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28o. DOMINGO DO TEMPO COMUM – ANO “B”
Jó 23,1-9;16-17 –  Quem me livrará do meu Juiz?
Salmo 22,1-5 – Nossos pais confiaram e nós também confiamos no Senhor
Hebreus 4,12-16 – A palavra de Deus corta como uma espada de dois gumes
Marcos 10,17-30 –  A riqueza é iníqua, quando não serve a todos

Será que o rico se salva? Sobre o “significado” das riquezas na perspectiva do evangelho, o texto generaliza: não só o que tem muitas propriedades, mas todos os que possuem fortunas, bens abundantes, correm sério perigo de não se salvar. Que é ser afortunado? Ser bem-posto, bem remunerado, proprietário de bens essenciais sem nada lhe faltar, não é ser rico? Estar longe do desemprego, da fome, da miséria, da falta de previdência social, do atendimento à saúde, da educação de qualidade, não é ser bem-posto socialmente, portanto, rico? José Bortolini nos lembra que a afirmação de Jesus, “como é difícil entrarem os ricos no Reino de Deus!”, assusta os discípulos em escala crescente até ao “espanto” (Mc 10,24-26).

O rico pode viver, como dizia Bonhoeffer, “etsi Deus non daretur”, como se Deus não existisse. Porque aquele que depende de Deus, que sofre, que vive oprimido, sente o aguilhão da exclusão, sabe que Deus não o abandona e o chama, sabe que depende dele, para andar consigo nos caminhos espinhosos de vida difícil do pobre. Esses “que não têm com quem contar” (Chico Buarque). Comparadas com a sabedoria sálmica e a espiritualidade da Bíblia Hebraica, as falsas seguranças da riqueza não têm valor. São como punhado de areia, como a lama, e iluminam tanto quanto luzes negras na escuridão.

No Segundo Testamento, o ambiente humano inicial é rememorado aguçando a dignidade de cada homem e de cada mulher, estimulando o debate contínuo sobre a humanização pela responsabilidade que os envolve com os demais, nas escolhas que se devem fazer. A família, o lar, o direito aos bens sociais e econômicos, confundem-se com o cuidado para com todos. Especialmente, quando a comunhão de interesses cristaliza-se na oferta socializada de emprego, cuidado com a saúde mental e física, previdência e salários justos, repouso e lazer, uma constelação infindável que lembra o que é viver em dignidade sob os “céus” do Altíssimo.

O abismo entre pobres e ricos, no tempo apostólico, era ainda maior que o dos nossos dias? É preciso lembrar também os países ricos e as profundas diferenças existentes abaixo da Linha do Equador. A ONU informa que, em termos comerciais, tecnológicos e financeiros, os países ricos estão cada vez mais próximos, numa rede de interdependência e autoproteção de privilégios. Em termos de desenvolvimento humano, no entanto, há um fosso entre nações ricas e pobres, destaca o IDH 2005/ONU (Índice de Desenvolvimento Humano), que dedica um capítulo inteiro ao estudo da desigualdade no planeta: “Em alguns casos, as diferenças de renda e condições de vida estão aumentando em qualidade”, mas não para a 2/3 da população da Terra, alertam seus relatórios. O rei da Noruega, admirador de Pelé, dançando samba nas favelas do Rio, fazendo turismo no Brasil, há pouco tempo, disse que os escandinavos tinham tanto dinheiro que não sabiam o que fazer com o mesmo.

O “causo” relatado por Marcos, do encontro de Jesus com um jovem cheio de grana, não é irrelevante. Especialmente quando a mídia evangélica dominada por Silas Malafaia, R.R.Soares, Edir Macedo (best seller equiparado ao campeoníssimo Padre Marcelo), os apresenta como salvadores sob a receita do “enriquecimento” pessoal. A experiência das comunidades cristãs iniciais revela que a busca do poder e da riqueza, não produz segurança e não realiza o cristão e a cristã, enquanto seres humanos. Ao contrário, gera dependência cada vez maior no consumismo costumeiro, porquanto estimula a ganância, que se confunde com a pedagogia do sucesso e da prosperidade, a qualquer custo.

