Domingo da Trindade – Tempo Comum –  Ano B (2012)

Isaías 6,1-11 – Experiência transcendental de Deus

Salmo 29 – A voz que faz tremer os desertos!

Romanos 8,12-17 – O Espírito permite que  o chamemos de Paizinho

João 3,1-17 –  A natureza do Espírito é a liberdade

Alguém sugere: “Fale-nos sobre Deus…”. Silenciamos, é melhor. E se falamos, é melhor perguntar: “Quantos estão pensando no ar? Por favor, levantem uma mão…” Ninguém levantará a mão. Ninguém está pensando no ar. Ninguém sabe direito o que é o ar. E, no entanto, todos nós o respiramos. Se não morreríamos. O ar é a nossa vida e não precisamos pensar nele e nem dizer o seu nome para que ele passe a existir, visível e sensível à inteligência. Só quem duvida utiliza os desenhos sobre Deus. Não é preciso pensar em descrevê-lo e pronunciar o seu nome. Ao contrário, quando se pensa nele, para afirmá-lo  o tempo todo, é porque está se afogando… 

“Deus é como o vento”, disse João. Sentimos na pele quando ele passa, ouvimos a sua música nas folhas das árvores e o seu assobio nas gretas das portas. Mas não sabemos de onde vem nem para onde vai. “Deus é uma suspeita de que o universo tem um coração que pulsa como o nosso” (Rubem Alves). E tudo o que vive é pulsação de um coração sagrado. As aves dos céus, os lírios dos campos… Até o mais insignificante grilo, no seu cri-cri-cri rítmico, sabe que Deus é o grande coração do universo.

Tertuliano, que tornou-se um religioso radical – nos rigores do montanismo ético, “pentecostal” – foi o primeiro a pensar em imagens aceitáveis para a Trindade. Apresenta como Divindade três configurações ou papeis distintos. Familiarizado com o anfiteatro greco-romano, onde o palco (skene) eram muito simples e circular. O público sentava-se em degraus de pedra em volta do ator. Nos dias de festa, as apresentações tinham lugar durante o dia ao ar livre. Em Atenas, tanto comédias quanto tragédias eram frequentemente representadas nos ritos religiosos. Tertuliano foi genial, quando imaginou o Deus dos cristãos no teatro da vida. Os dramaturgos da antiguidade apresentavam, em geral, três tragédias a cada vez. Às vezes, um só ator representava vários papéis trocando as máscaras (persona), como se faz hoje no teatro infantil.

A fé dos primeiros momentos viu-se obrigada a construir imagens, retratos, de Deus. Então, como metáfora para seduzir a inteligência, desenhou-se a Trindade Santa: Deus Pai, Deus Filho, Deus Espírito Santo. Imagens de um retroprojetor, visibilidade artificial para uma realidade que só a fé alcança. Deus é ao mesmo tempo Pai e Mãe, Cristo é o Filho, o Espírito Santo é a presença invisível, mas sensível, do Pai e do Filho ao mesmo tempo. Uma família! Há algo mais concreto que uma família? Sem essa família somos órfãos…

A Trindade sempre foi um desafio, regularmente calcada na ideia de um monobloco petrificado de Deus. A fé cristã, porém, é o molde flexível trinitário, revelação de Deus, quando trata de exigências humanas de entender-se ou ensinar-se o mistério da fé. Através de representações corporais, físicas, sensíveis aos olhos, ouvidos e tato. Esbarramos no inexplicável, no entanto. Com Jesus Cristo, porém, a suavidade poética da revelação se manifesta na dimensão amorosa de Deus, o mais misericordioso, o doador espontâneo da graça, que continua sendo um mistério. Se alguém gosta de um “deus” feio, irado, mau, vai torná-lo feio, raivoso e cruel. Quando o descrevemos conivente com os horrores do nosso mundo; quando o recusamos como o Paínho de Jesus (Abbá), fazemos dele a nossa imagem.

Dizer que Deus é um espírito imutável, símbolo de poder, de sabedoria, de santidade suprema, falar que Ele é a verdade, que é onipresente, onisciente, é o jeito humano de desenhar uma imagem, apenas. Alguns desenham essa imagem como um juiz implacável, ou como um tirano torturador de chicote na mão; outros o desenham como um velhinho sentado num trono celestial mandando anjos fazer o serviço de segurança e proteção de cada um de nós; e outros, como um pai complacente, que tira por menos as estripulias dos filhos estúpidos. Pois é, nós apenas desenhamos o que pensamos. Nada tem a ver com a experiência das pessoas sobre o que realmente Deus deveria ser para elas. O deus inflexível, feio, raivoso, cruel, que está na violência, na miséria, nas desigualdades, na fome, nas doenças que pode curar e não cura; egoísta e autoaprecitivo, não confere com o Pai de Cristo.

Uma canção nicaraguense confessa: “Tu és o Deus dos pequenos, o Deus humano e sofrido, o Deus de mãos calejadas, o Deus de rosto curtido pelo sol” (L.C.Susin). Temos aqui a união possível da divindade transcendente com o corpo que luta pela vida; que ama e tem compaixão; que sofre a opressão como mártir do povo. Aqui está o mistério inacessível da Trindade. Deus redimiu a humanidade ferida, humilhada, assumindo a natureza humana (Concílio de Calcedônia). É por isso que a condição humana de Deus pode ser entendida em Jesus de Nazaré (Karl Barth). Então, conhecemos Deus além do espetáculo, da representação ou máscaras doutrinárias (persona). Agora podemos dizer que temos o Primogênito, solidário e cooperativo com os que sofrem. O irmão de todos nós, dos desgraçados e abandonados, “sentado à direita de Deus-Pai”.

Perguntaram a Rubem Alves: Qual seria a sua reposta se uma criança de dez anos de idade lhe perguntasse o que é fé? – “Usaria uma metáfora poética para dizer o que é fé. Fé é aquilo que uma pessoa que voa de asa delta tem de ter no momento de se lançar no espaço vazio, do alto. Sem medo. A fé só existe diante do abismo das incertezas”, respondeu.

A Trindade é mistério porque a alma humana parece inclinar-se para o lado contrário. Quer certezas, garantias, catecismos; firmeza doutrinal concreta. Até mesmo nas imagens bíblicas de Deus, onde ele é visto ora como um general comandando um genocídio de infiéis, outra vez como um espírito vigilante implacável e sem compaixão pelos erros humanos, contradiz a Santa Trindade dos cristãos. Podemos entender Deus, quando o vemos separado de todas as imagens construídas sobre o que não se pode dizer, porque não há palavras ou línguas sagradas que possam defini-lo.  Porém, todas as vezes que lidamos com a beleza, a misericórdia, o amor e a bondade, estamos lidando com os nomes sagrados de Deus Pai, Deus Filho, Deus Espírito Santo.

Derval Dasilio

 

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