Domingo Litúrgico – 21o. do Tempo Comum Depois de Pentecostes

Cânticos dos Cânticos 2,8-13 – O amor tem seus próprios caminhos

Salmo 45, 1-9 – Ele ama a justiça e odeia a iniqüidade                                                            

Tiago 1,13-27 –  Cada um é tentado pela própria ganância

Marcos 7,1-8 – Discípulos de Jesus não seguem uma religião de preceitos?  

Temos aqui uma questão de suma importância: como definir a verdadeira religião(Mc 7,1-8). A correlação com a Carta de Tiago é evidente. Há uma questão sobre remanescentes estatutários persistentes. Uma valorização da religiosidade expressa em costumes herdados do judaísmo. Fariseus são legalistas e obedientes às tradições sanitário-religiosas, porém, convertidas agora em preceitos. A lembrança do rigorismo chega a ser alarmante. O essencial perde o lugar para o que não é importante, na prática religiosa. A vontade dos homens se sobrepõe à vontade de Deus. Isto é, o que é da religião é mais importante que as questões de fé, para o fundamentalista. Os objetos sagrados vêm em primeiro lugar. Depois o culto, a liturgia pomposa, tornando-se intocáveis e irremovíveis. Negativamente, cultiva-se uma “graça barata”, ao invés da preciosa graça do Evangelho. [Foto: Dietrich Bonhoeffer]

No outro lado, as necessidades humanas tomam outra feição, a partir da prática das relações religiosas. Vejamos: uma promessa feita a Deus terá validade somente sob a tradição do Qorban. Uma contradição, talvez para responder a uma certa rebeldia existente no meio rabínico, que discutia esta questão a fundo. Talvez a mesma não fosse tão agressivamente religiosa, mas referente às tradições. Exigem uma resposta, e Jesus não se furta de responder, citando textos como está em Ex 20,12; 21,17; Dt 15,16; Lv 20,9. Jesus responde que seu Deus não é desumano a ponto de querer para si algo que é necessário para os homens, conforme sugere Marcos. Deus não necessita de nada que se refira ao imperativo religioso tradicional ou aos costumes. A religião que despreza a Ética, assim, sufoca, enforca-se a si mesma. Pode se tornar uma indústria de desumanidade, de exclusão, de negação ou omissão da misericórdia, valor mais alto nas relações humanas.

Há uma gravidade considerável, sobre o assunto “religião sem ética”.  A Carta dos Direitos do Homem, Cidadania, Princípios Universais de Cuidado com o Homem, Carta da Terra e solidariedade humana, excluem-se da religião fundamentalista. Quando os mandamentos de Deus são evocados para justificar tradições, dando-se a eles autoridade humana, praticamente não se evitará uma espécie de “procuração” dos céus, que ninguém tem, certamente.  Lutero combatia a autoridade mater et magistra arrogada pela representante do cristianismo oficial no Ocidente, exatamente nesse ponto. Do mesmo modo, ofereceria o contraponto ao racionalismo-escolástico-protestante -doutrinário dos séculos seguintes (a absurda questão fundamentalista sob o império da graça concomitante ao da lei, no mesmo plano; a Doutrina da Graça não pode ser atribuída ao protestantismo histórico; o princípio da Reforma Protestante “sola gratia” provém do “catholiko”  S. Agostinho contra Pelágio, no séc. V d.C. ) . Tiago sugere que Deus não pode ser obscurecido por questões regulamentais religiosas (Tg 1,13-27).

A preocupação de Tiago com a questão religiosa é evidente. Denuncia o fundamentalismo, enquanto exibe uma manifestação rigorosa contra a licença moral que se pretendia. Não é uma idéia da gratuidade originária de Deus. Contra a concepção humana da “graça barata” (Dietrich Bonhoeffer), a carta de Tiago espantou Lutero.  Chamou-a de “epístola de palha”. Mas Lutero contrapunha a fé à “salvação pelas obras religiosas”. Tiago, noutro ângulo, já havia falado: “a fé sem obras (a fé sem atos éticos) é morta”. A questão é ética, nesse autor bíblico, e não soteriológica. Esta, sim, pertence a Lutero, com toda a propriedade. A severidade de Tiago se dirige às desigualdades na comunidade cristã, o contexto é o mau testemunho dos cristãos, reprováveis em conduta ímpia, explicada possivelmente por seus ataques também aos religiosos notáveis, ricos, insensíveis ao clamor da miséria reinante.

