PÁSCOA – 5º DOMINGO – ANO “B” (2012)

Atos 8,26-40 – Como crer, se não são claras, mas díspares, as mensagens de salvação?

Salmo 22,25-31 – Que sejam um, para que o mundo creia cf.Jo 17,21

João 15,1-8 –  Eu sou a videira verdadeira, permanecei em mim

Esses textos cabem na forma lembrada na Semana de Oração pela Unidade dos Cristãos, certamente. As igrejas ecumênicas terão celebrações em todos os dias, na semana do último domingo da Páscoa, antes de Pentecostes. O amor de Jesus pelo seu povo, traduzido em união, comunhão e sintonia com sua causa, caracteriza a unidade cristã. A Semana de Oração pela Unidade é um tempo de crescimento na fé, na fraternidade, na comunhão e na transformação, das pessoas e da sociedade, como experiência concreta de comunhão entre diferentes denominações cristãs. Uma oportunidade não só para a oração comum e para a oração pela unidade em cada igreja, mas também para buscar e acolher mais irmãos e irmãs para que se juntem na caminhada ecumênica pela unidade da Igreja de Cristo. Esta, neste momento, infelizmente, polarizada, fragmentada, invadida pela discordância de princípios e de finalidades nas tarefas a serem cumpridas.

Em sua persistente missão de acolher e partilhar, organismos ecumênicos conseguiram tecer uma consistente rede de parceria social entre igrejas, conselhos e organizações ecumênicas. Jesus, agora, em favor da unidade, denomina-se a si mesmo como “a verdadeira videira”. Só ele é capaz de produzir os frutos que Deus espera (direitos fundamentais, justiça social, julgamento das desigualdades); só nele uma comunidade pode realizar o que o Pai anseia, que é o cumprimento da missão do Reino. Ele se apresenta como a única alternativa para a realização do direito e da justiça para o pobre e o oprimido. Nesse sentido ele é verdadeiro, autêntico e fiel: ele é a verdadeira videira.

Sem a comunidade (ramos), o projeto do Pai arrisca-se à esterilidade. No início da primavera – o tempo da Páscoa na geografia bíblica –, o viticultor seleciona os melhores ramos. Podam-se e eliminam-se os galhos que não serão produtivos (Jo 15,1-8). É a “poda seca”, quando os ramos secaram. Algum tempo depois, quando os novos ramos já se desenvolveram razoavelmente, a ponto de mostrar os cachos ainda pequenos, procede-se à poda verde, eliminando os brotos que não apresentam frutos. É importante lembrar que sem a poda a videira torna-se estéril e acaba morrendo. Podar, portanto, não é fazer a videira sofrer perdas, algo semelhante a um castigo ou punição. Nem mesmo tem o sentido de “limpar”, “purificar”, a videira, e sim de dar condições para a produção em abundância. Uma poda não é uma provação, e sim a graça do renovo pretendido. A poda é um cuidado indispensável, porque sem ela a videira morre. A poda é uma ‘denúncia’ sobre depauperação e contaminação, parasitismo e doenças, impedimentos de frutificação. Não nos indivíduos, mas na comunidade.

Jesus é a videira, mas os frutos da justiça e da dignidade reconhecida brotam das comunidades que a ele aderiram, delas nascem dos ramos. É aqui que a consciência sobre a sociedade da qual fazem parte, buscando justiça social, política, jurídica, para a coletividade inteira. Especialmente numa nação que prima pelas desigualdades (90 milhões, nas periferias das metrópoles, moram em situações precárias quanto à segurança policial, saúde, transporte, saneamento básico, trabalho, escola…; o Brasil é uma nação contaminada pela corrupção política e um judiciário suspeito de favorecer elites econômicas e de virar as costas aos direitos das classes populares).

Fala-se do risco de esterilidade das comunidades cristãs, por excesso de ramos improdutivos.  Não basta estar simplesmente unido a Jesus para sempre, como se diz, é preciso demonstrar a unidade, produzindo a esperança e buscando a colheita de um mundo novo possível. Mais ainda: quem não produz frutos de justiça, de sabedoria e dignidade humana não poderá afirmar que está unido a Jesus, como ramo sadio da videira. Representam os ramos secos (poda seca) e os ramos improdutivos (poda verde), que merecem ficar à parte da missão. Quem permanece em Jesus produz muito fruto; o que não permanece nele é jogado fora para secar e ser queimado. Em outras palavras, quem não se entrega à missão do Reino de Deus; quem não luta pelo direito e não se esforça pela justiça incorre no julgamento (poda), como aconteceu com a videira descrita em Isaías (Is 5,7).

Por isso orar pela unidade reflete um tempo de crescimento na fé, na fraternidade para a transformação do mundo mergulhado na economia de acumulação, no egoísmo que se explica nas desigualdades, na exploração dos mais fracos e no esquecimento dos direitos fundamentais das pessoas e das comunidades. Como experiência concreta de comunhão entre diferentes denominações cristãs. Renovando nossas consciências, estaremos unidos, somos um no amor de Jesus: “Disse Jesus, eu sou a videira, vós sois os ramos… permanecei em mim”. É esse o sentido que interessa à Igreja de Cristo. A única alternativa para a autenticidade é a produção dos frutos esperados pelo Agricultor que plantou a videira. “Conheceis a árvore pelos frutos”, diz o Evangelho. E Jesus também reclama dos discípulos a unidade com Deus, que ele representa quando ora: “Pai, que eles sejam um, como eu e tu somos um”… “para que o mundo creia” no evangelho do Reino de Deus, na salvação e na libertação que alcance povos e raças na totalidade do mundo. Esperamos a salvação que vem de Deus, que se concretize nos sistemas construidos pelas sociedades humanas: política, economia, religião e justiça jurídica. A esperança está em Jesus, contra toda desesperança e desespero. Nele está a salvação para um mundo novo possível, sob o reinado de Deus.

Derval Dasilio

(NOTAS EXEGÉTICAS – Ler comentários, abaixo)

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