25o. Domingo do Tempo Comum  depois de Pentecostes – Ano “B”
Provérbios 31,10-31– A mulher virtuosa abre o coração e  quer amparar o aflito e necessitado.
Salmo 1 –  Bem-aventurados os que não escarnecem dos caminhos de Deus.
Tiago 3,13- 4,3 e 7-8 –  A ganância pode levar a um caminho sem volta.
Marcos 9,30-37 – Os “pequenos” são vítimas por afinidade das desigualdades e do abandono.

O que Jesus revelava era um paradoxo, dos inúmeros de sua pregação. O senso comum recusa suas palavras, enquanto sustenta a escalada de privilégios na sociedade, favorecendo o “bem-posto”, o próspero ou o rico. Jesus identificava a acolhida de Deus aos empobrecidos, despojados de dignidade, fracos, com o acolhimento que devemos dar às crianças. Aqueles que não têm direitos, dignidade, cidadania, nem quem olhe por eles. Os últimos na escala social, os desprezados, “improdutivos”, eram levados em conta, na chegada do Reino de Deus.

O fenômeno da padronização de consumidores, na sociedade recente, repercute de forma decisiva sobre os empobrecidos e os despoderados. O vestuário, a utilização dos meios de transporte, o lazer, a proteção e seguridade social, a habitação, a escola, o sistema de saúde, demonstram o quão distantes estão os empobrecidos dos recursos disponíveis e da distribuição dos bens sociais. Temos uma democracia eleitoral (o voto é obrigatório, não-democrático, no entanto!), mas falta democracia na participação e distribuição de bens sociais; democracia com poucos candidatos políticos pronunciando-se sobre participação na distribuição dos bens sociais em desigualdade alarmante; falta democracia na distribuição do trabalho e da produção. Falta democratizar as riquezas que certamente existem, neste país. Afinal, não somos a “sexta potência econômica mundial”? [Foto de um menino sem-terra em Barra do Riacho -ES, maio de 2011 ].

A rigor, ainda vivemos sob conceitos da democracia abstrata dos filósofos da antiguidade: democracia só para as elites dominantes e os bem-postos da sociedade. Igrejas, integrando o mundo das instituições ricas, de um modo geral antidemocráticas, compartilham os privilégios constitucionais na isenção de impostos sobre arrecadações compulsórias ou espontâneas (são grandes vendedoras e consumidoras de produtos “religiosos”, quem não são mais santinhos e bíblias…) , enquanto suas lideranças apresentam-se como magnatas, usando o dinheiro eclesiástico [Veja,3.jun.2012: pregador midiático, expoente de uma denominação com mais de 8 milhões de fiéis – cf. IBGE, exibindo um Rolex de 100 mil reais, fala de seus bens: mansões e apartamentos dentro e fora do Brasil, jatinho, carro blindado importado, etc., defendendo a legitimidade da religião da ganância].

O seminarista ou o jovem evangélico já diz: “Quero ser como ele, quando  crescer…”, referindo-se ao personagem acima (cf. Pesquisa da Revista Ultimato, set./out. 2010: Pergunta sobre a personalidade cristã mais admirável; a resposta foi Silas Malafaia em primeiro lugar, Jesus Cristo em quinto). Quanto mais se intente buscar enganar ao espectador midiático, mais se tende a adotar um tom banal e imbecilizante. “Se alguém se dirige a uma pessoa, em razão da vulnerabilidade intelectual, ela tenderá, com certa probabilidade, a uma resposta ou reação também desprovida de sentido crítico” (Noam Chomsky). Comunicadores do (anti)evangelho midiático vão ao fundo questão, com profundo conhecimento na manipulação dos atavismos existentes na natureza da própria humanidade. Em destaque a ganância.

