2º DOMINGO DA PÁSCOA  – ANO “B” (2012)
Atos 4,32-35 – Com grande poder, davam testemunho da ressurreição
Salmo 133 – Como é gostoso que os irmãos vivam em união!
1João 1; 1-2; 2,1-6  – Ele oferece o perdão dos pecados do mundo inteiro
João 20,19-31 – Eu creio, Senhor e Deus meu!

A ressurreição é um acontecimento único, como um processo que inicia uma consciência envolvente de emoções íntimas sobre a misericórdia de Deus (miserere + cordis), começa com o perdão dos pecados  e termina com lágrimas enxugadas, em sua totalidade: Cumpriu-se o que Isaías dissera sobre o servo sofredor, sobre quem “repousaria o pecado de toda a nação de Israel”: “Mas ele foi traspassado pelas nossas transgressões e moído pelas nossas iniqüidades; o castigo que nos traz a paz estava sobre ele, e pelas suas pisaduras fomos sarados” (Is 53:5). Redenção plural, e não individual.

E o profeta do Apocalipse completará: “Ele enxugará de seus olhos toda lágrima; e não haverá mais morte, nem haverá mais pranto, nem lamento, nem dor…” (Ap 21:4). Eis os extremos da solidariedade. Inverte-se a concepção fundamentalista ou ortoxa sobre a “satisfação” de Deus no sofrimento do Cristo. Deus sofre como e com o homem. A justificação na cruz deixa de ser um ato de poder para ser um ato solidário de entrega. Cristo é  o Deus fraco, esvaziado de poder, para solidarizar-se com a fraqueza de todo homem e de toda mulher. Deus “sofre e morre”, como todos os viventes. Eis o paradoxo da infinitude.

Para que Cristo morreu? Para que Cristo ressuscitou? O que  se oculta   na morte e na ressurreição de Cristo, como e quando será revelado? As respostas devem ser colocadas dentro de um espaço  escatológico aberto. Pensar escatologicamente significa pensar um assunto até o fim, esgotando-se todas as possibilidades (J.Moltmann). Os sofrimentos de Cristo mostram-nos Deus humano e solidário: é Deus que está conosco! Deus caminha e sofre conosco. Enquanto isso, indagaremos sobre a história dos sofrimentos e sobre a ressurreição de Cristo. Da história de Cristo resultam horizontes interessantes para homens e mulheres, como alvo e como sentido para a vida: a fé justificadora; o domínio sobre “mortos” e “vivos”; a superação da morte enquanto inauguração do novo possível; da nova criação; da novidade de vida para tudo que morre; da glorificação de Deus por meio de um mundo que conheça e experimente a redenção de toda a criação.

Nem sempre a morte foi um tabu na história da humanidade. A consciência de quem está mais próximo da natureza, diferentemente das pessoas de nossos dias, envolvidas e absorvidas nas tecnologias instrumentais, permitiam ao ser humano sentir-se parte desse conjunto. A morte era aceita como parte da existência (Evaldo D’Assunção). Distanciando-se da natureza e ignorando-se os ciclos vitais naturais, a morte tornou-se um terror. Passamos a ignorar a impermanência, e com ela a finitude. Freud foi capaz de afirmar que, talvez por isso, nunca pensamos na nossa própria morte. Ou melhor, passamos a negar aquilo que se constitui na mais importante pedagogia da vida, observando a morte e suas consequências.

Há medo entre as pessoas, e na comunidade, depois da morte de Jesus (Jo 20,19-31). Como o povo israelita no deserto, e antes disso, na forte perseguição que o faraó egípcio lhe movera (Ex 14,10). Vulnerável, insegura, indefesa, sentem impotência sob ameaças de sempre. Correspondendo a uma diminuição, ou corte das funções vitais, como até mesmo as culturas da antiguidade concebiam, estar doente, ser deficiente, é estar próximo da morte. E a morte é irreversível. Maria Madalena, sem dúvida, não aliviara os discípulos, eles ainda sentiam temor. A notícia do sepulcro vazio  não era bastante…

A “ausência” de Jesus, diante das hostilidades aguardadas,  atemorizavam os discípulos. A causa corria o risco do fracasso. Imperava o fatalismo ou a consciência de finitude de todas as coisas na morte?  A morte é o inimigo da vida, em todos os momentos da existência. Lançado no mundo, o ser humano deve ter consciência dessas realidades, que o acompanham dentro da existência. “A própria finitude vem à consciência como iminência da própria morte”, como quer Wolfhart Pannemberg: Heidegger encontrou o conceito acertado: “o homem é um ser-para-a-morte”, em sentido genuíno. “Não temos a experiência da morte dos outros”. No máximo, estamos apenas ‘juntos’ com os outros. A morte ocorre no interior do mundo e será lembrada pelos que permanecem vivos. Nada mais importante que afirmar a ressurreição, portanto, e a reconciliação com a vida. Oferta do Senhor Jesus Cristo na cruz.

A missão da comunidade, da igreja sobrevivente, não será outra coisa senão a de anunciar o perdão dos pecados para afirmar a vida em reconciliação para todos os seres humanos, salvar da morte, e pôr fim  a todas as formas de opressão e culpa, originadas em cada omissão, cada desprezo pelo outra e pela outra, cada ofensa, cada mentira, cada fraude, cada sinal de morte nas relações pessoais. Tanto quanto na marginalização, na exclusão, na opressão, em nível social. Porque não há pecados individuais sem a participação das estruturas de poder que a própria sociedade humana sustenta.
 
O efeito do encontro com Jesus é a alegria. A festa da Páscoa, festa de todas as ressurreições possíveis (Páscoa é pessah = passagem). O “exterminador”(mashit), o agente da morte, passará ao largo. A alegria já começou, a festa  da vida, da nova criação, do novo ser humano, festa de libertação, teve início. Este Cristo que se dá oferece também o exemplo de sua vida ressurreta. A Páscoa renovada, festa de libertação, prossegue. Jesus saúda os discípulos e discípulas, devolve-lhes a paz perdida: eles e elas não estão entregues à própria sorte, ao sabor do acaso. O fato concreto da presença do Senhor é constatado nas marcas da paixão e da morte (Jesus é preso, torturado, crucificado e morto pelos próprios irmãos, seu povo). Estes sinais de amor, de entrega, de obediência a Deus, são agora visíveis. Jesus venceu a morte, está vivo diante dos olhos de todos. As marcas da cruz, contudo, não foram apagadas.

Atenção, pois. Há um sinal de alerta: o sofrimento pela causa de Deus faz sentido, porque a ressurreição acontecerá, sempre, na obediência até a morte (“sê fiel até a morte, e dar-te-ei por coroa a vida” – Ap 2,10b). O ressurreto, porém, não quer a “satisfação”, nem quer vingança. O medo da morte, aqui, não pode mais afligir os discípulos. A prova cabal da vitória de Deus sobre o império da morte está diante deles, que têm agora como testemunhar a ressurreição, em todos os níveis e em todos os lugares. O Senhor saiu das sepulturas, ressurgiu do mortos. É inútil querer conservá-lo ali (Elben César). Em Jesus Cristo realizou-se a humanidade de Deus, em completa solidariedade com o sofrimento dos homens e das mulheres. Jesus viveu solidariamente a morte de todos os seres viventes, e ressuscitou para que tudo e todos pudessem também ressuscitar.

Derval Dasilio

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