18o DOMINGO DO TEMPO COMUM – ANO “B” – 2012 (29/07)

João 6,24-35 – “O Pão de Deus dá vida ao mundo”!

2Samuel 11,26 a 12,1-13a; O rico toma do pobre

Salmo 51,112 – Enraíza em mim um espírito novo

Efésios 4,1-16 – Todo o Corpo de Cristo é ministerial

Jesus é o Pão da Vida, lembrança da Eucaristia que deveríamos celebrar em todos os cultos dominicais, dizia Karl Barth, enquanto nos exortava sobre a ausência da Eucaristia. A Igreja apropriou-se indevidamente da Eucaristia, tornou-a sacramento (mysterion), enquanto proclama que a Santa Ceia é sua… mas a ceia é do Senhor.O Culto Cristão, no Dia do Senhor (kuriaquê ’emera), na igreja iniciante, incluía a Eucaristia (eucaristein). Além de tudo, não somos generosos no partir do pão com o irmão, o próximo, nem somos hospitaleiros na comunhão da mesa, onde se depositam as oferendas para a Ação de Graças. Excluímos até os nossos irmãos. Nossa infidelidade às fontes, do mesmo modo, está à prova. Aponta nossas divisões, enquanto também aprofundamos e acentuamos a desobediência à comunhão e à unidade solicitada na oração do Senhor: “Pai, que eles sejam um, como eu e tu somos um… a fim de que sejam aperfeiçoados na unidade” (cf.João 17,22-23).

 o verdadeiro, pão real: corpo de Cristo, “carne”, sustento da vida, presença real do Salvador. Calvino acentuava: “é o Espírito Santo que garante essa presença”. Diz mais, o evangelho:“…reconheceram o Senhor no partir do pão” (Lc 24,35). Jesus também afirma: “se não comes da minha carne, não tens parte com a minha vida…” (Jo 6,56). Como se deveria dizer, também, na grande oração de Ação de Graças para as oferendas na mesa da comunhão: o pão e o vinho são fruto da terra e do trabalho do homem e da mulher. Tudo isso significa que neles há trabalho incorporado, todo o tempo, do preparo da terra ao preparo do pão. Há muita vida, “carne”, e muito suor nesse caminho! A idéia de Jesus é genial: reunir homens e mulheres na unidade, partindo não das idéias, ou do “espírito”, mas da dialética que se completa na prática. Na materialidade e na concretude da vida. A carne e o pão (sarkês, carne/vida; ’artrós, pão/alimento) são parte das necessidades na caminhada pela missão de Deus para a libertação dos homens e das mulheres nesta terra de escravidão e morte.

Reforçando parte dessa memória, do pão da terra e do pão do céu, queremos também relacionar o vinho, que é também da terra, nos significados e na celebração de Ação de Graças pela vida. Com o vinho celebra-se a salvação; o vinho também é fruto da terra (“Eu sou a videira – plantada no chão dos homens  – vós sois os ramos!… se alguém não permanecer em mim, perde-se” [Jo 14,5-6]). Devemos, nessa perspectiva, também relacionar a Eucaristia com a vida dos trabalhadores que produzem o pão e o vinho e que, por causa dos sistemas injustos, das diferenças profundas na sociedade, acabam, muitas vezes, privados do alimento necessário para se manter a vida. Muitos estão à beira da morte, têm fome. Oportunidades de trabalho e produção de bens essenciais são exortações cabíveis às celebrações pela vida.  

Cristo quer que esta energia seja colhida, e reconhecida no “pão” e no “vinho”. Porque o pão e o vinho nos reconciliam e nos unem na mesa da comunhão. Apesar de todas as nossas diferenças, malgrado a pluralidade que confunde o sentido da unidade, nada pode impedir a unidade do Corpo de Cristo, partido em favor de todos: “Este é o meu corpo, partido em favor de vocês”… símbolo da união e desta aflição e sentimento doloroso do corpo multipartido, nossas contradições, carne de Cristo ferida pelas divisões, sinais que marcam o pecado das igrejas. E o pão e o vinho significam que podemos realizar a união (symbolo = aquilo que une).

O Pão vem da terra, Jesus Cristo nasce na terra. Em Nazaré, nasce a semente do Espírito Santo, e deve passar pela mediação do homem e da mulher que tornam o Cristo de Deus alimento, na terra. Por isso oramos: “O Pão nosso de cada dia nos dá, hoje…” Hoje, aqui e agora. Somos nós os responsáveis pela distribuição do alimento para a comunhão com o Ressuscitado. O pão que comemos – o corpo do Senhor –, o vinho que bebemos, é o sangue do Cristo sacrificado pelos pecados de um mundo e igreja divididos. Que pecados? Pecados estruturais, feridas abertas jorrando o sangue da vida.

O fascínio das conquistas científicas e tecnológicas, alimentos transgênicos, faz esquecer o mais importante, muitas vezes, ditas como disponíveis para todos. Não há pão para todos. A perversão do consumismo desenfreado, alimentos potencializados, vitaminados, não-orgânicos, sem dúvida, faz sufocar as palavras dos famintos de pão de verdade. Alimentos da solidariedade são indispensáveis para a vida que o mundo deve conhecer, devem ser lembrados como dádivas para a vida plena (Nem só de pão viverá o homem..). São ofertas do Crucificado, como o seu próprio corpo.

O pão simboliza o produto indispensável da salvação. Ele, o Senhor, está presente na comunhão solidária.  O Espírito é quem nos garante: o pão da solidariedade é também produto indispensável da vida de todo homem e de toda mulher. Como precisa de mediação, o produto da terra no plantio, na colheita, na debulha, no moer, no feitio, na partilha, é já a “eucaristia” (eukaristein) que nos lembra o empenho da comunhão entre nós, em ação de graças solidária para que haja trabalho para todos. Eucaristia concreta

Cada um é responsável pela produção de oportunidades de trabalho, e ao mesmo tempo, somos dependentes uns dos outros. Não podemos esquecer dos que trabalharam nos campos plantando e colhendo o fruto da terra; dos que estão nas estradas, transportando o trigo; trabalhando nos parques industriais e nas fábricas transformando o grão em alimento, e dos que os levam para a distribuição. Todo esse trabalho é realizado para que o pão esteja nas mesas em que se alimentam os homens e as mulheres. Metáfora perfeita para os que levam o Evangelho para o mundo.  Disse Jesus: “Eu sou o pão da vida… Pão que dá vida ao mundo”. Todos devemos ter pão em nossa mesa. Lugar da comunhão.                                                                                                                                                                                  

Derval Dasilio

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