçado socialmente; impedido de participar produtivamente da sociedade onde se encontra. Compreendendo que somos envolvidos pela misericórdia de Deus (a Bíblia não discute conceitos de espiritualidade). A misericórdia dá solidez ao corpo de Cristo. Somos convidados a concretizar a prática libertadora do Evangelho. No testemunho do Reino de Deus e sua justiça, prepara-se o Reino. Por outro lado, como diria Paulo Freire: “ninguém se liberta sozinho, nós nos libertamos em comunhão”. O primeiro passo é abandonar a ganância nos comprometendo com a vida. Buscando a justiça e a solidariedade para com os que sofrem. No encontro com Jesus, Zaqueu, popular que enriquece roubando seu povo, passa por uma mudança profunda e permanente (Lc 19 1-10). Por exemplo, Lutero teria dito dessa passagem: “Foi a graça preciosa que transformou sua existência por inteiro. Teve que largar tudo e seguir o Mestre”. A Graça de Deus atinge-nos na essência da vida e chama-nos para o discipulada. Baratear, ou jogar a graça no lixo, pela venda ou manipulação do dinheiro consagrado no altar, é desprezar o próprio Deus.

Jesus inicia seu trabalho a partir da relação cultural existente: pecado e castigo. A doença ou a invalidez são atribuídos ao pecado hereditário. Diz ao entrevado: “por que não levantas, se não és inválido por causa de pecados que atribuem a ti?” A saúde espiritual, para ser recuperada completamente, necessita de um “remédio” eficaz: vontade para fugir de determinismos culturais, religiosos ou não. Como é a crença na irreversibilidade do Mal, da inevitabilidade do pecado, da doença e da deficiência. A liberação da culpa não mais existente se estabelece através da autoridade da Palavra de Jesus. Diante de todos, o deficiente precisa “levantar” e exigir seus direitos. Nem a igreja, nem a sociedade  representam o Reino. Não podem cobrar nada mais, depois do perdão de Deus. A graça, contudo, não liberta de compromissos com o Reino, nem nos coloca nas mãos de charlatães milionários, ou donos de igrejas, que “perdoam pecados” exigindo a retribuição de quem é perdoado. O perdão de uma culpa tida como hereditária é dado de graça. Jesus nega a culpa herdada, divida a ser paga em prestações como o imposto religioso.

O sofrimento do deficiente é complexo e misterioso. Não pode ser explicado de maneira simplista. Jesus mesmo rejeita a interpretação do “castigo de Deus” no doente ou deficiente. Não aceita, também, o preconceito. Critica e repele o pretexto de “pureza ritual”, de santidade, para excluir pessoas do convívio fraterno e da comunhão da mesa. O que é a santidade religiosa, senão uma forma de omissão, ou exclusão espontânea? Jesus exalta a vida em primeiro lugar: todos têm direito à vida; todos gozam  dos direitos humanos e do exercício da cidadania. Jesus resgata a pessoa para o uso dos seus direitos fundamentais, inclusive de trabalhar e produzir o desenvolvimento da sociedade na qual elas, as pessoas deficientes, ou o enfermas, se inserem. O poder oculto da pessoa deficiente e dependente também aflora com a libertação da consciência de pecados ancestrais atribuídos injustamente (Mc 2,1-12).

Temos uma mensagem de salvação, hoje. Devemos anunciá-la. Mas ficamos obrigados, mesmo com gestos simbólicos, a tornar essa pregação em prática. O Reino é de Deus  deve ser anunciado, sim. Mas deve ser também construído, sendo que somos ferramentas, massa de construção, cimento e tijolos do projeto de Deus divulgado por Jesus. O Reino deve “concretizar-se” em nós e no mundo. Não desconhecemos o que pode fazer a força (dynamis) do Evangelho contra o mundo corrompido comandado pelos inimigos de Deus; contra os adversários do Reino encastelados na religião da ganância, no sistema econômico egoísta, nas ideologias políticas oportunistas, opressivas, permissivas na exploração dos fracos, abusando da consciência pela propaganda enganosa, materialista, de falsa prosperidade… a não ser para os impérios religiosos e seus beneficiários.

Por tudo isso, o Reino requer ações concretas da parte dos cristãos. Deus não se comunica com o mundo, e nenhuma pregação fará efeito sem os testemunhos das comunidades de fé, no sentido de se apresentar a salvação com visibilidade: Deus está agindo para tornar mais humana a vida dos homens e das mulheres deste mundo. Palavra e ação, teoria e prática, falar e fazer. Jesus é o cimento desta unidade. Roger Garaudy nos lembra a importância do evangelho como um alerta para a realidade do Reino. Na missão de Deus (missio dei), não se entra sem privação, sem luta, sem indignação e reação (disse Jesus: levanta e anda!). Jamais se entra no Reino pela “posse”, pelo “sucesso”, pelo exercício da “ganância”, ou pela “santidade” e omissão geradas na religião interesseira que produz impérios financeiros e se omite na salvação do mundo. 

Derval Dasilio

Pastor da Igreja Presbiteriana Unida do Brasil

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