QUARESMA – 2o. DOMINGO  – ANO ‘B’ (2012)
Gênesis 17.1-7 – Cada um levará na própria carne a marca da pertença ao seu Deus
Salmo 22,23-31 –  A ti me entreguei desde o meu nascimento
Romanos 4,13-25 – Acreditar no impossível, manter a esperança
Marcos 8,31-38 – Quem perde a sua vida, por causa de mim, vai salvá-la

Ter fé é jogar-se inteira e confiadamente nos braços de Deus. Como o fez Abraão (Rm 4,13-25). Acreditar, especialmente quando todas as coisas parecem impossíveis. Abraão era velho, e Sara, sua mulher, era estéril. Foi aí, desse terreno do impossível segundo os homens, que Deus prometeu que nasceria um grande povo. E Abraão acreditou, confiou plenamente na promessa de Deus. “Acreditar no impossível…”, e Abraão esperou firmemente contra toda esperança. Por isso a promessa se tornou realidade: e nasceu Isaac, o filho da promessa. Abraão ensina que ter fé não é fazer cálculos sobre as possibilidades, ou não, da revelação e promessa de Deus. Ter fé é aceitar com ternura a revelação de Deus, confiando e entregando-se plenamente a Deus. Como um filho que confia nos braços do pai (Mauro Strabeli).

Marcos nos conduziu até aqui para aprendermos a prática de Jesus, a fim de provocar nossa adesão à pessoa de Jesus e ao Evangelho do Reino de Deus, a Boa Notícia (Mc 8,31-38). Jesus, porém, deixa bem claro que aceitar a participação nos riscos e na luta sem negar Jesus e a sua causa é condição sine qua para participar de sua glória: “Se alguém se envergonhar de mim e das minhas palavras diante dessa geração adúltera e pecadora, também o Filho do Homem se envergonhará dele, quando vier na glória do seu Pai com seus santos anjos” (8,38).

Não basta ficar ao lado dele, como espectador descomprometido, admirando seus feitos e suas palavras. A palavra de ordem é “adesão” ao Evangelho, fé na causa essencial, a missão de Deus. Agora somos convidados explicitamente a nos empenha  na sua causa. Muitas personagens que encontramos pelo caminho do Evangelho começaram a se “envergonhar” de Jesus, não aceitando o que ele fazia: os fariseus fazem um plano para matá-lo (3,6); os doutores da Lei o consideram possuído pelo demônio (3,22); as pessoas de Gerasa querem que ele vá embora quanto antes (5,17); seus parentes ficam escandalizados (6,3); Pedro o repreende, não aceitando o caminho que Jesus vai percorrer (8,32). E nós, diante das exigências agora colocadas, será que na “hora do vamo vê” também não nos envergonharemos de Jesus?
 
Podemos ver isso, hoje em dia, nas pessoas sem-teto que são mortas nas calçadas e nas ruas de nossas cidades  (todos os jornais: 27.fev.2012), solução cruel de exterminar a miséria… e nem nos comovemos? Por que, como maioria, dizemos “não” ao desarmamento e “sim” ao incremento da indústria armamentista? Por que nos recusamos a jogar luz nos porões do nosso mundo, nossa sociedade, lá onde estão os desesperançados, des-graçados, vítimas de todas as violências, sociais, legais, criminais, necessitados de gestos concretos que expressam a Graça de Jesus Cristo?
 
A contradição vivida, muitas vezes, está no adiamento das prioridades sob o pretexto: urge crescer para garantir os mínimos para que milhões pudessem comer e, por políticas sociais, serem inseridos na sociedade. Primeiro garantem-se para o sistema financeiro a fim de pagar a dívida pública, depois para os grandes projetos. Somente a fração menor cabe às imensas maiorias que só agora estão ascendendo. Um terço da população brasileira conhece a desgraça de viver nos bolsões de miséria que a economia oficial ignora.

Todos ganham, mas de forma desigual. Tratar de forma desigual a iguais é grande injustiça. “Nunca houve políticas redistributivas: tirar dos ricos (por meios legais) e repassar aos que mais precisam. Haveria equidade. Para as classes já atendidas, precisa-se cobrar menos crescimento e mais prosperidade: melhorar a qualidade do bem viver, da educação, das relações sociais menos desiguais, e mais solidariedade a partir dos últimos” (L.Boff). Cooptados pela propaganda que incita à ganância, ao consumo, as classes ricas ou bem-postas fecham os olhos para os des-graçados, financiadas pelo sistema bancário, na indústria da felicidade aparente e seus inúmeros postos de venda. O dinheiro imundo é meta garantida, uma vez que banqueiro não vai pra cadeia, embora a falsa justiça não desmonte o circo nos espetáculos pro forma de todos os dias.

“Penso que as instituições bancárias são mais perigosas para as nossas liberdades que exércitos inteiros prontos para o combate. Se o povo americano permite um dia que os bancos privados controlem a sua moeda, os bancos e todas as instituições que venham a florescer em torno aos bancos privarão as pessoas de toda posse, primeiro por meio da inflação, em seguida pela recessão até o dia em que seus filhos (e filhas) acordarão sem casa e sem teto sobre a terra que seus pais conquistaram” (frase atribuída a Thomas Jefferson – 1802). Não deu outra… não há sociedade mais imitada, no mundo.
 
Renunciar não é uma atitude passiva, mas espiritualidade que nos leva ao dinamismo da construção de novas relações dentro das quais não há lugar para os instintos egoístas. O seguimento de Jesus se dá dentro da história de uma sociedade sem compaixão, que se pauta pela ambição do poder, de “ter” e aparecer a qualquer custo, enquanto vai gerando relações injustas e opressoras. Os discípulos terão de enfrentar situações adversas e perseguições (tomar a sua cruz!). Jesus vai além, na sua instrução, para deixar bem claro em que implica segui-lo em plena consciência: “Quem quiser salvar a sua vida, vai perdê-la; mas, quem perde a sua vida por causa de mim e do Evangelho, vai salvá-la”(8,35).

Sem cuidarmos dos pecados estruturais da sociedade onde nos encontramos, atentos às nossas responsabilidades cidadãs; sem diminuir esse lado difícil do seguimento, buscar “salvar a vida” significará também colocar a própria segurança naquilo que não pode fornecer essa segurança: o bem-estar egocêntrico entre as riquezas deste mundo (Euclides Balancin). Nem grades nem muros nos salvarão da violência existente, sinais de morte que não respeitam a privacidade de ninguém – a mídia se encarrega da tarefa de impor nos acontecimentos diários essa correlação. As falsas seguranças que escondem a realidade não podem salvar ninguém… nem mesmo a sociedade da qual somos parte responsável.

Contudo, o martírio seria uma escolha suicida se fosse visado como uma finalidade de vida. Buscar a morte pela morte não tem nada de evangélico. Quem quiser salvar a sua vida de falsas seguranças, vai perdê-la… ao contrário, ganhará sua vida quem se entrega às consequências de um testemunho (martyria) e de uma prática que busca a justiça e a fraternidade, como princípio de fidelidade a Deus, enquanto se valoriza a solidariedade entre homens e mulheres, oprimidos e bem-postos, pontua de muitas maneiras as renúncias exigidas do compromisso com  a Graça salvadora de nosso senhor Jesus Cristo, Deus fiel salvador.

Derval Dasilio

Pastor da Igreja Presbiteriana Unida do Brasil

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