23o DOMINGO DO TEMPO COMUM – ANO “B” – 2006

Provérbios 22,1-3; 8-9; 22-23 – “O que semeia injustiça colherá males”.

Salmo 125 – ” O Senhor faz o bem aos retos de coração”.

Tiago 2,1-17 – “Não tenhais a fé em acepção de outros”.

Marcos 7,24-37 – “Ele fez os surdos ouvirem, e fez os mudos falarem”. 

Orações de poder, astrologia esotérica, magia e prestidigitação religiosa comparecem com frequência no mundo supersticioso e obscuro das igrejas evangélicas pentecostais, sem desconsiderar a religiosidade popular dominante no Brasil. Uma espécie de “outro mundo” demarca a topografia espiritual, com igrejas, capelas, oratórios, santuários, centros espíritas, terreiros, templos, cemitérios,  faz parte da fronteira em que vivemos, entre um mundo real, concreto, e outro espiritual e abstrato, como diria o antropólogo Roberto DaMatta. O que é o milagre senão uma resposta que se espera para aflições humanas verdadeiras, onde a doença, a invalidez, a dependência química, precisam ser superadas, para que a vida siga em frente.

Porém, também estamos diante de um universo religioso simbólico tomado por forças ocultas, medo e terror, atribuídos ao sobrenatural. Assim, procura-se oferecer cura, ou alívios espirituais no mundo contemporâneo –  que descrê da existência dessas forças, depositando sua fé nas ciências médicas disponíveis. Talvez, um modo de atenuar o impacto dos mistérios da natureza real, que se apresentam como um desafio visível no cotidiano, constantemente ameaçado por forças cegas, como diria Erich Fromm. Explicariam a violência no cotidiano das pessoas?

Quem acredita em demônios? Quem quiser pode atribuir “curas e exorcismos”, narrados a respeito de Jesus, à natural capacidade de uma personalidade “pentecostal”. Um equívoco. Jesus entende como as pessoas de seu tempo dependem das superstições, crendices e crenças. O Mal supostamente “sobrenatural” domina a sociedade. A miséria é escamoteada para fora da realidade. Esta, é visivelmente representada através de doenças sociais e socializadas. Pessoas travadas e impedidas de caminhar em direção à vida plena, em luta contra as potestades da violência e exclusão, que também obstaculizam a presença do Reino neste mundo, são excluídas do gozo dos bens sociais: trabalho, saúde coletiva, escola, habitação, urbanização, lazer, etc..  

Os sinais da Graça são visíveis, na primeira reivindicação de Jesus, quanto à sua atividade milagrosa.  Jesus caracteriza suas curas como sinais do tempo da Graça (Lc 4,16 ss), e sua atividade se torna visível: “Se, porém, eu expulso os demônios pelo dedo de Deus, o Reino de Deus já chegou entre vós” (Lc 11,20). Leonard Goppelt acrescenta: “quando João Batista manda seus discípulos perguntarem sobre isso, Jesus lhe manda a resposta: ‘Relatai a João o que ouvis e vedes: cegos vêem, coxos andam, surdos ouvem, leprosos são purificados, mortos são ressuscitados” (Lc 7, 22; cf. Mt 11,4). Aí está o alerta de Jesus à sociedade que se tranca em seu egoísmo e narcisismo, e não oferece chance para os marginalizados socialmente, a partir dos enfermos comuns, dos deficientes e doentes mentais, como Marcos acentua até às últimas consequências.

A sociedade humana, por outro lado, é um mundo doente perturbado por comportamentos inaceitáveis de “possessos”, nem sempre reconhecidos como tais: fratricidas; estupradores, pedófilos, drogaditos, traficantes; espancadores de mulheres e crianças, agressores de homossexuais, linchadores, flageladores, abusadores e assassinos de mendigos e doentes mentais; traficantes de drogas… É o mundo das pessoas tomadas por “demônios” reais, concretos, expostos no cotidiano das metrópoles e pequenas cidades, camuflados no falso repúdio e vergonha da sociedade. Álibi perfeito para o narcisismo e egoísmo que lhes são próprios. Cortina ideal para esconder a realidade cinzenta da violência e desassistência dos poderes públicos.

