7º. DOMINGO DA PÁSCOA (ASCENSÃO DO SENHOR) – ANO “B”

Atos 1,6-11-  Com os olhos fitos no céu viram a Ascensão do Senhor

Salmo 1 – O Senhor conhece o caminho dos que praticam a justiça

1João 5,9-13 – Testemunhamos a vida eterna

João 17,6-19 – “Não peço que os tires do mundo…”

O astronauta brasileiro foi elevado ao espaço através de uma viagem que teria custado cerca de 10 milhões de dólares aos cofres da nação. Depois, foi premiado com gorda aposentadoria precoce. Acompanhado de outros, o aeronauta sorridente se encantava com as estrelas, ao mesmo tempo em que, distante das realidades terrenas, via a terra “a partir do céu”. Não é a toa que, quando oramos, imaginamos Cristo elevado ao céu contemplando-nos “aqui em baixo”, e vai nos ajudar a chegar até lá em cima, de alguma maneira.

De certo modo, de acordo com a tecnologia espacial desenvolvida, muitos se imaginam como futuros astronautas celestiais que, um dia, percorrerão as distâncias em anos luz  que nos separariam do “céu” e chegarão a um lugar onde as Escrituras dizem que está o “Deus que habita  numa estrela flamejante como o brilho de milhões de lumens”. Pensam sobre a vida no além, como se fossem “doentes terminais”, maldizendo o presente. Então, sem alternativas, recorro a Fernando Pessoa, para falar do mistério: “Sempre que olho para as cousas / e penso no que os homens pensam delas,/ rio como um regato que soa fresco numa pedra./ Porque o único sentido oculto das cousas/ é elas não terem sentido oculto nenhum”.

Como se poderia calcular, como ferrenhos e desesperados religiosos, o fim dos tempos e classificar “quem poderá entrar no céu?” A opacidade do mundo de Deus; a impossibilidade de se enxergar a “luz divina onde Deus habita”; a falta de instrumentos para medir o tempo da eternidade, e a ausência de lentes oftálmicas que capacitem qualquer um de nós para tanto, são impedimentos definitivos? Não. A razão quer explicar a fé. Quando Anselmo, dos primeiros escolásticos medievais, estabelecia que a fé requer inteligência (fides quaerens intelectus), falava deste assunto, referia-se ao que a carta petrina apontava: “… estejais sempre preparados a todos que vos pedirem a razão da esperança que há em vós ”(1Pd 3,15).

Agora, a fé sem inteligência, crença em tudo que a tecnologia produz, é exigida para darmos como verdadeiros os argumentos cinzentos do racionalismo fundamentalista. A Billy Grahan Evangelistic Association, sediada em Minneapolis, que influencia significativamente os caminhos do imperialismo norte-americano, se acha capaz de medir o céu: “o Paraíso celestial mede 1.500 milhas quadradas”. Muçulmanos, cujas escrituras sagradas estão no Alcorão, que proíbe o uso do vinho aqui na terra, porém, garantiria tonéis do precioso produto vinícola no céu (Caxias do Sul fará parte desse paraíso?); que condena o adultério aqui, mas promete belas virgens em quantidade para quem chegar lá (Jardins das Delícias é o clássico da literatura islâmica sobre o céu… para os homens, porque não há um céu reservado às mulheres; porém, jovens mancebos também prestarão favores sexuais aos agraciados ). Aproximam-se dos cristãos? Dispensamos o céu erótico muçulmano? 

Mas não ficamos nisso, o anti-céu também existe; cristãos, muçulmanos, hindus, budistas, muçulmanos, jainistas e taoístas acreditam em algum tipo de inferno, se diz por aí. Dois cientistas do Departamento de Física Aplicada, na Universidade de Santiago de Compostela, garantem que o inferno tem a exata temperatura de 279º (centígrados), embora não se possa saber como fizeram a pesquisa local (Eduardo Galeano).

Nós, porém, seres cerebrais, exigentes de demonstrações de conhecimento empírico, em favor da fé inexplicável, embora tantas vezes mencionado no cotidiano de cada um, compreendemos debilmente a fé como a esperança acima do conhecimento. A fé não pensa num Cristo que transita de um espaço a outro, dentro do tempo, portanto sujeito às coordenadas dos caminhos para o céu, os quais “navegadores religiosos” conheceriam, quando calculam as trajetórias dos crentes a partir de púlpitos ou concílios teológicos doutrinários. Nos evangelhos, porém, Cristo, foi entronizado na esfera divina, com a Ascensão, além das estrelas, das galáxias. Além de todos os poderes deste mundo. Muito acima do cosmo e de todas as realidades espaciais e temporais, para além do mundo físico e suas possibilidades.

Necessitamos compreender melhor essas coisas. Uma linguagem de símbolos necessita de um cuidado semântico adequado. Cristo “subiu aos céus”, confessamos, e observaremos o plural celestial que as Escrituras apontam (Atos 1,6-11). Quando oramos, dizemos: “Pai nosso que estais nos céus”, conforme o plural evangélico. Um dos céus é a fé para a qual não existe tempo (kronos) ou um espaço presente desde o início dos tempos (telos), em Deus, que a epístola indica “habitar em uma luz inacessível” aos homens e mulheres desta terra (1Tm 6,16). Outro é o Reino dos Céus partilhado no mundo terreno (justiça, solidariedade, dignidade humana, direitos fundamentais para todos os povos e raças).

Uma bênção anônima:“Que aquele que ressurgiu dos mortos nos faça cada vez mais firmes na esperança de toda a criação. Que aquele que nos protege do alvorecer ao anoitecer, da aurora ao crepúsculo, desde o nascer até o morrer, nos abençoe e nos dê a paz que excede o entendimento opaco do nosso viver no céu. Que o conforto do alcance da plenitude nos permita ver além da compreensão turva da vida eterna, que sempre existiu, existe e existirá, e do céu que o Reinado de Deus alcança, e que nos dê coragem para enfrentar e vencer o que não compreendemos, mas havemos de experimentar, como já experimentaram os que viveram na fé, para todo o sempre. Amém” (Cf.Selah- Liturgias – Clai).

Derval Dasilio

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