Tags

,

4o.DOMINGO DA QUARESMA – ANO “B”
Números 21,4-9 –  A serpente livra da morte repentina…
Salmo 107, 1-3; 17-22 – Comunhão do Oriente ao Ocidente
Efésios 2,1-10 – A graça exige uma resposta de fé
João 3,14-21 – Na crise, um novo nascimento

João está dizendo: Jesus, ao vir ao mundo, à luz (luz = photós, imagem bem contemporânea, mesmo no mundo digital), revela-se atuando com um julgamento de separação quanto aos atos humanos contrários às intenções do Deus Salvador. O tema é clássico, também apresentando a polaridade da luz e das trevas, uma inversão de valores. O perverso busca a escuridão para esconder suas indignidades, injustiças; para alcançar a impunidade. A escuridão é também o refúgio de quem comete um delito. A luz é uma metáfora do Deus Criador, a quem Jesus serve, em sua missão. “A luz inunda o mundo com claridade e calor” (L.C.Susin).

Escuridões tenebrosas ocultam a perversidade e escondem crimes horrorosos contra a humanidade. Inundando o mundo com sua claridade, Jesus permite “que venha a luz”. Tudo que se espera ver com clareza, transparência, vem ao “julgamento” da luz. Porém, a escuridão despudorada não percebe a luz em sua invisibilidade. São necessárias lentes especiais que aguçam a percepção das realidades nela ocultas. Em Jesus se pode ver a verdade com clareza, e através dele as realidades que se ocultam. O que seria? Seriam, talvez, esferas de interesse humano, como quer Andrés Queiruga.

Perigo iminente é configurar uma vida de fé fulgurante através das crenças, ritos e orações, como “luz”, para se alcançar algo que pertence somente a Deus. No outro lado, também é equívoco identificar a incredulidade com uma vida obscura, sem Deus. De fato, as duas esferas percorrem órbitas coincidentes sem se chocarem jamais. Outra consideração refere-se à consciência humana de si mesma. Nascer de novo é como experimentar nosso próprio nascimento. Sobrevivemos aparentemente sem nenhum problema, sem assombro, sem considerar nosso próprio nascimento, sobrevivendo ao desaparecimento de milhões de células, numa espécie de sorteio germinal entre milhões, num encontro fecundante que gerou nossa própria vida. Quando foi que debatemos conosco mesmo a ideia do “infinito”? Quando foi que olhamos para o mar e indagamos sobre os milhões de anos nos quais as ondas batem na praia e rolam sobre a areia, sempre retornando, maré após maré? O mistério da vida é tão grande quanto o mistério da fé.

Jesus já respondera a Nicodemos sobre os significados do seio materno, donde brotam águas primordiais, ambiente de onde nascem todas as coisas (Gn 1,2: “a terra era sem forma e vazia, e o Espírito pairava sobre a face das águas…”). Segundo a tradição, a água é o elemento feminino da Criação. O Espírito, em hebraico, também é uma palavra feminina (rûah), porém usada como se fosse o elemento masculino da fecundação, Deus é Pai e Mãe ao mesmo tempo. Em grego o sentido é o mesmo: (pneuma) Deus, Espírito, é um vento, um alento, um sopro criador. A objeção: “como pode um homem velho nascer de novo?”,  já havia sido respondida, à feição da tradição hebraica. “Aquele que nasce vê a luz de um novo dia” (Sl 49,20; Jó 3,16); o novo nascimento permite visões, como nas noites iluminadas, madrugada cheia de luzes de utopias libertadoras. O Reino de Deus é o raiar de um novo dia no cosmo inteiro.

Mas Nicodemos se expõe ao julgamento de suas questões sem reconsiderar sua realidade humana envolta em escuridão. A luz de Jesus é também uma realidade para a fé, quando responde à gratuidade divina, na reconciliação, na solidariedade, na busca de dignidade humana. Também na psicologia da profundidade a dualidade exemplar do ser humano é lembrada. Um mundo de escuridão convivendo com a claridade, como Carl Jung poderia ter demonstrado. A psique humana se envolve com o duplo signo da ‘anima’ e do ‘animus’ (alma e espírito),  lado a lado, inseparáveis, habitando um corpo.  Portanto, é preciso pensar que entre a luz e a escuridão há uma zona cinzenta. Nem tudo é luz, nem tudo é escuridão. Ou melhor, luz e escuridão constituem um casamento para sempre, uma união indissolúvel e eterna.

Uma pergunta: a não-salvação pode ser entendida aqui como “julgamento” para condenação previamente anunciada, em função da incredulidade? A escuridão fecha homens e mulheres para o dom do amor, por isso está condenada? Não crer, não ver a luz, é um ato positivo de liberdade? Subtrair-se da salvação é uma escolha diante da decisão requerida? Chegamos ao ápice dessa perícope (Jo 3,14-21): um momento de crise! No grego, ‘krisis’ significa julgamento e condenação ao mesmo tempo. Mas também significa distinção e separação: “no princípio, Deus separou a luz das trevas”, polaridade inevitável (Gn 2,4).

Nicodemos não escapa à espiritualidade simplesmente reformista, essa que pede demonstrações, depende de provas, de sinais externos para uma compreensão terrena da gratuidade e da revelação. A Graça divina testificada à luz da razão. O mistério da Graça, da iniciativa de Deus na direção do homem e da mulher, dos oprimidos pela sociedade humana, nas expressões identificados pelos sistemas de pensar a religião, a política, a economia, só poderá ser compreendido nas respostas  que direcionam à plenitude, vida plena e abundante, conforme a promessa do Evangelho. Plenitude é tema da teologia de Paulo, também, assim como a “largura”, a “extensão”, a “altura” e a “profundidade”: …“nada poderá nos separar do amor de Deus” (Rm 8,38-39).

Sentença após sentença João encadeia os temas da fé na salvação, tudo retirado do cotidiano, das coisas terrenas, cenários obrigatórios para identificar-se a intervenção de Deus: semente (spermatos), água (‘udatos),  são palavras-chaves para se compreender a  geração do novo, da novidade de vida. 

Derval Dasilio

Anúncios