1o DOMINGO DA QUARESMA – ANO ‘B’ (2012)
Gênesis  9, 8-17 – “… juro não irar-me contra ti nem reprovar-te”
Salmo 25,1-10 – Deus, perdoa os meus pecados por maiores que sejam
1Pe 3,18-22 –  Cristo desceu ao mundo dos mortos para resgatá-los
Marcos 1,9-15 – No homem Jesus reaviva-se para os oprimidos

Por que o ponto de contato com a “quaresma”, neste texto? O Dilúvio dura quarenta dias e quarenta noites… do ponto de vista sacerdotalista (Gn 7,24); cento e cinqüenta dias para “J” (Gn 8,3), porém, há evidências semelhantes de uma Tradição Primitiva que cuida também das origens da humanidade, referindo-se ao assunto (André Feullet). Desse modo, podemos aproximar-nos do sentido que os autores “sacerdotalistas” desejaram colocar para o Dilúvio e a Aliança: Javé não faz uma aliança bi-lateral com os homens, simplesmente toma a iniciativa de salvá-los. Está implícito que as alianças humanas são passíveis de corromperem-se ao sabor dos interesses do homem.  É graça, misericórdia, hesed, “gratuidade absoluta” de Javé, no Primeiro Testamento.

Deus não pedirá contas do sangue do homem, nem mesmo dos assassinos, os que matam ou cultivam a morte, impondo-a a outros homens… inclusive as feras (Gn 9, 8-17 Lev 17,10-14; 19,26; Dt 12,23).  Finalmente, a fonte “javista”, no final do capítulo 8 (21-22), em consequência do sacrifício de Noé, relata uma repercussão dessa aliança gratuita: “Não amaldiçoarei mais a terra por causa do homem… nunca mais castigarei os vivos como tenho feito. Enquanto durar a terra, semeaduras e messes, frio e calor, verão e inverno, dia e noite não terão fim”!

Na tradição pascal veterotestamentária, a celebração da Páscoa precedia o deserto. Na tradição sinótica (NT), o deserto precede a Páscoa. O deserto marcou o início do ministério de Jesus, além de aparecer em algumas vezes na história do seu ministério. Após o batismo, Jesus retirou-se ao deserto onde jejuou, orou e foi tentado. No deserto, após vencer a tentação, sujeito a inimigos naturais, lobos, serpentes, ele foi servido pelos anjos que o protegiam e preservavam. Deste modo, o deserto é lugar de provação e da providência protetora divina. Diferentemente do povo de Deus na história da peregrinação no deserto (que blasfema, idolatra a prosperidade, a ganância por riqueza, através do bezerro de ouro…), Jesus venceu com a ajuda da Providência. Superou a provação (sem-lar, sem-terra, sem-saúde assistida, sem orientação escolar, por exemplo) e manteve-se fiel a Deus.

Lembramo-nos de 2 bilhões que passam fome, no Planeta; dos moradores de periferia, 90 milhões no Brasil. Não há luz sobre 13 bolsões de miséria escondidos, no país; 600 municípios, sem urbanização, hospitais, escolas; 20 milhões de pessoas vivendo sob todas as fomes do mundo…  municípios carecem dos mínimos recursos modernos, como eletricidade, água potável, esgotos sanitários, escolas razoáveis; pessoas cujas rendas diárias per capita média não ultrapassa 2 reais. Nas periferias das cidades e metrópoles 90 milhões conhecem o mesmo sofrimento, as mesmas doenças, as mesmas desigualdades. Os mesmos  desertos que os poderes públicas hesitam conhecer e atender.  Seus habitantes continuam sob constante provação.  Por isso, ele, Jesus, não experimentaria a morte às portas da terra prometida, como aconteceu com Moisés. Assim, juntam-se deserto e ressurreição na história de Cristo, ressurreição em todos os significados possíveis, unindo batismo e eucaristia (ceia pascal) em um mesmo movimento. Batismo e deserto marcam o início do ministério de Jesus, enquanto a eucaristia e a ressurreição marcam o final.

