20o. DOMINGO DO TEMPO COMUM – ANO “B”

1Reis 2,10-12; 3,3-14 – Eles fizeram Israel pecar…

Salmo 111 – As obras do Senhor são de verdadeira justiça

Efésios 5,15-20 –  Sede sóbrios, abandonai o êxtase e sonhos de poder

João 6,51-58 –  Paz e Plenitude, alimentadas pelo Pão da Vida

A presença de Deus no mundo não está sujeita a manipulações religiosas. Não é uma presença passiva, sujeita e submissa às intenções humanas. Ao contrário, é  livre, incessante, à maneira do fermento, vital. Oculta, de modo a transformar diariamente nosso entendimento do que nos cerca, enquanto robustece nosso caminhar. Essa atividade de Deus se expressa com dinamismo próprio, de modo a nos alimentar, na forma do “Pão do Céu” que sacia todas as fomes. O cristão e a cristã marcados pelo Espírito de Deus e pela imitação da inconformidade e indignação de Jesus, encontram suporte espiritual para uma luta incessante contra o mal. Jesus oferece-se como pão, corpo marcado pelas lutas contra os poderes desse mundo.

Algo muito embaraçoso nos tempos atuais é a compreensão “evangélica” do mundo, sem pão e sem o corpo de Cristo. A visão de Deus, do homem, da sociedade e do mundo, é extremamente preocupante, envolvida com ganância, propósito, sacrifícios para enriquecer dirigentes religiosos; marcada por politicagem rasteira, tal qual as mais incômodas apostasias e heresias dos primeiros séculos da Igreja. Sonhos de poder. Consegue-se reunir num só movimento pelagianismo, montanismo, arianismo, ingredientes impressionantes da receita religiosa pentecostal. Maioria nacional. Apesar da confusão, esse conhecimento traz uma culpabilidade relativa, uma vez que a aceitação do pragmatismo racionalista propositista, desde o protestantismo tradicional, nos ensinou a imitar o pior que há, desde o fundamentalismo à igreja midiática.

O sonho de posse e poder sobre a população, no pentecostalismo recente, parece indicar esse sentido. A religiosidade propositista da prosperidade, porém, procede de um tempo mais distante. Antiga influência do paganismo greco-romano, com seus deuses e heróis tradicionais, e principalmente da superstição e magia cultual introduzidas no culto. A intensidade e a atmosfera da religiosidade pentecostal moderna, por tudo isso, fazem-nos valorizar o que realmente importa na afirmação de Deus, como o ofertante do pão que sacia todas as fomes do mundo? Quer admitamos ou não, sendo protestantes, evangélicos, católicos, a revelação aponta para Jesus, que veio para o “mundo” e este mundo não o recebeu. Biblicamente absurdos, descalabros no caminho e na transmissão da fé apostólica são consentidos sem maiores discussões, sob o critério da aprovação corporativa.

Simão, Ananias e Safira, expoentes do mau uso do dinheiro, são perdoados e mais respeitados que Estevão, o mártir da fé resistente aos poderes desse mundo (Atos dos Apóstolos). Políticos envolvidos em mensalões, operação sanguessuga, propinoduto – representando milhões de evangélicos – segundo as últimas notícias que envolvem senadores e deputados federais do Congresso Nacional. Alguns deles, eleitos como “homens de fé”, “homens de deus”, respondem a processos por roubo e corrupção, compondo os personagens da nova linguagem nos púlpitos e nos templos transformados em palanques, nova forma cultural e política de “ser evangélico”. A meta é o poder a qualquer custo. Os cultos pagãos estão presentes no cristianismo prático, cultural, remontando ao culto paralelo a Dionísio: o vinho de alto teor alcoólico era um dos meios cultuais para o êxtase religioso. Visava unir o crente à divindade, assim como outras drogas em outros cultos do mundo greco-romano. Poder e êxtase equivalem, se explicados na mesma pulsão religiosa. Quando Paulo exorta os cristãos romanos a praticarem o “culto racional”, talvez evoque o lixo cultural e as drogas do espírito, no culto cristão.

Há “uma mão invisível” a comandar o mundo religioso que não mais precisa de Deus; a mão que rege o mundo cultural evangélico. Parece, incluisve, não saber que elegeu Adam Smith como seu profeta e reformador (Teoria dos Sentimentos Morais no Capitalismo: uma teoria da espiritualização do lucro). Lê-se a Bíblia fundamentalista, enquanto se adestram os fiéis para o uso da urna, enquanto se defende o senador eleito com auxílio do crime organizado. Agora compreendemos o aforismo de Lutero, escrevendo a Melanchton: “Sê pecador e peca forte, mas sê ainda mais forte na fé”, (esto peccator et pecca fortiter, sed fortius fide). Só que estes evangélicos não seguem o pensamento do grande reformador protestante, mas fazem questão de lhe fazer o acréscimo apócrifo: “e crede mais fortemente na impunidade”. Eis o complemento do antievangelho pentecostal.

Dietrich Bonhoeffer, mártir do cristianismo moderno, dizia que é preciso estar atento ao fato de que Deus entrou na história e na carne da humanidade através de Jesus Cristo; que nossa herança difere da herança de outros povos, quanto à revelação do Evangelho encarnado, quando prenunciava a pós-modernidade religiosa. A secularização pentecostal, pragmática, gananciosa, vendo religiosos agindo como se Deus não existisse, e arrogando-se de serem donos do destino histórico de cada um e da sociedade humana em seu todo. Agrade-nos ou não, “nossos antepassados são testemunhas do ingresso de Deus na História”, disse Thomas Merton. Deus, e não num movimento avivalista ou carismático. 

A imagem para impor a hegemonia evangelical, triunfalista, não procede da fé, mas do sonho de poder. A espectativa de hegemonia. Ao menos no período apostólico da Igreja, os cristãos respeitavam o ethos bíblico. A vida de fé, assim, se nos apresenta num dueto perfeito, onde vozes harmônicas e afinadas projetam um som forte e convincente desde o interior convicto, no sentido de que a luta contra o Mal procede de Deus. Sempre nos impressionará que a fé é uma sinfonia inacabada. A experiência de Deus sempre apresentará o choque, o descompasso e os sons que ferem sensibilidades mais apuradas, no palco onde o drama da fé se apresenta.

O jeito evangélico pentecostal-carismático ajuda a entender tudo isso. Por último, vem a exortação à temperança que indicará ao crente que deve dirigir-se sempre a Deus Pai com sobriedade, não sob êxtase, em nome do Filho, sob a inspiração do Espírito Santo, com sentimentos de gratidão pela sabedoria alcançada na transcendência (Efésios 5,15-2). A sobriedade e a sabedoria modelam a mente, não as drogas, metafóricas ou químicas, que levam ao êxtase (cf.Aldous Huxley). A felicidade religiosa equivale, agora, à felicidade alcançada através de meios como Ecstasy, Viagra e Fast-Food (Derval Dasilio, Pedagogia da Ganância, Metanoia, em preparo).

O que vale para os nossos dias, enquanto adeptos da sociedade evangélica face ao “evangelho da prosperidade”, predominante? Bernardo (séc.11) avisa sobre a prudência: “Se és prudente, acerca-te da Fonte de toda Sabedoria, ela te dirá de qual sabedoria necessitas”. Essa advertência está bem delineada em Efésios (5,15-20). O que deve ocupar as testemunhas de Cristo é, em realidade, “saber” em cada momento, no meio da ausência de solidariedade e compaixão, enquanto impera a maldade. O que Deus quer realmente dos crentes será alcançado na oração constante e insistente.

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