3ºDomingo da Quaresma – Ano B (2012)
Êxodo 20,1-17 – A Palavra está firmada na Aliança

Salmo 19 – Os preceitos do Senhor são retos

1Coríntios 1,18-25 – Só a ignorância desculpa o erro

João 2,13-22 – Fizestes da casa de meu Pai um mercado…

 
Nas semanas que  antecedem a Páscoa, em Vitória-ES, diante das câmeras, um líder era preso pela Polícia Federal, juntamente com um suplente de senador, do bloco evangélico no Congresso Nacional. Era trancafiado enquanto exibia um exemplar da Bíblia diante das câmeras. A acusação era de roubo ao erário e formação de quadrilha, estava ligado a um senador também evangélico. “Usam-se igrejas como fachadas, e como negócios religiosos”, sugere a imprensa – Cf. Jornal A Gazeta; Rede Globo de Televisão: 8.março.2006. Também na Quaresma, 2012, na mesma localidade, a Igreja Cristã Maranata e a Assembleia de Deus, noticia o mesmo jornal, passam por investigação policial e pelo Ministério Público Federal. Pelos mesmo motivos. Para os novos evangélicos, “religião é dinheiro”, enquanto cometem abusos (evidentemente consentidos) contra a comunidade de fieis.

Essa era a situação do Templo na época de Jesus: um grande banco, controlado pelo poder econômico, político e religioso (que também impunham as ideologias, ou sistemas de pensar, ao povo). A religião de mercado se impõe. Religiosos se imaginam como empresa e mercador, mandam e orientam. Há “banqueiros”, financeiras, comerciantes e compradores desse produto. Os fieis não se dão conta e contribuem. Tributaristas religiosos cuidariam dos aspectos “legais” da exploração. Templo é capital e lucro, lição bem aprendida por evangélicos pentecostalistas recentes. O Templo  bíblico era ao mesmo tempo uma secretaria fazendária, agência bancária e shoping religioso com clientela cativa (emporion), sem outra alternativa senão consumir obrigatoriamente sob indução religiosa (comp. Kümmel, Käsemann, Milton Schwantes). Os fieis não percebem o abuso, e contribuem.

Abrigados no centro da opressão e da exploração, o Templo, símbolo da religião, os dirigentes e lideranças sabiam muito bem manipular a religião em vista da preservação de seus lucros e privilégios. Jesus fica irado, furiosamente expulsa a todos do Templo. Com isso, o evangelista indignado denuncia: com Jesus chegaram os tempos novos, tempo da intervenção de Deus (kayrós); tempos em que a religião não pode ser misturada com comércio nem servir à opressão e injustiças contra o povo. Ao expulsar todos do Templo, Jesus diz aos que vendiam pombas: “Não transformem a casa de meu Pai num mercado (emporion)”. As pombas eram o sacrifício dos pobres, tinham de pagar muito caro para “ter acesso a Deus”(cf. 1,17).
 
Três semanas antes da Páscoa (greg.pásca / heb.pessah) os arredores do Templo de Jerusalém se tornavam um grande mercado (Jo 2,13-22). O clero, a organização sacerdotal enriquecia com o aluguel dos espaços para as barracas dos vendedores e cambistas. Os animais criados nos latifúndios eram conduzidos a Jerusalém e vendidos a preços que, nessas ocasiões, aumentavam assustadoramente. Todo religioso maior de idade devia ir a essa festa e pagar os impostos previstos para o Templo (hiero = raiz de hierarquia). O Templo adotara a moeda “tíria” como moeda oficial (cunhada em Tiro, cidade pagã), pois ela não desvalorizava com a inflação que, na época de Jesus, era muito alta. A ironia disso está no fato que a Lei proibia o ingresso no Templo de “moedas pagãs”. Mas os gananciosos dirigentes religiosos burlavam a Lei em vista de seus privilégios. Os cambistas faziam a troca.
 
Os dirigentes religiosos reagem com energia diante do que Jesus faz. De fato, de que modo reagem os que, como a nobreza sacerdotal daquele tempo, mancomunada com as elites políticas, vêem se desfazer qual fumaça sua fonte de lucro baseada na religião? Por isso os dirigentes querem saber com que autoridade (sinal?) Jesus está fazendo isso. Quem o autorizaria? Em vez de lhes dar uma resposta direta, Jesus acrescenta uma denúncia velada: “Destruam esse Templo, e em três dias eu o levantarei” (versículo 19). Nessa afirmação misteriosa está presente a denúncia de que o poder religioso será responsável pela destruição do corpo de Jesus (morte), mas Jesus irá ressuscitar, e com ele o sinal da ressurreição possível (um mundo novo possível), destruindo o poder religioso que favorece a morte. As lideranças religiosas, bem como os discípulos de Jesus, entendem esse gesto como uma reforma do sistema religioso. De fato, os discípulos pensam que Jesus tenha feito isso por seu zelo pelo Templo. Isso demonstra que para aderir a Jesus é necessário longo aprendizado sobre a honestidade religiosa, a justiça, a cidadania dos que o seguem, sugere João (o evangelista). Só depois da ressurreição é que os discípulos tiveram a compreensão exata do fato: Jesus estava falando do seu próprio corpo (21-22), e das possibilidades de ressurreição para o mundo inteiro. Inclusive a ressurreição moral.  Por isso acreditaram na Escritura e na palavra de Jesus (José Bortolini).

Derval Dasilio

Pastor da Igreja Presbiteriana Unida do Brasil

[Gravura: Cerezo Barredo: Ladrões no Templo]

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