3º DOMINGO DA PÁSCOA – ANO “B”
Atos 3,10-19 – Arrependei-vos, sejam cancelados os vossos pecados
Salmo 4 – O Senhor distingue o piedoso do justo
Lucas 24,36b-48 – O ressurreto está no meio de nós!
 
Estamos falando de um testemunho valente e corajoso sobre as transformações possíveis das pessoas e das comunidades ressuscitadas. Na cultura do conformismo à morte há estruturas feudais ainda vigorando nos tempos modernos, aristocracias econômicas e elites acentuando profundas desigualdades. Numa mesma sociedade, profundos contrastes são vistos a olho nu. Há sistemas de pensar de dominação, recalcitrantes, persistentes, que exigem adaptação, submissão, como se fossem definitivos, irrefutáveis em si mesmos, sem opção para os que ficam à margem. Há o cultivo de privilégios racistas, classistas, sexuais, funcionalistas.

Há politicagem e corrupção incorporadas à cultura nacional, regional ou local. Há a domesticação exercida pela mídia, para o consumismo e o desperdício de recursos. Há a religião de mercado que vende a “graça barata” como quinquilharias  em cada esquina. Há religiosos que enriquecem e perseguem homossexuais enquanto roubam dos fiéis e da nação. Há pais que educam para que crianças e jovens sejam receptores e transmissores dessas culturas. Os homens e as comunidades de amanhã, que se buscam, os progressos na história, observados em cada cultura, apenas denunciam que o novo ainda está por nascer.  
 
A solidariedade de Cristo com os que sofrem nos situa diante de duas realidades, nua e cruamente (E.Gestenberg/W.Schrage): os assassinatos, os sequestros, a privação da liberdade de ir e vir (morar num prédio sitiado pela violência urbana, p.exemplo); o “bulling” nas escolas, mesmo naquelas onde as crianças são vigiadas por câmeras até nos banheiros; pessoas homossexuais espancadas e assassinadas nas ruas, simplesmente por serem o que são; os assaltos constantes nas mercearias e nos sinais fechados, ou nos portões de garagem; as milícias paramilitares substituindo o crime organizado, escorchando as populações faveladas; a fome e o desemprego; a escola de periferia onde professores são agredidos por alunos armados; os hospitais abarrotados de doentes nos corredores, e os que morrem nas ruas, recusados pelos mesmos hospitais…

A segunda realidade, exposta no evangelho, é a da solidariedade de Deus com o sofredor e a sofredora, apontando a ressurreição possível, novos homens e mulheres, a vitória sobre os poderes da morte, através de Jesus: que exorciza o mal, cura os doentes de todos os males, perdoa os pecados, reconcilia com a verdade – apontando as realidades sociais ocultadas pelas autoridades –; que alivia as dores e enxuga as lágrimas dos que sofrem. Jesus agradeceu ao Pai (eucaristein). Não pelo sofrimento comprometido nas lutas por redenção, que virão escatologicamente, mas através da solidariedade com os discípulos na grande causa do Reino de Deus.

Em Jesus podemos reconhecer, como diria Whitehead, “o grande companheiro, camarada no sofrimento que compreende”. A cruz simboliza a compaixão daquele que sofre junto. A ceia de Emaús traz os significados da solidariedade de Deus contra toda impotência, acusações injustas; violações da dignidade, de direitos; cerceamento da liberdade. Homens e mulheres sofrem, por imposição dos poderes da morte. “Bem-aventurados os que choram… os perseguidos, por causa da justiça… eis que eu estou com vocês… coragem, eu venci o mundo”. Disse Jesus.

A Ceia de Emaús tem agora o sentido do anúncio escatológico no futuro, enquanto o presente o realiza na comunhão universal (koinonia), reconhecido o Senhor, agora: “fica conosco”… Ela, a eucaristia e o partir do pão, a Ceia do Senhor, é o sinal do mundo novo, os poderes deste mundo não têm ingerência sobre ela (Von Allmen). Ao contrário, há uma substituição de relações. O fraternal, comunitário, equalitário, são dominados pelo novo espírito relacional, norteado pelo Espírito do Ressuscitado. O acumulativo de riqueza, de força e de poder, gerador das desigualdades, cede lugar à partilha e ao compartilhar das mesmas lutas e oportunidades. A solidariedade é a chave hermenêutica desse fato eucarístico de suma importância no Segundo Testamento. E o Senhor é reconhecido no partir do pão: “ele está no meio de nós”.

E aqui cuidaremos de não confundir a bondade, a generosidade dos que detém poder político, religioso, econômico, oferecendo pão e circo, bolsa família e copa do mundo em 1914 (“a esmola vicia, ou envergonha o cidadão” – Luis Gonzaga). Já não se pode abordar este assunto para interpretá-la no sentido alegórico ou moral, ou segundo o esquema de uma evolução cultural, um céu abstrato de promessa e de cumprimento das promessas no além, distante das realidades histórico-salvíficas concretas (Ernst Käsemann). A afirmação, de fato, é esta: celebrar a Ceia do Senhor é realizar concretamente, aqui, a “fraternidade do partir do pão”. Sem esquecer as “ervas amargas” da escravidão (Ex 12,8). A gratuidade divina nos lembrará disso tudo. “O ressurreto está no meio de nós, foi reconhecido no partir do pão” (Lc 24,36b–48).

Desse gesto de partilha nasce o mundo novo, começa a nova história; desse gesto novas relações entre homens e mulheres se iniciam, superam-se as desigualdades, as mútuas opressões dos ódios e das intolerâncias; desse gesto virá o combate à indignidade  enquanto se reafirmam os direitos humanos, em toda parte. Neste texto de Lucas a partilha começa com os primeiros e os últimos espectadores da ressurreição. O crucificado é também o que reparte o pão. Com Jesus, podemos dizer: “nunca o Pai esteve tão perto de nós, tão unido conosco na cruz do Senhor e nas cruzes que carregamos” (Queiruga). Convém insistir, porque o sofrimento é a terrível marca de nossa finitude, da exclusão e da negação da vida. O lugar dos desamparados. Porém, a palavra da “ressurreição” transborda na renovação da vida.

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