32° DOMINGO DO TEMPO COMUM – ANO “B”

Rute 3,1-5; 4,13-17 – Orientação para a solidariedade
Salmo 127 – Sem o Senhor é inútil todo e qualquer esforço pela prosperidade
Hebreus 9,24-28 – Cristo ofereceu-se de uma vez, para todo o sempre
Marcos 12,38-44 – Jesus denuncia a ganância religiosa

(Os Estatutos do Homem – Thiago de Mello).

Artigo 13º – Fica decretado que o dinheiro
                      não poderá nunca mais comprar
                      o sol das manhãs vindouras.
                      Expulso do grande baú do medo,
                      o dinheiro se transformará em uma espada fraternal
                      para defender o direito de cantar
                      e a festa do dia que chegou.

Dinheiro, sacrifícios pessoais, ofertas e dízimos, conseguirão libertar e livrar-nos do inferno financeiro em que vivemos? Falando-se tanto em prosperidade abençoada, através de gordas ofertas, não estando preocupados com a sociedade, nem com a fome e a miséria do povo, até se justifica tudo isso: pobreza é maldição que pesa sobre os ombros dos que não ofertam… O pregador, (ou pregadora) diz: “É preciso quebrar a maldição”; “buscai primeiro o Reino… (corta-se e a sua justiça) e todas as coisas vos serão acrescentadas”. A turba responde embevecida com a sabedoria da economia divina sustentada no discurso “pseudo bíblico” da prosperidade e da vida abençoada… Johannes Tetzel, dominicano que pregava indulgências salvadoras no século 16, ressuscitou no discurso de muitas autoridades evangelicais no nosso tempo. Boas imitações, quase autênticas…  Que saudade de Lutero! 

A palavra “viúva” é também a chave do texto neotestamentário (Marcos 12,38-44). Podemos recordar a viúva fenícia, portanto, estranha à comunidade israelita, que partilhou com Elias os últimos alimentos que dispunha para alimentar-se e ao seu filho órfão (1Reis 17). Acrescentaríamos a narrativa sobre o cofre do templo (2Reis 12,4-6; 13-15), que deveria ser aberto, por ordem do rei Joaz, para os reparos do templo, mas sem excluir o resgate de pessoas prisioneiras ou escravizadas, enquanto se remuneravam os servidores da casa de culto em reconstrução. No tempo apostólico, havia vários cofres para os depósitos, segundo a categoria da oferta, no Templo.

As viúvas, segundo ampla denúncia na tradição profética de Israel (Is 1,17-23), são desprezadas sob pretexto do culto e de orações que resultam viciadas, corrompidas; abusam-se, inclusive e ao mesmo tempo, das ofertas e do culto, quanto à sua legítima destinação. De modo bem diferente, no passado, profetas como Elias e Eliseu socorriam as viúvas e os órfãos (1Rs 17; 2Rs 4 e 8), símbolos da desproteção social. Colocada nesse contexto irradia reflexos de contraste. O desprendimento total ante a cobiça e a ganância, sob pretexto religioso dos dirigentes que também conduzem o povo à corrupção do culto.

Finalmente, Jesus está declarando válida e completa o que uma viúva não-judia, estranha à religião oficial – cuja figura se preserva através de gerações, nas comunidades cristãs –; mulher pobre e anônima, cuja oferta por si denuncia a ganância religiosa. Ela simplesmente deu tudo o que tinha. A oferta da viúva valia mais que os 613 preceitos religiosos em vigor: 365 proibições e 248 imperativos de conduta (inclusive a prescrição obrigatória do dízimo). O Mishnah por inteiro. A religião da ganância fascina as multidões, no entanto. A comunidade evangélica está esquecida da finalidade primeira da contribuição dizimal.

A viúva sabia “dar o que era de Deus para Deus”, como ensinara Jesus. A lição é de solidariedade e cooperação, para lembrarmos mais uma vez o que disse Paulo Freire: “Ninguém se liberta sozinho, nós nos libertamos em comunhão”. Que comunhão? Com o projeto de Deus. O Reino e a Justiça, em primeiro lugar. Faz-se necessário que as comunidades se conscientizem da própria contaminação retributiva, na experiência evangélica, e se coloquem na dinâmica da conversão, da mudança de direção, buscando a humanização da sociedade e de si mesmas, enquanto se exibe o machado contra a idolatria financeiro-religiosa dos nossos dias.  

