4º. DOMINGO DA PÁSCOA – ANO “B”

Atos 4,5-12 – Da obediência cega que não pergunta

Salmo 23 –  O meu pastor nada deixa faltar

1João 3,16-24 –  Aprender com o amor de Deus

João 10,11-18 –  O Bom Pastor ‘dá vida’ às suas ovelhas

Não podemos pronunciar a palavra “pastor” sem que a memória histórica, ou o imaginário coletivo, nos obrigue a evocar os rostos patriarcais de Abraão, Isaac e Jacó, primeiros pais da nossa fé. Precisamos de condutores que nos transportem em segurança pelos caminhos do tempo e da vida de fé. Dois paralelos se apresentam, para os nossos dias: um de vida calma para o pastor, respeitando-se o cotidiano, outro de incertezas, no rareamento alimentar, no discipulado da fé. Num plano estão as dificuldades. O pastor é tudo para suas ovelhas. É guia, companheiro de destino, garantia de sobrevivência.  Noutro se denuncia a “lobos de uma ‘malta’ voraz”, pastores politiqueiros, ladrões do erário, interesseiros, manipuladores, abusivos e equivalentes. Apropriam-se dos descuidados, desinteressados, omissos, como aponta Ezequiel: “Ai dos pastores de Israel que se apascentam a si mesmos! À ovelha fraca não fortalecestes, à doente não curastes, não aplicastes curativos nas suas feridas, não buscastes as desgarradas, não procurastes as perdidas e oprimistes as que resistiam ao teu comando” (cf. Ez 34,2-4: TEB, BJ, TLH).

O evangelho aponta o que Jesus significa para as suas ovelhas (Jo 10,11-18): pastor modelo (ego eimi poiemen), uma imagem compacta de segurança diante de uma realidade concreta. Não se trata de uma abstração, ou mera representação poética. Estamos diante de fatos concretos. Sobretudo quando o evangelista lembra: “Ele é o pastor a caráter, agente do bem, capaz de dar a vida por suas ovelhas”. As evocações da tradição, quando compreendemos o que significa a frase “dar a vida por…”, não nos permitem pensar no suicídio de uma liderança que se coloca como vítima exemplar, heróica, enquanto o rebanho é devorado pelos lobos. Mas, se exigirá sacrifícios e enfrentamentos dolorosos, com exigência de se correr risco de vida lutando contra feras que ameaçam o rebanho para defendê-lo e protegê-lo. Clarear a imagem de Jesus, o pastor de Deus, é uma exigência para os discípulos de todos os tempos, o rebanho de Deus e cada pastor.

Pastores recentes, modelos evangélicos na vitrine religiosa, instruídos sob configurações confusas de marketing religioso, preferem explorar o campo da superstição religiosa às últimas consequências, simbologias rituais, orações de poder – cuja origem é situada no paganismo helênico desenvolvido no cristianismo medieval. Não levam em conta os sentidos que a literatura bíblica sapiencial, ou pré-cristã, confere à recompensa, retribuição divina ao crente fiel. Eles não compreendem o sentido bíblico da retribuição (paqad), vida próspera para alguém que preza a hospitalidade e solidariedade; recompensa para quem recebe o necessitado em sua casa (gamal), abrigando-o, dando-lhe lugar para dormir e mesa para se alimentar.

Lembrariam aquele que questiona o legalismo escriturístico na  Tanah (Bíblia Hebraica); o culto religioso sem o sentido verdadeiro de aproximação do Pai, em liturgia emocional e intimista; o orientador espiritual que impõe o distanciamento “pentecostalista” (shekinah); o pastor que despreza o homem ético que se indigna contra a injustiça e denuncia a falsa moral, o desprezo à compaixão ou omissão da solidariedade?  Abusos não acontecem da noite para o dia. No mais das vezes são consentidos. O pastor abusivo acredita que Deus o usa para mandar recados à sua congregação, passa a ser uma referência na vida da pessoa. O fiel, por sua vez, sente uma grande gratidão por aquele que o ajudou a mudar sua vida para melhor (cf. escândalo financeiro na Maranata). O pastor está gostando de mandar na vida dos outros, terreno amplo de abuso religioso. Enquanto isso “profetisa” contra o homossexualismo, pedofilia e pecados sexuais dos outros, convocando os fieis a uma vida de “pureza e santificação” das quais não dá exemplo.

Ninguém manda nele. Ele quer abençoar o indivíduo porque largou as drogas, ou parou de beber, ou parou de bater na mulher, ou porque canseguiu comprar um carro, uma casa, ou arrumou um emprego. O crente, então, começa a lhe dar presentes, enquanto deposita polpudas ofertas no gazofilácio. Se for um grande empresário, ele dá um carro importado para o pastor. E o pastor usa a bíblia fundamentalista para legitimar essas práticas (Marília de Camargo).

As igrejas novas evangélicas que estão surgindo pregam a religião da prosperidade às avessas, sem hospitalidade, compaixão, e sem solidariedade. Estão retomando a figura do “ungido de Deus”, e dela se apossando. Como a figura do profeta, do sacerdote, que existia no Antigo Testamento. No Novo Testamento, Jesus Cristo é o único mediador, mas o pastor dessas igrejas mais novas está se tornando um mediador indispensável (Ed René Kivitz). Em vez de ensinar a desenvolver a espiritualidade da solidariedade, da compaixão, o pastor determina se aquele homem ou aquela mulher é a pessoa de sua vida. Mas você não se meta na dele… ele pode trocar de mulher  como troca de igreja quando lhe dá na telha. Os exemplos estão bem próximos.

O texto, em contraponto ao abuso evangélico cultivado e consentido, mantém duas expressões fortes, cada uma com sua importância, por vez: – Jesus é categórico e incisivo quando diz que “dá a vida por…”, e que também “dá vida às suas ovelhas”.  E a igreja, redil do rebanho de Deus, deve ser o lugar da proteção, não dos abusos, da espoliação, do engodo ou do aliciamento às causas da opressão moralista de falsa-santificação e falsa-purificação. Sem tirar nem por. Há diferenças marcantes para a hermenêutica de fato bíblica (Jo 10,10-11;17).

A salvação do crente está em Jesus, aquele que “dá a sua vida” voluntariamente, sem exigir retribuição. Jesus entrega-se à causa de Deus enfrentando o legalismo protetor dos lobos, pastores políticos; confrontando-se com os abusos pastorais; rejeição ou indiferença às propostas de justiça e paz. Em foco está o reinado do Pai. Na compaixão e misericórdia, e não nos sacrifícios do altar. Jesus morre para a salvação de todos. Sua relação com as ovelhas é real, pessoal, presencial, situacional, íntima. Ele “conhece” as suas ovelhas. Essa relação também representa o que o Pai significa para todos nós. Ele, Jesus, faz tudo isso como executor fiel das tarefas designadas pelo Pai. Sua relação pessoal com as ovelhas equivale às relações que todos temos com Deus.

Derval Dasilio

Livro recente: O Dragão Que Habita Em Nós (Metanoia, 2010)

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