12º. Domingo – Tempo Comum Depois de PENTECOSTES – Ano B  (17 jun.2012)
1Samuel 17,32-49 –  Quanto maior, maior a queda…
Salmo 133 – Quão agradável é a unidade dos irmãos
2Coríntios 6,1-13 – Rogo-vos, valorizem a graça de Deus
Marcos 4,35-41 – As comunidades enfrentam perigos…

“Fazem da boate igreja, da igreja fazem boate.
Põem veneno na comida, cicuta no abacate. Eu cuido da minha vida, não sou boi que vai pra o abate”.
(Zeca Baleiro)

Um jovem crente sai do seu trabalho, salas informatizadas, computadores em todo canto, e vai à igreja. Acaba de ver na televisão de plasma, digital, full high definition, que um aparelho espacial teleguiado pousou em Marte e está mandando notícias e informações sobre o solo daquele planeta depois de ter viajado por dois anos desde a sua partida da Terra. O sujeito desce os muitos andares do edifício moderníssimo onde trabalha. Desliga seu leptop, guarda seu iPod, mete o pen drive no bolso, e sai. Elevadores panorâmicos ultra-rápidos, vigilância eletrônica em toda parte, rapidamente o transportam em direção à avenida Paulista, símbolo da modernidade urbana para o Brasil inteiro. Vai até o metrô e se dirige à estação onde tomará um trem velocíssimo, subterrâneo, movido por uma energia descoberta e aplicada há pouco mais de cem anos, tudo controlado por tecnologia digital desenvolvida exaustivamente nos anos recentes. Desembarca e entra numa igreja evangélica (Derval Dasilio, Pedagogia da Ganância – em preparo: Editora Metanoia).

No entanto, eclesiologias fundamentalistas importadas, hoje entregues ao evangelismo midiático, sem bíblia e sem Cristo, tanto quanto a cultura gospel, assumem agora o papel pentecostalista “salvador”. O imediatismo e a ganância seduzem, e as facilidades do dólar, do real e da mídia ajudam. Certamente, estas fases misturam-se com outras ênfases, como Ricardo Gondim vai lembrar-nos: um modo primitivo, uma “cosmologia simplista”, de ver o mundo sem história cultural ou geológica, social ou política; sem inovações cúlticas e teológicas, negando a fé histórica ou simbologia do culto cristão original.

Escrava resgatada, a primeira comunidade cristã debatia-se com as questões dominadas por valores de sobrevivência econômica, misturada com a religião que mantém esticado o cabresto e prende o antolho que impedem o fiel de ver a realidade. A instalação da liberdade, em níveis de consciência e de vida política; a fé transcendente descendo à temporalidade; a violência das sociedades autoritárias; a falta de pão, o crime diário, sofrimento desnecessário, sangue de inocentes derramado sem sentido. Problemas da sociedade desfocada quanto à dignidade dos membros oprimidos, discriminados, perseguidos por causa da consciência insurgente diante dos abismos das desigualdades, demonstram que o Reino deve fazer parte do cotidiano das pessoas, a um passo, dependendo da decisão. Compõem a segurança de Jesus quanto ao agir do Pai na história dos homens e das mulheres sujeitos aos perigos dos tempos recentes e de todas as épocas.

O texto de Marcos segue lembrando as dificuldades do evangelho do Reino de Deus ainda nos tempos apostólicos, nas primeiras décadas do Cristianismo.  Elas fazem parte do devir da história, as comunidades enfrentam perigos e muitas ameaças internas e externas. São como um barco pequeno e frágil navegando em águas turbulentas, sempre pressionadas por sentimentos de desespero e desencanto. Nesse momento Jesus questiona a falta de fé dos discípulos, enquanto reclama a falta de coragem que invade o grupo.  É isso que nos chama a atenção neste domingo litúrgico.

O relato da “tempestade acalmada” é instigante.  Fala com exatidão dos problemas da Igreja, no início, ou mais exatamente quando só existia o movimento de Jesus e seus discípulos, antes dos apóstolos (Απoστολος, enviado, missionário, aquele que tem uma missão), com as situações conflituosas, culturais, nas comunidades que se desenvolviam no ambiente mediterrânico, sob o poder político imperial romano. Serve-nos, hoje, nas situações que enfrentam os movimentos ecumênicos transculturais, transeclesiásticos, vencendo a duras penas individualismos e exclusivismos, no mundo culturalmente globalizado em favor da ganância.

Igrejas de hoje assumem a frente do próprio Reino, e dispensam-no em favor de si mesmas, numa pluralidade de reinos eclesiásticos. Acreditam-se possuir a força interna e irresistível da graça manipulada, crescendo, amadurecendo e apodrecendo ainda na árvore, sem alimentar seu povo. Deveriam ter confiança na semeadura e esperar como o lavrador paciente que a hora decisiva chegue, e o Reino se manifeste livremente, inevitavelmente, no lugar secreto onde se espera a consumação da história.

A mensagem de Marcos também está no símbolo que o movimento ecumênico de igrejas adotou com sabedoria: um frágil barco à deriva num mar perigoso, enfrentando as hostilidades naturais à sua pregação: o Reino de Deus não se confunde com igreja alguma;  a justiça do Reino não equivale ao legalismo religioso. Não se compara à “justiça” eclesiástica não-bíblica, e muito menos à justiça dos homens; o jubileu profético (cf. Êxodo, Deuteronômio, Levítico) denuncia as situações de opressão que experimentam os homens e as mulheres debaixo dos poderes deste mundo; a fé na unidade é uma exigência que convoca as comunidades de fé e os indivíduos para ser um em Cristo, nas próprias palavras do Senhor da Igreja, dirigindo-se ao Pai: “que sejam um, como eu e tu somos um”. Curiosos é que um rabino brasileiro e não um padre ou pastor aponte o papel da comunidade de fé, que seja o de manter-se como consciência da ética libertadora diante da humanidade toda.

Oração: “Deus, em tua graça  transforma o mundo. Damos graças por Tuas bênçãos e sinais de esperança que já estão presentes no mundo, entre pessoas de todas as idades e nas que antes de nós andaram na fé; nos movimentos de superação da violência em todas as suas formas, não apenas por uma década, mas para sempre; nos diálogos profundos e abertos que começaram tanto em nossas próprias igrejas e com gente de outra fé, na busca por compreensão e respeito mútuos: em todas as pessoas que trabalham juntas por justiça e paz – tanto em circunstâncias excepcionais quanto no dia a dia. Agradecemos-Te pela Boa Nova de Jesus Cristo e pela certeza da ressurreição. Amém” (Assembléia do  CMI – Conselho Mundial de Igrejas, em Porto Alegre-RGS).

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