Vida abençoada é, no hebraico bíblico, “chāyâ nephesh”. Por sua vez, consequência e resultado de “barah”, que é bênção. Prefere-se explorar o campo da superstição religiosa às últimas consequências, louvores musicais intensos, reforços tecnológicos para a música no culto, simbologias rituais, orações de poder – cuja origem é situada no paganismo helênico –; do mesmo modo, não se levam em conta os sentidos com que se conferem bênçãos ao crente fiel, na literatura sapiencial bíblica, pré-cristã. Aqui, sim, compreende-se a teologia da retribuição (“paqad”: retribuir a visita divina; “gamal”: recompensa divina à acolhida do necessitado; seguidas de“naqam”: “retaliação” pela negligência na acolhida do necessitado; não há elogios na Bíblia hebraica para a riqueza, ou “hon”;). Jó, livro sapiencial poético, nos últimos capítulos enxertados, introduz uma “teologia da retribuição”. Mas a custa de toda espécie de sofrimento, enquanto mantém toda fidelidade a Deus (emunah) apesar e em face às provações satânicas a que é submetico. É perdendo tudo, e não ganhando — mulher e os filhos; bens, e adoece com enfermidade repulsiva –, que lhe vem a retribuição.  Deveria estar na berlinda, pois é existente. O comportamento que se verifica no crente de hoje é o dos “amigos” de Jó. Muy amigos!

O “tesouro no céu” da economia pode ser associado à distributividade da riqueza alcançada, mas na aplicação sustentável que resulta em produção e trabalho para o desenvolvimento, que o evangelho jamais nega. Faz o mesmo com a palavra dinheiro. Howard Dayton (Seu Dinheiro, Bless Editora) informa que há 2.350 citações sobre a posse do dinheiro, na Bíblia (gr. Argúpia; heb. Miqnê; lat. pecúnia). O que é “possível” para Deus: salvar o rico apesar do acúmulo de riquezas, ou “sensibilizá-lo” para que se abra à nova justiça, venda tudo e, depois, siga Jesus? “A riqueza que não é posta a serviço da sociedade é ‘dinheiro iníquo’ e, por isso, não é sinal de justiça mas de pecado” (R.Pesch, cit./J.Bortolini). Trata-se do pecado das estruturas do mundo capitalista, mundo dos negócios e ênfase no consumo supérfluo, especialmente.

A resposta do homem rico, perguntado sobre a obediência aos mandamentos, é surpreendente: “Mestre, tudo isso tenho observado desde a minha juventude” (Mc 10,17-30). O interlocutor de Jesus é o que se poderia chamar de “justo” na vivência da Lei e da religião. Tem consciência de não haver cometido injustiças ao acumular riquezas. Fortuna e boa posição social não são vistas como bênção retributiva de Deus, pois o rico se julga justo, e crê não ser necessário fazer mais nada para ser discípulo de Jesus e possuir a herança do Reino (riqueza não é “gamal”, bênção, mas “paqad”, o contrário, como resultado da negligência com o necessitado, na Bíblia). Jesus lhe mostra que não basta “não ter feito nada de mal, não ter prejudicado pessoa alguma”. É preciso ir além, porque a riqueza não é bênção, e sim impedimento. Riqueza é falsa segurança. Ao rico falta misericórdia  acolhimento, compaixão pelos esmagados socialmente: “Só uma coisa lhe falta: vá, venda tudo o que tem e dê aos pobres, e você terá um tesouro no céu. Depois venha e siga-me!” (v. 21).

O Novo Testamento radicaliza, nos ensinamentos de Jesus: “Não podeis servir a Deus e às riquezas” (Mateus 6,24). Jesus sugere aos discípulos viverem “como o lírio-dos-campos”, implicitamente desprezando as riquezas e dos feitos econômicos do rei Salomão, tão admirado por pregadores gananciosos incitando a inveja em termos de qualidade de vida, possuir bens, residência em condomínios de luxo, conta polpuda no banco, enquanto cobram dízimos e induzem oferta compulsória, a serem levados ao “altar do Senhor” (R.R.Soares com a palavra, enquanto conduz o séquito neoevangélico), citando sonora, constante e insistentemente um único profeta do judaísmo inicial (Malaquias, ver notas exegéticas abaixo).

