14o. DOMINGO – TEMPO COMUM DEPOIS DE PENTECOSTES –  ANO B (2012)

2Samuel 5,1-10 – Até os coxos e cegos te repelirão…
Salmo 48 – Ventos procelosos fazem presentes a Palavra
2Coríntios 12,2-10– Tenho prazer, quando perseguido  por amor de Cristo
Marcos 6,1-13 –  Quando, além de não ouvir, apedrejam a Jesus

Além de ser um judeu comum, originário de uma vila insignificante do interior, Jesus é reconhecido como pessoa do povo.  Isso não funciona bem, para os ouvintes do povo.  Ele tem uma procedência que não abona seu esforço de fazer-se ouvir com “autoridade”. Um carpinteiro de Nazaré, trabalhador manual; alguém que não passou pelas escolas rabínicas, sem conhecimento teológico sobre a Torah, supostamente mal orientado,  sem habilitação para ser reconhecido nos grupos hassídicos dos intérpretes da Lei e dos Profetas, não poderia “ensinar com sabedoria” sobre as intenções de Deus… ao contrário, sua pregação era motivo de escândalo.

Os habitantes de Nazaré não querem ouvi-lo, o que Jesus fala é óbvio. As realidades, no entanto, para eles, são imutáveis. Jesus não podia fazer o “milagre” da conscientização sobre novas realidades necessárias. Tais e quais um povo que bem conhecemos. Hoje, podemos perguntar-nos como se constrói uma identidade nacional; como  a massa tão interessada em espetáculos de CPI’s hipócritas, futebol,  carnaval, conferências pouco eficazes – pelo menos no momento imediato –, se transformaria num povo que ouve e vê além das encenações que encobrem a realidade. Pós-industrialização, pós-modernidade, que é isso para os latino-americanos? Quando se falará da pós-miséria, pós-insalubridade, pós-deseducação, pós-exploração consumista? Até lá, viveremos a cultura da violência social ou institucional paralela à do crime organizado? Ajudados pela tecnologia, satélites, celulares, chips e mega bytes em toda parte, nos assemelhamos aos que se recusavam a ouvir Jesus e a necessidade de entendermos as intenções do Deus Salvador e Libertador.  São terríveis revelações sobre as visões que temos de nós mesmo. A quem ouviremos?

Alguém colocou uma entrevista na internet supostamente em um grande jornal, mas era evidentemente apócrifa, como identificou um colega, observador atento que me escreveu. Extraímos essas impressões interessantes sobre a realidade que nos cerca, enquanto o fatalismo toma conta da opinião pública. Pergunta: Há solução para este país? O suposto entrevistado respondia: “Já olhou o tamanho das 560 favelas do Rio? Já andou de helicóptero  por cima da periferia de São Paulo? Solução, como? Só viria com muitos bilhões  de dólares gastos organizadamente, com um governante de alto nível, uma  imensa vontade política, crescimento econômico, revolução na educação, urbanização geral. E tudo teria de ser sob a batuta quase que de uma “tirania esclarecida”, que pulasse por cima da paralisia burocrática secular, que passasse por cima do Legislativo cúmplice e do Judiciário, que impede punições. Teria de haver uma reforma radical do processo penal  do país, teria de haver comunicação e inteligência entre polícias municipais, estaduais e federais (nós fazemos até ‘conference calls’ entre presídios…). E tudo isso custaria bilhões de dólares e implicaria numa mudança psicossocial profunda na estrutura política do país. Ou seja: é impossível. Não há solução”.                                      
 
Há uma crise, sem dúvida. E bem maior que a dos presídios superlotados, ou a do futebol, com seus jogadores milionários, suas noitadas e suas presenças na mídia. Nossos principais adversários, afinal, vêm da pobreza extrema, da fome endêmica, da falta de oportunidades de desenvolvimento na produção de bens, da saúde pública mal assistida, do mal uso dos recursos ambientais, da tensão com a necessidade de preservação da natureza, da indefinição quanto à participação do desenvolvimento internacional, como vimos na Conferência Rio + 20. A triste constatação de que nós, na verdade, não temos os melhores jogadores do mundo, e que nossas cidades sufocam sob gases poluentes; que a depredação da natureza vai ocorrendo a galope e secam os mananciais, os rios caudalosos de nossa infância. Converso com minha prima, que morava numa propriedade à margem do rio S.Mateus, ES, no qual nos banhávamos, mesmo com medo de jibóias e jacarés, e ela me diz que hoje o rio da nossa juventude é um fio d’água. A primeira grande cidade que conheci aos dez anos de vida, com meio milhão de habitantes, luta com a poluição juntamente com 3 milhões de moradores no grande complexo metropolitano.  Tudo isso nos devolve à realidade.

Não temos bons políticos, nem estrategistas competentes para o desenvolvimento do país; a exposição constante da corrupção nos Legislativos e Executivos; o judiciário de cúpula desonra o direito enquanto julga causas geradas no interesse de elites privilegiadas, enquanto atrapalha o julgamento direto de notórios corruptos – embora antecipadamente saibamos o que vai acontecer –, parece comprovar tal afirmação. Isso vai além do que acontece na torre do meio das duas bacias do Congresso Nacional. Uma simbolicamente aberta, convexa, para “receber”; outra côncava, para “esconder” grandes falcatruas, desmandos, politicagem vergonhosa antes e depois das eleições? Niemayer e Lúcio Costa teriam pensado nesses simbolismos, quando as projetaram? Que é que devemos pensar sobre tais realidades?

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