DOMINGO DE RAMOS E DA PAIXÃO – ANO “B” (2012)
João 12,12-16 – “Bendito o que vem em nome do Senhor!”.
Salmo 118,1-2; 19-29 – “Entrarei pelas portas da justiça, esta é a porta do Senhor”.

Os cristãos estarão, neste domingo de Ramos, caminhando ao lado de Jesus? As implicações dessa caminhada envolvem o compromisso de levar a sério nossa adesão à causa de Jesus Cristo. Acompanhar Jesus em sua última jornada no caminho da cruz, enquanto Ele entra na cidade de Jerusalém aclamado como o rei que traz o shalom (paz) de Deus, implica em levar a sério as realidades que corroem o mundo e clamam pela paz. Não somente paz espiritual, pessoal, íntima. Que paz? Como falar de paz num tempo caracterizado pela violência em múltiplas impressões? Paz diante das violências do mundo inteiro. Na mesma semana do plebiscito de Pilatos: “Cristo ou Barrabás”, esse mesmo povo absolveu o criminoso e condenou o proponente da Paz.

Que significados têm o discurso da Paz, segundo o evangelho de Jesus, frente à multidão de homens e mulheres que vêm ao encontro de um rei sem poder político? Lemos os jornais, falam de conflitos no Oriente Médio, guerra ao terrorismo, Afeganistão, Iraque, Irã, Israel, EUA, Inglaterra, França, enfim, mais de cinquenta pontos conflituosos no mundo inteiro. As imagens que os meios de comunicação oferecem mostram os campos de batalha sangrentos exigindo atenção e os parlamentos internacionais debatendo o mesmo ponto: paz.

Esta perícope é antecedida por outras informações importantes (João 12,12-16), levando-se em conta que o capítulo é heterogêneo: a ressurreição física de Lázaro é relatada, uma excelente lembrança de que há várias ressurreições possíveis; Lázaro ressuscitou para viver o resto de sua vida, e certamente morreria, biologicamente, como todos os viventes que declinam seus dias. Pontua-se, diante de uma mulher, Marta, que a compaixão e a amizade são valores que acompanham uma “ressurreição”: “Jesus lhe diz: eu sou a ressurreição e a vida, quem crê em mim, ‘ainda que morra’, viverá; e, quem vive e crê em mim, ‘viverá para sempre’. Crês nisso?” Essa ressurreição, portanto, é anunciada antecipadamente. Difere da ressurreição do Senhor, no domingo da Páscoa. Lázaro tinha se transformado numa atração, em razão disso, perigo à vista para Jesus. O poder da morte domina o mundo, e toda ou qualquer ressurreição é indesejável. A tradição sobre o destino inevitável, o fatalismo, a rendição ao domínio da morte, é ferida em sua essência.

“Pesadelo” é o nome da canção que nos acompanha desde os tempos da repressão na ditadura militar, tanto quanto o “Matthäus Passion”, oratório de Johannes Sebastian Bach, profundo e transcendente, com destaque para o mote recorrente tão conhecido: “Oh, Fronte Ensanguentada”… e a cruz dos mártires. Desde o autoritarismo militar dos “anos de chumbo”, perseguidos pelos apoiadores do Golpe de 1964, nós ouvíamos o quarteto MP4, que fazia a sua parte. Estavamos também embalados  pela Paixão do Cristo crucificado, identificado  nos mártires sob os poderes violentos deste mundo:

“Quando o muro separa uma ponte une./ Se a vingança encara o remorso pune./ Você vem me agarra, alguém vem me solta./ Você vai na marra, ela um dia volta./ E se a força é tua, ela um dia é nossa./ Olha o muro, olha a ponte,/ olha o dia de ontem chegando…/ Que medo você tem de nós,/ olha aí!/Você corta um verso, eu escrevo outro;/ você me prende vivo, eu escapo morto./ De repente, olha eu de novo /perturbando a paz, exigindo o troco,/ vamos por aí, eu e meu cachorro./ Olha o verso, olha o outro;/ olha o velho… olha o moço… chegando./ Que medo você tem de nós:/ olha aí!” (Paulo César Pinheiro/Maurício Tapajós).