Aí está a novidade na mensagem de Jesus, que é a mesma novidade do ser cristão. Para o rico, não basta não ter prejudicado as pessoas ao acumular riquezas; não basta ter devolvido o que pudesse ter roubado: será necessário vender tudo e dar aos pobres, numa partilha total. Alcança-se aqui o novo conceito de justiça: ela não nasce do cálculo legal, mas do exercício da misericórdia em relação aos pobres (José Bortolini). A rigor, só depois disso é que se poderá seguir a Jesus: “Em seguida, venha e siga-me!” Nem os próprios discípulos entendem esta colocação; eles estão esperando de alguma forma alguma palavra a respeito de alguma retribuição, uma recompensa; mas ao ouvir Jesus falar como falou se surpreendem, e por isso  perguntam: Será que o rico se salva? As perguntas deveriam ser: “salvos por quê”?,  de quê”? e “para quê”. Então, resolveríamos o problema soteriológico que constitui o falso dilema dos cristãos doutrinários. Em destaque os coadjuvantes milionários à custa da igreja ganaciosa como eles.

Derval Dasilio

NOTAS

1. – Dificilmente o rico entrará no reino dos céus, informa o Evangelho de Marcos (cf. texto acima).  Isso porque riqueza e bens geram dependência e brutalizam as pessoas, tornando-as gananciosas e esquecidas das demais. A ganância não está distante da opressão sobre os que nada têm. Quando valorizamos falsas seguranças, não só acabamos como “insensatos”, mas tornamo-nos “brutais”, “desumanos” e “tiranos” – informam as Escrituras –, convivendo com iguais, no afã de sustentar privilégios próprios da riqueza (nossa ou de outrem). Os melhores postos de trabalho pertencem aos ricos, as mais avançadas tecnologias medicinais, o mais refinado lazer, as maiores garantias no sistema financeiro. Os livros sapienciais da Bíblia pretendem ser uma síntese das experiências que realizam as pessoas. Reforçam as relações de gratuidade (hesed), de cuidado, compaixão e misericórdia, solidariedade, pelo outro e pela outra (rahamin).

2 – As igrejas novas evangélicas que estão surgindo ignoram essa mensagem. Pregam a religião da prosperidade (ou a teologia da ganância), influenciam as demais, históricas ou recentes. Retomam a figura do “ungido de Deus” bem remunerado. Representa-os Silas Malafaia, da Assembléia de Deus — mais de 12 milhões de fieis no Brasil (Veja, 03.jun.2012) –, que paga a seus pastores salários de 4 a 20 mil reais, conforme a produção em arrecadação de dízimos e ofertas). O padre Marcelo, que movimenta milhões, no Movimento Carismático, acompanha-o de perto, com contratos milionários na Tv (e todo mundo dança…, enquanto compram seus terços bizantinos, relíquias, livros e CDs,  produzidos por empresa familiar, em milhões de cópias). É o retorno da figura do profeta pago, do sacerdote, que existia no Antigo Testamento.

3 – No Novo Testamento, Jesus Cristo é o único mediador. Na igreja evangélica atual, porém, Jesus aparece em quinto lugar, com seus conselhos sobre a vida. Em primeiro está o pregador da ganância, Silas Malafaia, seguido de outros personagens do mundo midiático (Ultimato set./out.2010). Nessas igrejas mais novas, e também nas históricas, coloca-se o pastor como um mediador indispensável para uma vida de riqueza e prosperidade. Os jovens vão-se tornando dependente dele, e as vocações passam a ser vinculadas ao interesse ganancioso pelo dinheiro (Mateus pergunta [25,42-43]: – “Quando te vimos?”, a resposta é peremptória: “eu tive fome, e vocês não me deram de comer; tive sede, e nada me deram para beber; fui estrangeiro, e vocês não me acolheram; necessitei de agasalho, e vocês não me vestiram; estive enfermo e preso, e vocês não me visitaram”).

4 – Entre os fatores importantes para uma vida melhor, a Pesquisa de 2010 (Ultimato, set./out.2010: “Retrato da juventude evangélica”) constatou que a bênção de Deus, porém, está no desejo maior dos jovens. Para quê? Para subir na vida? Nada menos que 96% dos 1.960 pesquisados colocam Deus em primeiro lugar. No mesmo plano, quanto à importância, “ter estudo”. Depois, 75 % acham que para vencer na vida é preciso “ter talento”. Ter boa aparência conta, mas numa proporção menor. Alívio? Depois vem o “para quê”, que não foi levado em conta na pesquisa, parece. Os pesquisadores tiveram dificuldades para ligar esses índices à ética cristã, ou resposta do cristão aos desafios das desigualdades sociais. Não lhes foi perguntado: “Por que sou cristão”? Que respostas teríamos?