Os “pequenos”, no entanto, são vítimas das desigualdades sociais, por afinidade. E não um bando de inconscientes. O Evangelho, porém, faz gerar novos símbolos que se contraporão às formas de linguagem e aos modelos que sustentam a sociedade consumista, juntamente com os valores desumanos a que recorrem para justificar a competição desigual e a ganância galopante. Estas têm se transformado em virtudes… assim é a pedagogia do momento. Ernesto Sábato, porém, nos remete à esperança que nos mantém na ante-sala daquela casa de Cafarnaum (Marcos 9,30-37), aprendendo com Jesus a lição de hoje: “Não há nada no mundo que possa contra o homem que canta denunciando a miséria”.

No movimento de Jesus os discípulos são envolvidos com questões de suma importância (Mc 9,30-37). Trata-se do escândalo da negação de legitimidade para ambiciosos de poder, na comunidade eclesial e fora dela. A discussão dos discípulos, concentrados não em seu ensinamento, mas na repartição dos cargos burocráticos de um hipotético governo, como um exemplo da vida diária. Está na pauta, é parte dos ensinamentos de Jesus. Os discípulos devem superar o medo cultural que os invade e que impede de dirigirem-se a ele com mais confiança, sem obediência hierárquica.

Jesus lança mão de uma estratégia pedagógica muito engenhosa: a “criança” era uma das criaturas mais insignificantes da cultura israelita. Por sua compleição física ainda em formação, e idade, a criança não estava em condições de participar da guerra, da política nem da vida religiosa (Bíblico: Servicios Koinonia). Jesus coloca um desses pequenos para o meio deles e lhes mostra como o presente e o futuro da comunidade está dependendo das pessoas mais esquecidas e mais simples. Somente assim há de se reverter o sistema de valores. E só dessa maneira a comunidade se tornará uma alternativa diante do “mundo” que só valoriza as pessoas endinheiradas, bem-postas, ou os que têm poder político ou poder econômico. A novidade de Jesus consiste em tornar grande o pequeno. Ao dar valor aos que fazem os trabalhos mais humildes e às pessoas tidas culturalmente, dentro da sociedade, como insignificantes zeros à esquerda, ele aponta para a igualdade de direitos e a dignidade para todos.

Marcos reúne numa só instrução uma série de sentenças de Jesus, conservadas e transmitidas pelas gerações e tradições primitivas da Igreja. A moldura da perícope é uma casa em Cafarnaum, lugar transformado em escola de apóstolos (apóstolo=aquele que recebe e leva a cabo uma missão). Predomina a instrução sobre a humildade. Melhor: o pequeno é “grande” diante de Deus (Shöekel: Bíblia do Peregrino). Os socialmente humildes, sem poder econômico, sem-terra, sem-emprego, sem-teto, sem-defesa nas causas levadas aos tribunais (A Gazeta, 20.05.2011 – Despejo em Barra do Riacho, Aracruz – ES: Governo autoriza  batalhão de 400 soldados, e carros de choque da PM para desocupar área de empresa multinacional). Em destaque aqueles que buscam a dignidade devida, concedida por direito implícito (dignitatis). Ocupam lugar central no Reino de Deus. Os oprimidos e esquecidos pela sociedade merecerão a atenção graciosa de Deus.

Acolher o nome de Jesus como uma criança é aceitar os que não têm nenhum poder, nenhuma influência, nem capacidade de defesa, e têm seus direitos violados constantemente, até pelos familiares. Acolher Jesus é ouvir os que não têm voz, título de eleitor, cartão da previdência, plano de saúde, escola de qualidade, teto para morar ou um bicicleta velha; é receber o diferente em sua condição, sexual, racial, social. Os depreciados desse mundo mereceram a atenção de Jesus, segundo o evangelho, por isso não podemos ser diferentes do Mestre.

Então, a “messianidade” – se Jesus é rei ou mendigo, socialmente excluído, prisioneiro rebelde à consciência  coletiva em manter preconceitos,  faminto de justiça –, plasmaria as diaconias sociais, a missão da denúncia e reclamação sobre a injustiça. Se Jesus opta pelos vulneráveis, por que a igreja escolheria outro caminho, buscando os fins da comunhão de fé em si mesma?

Derval Dasilio

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