9º Domingo depois de Pentecostes – Ano B  (2012)

1Samuel 3,1-10 (11-20) – Davi alimenta comandados no sábado

Salmo 139,1-6 (13-18) –  Teus olhos me viram antes de tudo…

2Corintios 4,5-12 – Por que não pregamos a nós mesmos?

Marcos 2,23- 28 (3,1-16) 4,26-40 – O grão de mostarda é a menor das sementes, mas torna-se maior (como o Reino de Deus)

É bem conhecida a luta de Luther King com o evangelicalismo dos EUA, que o desaprovava e perseguia, em clara manifestação racista fundamentada supostamente em “ensinamentos bíblicos sobre diferenças raciais”, como diziam os cristãos que reagiam contra a cessão de direitos iguais para todos os cidadãos e cidadãs negros, a favor do apartheid existente na sociedade norte-americana. Nelson Mandela passou anos na prisão, em razão da defesa de causa semelhante, na África do Sul. Onde está a Igreja ou o cristianismo oficial sob o legalismo evangélico ou protestante,  nestas situações de opressão, discriminação e exclusão?

Há urgências, a sociedade não é receptiva, porém. Pessoas discriminadas por sua condição sexual, portadoras de deficiências, sem autonomia física ou social, sujeitas à heteronomia religiosa, ficam ainda mais fragilizados. Quem cuidará delas? A Lei as condenaria ao conformismo, como resultado de pecados pessoais ou ancestrais, de acordo com o senso comum indicaria para a deficiência física. Jesus manda: “entra na roda, fique no meio”! E o esquadrão da moralidade vigente vigiava, perguntando: “será que ele ousará”? Na sinagoga, lugar da assembléia dos religiosos, o fato chama a atenção.  E Jesus, entendendo ao espírito coletivo repressivo ou fatalista, pergunta: “O que a Lei permite fazer no sábado: fazer o bem ou o mal, salvar uma vida ou dar-lhe fim”?

Quantas vezes as igrejas, por omissão sabática, estiveram ao lado das ditaduras especialmente no Brasil, aprovando sequestros, prisão incomunicável, censura na comunicação, abdusão e tortura? Denominações e organizações “cristãs” se diziam equidistantes, tratando de sufocar lideranças na resistência ao autoritarismo militar, insurgentes, “subversivos”, denunciando irmãos ao aparelho repressor do Estado. Os pastores Jaime Wright e Dom Paulo Evaristo Arns,  são nomes entre alguns exemplos sob a ditadura militar, como Waldo César e Zwínglio M. Dias, que fizeram o contrário do que suas igrejas exigiam. Levaram denúncias sobre os crimes da ditadura ao exterior e trouxeram intervenções como as da Anistia Internacional. Graças a eles, a ditadura caiu mais cedo. Não nos impressiona a posição sistemática, histórica, do protestantismo evangelical brasileiro em favor da repressão política e religiosa, juntamente com o catolicismo conservador?

É sábado, a vida continua, os que estão saciados não percebem, mas os que têm fome de justiça continuam famintos, à luz da Comissão da Verdade (Mc 2,23-28; 3,1-16). O sábado era uma das observâncias mais importantes no judaísmo, nitidez que se exigia para distinguir o judeu do pagão. Cristãos judeus, próximos do Templo, observavam o sábado fundamentalista.  A autenticidade aparente, sem dúvida, era mais exigida que a convicção religiosa interna.  Aí, viver como o pagão não significaria algo tão importante. Por exemplo: no uso do dinheiro; nas relações de trabalho explorando compatriotas; no oportunismo político dos dirigentes no tráfico de influência; na tortura e crucificação de rebeldes ao regime imperial; na equidistância, ou na omissão quanto aos compromissos e responsabilidades sociais coletivas.