Mateus dedica-se a mostrar que também Jesus foi tentado no deserto por quarenta dias, antes de iniciar seu ministério, ou a pregação da chegada do Reino de Deus. A partir daí, a Igreja Cristã, especialmente nas comunidades do Apocalipse, sob resistência política, enxerga sua provação como o deserto, onde as águas do “dragão” (fome, abandono político, opressão, miséria) tentam engolir a comunidade (‘provação’), e o deserto engole a água (‘providência’). São figuras e símbolos apocalípticos presentes nos momentos de crise (cf. Carlos Mesters, Apocalipse).

Jesus é o Filho de Deus. Nada de bom se poderia esperar desse homem na luta pela justiça, vindo da obscura Nazaré, uma localidade insignificante ao norte da Judéia. Jesus é  alguém sem nenhuma carta de apresentação, sem pistolão, sem partido ou protetor político (Mc 1,9-15). Jesus é um judeu nazareno sem compromisso com essênios, fariseus, hasmoneus, saduceus, ou extremistas zelotas. No entanto, é com ele que acontece algo de inesperado: “Logo que Jesus saiu da água, viu o céu se rasgando, e o Espírito, como pomba, desceu sobre ele. E do céu veio uma voz: ‘Tu és o meu Filho amado; em ti encontro o meu agrado’ ” (1,10-11). A manifestação do inesperado, do novo, é descrita pelo evangelista através de um rasgão do céu e de uma voz que de lá veio. O céu se rasgou – Marcos diz que em Jesus se realiza outra profecia de Isaías. De fato, o desejo do profeta era: “Estamos como outrora, quando ainda não governavas, quando o teu nome, Iaweh, nunca fora invocado. Quem dera rasgasses o céu para descer (a justiça)!” (Is 63,19).

Pois bem, esse desejo agora acontece. O céu se rasga para que Deus esteja presente entre os homens. O que é que faz com que o céu se rasgue e o Espírito de Deus desça sobre Jesus? O livro do Êxodo mostra claramente por que Deus desce: “Iaweh disse: Eu vi bem a miséria do meu povo que está no Egito. Ouvi o seu clamor contra seus opressores, e conheço os seus sofrimentos. Por isso, desci para libertá-lo do poder dos egípcios [escravidão econômica] e para fazê-lo subir para uma terra fértil e espaçosa, terra onde corre leite e mel…” (Ex 3,7-8). O cenário, porém, é dominado agora pelos assírios, e depois pelos babilônios.
 
No homem Jesus, portanto, reaviva-se para os oprimidos a experiência de Deus agindo na história para libertá-los. Memória do “êxodo”. A presença do Espírito em Jesus é muito importante porque indica a presença do divino no homem de Nazaré (remeto ao comentário sobre a Transfiguração do Senhor – entre meus comentários do 7o. Domingo do Tempo Comum, próximo passado, 19.fev.; ver também o comentário abaixo: 1Pe 3,18-22 ).

Mais uma vez, são as Escrituras que ajudam a entender o texto de Marcos. A voz vinda do céu, ao declarar Jesus como Filho amado, no qual o Pai encontra o seu agrado, nos faz lembrar duas passagens do Antigo Testamento: Salmo 2,7 e Isaías 42,1. Marcos, portanto, já confessa a sua fé: Jesus é o Messias, o Filho de Deus, que reinará sobre os homens. Mas, de que reino fala? Certamente é o Reino de Deus, cerne da pregação de Jesus nos evangelhos. No entanto, esse rei é o servo escolhido por Deus Pai, a serviço da justiça (“promover o direito entre as nações”). Para entender claramente as características desse “rei” recorreremos às parábolas: “o Filho do Homem veio para servir e não para ser servido”, cf. 10,42-45.  E não pronunciamentos, julgamentos, como o falso senso-comum acredita, de Mateus 25; especialmente a última, referente à solidariedade diaconal aos desgraçados: “Quando te vimos”? (Mt 25). O batismo de Jesus não é apenas um exemplo de humildade de Jesus, mas a revelação de que ele é o Messias esperado, o Filho de Deus presente no mundo (E. M. Balancin).

Derval Dasilio

Pastor da Igreja Presbiteriana Unida do Brasil

Anúncios