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DOMINGO DA PÁSCOA – RESSURREIÇÃO DO SENHOR – ANO “B”

Isaías 25,6-9 – Cântico à memória dos explorados e massacrados
Atos 10,34-43 – Testemunhas da ressurreição, escolhidas por Deus
João 20,1-18 – O ato de fé na ressurreição é maior que toda dúvida

Como falar de ressurreição, ou de vida para além da morte, em todos os sentidos? Certamente, destacando o corpo torturado e a ressurreição do Senhor Jesus Cristo, inaugurador da nova humanidade e sua vitória sobre a morte. A morte dos mártires de todos os tempos visa a ressurreição. Porém, nenhum deles foi mais importante para a humanidade que Jesus Cristo. Por isso, a obra do artista plástico Guido Rocha é tão reveladora (cf.foto), servindo aos relatórios de Jaime Wright na denúncia da tortura sob o regime militar, desde o Golpe de 1964. Podemos interpretar o pensamento religioso que ainda prevalece nos dias hoje, até nas pessoas mais simples: “o espírito é tudo, o corpo não vale nada; o espírito valoriza o corpo e a matéria degrada o espírito”. A depreciação do corpo prossegue. Equivocadamente! Para diminuir a discussão, precisamos lembrar-nos de que o modelo antropológico dualista (espírito separado do corpo) tem suas raízes numa cultura alheia ao povo bíblico.

Não sabendo acolher a vida biológica como dom divino, um dado natural na existência dos seres comuns, cuja mortalidade constitui-se na multiplicação da vida (…se o grão não morre, não produz frutos! – Jo 12,30-33 ), na incerteza traiçoeira que produz angústia e terror pela vida mortal, a compreensão judaico-cristã tornou a morte um castigo como consequência do pecado. E não erra no sentido. A destruição da vida identifica a ênfase de nosso tempo em diluir as referências da verdadeira estabilidade social, afirmativa de vida plena para todos. Reivindicando vida somente para alguns, na experiência do absurdo e do vazio, os pecados estruturais se destacam, confirmando a definição profética e escriturística para o pecado da humanidade incrustado no corpo do homem.

Sem o corpo não se pode explorar o ser humano! É o corpo da pessoa que é explorado como mercadoria, seja no BBB, na prostituição adulta ou infantil, na utilização de “guris” no tráfico de drogas. Tanto como na mercantilização do trabalho como no esporte de massas, o corpo dos atletas. O corpo está sempre nas agências da alegria  artificial, nas linha de montagem de máquinas exploradoras, no credicard e consumo da felicidade à venda oferecida em toda parte. O corpo é matéria, é carne, e o evangelista João acentuará: “A Palavra se fez carne (greg. logos; hebr. davar)”, e habitou no mundo como corpo, e não como “templo”, porque o Templo (religião) estava a serviço da opressão política desde o modo tributário de Salomão, o “rei sábio”, (cf. Jo 1,2ss; 2Cr 8,1-8). É impossível dissociar o corpo de outras opressões, desde a homofobia, a sexualidade reprimida, a xenofobia, o sexismo, ao direito de viver e de ir e vir em qualquer situação ou lugar.

Pra mim / Basta um dia, / Não mais que um dia, / Um meio dia, / Me dá só um dia, / E eu faço desatar / A minha fantasia ./ Só um  belo dia / Pois se jura, se esconjura, / Se ama e se tortura, se tritura, se atura e se cura (o corpo) / A dor na orgia, / Da luz do dia / É só o que eu pedia. / Um dia pra aplacar minha agonia, / Toda a sangria, / Todo o veneno de um pequeno dia (Chico Buarque). Pois a ressurreição é também uma forma de crítica radical a um mundo de ausências que precisa ser transformado, de todas as maneiras. O custo é o sofrimento das lutas libertárias. Ausências de reconciliação, de compaixão, de solidariedade, de fraternidade verdadeira.

Corpos que são castigados pela tortura, pela prisão, pelo exílio, fome, morte pelo descuido nas políticas públicas (saúde e escola pública, esgotos a céu aberto; criminalidade urbana, impunidade de figurões da política), sob controle de poderes mortais, forças bem visíveis atuam nas realidades humanas. Na memória de Zulu, Zumbí dos Palmares, Tiradentes, Calabar, sabe-se que sem o corpo não se pode torturar ninguém, nem aprisionar, nem exilar, nem matar de fome e de doença socializada, ou qualquer outro assassinato do corpo (Günther Wolf). Para sufocar a liberdade é preciso envenenar ideologicamente, torturar, esquartejar, carbonizar os corpos na inquisição. Sumir com corpos como o do presbítero Paulo Stuart Wright e o líder da UNE Ivan Motta Dias, depois de torturados, entre tantos outros, sob a ditadura resultante do golpe de 1964, no Brasil.

No Mártir, o Cristo Ressuscitado, Deus cria um novo mundo: “eis que faço novas todas as coisas” (Ap 21,5). A fé na ressurreição, por si mesma, é uma “ressurreição” do corpo na força da vida (J.Moltmann). Os horizontes humanos se ampliam, a esperança de uma nova criação se instala com a fé na ressurreição. Deus se revela sobre a impotência, no esvaziamento de quaisquer forças sobrenaturais (kénosis), na cruz e no sofrimento solidário, especialmente. Deus assume a condição humana exemplarmente, o corpo humano por inteiro, no sofrimento até a morte. Mas ressuscitou. Em Cristo, homens e mulheres experimentam também a ressurreição do corpo.

O centro da fé cristã é a ressurreição do corpo, da alma, do espírito, dias após dia. O NT faria implodir a crença posterior da supremacia do espírito (nous), se assim fosse lembrado. Ressurreição é libertação da morte do corpo, mas não em primeiro lugar. Esta centralidade da ressurreição em todo o ser proporciona uma descoberta de renovo, de vida nova, de transformações das coisas submissas ao domínio da morte. O corpo exprime a liberdade contra as opressões e exploração dos corpos das pessoas, porque é visível, concreto, participante das realidades do mundo onde se encontra.

Derval Dasilio


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