21º Domingo do Tempo Comum – Ano “B”

1Reis 8,1-43 – Ele é o Grande Mistério, é livre como o vento

Salmo 84 – O meu coração e a minha carne se alegram com o Deus vivo

Efésios 6,10-20 – Todos nós, em família, somos ministros de Cristo

João 6,59-69 – O Espírito transforma o mundo

Eis um texto complexo, aparentemente contraditório, muitos querem levá-lo comparativamente a Paulo, e discuti-lo, equivocadamente, à luz de uma idéia gnóstica da tricotomia “corpo-espírito-alma” (Jo 6,59-69). O espírito é que dá a vida, a carne não serve para nada, só a alma é imortal. Os monges medievais, fugindo do mundo real, ingressando na introspecção espiritual, descobrindo demônios embutidos no corpo e nos desejos humanos, poderiam dizer: “o espírito pertence a Deus, o corpo ao imperador” –  uma referência à vida política, cidadã, separada da vida espiritual. Afasta-se a experiência de Deus da vida cotidiana, no corpo, e desse modo aproxima-se somente de uma espiritualização que tornaria essa experiência possível. Interiormente. Porém,  o Espírito transforma o mundo inteiro, afirma João. Mundo interior e exterior. Deus funciona e atua na realidade humana como uma realidade espiritual acima de todas as realidades, dentro e fora do corpo. Tanto o mundo interior das pessoas quanto o mundo exterior expresso na comunidade e na sociedade são envolvidos, no dizer de Paulo, pelo dinamismo da fé (dynamis tou Theou – Romanos 1,16-17). João afirma, em seu evangelho,  que o espírito vivica o corpo, ou carne.

A água, outro elemento que vivica a carne, evoca o seio materno, o ventre da terra; a tradição da Bíblia Hebraica até evoca a mulher como “poço” ou “manancial”; a água é um elemento físico, mineral, cristalino, límpido, inclusive, lugar onde a vida é gerada. Ao fogo juntam-se às palavras cósmicas, palavras que levam o homem ao ser das coisas, o âmago onde habita o espírito [nous (nous, e não  pneuma , que é o Espírito de Deus)]. Desde a aurora dos tempos o homem entende seu corpo, sua carne, como o mundo onde agem os elementos que sobem dos abismos e descem das alturas, ao mundo. O mundo é o corpo humano – corpo do ser-homem e do ser-mulher – sujeito a uma espécie de cosmos interno e externo. Desse fogo, vida imemorial, um poder é evocado, como uma chama que revela as regiões mais profundas da alma da humanidade, aquém do tempo, dos limites e dos horizontes da história. É a pulsão pela liberdade e pela justiça, acima da pulsão do poder ou do sexo.

Muitos são os modos de percepção, alguns herdados, arquétipos teológicos, ligados a experiências ancestrais, pulsões religiosas, certamente reguladores da própria experiência humana. Lembrando-nos de Carl Jung, carregados de emoções transmitidas, sensibilidades passadas de geração em geração da parte de nossos ancestrais, nos deparamos com forças cegas que escapam à inteligência e à razão, e necessitariam de controle, como observamos no culto carismático pentecostal. Perguntaríamos, à luz do ensinamento mais recente, por que o discurso eucarístico da gratuidade de Deus em Jesus Cristo é tão escandaloso (não tem parte comigo quem não come da/o minha carne/corpo)?

Como está em João 6,53-55, esse discurso se relaciona com a vida humana integral, onde é inseparável a experiência real da experiência de transcendência espiritual, ou se referiria ao “poder espiritual” que alguns desejam alcançar ,e dominar a massa? O ser humano indivisível. A compreensão bíblica entende que o corpo é uma representação multiexpressiva sobre realidades físicas, sociais, políticas, jurídicas, institucionais, enquanto se exige também que o corpo seja visto como o “locus” da experiência humana (falamos de corpos sociais e institucionais o tempo todo). O corpo se expressa em sensações, emoções, sensibilidades quanto à ética, sentimentos, percepções sobre o mundo, a partir da experiência física e corporal da pessoa.

Os paralelismos bíblicos entre os elementos da realidade física, por exemplo: o fogo, a água e o vento devem ser considerados, para se entender os princípios eternos da vida. Quem nasce do Espírito/vento move-se sem limitações num espaço livre e criativo, afeito às construções utópicas. O homem e a mulher não podem ser explicados enquanto prisioneiros em quadrantes e horizontes limitados, física e socialmente. São seres que fazem cultura e são aculturados ao mesmo tempo; homens e mulheres transcendem constantemente os horizontes históricos, chamados à “liberdade no Espírito” que sopra onde lhe apraz (Jo 3,8), na busca de novos horizontes, cavalgando sonhos e utopias que transformam suas realidades. São livres do fatalismo religioso ou ideológico, e dos determinismos, sejam sociais, políticos, ou biológicos. Pragas contra a liberdade do corpo, que nos atrela a atavismos, superstições e magia, emoções superficiais, arrepios, os quais condenam à imanência, ao quietismo, ao conformismo, ao fatalismo, aos determinismos que percorrem os séculos e os milênios da existência humana.

Finalmente, a confissão de Pedro, “a quem iremos, se  tens palavras de vida eterna”?, após a debandada dos discípulos que não entendiam – ou não queriam entender – as palavras de Jesus, e talvez fossem as mentalidades do pragmatismo, da necessidade dos milagres  e experiências de “prosperidade” e cura imediatas; exigências da intervenção divina direta na natureza, no corpo (basar – hebr.) e no bolso (kissó, ídem), como a produção do maná no deserto (Ex 16,4). O Pão da Vida é também o Pão do Céu: Quem adere a Jesus, sugere Pedro, não pode mais fugir dos ensinamentos salvadores do Consagrado de Deus: Cristo tem as palavras de vida eterna. Realidades libertárias e de justiça são construídas pela força do Espírito de Deus em Jesus Cristo. O crente não deve duvidar disso, poderia ter dito João, pois o “Espírito sopra onde quer”, e não na roleta da prosperidade.

A resposta do evangelho a esta questão chama a atenção para a necessária flexibilidade da fé. Não é a inteligência ou a racionalidade que contam aqui. O corpo e a carne são princípios existenciais da vida. Ainda que orgânica, sem o princípio vital do alento espiritual, estão mortos e não se apercebem disso. Sendo “limitado à carne”, o homem e a mulher não vão além das realidades que os cercam, submetendo-se às injustiças e desigualdades, à impiedade e ao narcisismo social, escudados pelo fatalismo religioso e por determinismos sociais. Aceitam a limitação de seu espaço espiritual. Não sonham e não agem para transformar a morte em vida: e Jesus fala de vida eterna, plena e abundante! Pela fé, é preciso transcender, nascer no Espírito; nascer para a vida. Crer que o Espírito transforma o mundo e o conduz à vida eterna.

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