13. Domingo do Tempo Comum Depois de Pencostes – Ano “B”

2 Samuel 1,17-27 –  Não se separaram, na vida e na morte

Salmo 130 – Anseio pela Palavra que salva…

2Coríntios 6,1-13 –  Não recebam a Graça em vão!

Marcos 5,21-43 – Não tenha medo, a tua fé é bastante.

Não há salvação no culto, na obediência irrestrita da Lei sob qualquer de suas dispensações, informa o texto. O fundamentalismo estabelece um tempo para a Lei e outro para a Graça.  Jairo é um chefe na sinagoga de Cafarnaum, sua igreja ou sinagoga, (ekklesia, no grego; qahal ou edah no hebraico bíblico, no mesmo sentido da assembléia religiosa). Encarregado da manutenção da casa religiosa, responsável pelo culto e a liturgia, pela distribuição de funções, provavelmente era também vinculado aos fariseus e doutores da Lei, ou da Torah (cf. comentários abaixo), torna-se desobediente, a contragosto. Querendo desqualificar quem se apresenta em condições de transformar o senso comum fatalista, entregue ao espírito da morte, contra o milagre da vida, os  superiores  do dirigente eclesiástico planejam a morte de Jesus. Ele era o “desobediente”; o “politicamente incorreto”, o indignado, o  “maluco beleza”, quanto aos preceitos da religião dominante. Por isso, Jesus tinha seus dias contados…

Em golpe mortal, diante de pregadores legalistas, há quem possa dizer mais: – “Nas  suas mãos há sempre um machado pronto para cortar a árvore da vida e da alegria. Vocês não acreditam no prazer de viver dignamente. Toda estrada que vocês trilham termina na morte de cada amizade, de cada amor. O tormento humano, a perda, a traição, a dor, a idade, a velhice, as doenças hediondas, a insanidade geral, ignoradas, levam a uma só conclusão: o que vocês escolheram para salvar perecerá para sempre na obscuridade e no vazio” (Derval Dasilio, Indignação, em preparo).

Jesus, diante dos que percebem os abismos das desigualdades, das injustiças, dos abusos contra crianças, mulheres, idosos, deficientes e doentes, em quaisquer lugares, revela-se como salvação  à dignidade negada também aos discriminados e perseguidos por motivo de consciência.  Convoca indignados e insurgentes. Liberta consciências prisioneiras de preconceitos, vítimas de racistas, homófobos e comerciantes da fé gananciosa. Ou melhor, sugere que a ressurreição das consciências é possível fora dos preceitos da religião: “Eu sou a ressurreição e a vida”, afirma Jesus. Não perdendo a oportunidade de restituir a saúde, a dignidade e a vida, enquanto realiza o julgamento mortal da sociedade que marginaliza, cultiva a hipocrisia e  auto santificação em torno da letra morta.

A imagem de um Deus que dá e sustenta a vida, em qualquer tempo, por pura graça (hesed ou xáris, no hebraico e no grego). A graça prevalecerá sobre a “fé legalista”. Os que preferem a letra, os preceitos e os regulamentos mortificadores, impedem as transformações necessárias, alimentando a exclusão e a segregação. Doentes, deficientes físicos, têm dignidade. Curas e ressurreições, vida contra a morte, estão na “desobediência” de Jesus aos ditames da religião dominante . E os que lhe cobram “viver na legalidade” prosseguem no seu caminho, enganando os que estão entregues à fatalidade, ao destino dos dominados; aos determinismos implícitos no senso comum. Não lhes importa a salvação, sua e dos demais. Nem um possível mundo novo. E esta será observada na dimensão da consciência e discernimento, com lucidez sobre o essencial. Com indignação profética, Jesus anuncia a ressurreição no mais amplo sentido.

Marcos acrescenta uma pitada de zombaria dos incrédulos circunstantes, da mesma comunidade religiosa: “Sua filha morreu, pare de incomodar o mestre…”, como quem diz: “ele nada pode fazer”. Temeroso por vários motivos, inclusive pela perda de privilégios que o importante cargo de chefe religioso lhe conferia – quando se aproxima de um suposto herege ou apóstata –, Jairo cai a seus pés para pedir-lhe: “Minha filha está morrendo. Vem, põe a mão sobre ela, para que sare e viva”. E obtém a resposta: “Não temas, a tua fé te basta” (v.36), diz-lhe Jesus.

O texto de Marcos nos traz a necessidade de atenção para com as pessoas deficientes, debilitadas, doentes, enquanto nos chama à responsabilidade para indignar-nos; reclama responsabilidade a quem cabe o cuidado – denunciando os responsáveis pelas transformações e não o fazem. A sociedade inteira é conclamada à palavra profética sobre a necessidade de sustentar a dignidade humana em todos os níveis. Estas pessoas necessitam ressuscitar para a vida, e não permanecerem na condenação mortal da marginalização e discriminação. Porque não produzem e dependem dos cuidados dos demais.

Preconceitos religiosos ou sociais se equivalem, dessa maneira, sobretudo no ambiente cultural que se inclina a marginalizar, ou a não dar importância maior às questões essenciais da vida contra a morte. Mais ainda numa sociedade competitiva, consumista como a nossa, onde até a saúde é comprada a peso de ouro, doentes e deficientes constituem um peso insuportável. Doentes e deficientes são deixados   a sós com seus problemas, seus medos e suas dúvidas, mal tolerados e entregues aos sistemas de saúde precários, profissionais insensíveis e anônimos. Mesmo os que têm recursos, enfrentam o abandono e a discriminação dos hospitais. Chegam a passar por vinte ou mais profissionais, em apenas 24 horas, que não o conhecem a não ser por um prontuário,  ficha e prancheta penduradas no leito hospitalar. A ligação com a vida e a dignidade passam ao largo. A morte será um alívio para todos, inclusive para o paciente. As exéquias ocorrerão num lugar neutro, onde flores mortas talvez reclamassem a vida ceifada. Tolera-se pouco o doente ou o debilitado, como o deficiente físico,  e muito menos se suporta a presença da morte nas proximidades da casa ou da comunidade. Talvez por  serem problemas de higiene, mas na verdade, principalmente, por horror, medo, repulsa da morte.  Esta, negada como tal, reflete também a recusa de ver as estruturas que produzem a morte social e psicossocial da própria sociedade (cf. Eric Fromm).  Isso é o que o evangelista parece propor no texto de hoje.

Pessoas que sentem co-responsabilidade para com os demais, preservam uma qualidade especial para defender a dignidade e a honra da humanidade toda, enquanto reconhecem e reclamam pelos demais, manifestando-se tantas  vezes de forma antipática, tida como insana, “inconveniente”. Qualquer forma de injustiça merecerá intolerância. Mesmo se nos chamarem de loucos, discriminando-nos por combater privilégios à letra morta e as leis injustas. Lembremo-nos também de Jaime Wright, Desmond Tuto, Luther King e de Ghandi. Mas é essa atitude que mexe com as consciências de todos. O exercício da co-responsabilidade nos capacita a agir, e reagir às injustiças, e aos regimentos e regulamentos, religiosos ou outros. Impedir que se curem os doentes e “ressuscitem” os mortos para  vida, acordando-os em pleno “sábado religioso”, é o que faz Jesus, nesta passagem  do Novo Testamento. Jesus era o “desobediente”; o “politicamente incorreto”, o “indignado maluco”, quanto aos preceitos da religião dominante. Por isso, tinha seus dias contados. Mas…

[Advertência: Se você é neutro em situações de injustiça, você escolhe o lado do opressor (Desmond Tuto)].

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