17o DOMINGO DO TEMPO COMUM – ANO “B” – 2012 (22/07)

2Samuel 11,1-15 – O povo faminto chora em altos brados

Salmo 14 – O Senhor restaurará a sorte do seu povo

Efésios 3,14-21 – O amor de Cristo excede a todo entendimento

João 6,1-21 – Disse Jesus: – “Eu sou o Pão da Vida”!  

“O Brasil descobriu que tem lobos vestidos de pastores; uma corja imunda. São os políticos evangélicos que gatunaram o Ministério da Saúde; testas-de-ferro de igrejas, apóstolos e bispos mentirosos que afirmavam haver necessidade de eleger crentes para o Congresso Nacional com um discurso de que almejavam os interesses do Reino de Deus. Por favor, não insistam em me pedir que seja misericordioso com esses ratos alados: eles sugaram o sangue de brasileiros pobres. A única sugestão que tenho para eles é que cada um amarre uma corda no pescoço e se jogue de uma ponte para dentro de qualquer esgoto” (Ricardo Gondin). Por causa desta e outras declarações, por exemplo, sobre o Ministério dos Transportes (cf. DNIT 2011), pressionado pela cúpula da Assembleia de Deus, onde foi pastor por várias décadas, rompeu com sua denominação.

Na Idade Média, entre os monges “terapeutas”, Evrágio evocava os sete pecados capitais, atribuindo a cada um o “demônio” que lhe cabe. Os monges não se lembraram do “demônio” que cabe à ‘fome’. Hoje, “ninguém chora, ninguém protesta. Não se fazem gestos simbólicos de indignação”, analisa o notável e coerente teólogo Frei Betto: “Existem muitas campanhas contra a Aids, o terrorismo e as guerras. Elas são muito importantes e devem persistir, mas a sociedade também precisa estar atenta à questão da fome. A soma de todos esses males é menor que as conseqüências causadas pela miséria no planeta. Talvez a fome seja ignorada porque ela faz distinção de classes, ao contrário destes outros problemas mundiais”. 

O problema é falta de justiça e de renda, juntando-se aos “pecados capitais” da sociedade cristã moderna, que busca a opulência. Avareza (não-partilha do dízimo solidário), luxúria (pastores morando em palácios), ira (intolerância), soberba (força política), gula (comilança do dinheiro dos crentes pobres), inveja (cópia da religiosidade popular supersticiosa), ganância (igrejas roubando da nação), são temas pouco frequentes nos púlpitos evangélicos. O reverso das virtudes bíblicas. Fala-se muito dos lendários sete pecados capitais. Porém, mais nefastos e perniciosos para o homem são os pecados da sociedade capitalista, consumista, voltada para o “ter-sem-ser-e-aparecer”, nas recentes culturas do velho, porém, atualizado capitalismo cultural, que tomou o mundo evangélico de roldão. Nada é tão importante, para a maioria dos 65 milhões prováveis de evangélicos brasileiros, que acostumou-se a eleger corruptos notórios.

O antropólogo Roberto DaMatta sugere a relação entre o capitalismo e a obesidade (ou opulência, creio eu): “quero sair das explicações ingênuas para mostrar os elos profundos do sistema de símbolos e imagens engendrados pelo capitalismo incluem obesidade e riqueza”,  e prossegue descrevendo os símbolos da perversidade dos meios de produção fundados na exploração do trabalho e no reforço continuado do consumo da inutilidade. A idolatria do dinheiro e dos valores móveis, bem duráveis ou perecíveis; a troca sem nenhuma forma solidária ou altruísta, não foge da realidade alimentada com as gorduras extras do consumismo estimulado na mídia. Instilam-se constantemente o egoísmo e o narcisismo social, enquanto se nega solidariedade aos famintos e prisioneiros da miséria histórica do povo latino-americano. Sejamos mais claros: um terço da população brasileira vive na miséria, enquanto ministros, deputados  e senadores, prefeitos e vereadores envolvem-se com a corrupção e saem incólumes, apoiados por igrejas evangélicas. 

No mundo existem 5 bilhões de pessoas vivendo abaixo da linha da pobreza. Desses, estima-se que 1/3 vive abaixo da linha da pobreza, na miséria. Uma observação perversa, de uma assessora do governo FHC, já identificava a crueldade dessa linha demoníaca: “invariável como um eletrocardiograma de cadáver”, do ponto de vista dos poderes públicos. Assim sendo, não valeria a pena investir num setor que não produz, e só exige investimentos, em habitação, hospitais, escolas… As graves feridas da sociedade, como o problema da fome e da miséria, geram sentimentos e reações carregadas de emotividade e de desejos de vingança, antes que soluções solidárias. Levando-se em conta a desnutrição e as doenças recorrentes e correlatas ao problema, milhares de pessoas morrem por causa da fome, no Brasil. Grande parte da sociedade confirma seu apoio à perversidade. Matar mendigos e moradores de rua torna-se esporte nacional.

O capitalismo alcançou a religião que defende o lucro e resultados financeiros, como sempre, na história do mundo. Tudo é produto de mercado. Tudo se vende. Tudo é feito mercadoria. Tudo é consumível. Faz-se muito dinheiro também com a fé, como se a parábola das moedas escondidas resumisse o Reino de Deus. Não é a toa que a recente força evangélica pentecostal que mais influencia a religião histórica dedica-se tão intensamente à mídia e ao potencial mercadológico das multidões. A massificação religiosa dá lucro. 

Quem disse, ou relatou a frase de pára-choque de caminhão, “o brasileiro só é solidário no câncer”, ironiza uma verdade cruel. O fascínio das conquistas científicas e tecnológicas faz esquecer o mais importante, muitas vezes, ditas como disponíveis para todos. Tantos celulares, tantos aparelho de tv, revelam a  perversão do consumismo desenfreado, sem dúvida. Faz sufocar o clamor dos famintos, em favor das vozes amplificadas em altos decibéis, dos que comandam o poder da economia pós-industrial, escamoteando a verdade sobre as sociedades opulentas e gananciosas. O evangelho de Jesus, o Pão da Vida, nos faz refletir sobre a violência reinante, no abandono e exclusão social, direta e indiretamente, uma vez que esta se origina no seio das profundas desigualdades admitidas e estimuladas pela sociedade dita cristã. À corrupção política  compara-se também o cotidiano da desonestidade nas menores coisas. Enquanto a religião evangélica bebe o sangue das massas. Disse Jesus: “Não será assim entre vocês”.

Derval Dasilio

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