6º. DOMINGO DA PÁSCOA – ANO “B”                                                
Atos 10,44-48 – E caiu o Espírito Santo sobre ele                            
Salmo 98 – Ele vem julgar a terra com amor                                 
1João 4,7-21 – Deus nos amou primeiro                                              
João 15,9-17 – Amai-vos assim como eu vos amei 

Ai dos que ao mal chamam bem, que fazem da escuridade luz, e da luz escuridade; põem o amargo por doce, e o doce por amargo (Is 5,20).

A última palavra sobre o amor, conforme a piedade cristã em vigor, poderia envolver considerações inspiradas nas novelas da TV? Ou filmes em cartaz: “Terapia do Amor”; ou nos romances rasteiros disponíveis nas bancas de revista: amor-cor-de-rosa, sensual, prazenteiro, edulcorado, se não é o amor platônico, “abstrato”, filosófico. Seria este o amor do qual João nos fala? Os valores prioritários que invocariam, antes, a possibilidade de amar a fidelidade, a autenticidade, a honestidade, a plenitude do amor, quem sabe. Em comparação com essas virtudes e considerações tradicionais, o que assistimos é uma grande inquietação sobre a “desordem amorosa” que tomou nosso tempo. “Quais são as prioridades do amor?”, perguntaremos insistentemente.

O amor sem igual, sem medida, concreto, relacional, “full contact”, de Jesus, tem alguma coisa a ver com as imagens sentimentais da linguagem cotidiana? Pode a cruz, símbolo de morte e sofrimento, ser um símbolo de amor? Na realidade, o amor extremo de Jesus é um desafio ainda maior que aquele apresentado na parábola: “ama a teu próximo como a ti mesmo…”. Por quê? Porque João vai além, acrescentando, quando escreve o que sai da boca de Jesus: “…amai-vos uns aos outros como eu vos amei”. Um manual de regras sobre a prática do amor poderia muito bem ser pregado numa cruz, e estaria bem posto, e escrito na capa: “Cruz – Mandamento do Amor”.

A cruz pode ser também a medida do ódio, da inveja e do orgulho, de emoções que transformam as pessoas. “Até os animais sentiriam isso”, explicaria o Dalai Lama, mestre budista, sobre a natureza bruta dos seres: “Enquanto a fé cristã luta por extinguir o pecado, o budismo quer suprimir o sofrimento causado por tais sentimentos”, seguramente sob um duvidoso acordo semântico, poderia ser visto aqui. No entanto, para os cristãos, a história da cruz, escrita com o sangue dos mártires, chega até à nossa miséria profunda, nossa ignorância, denunciando a incapacidade de compreendê-la como expressão do esvaziamento (do poder) de Deus em Cristo, por puro amor à justiça.

A cruz de Cristo está fincada entre inumeráveis cruzes enfileiradas junto aos caminhos dos torturados e torturadores (cf. Comissão da Verdade; projeto Brasil: Nunca Mais; O Pastor dos Torturados), violentados e violentadores, como diria Jürgen Moltmann. Do Circo Romano à Prisão Tiradentes, Carandiru, Serra Pelada, Curumbiara, Eldorado dos Carajás, Catedral da Candelária, o amor revelado na cruz mostra-nos Jesus Cristo como o companheiro de sofrimento de todos os oprimidos e abandonados, massacrados, torturados e violentados deste mundo.

O amor é também juiz das consciências, do mesmo modo que é juiz dos algozes, e dos que torturam e matam os que amam a causa de Deus. O Cristo intencionalmente violentado, torturado, crucificado por amor, lembrar-nos-á, como se fazia na antiguidade – e nos apóia a história do Brasil imperial ou recente, e do autoritarismo das tiranias: Tiradentes esquartejado; insurgentes como Paulo Wright, Anivaldo Padilha, Dilma Rousseff, Eliana Rolemberg – tal qual a demonstração pública dos cadáveres dos mártires, com intenção intimidadora.

Estêvão, Tiago, Pedro, Paulo, e quantos mais?, também sofreriam o martírio pela causa de Deus. A ressurreição, como nos lembramos, também em todas as Páscoas, é parte significativa do amor que julga e faz ressuscitar: os mortos voltam à vida na primavera, como as flores ressurgem depois do frio inverno. A questão está sob o juízo de Deus. A justiça de Deus vinga os torturados, os violentados, trazendo à tona o testemunho dos que foram mortos por causa da justiça. São a semente (sperma) de um mundo transformado. Os torturados e assassinados pelos poderes deste mundo têm no Cristo ressuscitado o símbolo desse amor pela justiça, a exemplo do insurgente rev. Jaime Wright (Pastor dos Torturados, O, Derval Dasilio, em preparo)*. A solidariedade de Deus estava no Cristo morto, crucificado, trazido à ressurreição para toda a eternidade, para que todos possam ressuscitar e gozar da justiça de Deus.

Trata-se de um amor libertador, o de Cristo, e ele o leva ao extremo, porque visa a libertação de homens e mulheres das injunções estruturais, poderes opressores (políticos, econômicos, religiosos), sistemas de pensar que “eternizam” a injustiça e desviam seus direitos fundamentais para  fins de dominação e servidão: “Eu vos ordeno: amai-vos [’agapâte]  uns aos outros”.  Há um mandamento que requer obediência, e o amor filial de Jesus, por fidelidade, leva-o a cumprir e exigir obediência ao imperativo divino, ao mesmo tempo (E. Brunner, Divine Imperative).

Este amor escrito com o apoio de verbos dinâmicos, exige a práxis, está provado. Não cuida somente das nossas relações cotidianas. Ultrapassa em muito o trivial. Não há mística ou abstração que possa esconder a prática do imperativo de Jesus, pois o amor não se refere aqui a uma “felicidade” amorosa que se busca em boa vizinhança, ou na estabilidade familiar ou  conjugal. Não se trata aqui de “amor à virtude”, e sim de colocar-se em prontidão para a ação concreta no campo do amor justo e misericordioso, como é o amor de Jesus Cristo, nosso Senhor. O escravo (doulos) do amor serve à justiça de Deus, acima de tudo. Deus é amor, disse João. O evangelista nos lembra para amar-nos uns aos outros com o amor sem medida de Jesus. Não há amor maior que este. Amor que liberta, destrava, deslancha cada um de nós para o exercício da liberdade, estrutural e sistematicamente. [Nota: Um paradoxo, o texto joanino. Sua síntese poderia levar-nos à idéia mestra de que nada existe mais “escravizante” que o amor, seja para quem dá ou para quem o recebe. Podemos imaginar um precedente em Isaías 5, que coloca a ação concreta no campo do amor justo e ao mesmo tempo misericordioso de Yahweh (ahavah = amor que palpita no peito de cada um); que o fruto esperado seria a prática da justiça para o exercício dos direitos fundamentais do homem e da mulher, igualitariamente, sem considerar ódios raciais, preconceitos religiosos e classificações sociais, sob o ethos principialista que organiza a justiça. Isaías aponta o amor que julga: “Ai dos que ao mal chamam bem, que fazem da escuridade luz, e da luz escuridade; põem o amargo por doce, e o doce por amargo ” (Is 5,20). ]

Derval Dasilio

Em memória do rev. Jaime Wright (1927- 1999)*

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