Já estamos nos acostumando com carros-fortes e seguranças armados estacionados nas frentes dos mega-templos evangélicos. Campanhas empresariais de grande monta estão na mídia. Com tantos problemas, quem não gostaria que isso acontecesse com suas igrejas, adequando-nos à teologia sacrificial da retribuição? Poucos. Causam inveja, os aparatos. Sinais dos tempos. O dinheiro passa a ser uma mercadoria de muita procura, nada de extraordinário nisso.

Admitir uma religião que ingressa na ética comercial também compromete a ênfase dos pastores e padres midiáticos admirados pela juventude, e seu interesse exacerbado pelo dinheiro dos fieis. No Antigo Testamento as regras básicas das transações comerciais começam com a proibição da cobrança de juros, ou de impostos religiosos, numa referência mais ampla. O Levítico, como o profeta Ezequiel, é taxativo: “Não tomarás do irmão juros ou ganhos de qualquer ordem ”. Não havendo moeda circulante, tão somente gêneros alimentícios se constituíam em “dízimas”, ou dízimos.

Empréstimos eram concedidos aos lavradores, mas sem juros. O escambo se constituía em prática comum, e a moeda cunhada somente foi introduzida sob domínio grego (330 a.C.), pelos próprios, quase trezentos anos depois do profeta Ezequiel. Nos códigos da Babilônia, talvez mil anos antes dos escritos bíblicos, já se impunham tetos na cobrança de impostos. Dízimos eram formas de imposto existentes no Egito, no tempo bíblico dos patriarcas (cf. história de José e o comércio de escravos). Evitavam, os escritores testemunhais do AT, a prática comum  utilizada no exílio e na escravidão (desde 595 a.C.), no exílio babilônico?

Pode ser que não se queira tanto, mas que resolve o problema de certas autoridades religiosas, nas comunidades locais ou nacionais, lá isso resolve! Os exemplos são muitos. Novas e antigas igrejas “evangélicas” firmam-se no dinheiro como sinal importante de prosperidade espiritual ou material. Sinais de sucesso pessoal, são exibidos… e a sacola vai passando, e enchendo o cofre da igreja e do  pastor.  Vencer na vida e ter dinheiro de sobra é o imperativo do momento.

Ouve-se constantemente o rompante pentecostal: “antes eu era assim… hoje, depois que passei a ser contribuinte do altar, tenho relógio rolex, apartamentos, casa no exterior, carros importados e muito dinheiro aplicado no banco…” Desse modo, brevemente, se formos dizimistas e contribuintes, estaremos cantando o hino apócrifo dos nossos dias, como se faz nas festas de fim de ano: “…muito dinheiro no bolso/saúde pra dar e vender”! O imposto religioso “resolve todos os nossos problemas”, diz-se impunemente. Casamento mal das pernas, cargo político desejado, emprego com alta remuneração, passar no Enen, ou no vestibular, moradia luxuosa… a solução é o dízimo…

Os primeiros capítulos dos Atos dos Apóstolos apresentam um ideal reverso: assim devia ser a vida dos cristãos! Lucas carrega nas tintas esboçando sobre o sentido da contribuição cristã, e chega a dizer: “Todos vendiam tudo o que tinham” (At 4,34). Já em outro ponto ele esclarece melhor: “Os cristãos vendiam o que possuíam cada vez que alguém precisasse” (At 2,44). E depois, quando chega o momento de apresentar os fatos para os bem-postos, ele diz: Barnabé é um deles. “Vendeu tudo, colocou ao dispor dos apóstolos para que eles distribuíssem ficando pessoalmente sem nada” (At 4,36-37). E por causa disso ganhou grande respeito na comunidade. Até os dias de hoje.