Na comunidade de Tiago, assassinos, caluniadores, e outros crentes “flexíveis” também incomodam. A sociedade humana, para o missivista, é um mundo perturbado por comportamentos inaceitáveis, identificado em sonegadores de direitos trabalhistas, assassinos, fratricidas; estupradores, pedófilos, bêbados ( como hoje, no trânsito, e traficantes, espancadores de mulheres e crianças, agressores de homossexuais, linchadores de mendigos, flageladores de doentes mentais; consumidores compulsivos, de drogas farmacológicas ou clandestinas, leves e pesadas). Poderia ser o assunto de Tiago. É o mundo do “homem tomado por demônios” reais, concretos. Expostos no cotidiano das comunidades cristãs das metrópoles e pequenas cidades. A fé da boca pra fora é questionada. Na fala de Tiago a fé é exigente de partilha no cuidado e na solidariedade.

Todos proclamam ter fé, no entanto, e Tiago afunda a lâmina na alma religiosa do rico que explora o pobre e acentua as diferenças sociais, e do pobre conformado com a injustiça. Aos ricos, exorta: “Vós privastes o pobre de sua dignidade”. Aos pobres: “Não são os ricos que vos oprimem? Não são eles que vos arrastam aos tribunais? Não são eles que difamam o bom nome (cristão) que recebestes?” Sem justificar o judaísmo, firmado em preceitos religiosos, ligados também ao sentido de “fé religiosa”, o combate prossegue sobre e no campo da “fé”. “Crês em Deus? Ótimo, está certo. Os demônios também crêem e tremem nas bases” (cf.2,14-19). Ao suposto contraditor faz uma intimação: “prove a sua fé religiosa com obras de justiça”. As Escrituras apontam: “misericórdia quero” (Os 6,6), e não demonstrações arrogantes de alguma “fé”, sem prova alguma, sem frutos, como Paulo já sugerira (cf.Rm 2,1-6;5-16): “és indesculpável… pois praticas as coisas que condenas”(vs.2,1a e 1c), apesar da verbalização da fé sem profundidade; “tribulação e angústia virão sobre qualquer um que fizer o mal (v.9a)” .

Não se pode ter uma palavra final sobre as afirmações de Tiago, mas não poderemos nunca acusá-lo de ambigüidade. Serve ao crente o exame das muitas formas e sentidos da palavra “fé”. Fé supersticiosa em símbolos, amuletos, relíquias; fé em orações de poder, de “cura” ou de “libertação”; como a fé religiosa substituindo a gratuidade divina, por exemplo, estão na sua listagem, substituindo a fé na justiça. A fé bíblica, de fato, como lembrada em Hebreus 11, compreende-se como fé na intervenção de Deus na História. É a história da salvação. Segundo Jesus, salvação do pobre e do injustiçado, em primeiro lugar. A fé na justificação dos pecados, e na conseqüente ressurreição, para uma nova vida, não está aqui. Mas, não há dúvida alguma de que a fé ética na justiça de Deus é a grande afirmação epistolar de Tiago. O barateamento da Graça; a inconsequência de quem afirma a inexistência de um chamado ao serviço e ao testemunho da fé, não encontra eco em seus escritos.

O autor certamente conhece a doutrina de Paulo sobre a fé e as obras. Mas reconhece o uso abusivo e as conseqüências da “fé da boca pra fora”, na religiosidade superficial e sem compromisso. Tiago refere-se às obras que um cristão realiza já no contexto da fé. A chave hermenêutica é a distinção que se deve fazer. Atenção! As obras da Lei como meios de assegurar egoisticamente a justiça perante Deus não funcionam, diz Tiago. São desejáveis as obras dos que alcançaram a liberdade como consequência da fé? Sim. O cristão justificado por seus pecados não tem o direito de matar, de caluniar, de explorar o pobre, de desprezar a misericórdia e o cuidado com o próximo. Para o leitor do Antigo Testamento, a Lei de Deus deve ser lida como uma atualização do Código da Aliança e do Código Deuteronômico, os quais definem com toda propriedade os antecedentes da Carta dos Direitos Humanos, a Carta da Terra, modernos. Isto é, os direitos sociais. E não imposições estatutárias, regulamentos e preceitos da religião.

Anúncios