Provérbios 22.1-2,8-9, 22-23 –

Salmo 125 –

Tiago 2,1-10 (11-13) 14-17 – 

Marcos 7,24-37 – Libertos para poder ver e falar

Um episódio importante é o centro desta perícope. Trata-se da ruptura de Jesus com seus surpresos seguidores. Para eles, em desacordo com seu líder, embora o Mestre estivesse cumprindo a vontade do Pai: “não vale a pena contestar a injustiça, ninguém pode mudar essa realidade; não convém abordar as desigualdades e as injustiças; é perigoso mexer com as velhas heranças das elites dominantes desde o antigo Israel”.  No meio dessa crise do grupo de discípulos, Jesus decide continuar o caminho e tratar de redirecionar a mentalidade de seus discípulos, torcida pelas ideologias religiosas sectárias, autoritárias e fatalistas, dos sacerdotes, fariseus e saduceus, servidores da política e economia do império em vigor.

Já sabemos a função dos milagres e exorcismos nos registros do evangelho de Marcos (conf. Domingos anteriores). Trata-se de uma antecipação, no Filho do Homem, do único poder admissível que não oprime a humanidade, que é o poder de Deus – tratamento que torna o homem de Nazaré uma realidade humana, com identificações próximas de uma figura histórica da pesquisa perturbadora do assim chamado Jesus Histórico. Deus se humaniza, como dirá Karl Barth, para viver a vida humana com todas as perplexidades, perguntas e espantos do homem e da mulher, especialmente em tempos obscuros de opressão; noites históricas que parecem permanentes na vida de um povo.

Um  surdo-mudo impedido de ouvir e de falar ouve essa palavra – que não é uma palavra mágica, secreta, proferida por um curandeiro, ou um ministro pentecostal. Esta palavra significa que há um poder divino originado do Cristo de Deus que pode curar da surdez e do impedimento de falar. Refere-se à consciência das injustiças,  com indignação proclamada profeticamente: Deus chama a gente pra um momento novo, como dirá a canção dos oprimidos. Jesus profere a palavra imperativa effatah, enquanto está libertando consciências para manifestar a necessária indignação sobre as opressões existentes. O mundo e homem oprimidos ouvem e podem falar sobre o reinado libertador de Deus.

Ocorre isso quando o desejo de derrubar os poderosos, comandantes políticos, não passa de populismo, ou oportunismo falso moralista sobre a corrupção endêmica. Em pouco tempo os líderes voltam com as mesmas ambições e se convertem em tiranos implacáveis da política e da economia. Os discursos conservadores, quase religiosos, prometem remediar as desigualdades, mas somente são eficientes na medida em que a carência e o desamparo são considerados como injustiças estruturais. Pecados estruturais segundo o Evangelho! Do contrário, não passarão da busca de satisfações imediatas e pouco duradouras. A mesma história, no canto popular: A mesma praça, o mesmo banco, o mesmo jardim. / Tudo é igual, tudo é tão triste… Quem se lembra?

A parábola de Saramago, sobre a cegueira, ilustra a existência dessas noites. Ensaio Sobre a Cegueira nos faz temer a própria humanidade frente a uma situação de desorganização e desorientação. A partir de uma súbita e inexplicável epidemia de cegueira, o escritor premiado nos guia para a desorganização e abandono dos valores mais básicos da vida humana, transformando seus personagens, cegos por súbita epidemia, em seres egoístas na sua luta pela sobrevivência, entregues à violência (o oftalmologista contaminado é emblemático, confira!). As personagens ignoram quem as vigia e oprime, enquanto submetem seus iguais à mesma condição. É impossível imaginar uma reciprocidade aceitável, no conformismo, resignação e ajustamento quanto às injustiças e desigualdades neste mundo.

A humanização de Deus trata de uma epiphania, um poder que se exerce em pura misericórdia e compaixão pelas pessoas subjugadas aos poderes desse mundo, anunciando um mundo possível, transformado pela solidariedade. Marcos apresenta em seu evangelho uma cristología clara, profunda e sem complicações: “assim não dá mais…”, Jesus deve ser a figura central, representando o Deus verdadeiro, em pura graça, misteriosa em sua aplicação possível também a um ser humano humilde, pobre e abandonado, deficiente oral-auditivo-visual, como representante do povo oprimido nas ruas da metrópole. Um sem-teto, personagem na Avenida S.João (Caetano Veloso). Jesus nega aos poderes políticos, econômicos, religiosos, a capacidade de transformar o mundo.

Jesus é Deus, Jesus é homem de verdade. Há um paradoxo em questão, pois a cruz, o sofrimento em razão da causa anunciada, é a via dolorosa – e não de prazer gratuito, de prosperidade, de apaziguamento ou satisfação quanto ao desejado – ; a estrada da cruz é percorrida em dor, sobre pedras e espinhos, incompreensões e perseguições. Nada é fácil, no caminho da cruz. Tudo evoca o sacrifício, nessa caminhada. Enfermos buscam a Jesus, os contaminados pela violência demoníaca procuram-no, no meio dos homen; querem supera o que que se apresenta como forças cegas impeditivas da salvação e transformação. Não dá mais pra suportar / explode coração! (Gonzaguinha). Pessoas travadas são exorcizadas e liberadas para experimentarem a plenificação da gratuidade divina. Os surdos ouvem e os mudos falam,  os cegos vêem e os coxos andam. As pessoas defrontam-se com as realidades e situações de humilhação e desespero, em meio de suas perplexidades, enigmas, interrogações. Mas precisam proclamar os atos de Deus ao mundo de hoje, onde nos comportamos, tantas vezes, como insensíveis ao objeto da mensagem de Cristo.

Marcos está informando que as correntes e cadeados, as prisões que prendem ou que impedem a vida sob a graça, são rompidas. As perspectivas de liberdade, os mais profundos anseios humanos, encontram-se nas possibilidades de realização. Tudo que Jesus fez foi bom, “ele fez o bem”, diz, porque expõe o mundo das injustiças, desigualdades e abandono que o cercava: este é, verdadeiramente, o império do Mal, onde forças demoníacas precisam ser derrotadas,  porque estão atuando e aprisionando as pessoas. A religião, por sua vez, oferece a graça barata, enquanto alimenta o egoísmo, a ganância, a perspectiva da prosperidade imediata, espiritual ou material. O desafio da Graça preciosa, libertação,  está além do hedonismo, narcisismo e egoísmo religioso.

Jesus, porém, ensina a se aceitar a humilhação da cruz. Diante das dramáticas experiências pessoais dos seus e dos nossos dias, em face aos esquemas políticos inacreditáveis, por causa da corrupção e injustiça, através de sistemas gananciosos, duradouros que se querem imutáveis. À pobreza, miséria, abandono, distribuição injustas de bens essenciais, insustentabilidade da vida; homens e mulheres em desespero, violência generalizada, a Graça, a Cruz e a Esperança se apresentam aos olhos de quem quer  e precisa ver e ouvir a mensagem libertadora de Jesus apresentada aos oprimidos da terra. Esta é a mensagem de Marcos.

Derval Dasilio

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