29º. Domingo do Tempo Comum depois de Pentecostes – Ano B
Jó 38,1-7 (34-41) –  Quem é este que obscurece os meus desígnios.
Salmo 104,1-9 (24 e 35c) – Colocastes um divisor de águas à nossa frente.
Hebreus 5,1-10 –  O Sumo Sacerdote é rodeado de homens cheios de fraquezas.
Marcos 10,35-45 –  Poder…vocês sabem o que estão pedindo?

Embora tenha surgido como função de coordenação da (ou de uma) sociedade, o poder possui um dinamismo irrefreável de expansão e de auto-segurança. O poder quer sempre mais poder (Leonardo Boff). Caso contrário, perde sua força até deixar de ser poder. Por causa desta lógica, o poder tende a se aliar a outros poderes, ou  absorvê-los. Na Bíblia há muito sobre o poder, para não dizer que o assunto a atravessa por inteiro, do Gênesis ao Apocalipse.  Mas as passagens de Marcos 10,35-45 e Mateus 4,1-11 (sobre a “tentação do poder”, Mt 10,34; sobre as “divisões e inimigos dentro da própria família, por causa do poder”; Mt 20, 21e 22; 24-26, sobre as “posições de destaque, no poder”), são esclarecedoras. Mas o NT fala também sobre o antídoto, (anti)poder, através do serviço: “Entre vós, o maior servirá o menor”, é a diaconia do Reino… (Lc 22,26). São passagens extraordinárias.

Distanciando-se o poder de sua fonte e objeto, que é a sociedade, o poder sobrepõe-se a ela. Thomas Hobbes (1588-1679), teórico do poder do Estado absolutista registrou em seu famoso livro “Leviatã”: “assinalo, como tendência geral de todos os homens, um perpétuo e irrequieto desejo de poder e de mais poder, que cessa apenas com a morte. A razão disso não reside num prazer de mando mais intenso, mas no fato de que não se pode garantir o poder senão buscando mais poder ainda”. Hobbes foi ideólogo, teórico do poder soberano, absoluto, “da monarquia ungida por Deus”; do poder exercido especialmente no Estado monárquico, mas que logo se estende às instituições de qualquer forma de governo em todos os tempos e lugares.

Dizia que a realização máxima de uma sociedade civilizada e racional era o poder soberano. Os homens, sem a segurança do estado absoluto, viveriam em igualdade, sim, mas entregues aos seus instintos. O egoísmo, a ambição, a crueldade, próprios de cada um, gerariam um conflito sem fim, obstaculizando a vida em sociedade, levando-os à destruição. Somente um governo soberano (nesse caso, o Estado), racional, proporcionaria os meios para que os homens vivessem em sociedade e em segurança. As monarquias absolutistas impuseram suas teorias, até que veio a Revolução Francesa (1789). Aí, então,  mudou a história do mundo. Prega-se a nova democracia: “governo do povo pelo povo”. A ideia da república democrática ultrapassa as fronteiras da Europa Continental.

Por que se diz que o poder é refém de um “demônio” insaciável? As respostas conhecidas parecem insuficientes. Então, vamos contar fábulas, ou parábolas, como Jesus gostava de fazer, e dessas que Millor Fernandes (re)escrevia com tanta habilidade: “Muito tempo antes do homem se organizar em Estados (homo politicus), já existiam lobos ferozes proibindo carneiros de beber sua água. O homem não tinha pensado em construir cidades, quando raposas finórias e sem escrúpulo arrancavam queijos do bico de corvos ingênuos. E quando o último homem apertar o botão (no apocalipse nuclear), haverá sapos coaxando nos pântanos cantando a glória e a sedução do lodo pantanoso”.

Hoje, o evangelho de Marcos apresenta um detalhe que se encaixa à realidade do ensinamento de Jesus sobre a vida pública, no ministério para o qual foi enviado, que é reconhecido por nós como revelação do projeto de Deus (Mc 10,35-45). Muitas reações vão aparecendo, entre os discípulos, seus ouvintes preferenciais: é preciso tomar decisões; há um caminho a ser trilhado para se chegar ao Reino, roteiro para o qual também não há atalhos; é preciso adotar um espírito novo, crítico das realidades no entorno, no quotidiano, na vida política e “cidadã”; é preciso tornar-se puro como a criança descontaminada e ainda não inclinada à corrupção; livres do rol de corruptores ou corrompidos (cf. Cullman, Cristo e Política; R.Nieburn, Cristo e Cultura).

O projeto de Jesus, no seguimento da missão de Deus, não está sujeito às inclinações e ideologias do momento.  A reação de Pedro, que precisa ser entendido como porta-voz do grupo todo de discípulos, diante do anúncio da Paixão (Mc,8,31-33), que resultaria na entrega total do homem Jesus  à causa; que o levaria ao despojamento total de atributos e capacidades divinais – as quais lhe garantiriam “poder” sobre seus perseguidores e algozes (cf. Fl 2,5-8; kenosis, esvaziamento em favor da humanidade); poder que poderia livrá-lo de todo e qualquer sofrimento e angústia; que impediria o derramamento de seu sangue, evitando-se o martírio em favor da “grande causa”. Tudo isso demonstra muito bem o pensamento dos discípulos. A incapacidade de entenderem que o exorcismo de demônios, espíritos imundos contidos nos sistemas de pensar, é também uma missão compartilhada na pluralidade cultural e religiosa dos que fazem o bem sem serem do grupo oficial de seguidores do Cristo (Mc 9,38-50).

Mas não nos confundamos com o paradoxo: “Dai a César o que é de César e a Deus o que é de Deus”. Um aluno perguntava: “Por que devo votar”? Respondi: “Porque você é cristão”. As palavras de Jesus permitem-nos exercer a cidadania com segurança (voto limpo, exigência de direitos fundamentais junto aos governantes). Para manter-se o Estado de direito; direito de escolha dos que dirigirão o município, o estado ou a nação, o voto torna-se numa oportunidade de obediência evangélica. Jesus disse também: “meu reino não é deste mundo”, isso implica em que “o reino de César é deste mundo”.

Mas Deus ama o mundo humano (Jo 3,16), e entregou o Filho para assumir essa humanidade às últimas consequências. E João (3,19-21) não ignora a krysis permanente do  mundo, em seu verdadeiro sentido: julgamento, condenação, separação… “o mundo está sob julgamento…”;  “Deus separou luz e trevas…”;  “Deus amou o mundo…” são parte da teologia evangélica sobre a polaridade entre a luz e as trevas, que também afirma: “eles amaram as trevas…”  “o perverso busca as trevas para agir impunemente…”. As questões do discipulado são colocadas diante de afirmações seguras sobre cidadania: “não peço que os tireis do mundo, mas livra-os do mal…”. 

O serviço ao mundo amado por Deus é diaconia, e não o exercício do poder. Serviço voltado para as desigualdades sociais e políticas, para as transformações que contemplarão os famintos — em todos os sentidos –, excluídos, marginalizados, despoderados, sem cidadania e sem dignidade, dominados pelos falsos determinismos da miséria e da fome. Tudo aponta à obediência a Jesus: “Íde, fazei discípulos em todas as nações…”(Mt 28,18-20).

Derval Dasilo

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