5 – Podemos usar o termo “teologia da prosperidade” para essas questões? É impróprio, por alguns motivos: os assuntos, aqui, referem-se à “ganância ” (emprego remunerado em dezenas de milhares, altos postos de trabalho,  carro, apartamento, consumir viagens internacionais, etc.) que se ensina nos púlpitos e na telinha sobre o uso do dinheiro, e não no campo da pesquisa antropológica da religião, em primeiro lugar. Não é teologia – se compreendida como assunto das ciências bíblicas ou estudos sistemáticos das doutrinas cristãs. Na comunicação de fins, a mensagem evangélico-pentecostal-carismática ignora quaisquer dos temas bíblico-teológicos que tratam da “prosperidade”: vida abençoada, felicidade como retribuição divina à fidelidade ao projeto de Deus para a coletividade, originalmente, segundo a Bíblia. Aliás, a Bíblia foi deposta de sua posição privilegiada, pela fé evangélica. Tornou-se (ex)“regra de fé e ordem”, agora desprezada pela população evangélica, segundo se deduz de recente  pesquisa realizada por prestigiada revista capixaba voltada para esse grupo social (Comunhão, set./2012): somente 6,3% tomam conhecimento da Bíblia ou a consideram importante para ser observada e estudada (a pergunta foi: Do que mais você gosta na igreja local?). Como Jesus, a Bíblia lugar na vida do evangélico pós-industrial.

NOTA EM DESTAQUE – A  HISTÓRIA DO DÍZIMO

Derval Dasilio 

Admitir uma religião que ingressa na ética comercial também compromete a ênfase dos pastores e padres midiáticos admirados pela juventude, e seu interesse exacerbado pelo dinheiro dos fieis. No Antigo Testamento as regras básicas das transações comerciais começam com a proibição da cobrança de juros, ou de impostos religiosos, numa referência mais ampla. O Levítico, como o profeta Ezequiel, é taxativo: “Não tomarás do irmão juros ou ganhos de qualquer ordem ”. Não havendo moeda circulante, tão somente gêneros alimentícios se constituíam em “dízimas”, ou dízimos. Empréstimos eram concedidos aos lavradores, mas sem juros. O escambo se constituía em prática comum, e a moeda cunhada somente foi introduzida sob domínio grego (330 a.C.), pelos próprios, quase trezentos anos depois do profeta Ezequiel. Nos códigos da Babilônia, talvez mil anos antes dos escritos bíblicos, já se impunham tetos na cobrança de impostos. Dízimos eram formas de imposto existentes no Egito, no tempo bíblico dos patriarcas (cf. história de José). Evitavam, os escritores testemunhais do AT, a prática comum  utilizada no exílio e na escravidão (desde 595 a.C.), no exílio babilônico?

Sob o domínio persa, vencidos os caldeus, ou babilônios, nascendo o judaísmo exclusivista e racista, imaginou-se Malaquias tão somente como interessado no dízimo e a sustentação do templo e restauração da instituição do culto. A mercantilização no meio religioso dirigente, convidando o remanescente israelita para reacender a fé dos profetas anteriores ao exílio babilônico é, talvez, o tema desse profeta, que vivia sob os efeitos da destruição do templo pelos babilônios, agora reconstruído em Jerusalém. Malaquias, porém, era um combativo profeta, insurgindo-se contra o mercantilismo sacerdotal. Cargos religiosos já eram comprados a preço de ouro e prata, no período em que os gregos controlavam a Judéia (esqueçamos Judá, que ficou para trás na história bíblica de Israel; esqueçamos também a monarquia davídica, extinta desde 596 a.C., com a queda de Jerusalém). Incongruência na exegese fundamentalista, porque os cargos religiosos, sacerdotais, continuavam a  ser vendidos em séculos posteriores, nas satrápias, sob  persas até o domínio romano (cf. a revolta dos macabeus).