A repulsa ao “mundo feio” das misérias comportadas na própria sociedade, de fato, está em que o bem-estar individual precisa ser apaziguado, para que realizações pessoais se concretizem, aplacado pelo prazer de ter um automóvel zerinho; apartamento confortável em lugar valorizado; acessibilidade a eletrônicos sofisticados, viagens internacionais, turismo de luxo, consumo em restaurantes caros, entre outras coisas. Mansões e propriedade valiosas são protegidas por serpentinas e cercas eletrificadas, destinadas a separar ou manter afastados os indesejáveis do baixo mundo da miséria. Condomínios “fechados” são construídos aos milhares, alguns possuem até  fossos medievais, ou bunkers, como o ator Dennis Hopper fez com sua propriedade na Califórnia,  informa o etnosociológo Zygmunt Bauman.

A sociedade moderna sente-se agredida pela realidade da violência da miséria e do crime organizado, ou pela corrupção política, mas como impedimento do gozo total dos bens superficiais que deseja consumir “em paz”,  sem ser perturbada por esses males. Não lhe interessa descobrir as causas e consequências dos três eixos azeitados responsáveis pelo incremento da violência, o crime ou a corrupção comum, que são o Estado e a economia injusta, e a própria estrutura social que acentua as desigualdades (Gilles Lepowetsky). Os bens sociais distribuídos em igualdade constituem a verdadeira abstração da realidade. As cidades, como o Rio de Janeiro, S.Paulo, Belo Horizonte, por exemplo, representam esse afastamento e distanciamento do mundo dos travados e obstaculizados, no caminho do gozo pleno dos bens sociais.

Precisamos entender e dar um sentido humano real à mensagem do Novo Testamento, sobre realidades concretas e enfermidades criadas e sustentadas socialmente. A sociedade impiedosa representa o útero, matrix, da violência simbólica existente. Habitação, saneamento, urbanização, proteção sanitária, são necessidades; bens sociais necessitam ser repartidos, e não simplesmente servir às plataformas de candidatos a vereadores e prefeitos que buscam suas eleições. As cidades citadas no evangelho, como a Decápole (Mc 5.1ss;7,24-37), exemplificam a semelhança com as cidades modernas. Vários municípios compõem a zona metropolitana. Doentes, pobres, abandonados pelos poderes públicos, miseráveis e famintos, vítimas do abandono, a olho nu, expõem essas realidades. No conjunto social, a fome e a desnutrição também comparecem ao espetáculo da intolerância às mudanças estruturais da sociedade. Um pastor pentecostal, em Vitória-ES, faz sua propaganda eleitoral como se fora um exorcista dos demônios que infernizam a cidade… sem referir-se à realidade citada acima.

Os cristãos palestinenses experimentavam a dignidade extraordinária da pregação sobre a missão de Deus nos atos e curas praticados por Jesus, trazendo dignidade no caminhar pedregoso e espinhoso do cotidiano marcado por desigualdades e desassistências (Mc 7,24-37). Chamavam Jesus de Senhor, reconheciam o senhorio de algo que se tornava real na vida dos seguidores, em termos de uma salvação escatológica já em realização, embora a irrupção plena ainda estivesse por manifestar-se no futuro (W.G.Kümmel). Portanto, uma salvação e libertação para o “final dos tempos” não se sustenta teologicamente, nos evangelhos. A fidedignidade em relação às palavras de Jesus referentes ao presente é bem mais fácil de constatar-se que a discussão do possível futuro ainda por realizar-se. Ouvir com a consciência, inconformar-se e indignar-se são o tema essencial de seu evangelho.

Resta saber como a sociedade estabelecida vê e aceita essas curas, ou exorcismos, uma vez que não tem mais a quem atribuir “possessões demoníacas” sobrenaturais a sujeitos que camuflam no mundo natural, real, os resultados do narcisismo e egoísmo. Hoje, é possível que necessitemos, como Jesus exemplificou, “calar mais e agir ainda mais”, observando onde está irrompendo a grande energia  libertadora e salvadora de Deus, neste mundo pós-tecnológico, porém primitivo quanto ao cuidado com os marginalizados,  como diria Leonardo Boff.

Derval Dasilio

Oração: “Pai, converte o nosso coração para acolhermos todos e todas com amor fraterno, de maneira especial as pessoas enfermas, ou as portadoras de deficiências; as pessoas travadas e impedidas de caminhar em direção à vida plena que nos ensinastes a conquistar em luta contra as potestades da exclusão que obstaculizam a presença do Reino neste mundo. Amém”.

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