Ao contrário, a violação do sabbah era motivo até para a pena de morte (“Saíram pensando em matar Jesus…” (cf. Mc 3,6). Os regulamentos exigiam que certas atividades não poderiam ser exercidas durante o sábado, mais exatamente: trinta e nove artigos regiam  “o que não deveria ser feito durante o sábado”, inclusive preparar alimentos para comer. No judaísmo  fundamentalista contemporâneo do evangelista Marcos, que descreve, nesta perícope, que “esfregar espigas para comer”, mesmo que depois do “horário regulamentar”, era considerado uma infração grave. O sábado adquiriu seu real significado em época biblicamente tardia no Antigo Testamento, na formação do judaísmo sob o domínio persa. No judaísmo fundamentalista tornou-se preceito indispensável. 

Jesus recorre às Escrituras, como sempre, e cita 1Sm 21,2-7: Se Davi e seus companheiros puderam comer os pães sagrados reservado aos sacerdotes, por estarem famintos, no sábado, assim também seus discípulos  teriam o mesmo direito. O fato histórico é reacendido, porque a citação bíblica recorda a falência progressiva do sistema social vigente, consumido pela religião formalista, fundamentalista, que oculta o compromisso social e a sustentação da vida, enquanto condicionada a direitos fundamentais.

Muito antes do judaísmo (início no exílio, sob a potência da Pérsia), Samuel é um dos inauguradores do profetismo em torno de Yahweh, Deus de Israel (que gerou o “javismo”, uma religião libertária que domina o Antigo Testamento em sua parte principal, na literatura sapiencial, profetismo, e o “historicismo” que não omite a injustiça entre os reis de Israel; religião anterior ao movimento do judaísmo racista, legalista, exclusivista, politicamente omisso, combatido por Jesus e os apóstolos do cristianismo inicial). Um precedente  inquestionável, aparentemente. 

No segundo caso, Marcos aponta o esquadrão fariseu politicamente correto, guardiões da reta doutrina, fundamentalistas, novamente se colocando em ação contra a vida, ameaçando a Jesus. Ira e tristeza são a resposta. A neutralidade diz tudo. Não há decisão, fica-se em cima do muro, porque o medo de “agir ilegalmente”, ou contra “retas” doutrinas tradicionais é mais forte. A religião não cuida dessas coisas? Mas Jesus não espera mais, cura o homem deficiente! A salvação acontece aqui e agora, a vida não pode esperar pela morte.

A liberdade é um salto da morte para a vida. A neutralidade e a equidistância, as omissões, porém, escondem o julgamento de morte, “porque hoje é sábado”: “Hoje é sábado, amanhã é domingo / Não há nada como o tempo para passar / Foi muita bondade de Nosso Senhor Jesus Cristo / Mas por via das dúvidas livrai-nos meu Deus de todo mal”, diria Vinícius de Morais, intuindo que a ressurreição dos socialmente mortos já começou.  E arremata: “Descansasse o Senhor e simplesmente não existiríamos” (Poema: “O Dia da Criação”).

O arremate de Jesus, porém, é escandaloso: “O sábado  foi feito para servir o homem; o homem não foi feito para servir o sábado”. O sábado é a Lei dada aos homens para sinalizar obrigações mútuas. Eis a grande novidade. Não há sábado sem o Jubileu e o Ano Sabático, prescritos no Êxodo, Deuteronômio e Levítico. O fato seguinte exemplificará o conceito evangélico sobre a finalidade do sabbah no Reino de Deus: o sábado só faz sentido se for uma prescrição que sustenta a vida (ref. Jubileu Bíblico e leis econômico-sociais). No primeiro, Jesus afirma que nada pode impedir que os “famintos”  se alimentem, sejam quais forem os meios que se devam utilizar para tanto. Há uma “Lei”  que está acima da lei, justificando a desobediência civil. Tolstoi, Gandhi, Luther King, Jaime Wright, Mandela, entenderam isso muito bem.

Derval Dasilio

LEIA: Anotações exegéticas nos comentários abaixo.

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