Mas João também dá um caráter transcendente ao “messianismo” de Jesus. Não é imposto pelo poder das armas, nem é acompanhado de decisões político-partidárias. Jesus faz um discurso decisivo em torno de sua proposta, o Reino. A palavra shalom é o eixo desse pronunciamento. Quais são os sentidos da Paz, segundo Jesus? Trata-se de uma nova visão da vida. Um mundo novo estará amanhecendo. Gandhi, Bonhoeffer, Niemöler, Paul Shneidder, Nelson Mandela, Luther King Jr., monsenhor Romero, Paulo Stuart Wright, Chico Mendes, Irmã Dorothy, mártires da Paz e da Fé, entenderam esse sentido: perdão e reconciliação entre povos e nações; libertação do poder de todos os pecados, inclusive dos pecados estruturais do nosso tempo; reconciliação dos que não têm a mesma tradição religiosa; nova vida no serviço da justiça de Deus; direito de herdar e gozar bem-estar num mundo transformado pela misericórdia; participação de um novo mundo sob  o empenho apaixonado da causa de Deus.

Atos de crueldade que costuram a história sangrenta vivida por muitos povos agregam destruição sistemática de bens culturais, o  coração e a alma dos povos e das etnias. O que significa a Paz, no âmbito do reinado de Deus? No campo doméstico não é menor o impacto da violência das armas, perturbando-nos permanentemente. Todos os dias observamos as notícias mais recentes sobre o crime organizado, combate ao tráfico de drogas, inocentes assassinados no meio das ruas, ontem, hoje… são 15 mil mortes violentas por ano, só no Brasil. O amanhã é pré-definido, só teremos que confirmar o estado de guerra permanente nos grandes centros urbanos vendo o noticiário. Enquanto se espera por dignidade da pessoa humana, nos setores mais corriqueiros da vida,  necessita-se de pão para quem tem fome; morada para quem não têm teto; educação para quem não têm escola;  saúde para quem não têm hospitais; trabalho para os alijados na  sociedade moderna.

Pode ser que a solidariedade com o mártir do Reino, como ocorreu com seus seguidores, imediatamente ao seu martírio, nos obrigue a abandonar postulados religiosos acomodatícios, fatalistas, quietistas; talvez nos force a romper com ideologias e dogmas políticos, para cantarmos com sinceridade o cântico das multidões: Hosanas! Bendito aquele que vem em nome do Senhor. E não o clamor popular na frustração política: crucifica-o!

O evangelho de João é mais sóbrio que os outros na narrativa que gera a Festa de Ramos na igreja cristã. Os entornos são mais importantes: trata-se de afirmar o poder de Jesus sobre a morte em todas as suas manifestações. Porém, a recepção não passará em branco. Um peregrino famoso poderia ter igual tratamento, mas a entrada de Jesus faz a diferença: Jesus é recebido como um rei messiânico. Um rei capaz de libertar o povo da opressão política de um império esmagador. O que se espera dele é a salvação para os males de uma sociedade inteira, alcança os problemas sociais enquanto atinge definições políticas sobre a vida nacional sem deixar de lado o problema da religião adaptada e conformada com a repressão, subserviente ao sistema sócio-econômico. Uma religião que aceita o papel de pára-choque cultural retira o Cristo de Deus do seu papel; ignora o texto de acolhida popular do Libertador, no Domingo de Ramos, e introduz no lugar a aclamação do projeto de morte dos poderes deste mundo. Jamais dirá: Hosanas, bendito aquele que vem em nome do Senhor!

Derval Dasilio

Pastor da Igreja Presbiterana Unida do Brasil (IPU)

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