QUARESMA – 5º. Domingo – Ano B
Jeremias 31,34 – A Lei de Deus não nunca estará num livro de papel…
Salmo 107,1-3;17-22 –  Salvos porque bradaram contra o sofrimento de todos
Hebreus 5,5-10 –  Foi Cristo que orou pela salvação de todos
Evangelho: João 12, 20-33 – Se o grão de trigo morrer, produzirá muito fruto
 
Estamos diante de “paradoxos” do evangelho? “Perder” a vida por amor é a forma de “ganhá-la” para a vida eterna (ou seja, ir de encontro aos valores definitivos do evangelho de Jesus, aplicando-os). Morrer para si mesmo é a verdadeira maneira de viver; entregar a vida é a melhor forma de retê-la; oferecer a vida (à causa de Jesus) é a melhor forma de receber a vida eterna, hoje e sempre (P.Tillich, A vida eternal é agora!). Paradoxo é uma contradição aparente, como perder ou ganhar, morrer ou viver, entregar ou reter, dar ou receber, desabrochar ou murchar, amadurecer ou apodrecer. Parecem dimensões ou realidades contraditórias. Mas não são.

Descobrir o evangelho, para João, é alcançar novas sensibilidades.  O húmus da terra encarrega-se de dar vida à semente que morre e forma novas raízes. Saberes, conhecimentos, símbolos, significados, valores, sentimentos, emoções, sensibilidades, são eixos de orientação que precisamos aprender (C.R.Brandão), quando buscamos o sentido do evangelho de Jesus sobre a semente que morre para que ressuscitar a vida.

Físico de renome fala com muita delicadeza sobre este assunto: “Tudo que vive é dissipativo, se desmancha, se dissolve para alimentar outras coisas, outras vidas” (Yilia Prigonine). A morte alimenta a vida, quis João dizer? Pergunta que faço para mim mesmo, bom aprendizado para a vida de fé. Como a roseira na minha varanda, cujos galhos já não florescem precisando ser podados, para que brotem novos galhos do tronco que lhes dá a vida; para que novos botões aflorem, novas cores seduzam o observador; novos perfumes se lancem no ar úmido, em sensações deliciosas que anunciem o renovo, a ressurreição da vida. Permanecerá, sempre, a vida em renovo. Se os galhos improdutivos forem podados.

Uma águia real pode viver 70 anos, se aos 40 assumir o que deve ser feito. O bico enfraqueceu com a idade e se curvou, impedindo que a águia continue sua caça normalmente. As unhas estão gastas e enfraquecidas, a penas estão murchas, o corpo pesado desliza com dificuldade nas correntes de ar.  A águia, então, toma a decisão necessária, sobe ao ninho na alta montanha para reorganizar suas forças e potenciais. O processo se completará em cinco meses. A águia começa por bater insistentemente o bico na pedra até arrancá-lo completamente. Depois, aguarda nascer o novo bico. Após semanas, com o bico renovado, arranca as unhas gastas, uma por uma. Em seguida, retira uma a uma as velhas penas e aguarda o renovo das duas.  A partir daí viverá mais 30 anos.

O ser humano também se caracteriza por ser capaz de amar, de sair de si mesmo, e entregar sua vida ou entregar-se a si mesmo por amor. A humanização seria a “descentralização” de si mesmo, que é sair de si mesmo e encontrar-nos com os demais no amor… A parábola que estamos refletindo expressa um ponto alto desse amadurecimento, tanto que pode ser considerada uma expressão acima do amor. No fundo, esta parábola equivale ao mandamento novo: “Este é o meu mandamento, que se amem uns aos outros ‘como eu’ vos tenho amado; não há maior amor que ‘dar a vida’” (Jo 15,12-13). As palavras de Jesus têm ai a pretensão de síntese. Aí se encerra toda a sua mensagem. Amor para Jesus se traduz em misericórdia, compaixão, cuidado, solidariedade, partilha. Amor concreto, sem abstrações filosóficas. É preciso sacrificar as velhas convicções, os equívocos religiosos ou filosóficos, e ingressar no renovo que sustenta a vida.

No evangelho de João (12, 20-33) vemos judeus gentílicos que vêm a Jerusalém. Convertidos ao judaísmo no mundo greco-romano mediterrânico, comemorarão a Páscoa. Buscam a Jesus. Mais um gesto do evangelho ecumênico de João, ou  pleno, total, universal (katholicos), pois este lhes informa: “inclusive os pagãos buscam a Jesus”.  A ocasião é aproveitada para se anunciar que o tempo das palavras e sinais está chegando ao seu fim, pois se aproxima a “hora” do “sinal” maior: a paixão e morte na cruz, para a redenção do mundo. O testemunho da Ressurreição universal está na pauta do evangelho joanino.

Devemos perguntar se a mensagem da pequena parábola do grão de trigo é uma “uma revelação única”, particular, para eleitos, ou foi revelada para todos os homens e mulheres desta terra. As pessoas podem descobri-la, sem a interpretar? A mensagem que Jesus propõe, é uma “revelação” vinda do alto, à qual nunca poderíamos chegar se ele não nos tivesse manifestado aos crentes? Se o grão de trigo não cai na terra morre, não fecunda. O grão de trigo entrega-se à morte, enterra-se, perde-se, ou “ressuscita” para ser fecundo? A condição da fecundidade é saber morrer para muitas coisas e ressuscitar para outras, como nos lembrará, também, Paulo, o apóstolo e mártir do evangelho de Jesus Cristo.

Tratamos aqui das sementes e das raízes do evangelho de Jesus sobre a ressurreição. O Evangelho fala de gestos fundadores da vida humana na partilha do amor (Roland Barthes).  Penso eu, você concorda?, Jesus recorre À  parábola, “só o grão de trigo que morre dá muito fruto” como lição fundamental do Evangelho inteiro. O ponto máximo da mensagem de Jesus é o amor concreto, solidário, cooperativo; amor que reforça o primado da pessoa e da vida; amor que se dá a si mesmo em renúncia, e “perder-se a si mesmo” em entrega sem medo; amor que, por esse perder-se, morrendo para si mesmo, enquanto se gesta a vida nova em ressurreição do ser inteiro; amor sem fronteiras, como um poço profundo ao qual nenhuma sonda encontra o fundo.

Discordará dele o evangelho dopado pela religiosidade  emocional pentecostal ou carismática, que evita sistematicamente a cruz, o sofrimento e as provações de quem ousa contestar, indignar-se contra a injustiça, desejando a felicidade “química” comprada com dinheiro e sustentada pelo evangelical show business  que tomou as igrejas cristãs.

Anúncios