Hoje, cristãos – que se acham “judaítas” modernos (pertencente ao judaísmo continuado, mesmo quando recusado por Jesus e seus apóstolos), responsáveis pelo “templo”, solidários aos “sacerdotes” da religião sob os persas e depois pelos helênicos, estendendo-se aos romanos –, parecem encontrar somente nesse profeta a justificativa para o dízimo compulsório, na forma de imposto religioso. No Novo Testamento, nem uma só vez há referência a Malaquias ou qualquer forma de contribuição compulsória, embora os cristãos, judeus ou estrangeiros, sempre fossem lembrados da contribuição solidária às igrejas e aos cristãos pobres, na memória dos “órfãos e viúvas”, os desamparado da sociedade. A contribuição no NT é sempre um ato de misericórdia, compaixão, solidariedade, partilha, lembrados como “dever cristão”.  Não como obrigação religiosa ou eclesiástica. A palavra “dízimo” é praticamente inexistente no texto do Novo Testamento (aparece ocasionalmente por 10 vezes, mas nunca de forma direta, como instrução ou “mandamento”); no AT é o contrário, aparecendo diretamente por 35 vezes como imposto público anual; dinheiro do resgate (fiança) das pessoas; coleta feita pelos sacerdotes; ofertas trazidas ao Templo, entre outras, sendo estranha ao mundo helênico onde, de fato, se expandiu a Igreja cristã. E ponto final.

Derval Dasilio

ENTENDENDO BIBLICAMENTE A GANÂNCIA

O primeiro momento está no Gênesis, no poema-tragédia da Queda. Os símbolos, e não as pessoas, apontam a ganância da humanidade iniciante na direção de viver “etsi Deus non daretur” (como se Deus não existisse), buscando-se  domínio sobre a natureza além do que lhe fora dado. No segundo momento, Cain e Abel compõem a introdução da violência no sentido de se obter, seja qual for o custo, que seja a vida do irmão, o que pertence a outros.  O terceiro refere-se à Torre de Babel, parábola da construção de um monumento humano capaz de superar e evidenciar-se diante e acima do projeto de Deus para a comunidade humana. Protótipo das cidades-estado com suas fortalezas defensivas, como ganância de privilégios sobre as comunidades pastorís, no tempo em que o “povo bíblico” vivia em grupos nômades, (patriarcas) dependendo tão somente do seu trabalho e da natureza.

Os momentos seguintes referem-se a praticamente à Bíblia Hebraica por inteiro. O êxodo e a resposta profética, notadamente na ressurgência da adoração do “bezerro de ouro”, quando Moisés já preparava a base do Código da Aliança, ou os Dez Mandamentos. Prossegue-se na ocupação da “terra da promissão” pelas tribos de Israel, que em dois séculos desembocou na monarquia (dinastia davídica). A ganância entre as tribos resultou no enriquecimento de algumas, que determinaram a instalação da monarquia (leia-se governo de “privilégios econômicos” para as elites israelitas), enfraquecendo as demais tribos até a sua extinção.

Toda a monarquia esteve na berlinda, na indignação dos profetas sobre a injustiça social e a vida privilegiada dos cortesãos israelitas. No exílio babilônico, ponto máximo da história do povo bíblico, extinta a monarquia davídica, é que se difinirá um caminho novo para a comunidade israelita (também criticada e exortada pelos últimos profetas). É nesse ambiente que será iniciada a religião com afirmação racial, exclusividade étnica, exclusão do estrangeiro, penalização da mulher e da pessoa homossexual (em casos extremos condenados à morte por prática de casamento misto ou adultério, para as mulheres tão somente; execução de jovens homossexuais ).

O Novo Testamento receberá o que resulta dessa religião, porém, no combate profético contra a mesma na pessoas de Jesus e seus discípulos. Com uma ressalva importante: o ambiente religioso judaico, topográfica e geograficamente, não tem relevância no mundo greco-romano (“gentílicos” é designação judaica para os judeus extrangeiros; quem quiser sair da armadilha que estabelece “prerrogativas culturais para um povo bíblico exclusivamente originário do judaísmo” adotará outros termos, mais adequados à extrema diversidade étnica, cultural e religiosa, alcançada em todo o domínio romano). 

Fica esta sinopse para quem quiser entender os “porquês” da teologia (teologia da ganãncia) dominante entre religiosos neoevangélicos, nos dias atuais. Mas o dízimo não é uma instituição cristã.

Derval Dasilio

 

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