O olhar penetrante e vigilante, pelas lentes do Evangelho, nos levará a entender o que Deus realmente quer: “Que a justiça corra como um córrego límpido rolando entre as pedras, e não sacrifícios e incensos”.  Muitos dos adeptos aos regulamentos, apresentando a Bíblia aos fiéis, à semelhança dos escribas do templo – no tempo de Jesus e dos apóstolos –, na mídia televisiva ou no culto regular, procuram e exploram as pessoas com ofertas de retribuição garantida. Uma religião mal interpretada, em favor da santidade obtida com a oferta em dinheiro, regulada pelo dinheiro, poucas ou muitas moedas, perde o sentido. Sem fé, uma religião se torna um perigo. O crente espera ficar milionário, com suas ofertas, porque o pastor garantiu-lhe o dobro, o triplo do que aplicar. Vi isso agora mesmo na televisão. O fracasso, como nas loterias oficiais, não desestimula a ganância.

NOTAS   

Rute 3,1-5; 4,13-17 – O livro de Rute antes de tudo fala de situações de extrema urgência. Deserdados, estrangeiros, pobres, desterrados, enfim, vivem uma situação de partilha necessária para a sobrevivência de todos. Uma relação entre a mulher e a terra não é olvidada. A mulher como representante da comunidade e suas afinidades naturais reprodutivas não são esquecidas. Não convém desprezar esse simbolismo, ele é tão forte em Israel quanto nas nações vizinhas. A situação pós-exílica é evidente. Há esperança! A cena é precedida do informe: Rute deixa seus pais como Abraão deixa sua terra. Confia nas promessas de Deus.

Quem é o Deus de Noemi e de Rute? O relato é parcimonioso, Yahweh aparece discretamente, não intervém de forma direta no entorno ou na cena. O dom de Deus se atualiza com a legislação social do Jubileu Bíblico (preconizado por volta de 550 a.C.). Ali, estrangeiros e escravos são devidamente protegidos; o órfão e a viúva, vítimas simbólicas das desigualdades econômicas, são amparados obrigatoriamente. O trabalho na terra ou a posse da mesma, é regulamentado pelo Deus de Israel, segundo o Jubileu.

Não há templo, culto, rituais litúrgicos envolvendo a narrativa (para recolher o dízimo, por exemplo). Não se fala de pecado, de santidade, nem de purificação. Sobreviver, semear, fecundar, é tudo que importa. A esperança de vida está no Deus da vida. Uma pergunta fica no ar, quanto a esta narrativa de autor desconhecido (claramente contra a tipologia religiosa dominante no templo reconstruído), se levamos em conta o legalismo e o código de pureza que virão a seguir, na religiosidade de Israel. Aí se situará o confronto com a “doutrina” farisaica, posterior, que muda o sentido da partilha, da cooperação solidária, no dízimo ou na oferta compulsória no altar, tornando-os impostos religiosos de uso duvidoso? Quantos são sacrificados para que esse fetiche se sobreponha?

COMENTÁRIO  

I.1. Marcos, antes del discurso escatológico y de la pasión, nos ofrece una escena que está cargada de simbolismo. Se retoma, en cierta forma, el papel de la viuda y el profeta Elías, como en el texto de 1Re 17,10. Las palabras contra los escribas que buscan los primeros puestos… y más cosas, es probablemente una advertencia independiente, pero que se entiende en nuestro texto con la narración que describe la acción de la viuda. Jesús, en el Templo, está mirando a las personas que llegan para dar culto a Dios. A Jerusalén llegaban peregrinos de todo el mundo; judíos piadosos, pudientes, de la cuenca del Mediterráneo, que contribuían a la grandeza de Jerusalén, de su templo y del culto majestuoso que allí se ofrecía. Siempre se ha pensado que el culto debe ser impresionante e imperecedero.

III.2. ¿Está Jesús a favor o en contra del culto? Esta pregunta puede parecer hoy capciosa, pero la verdad es que debemos responder con inteligencia y sabiduría. ¡No! ¡No está Jesús contra el culto como expresión o manifestación de la religión! Pero también es verdad que no hace del culto en el templo un paradigma irrenunciable. Jesús respeta y analiza… y saca las consecuencias de todo ello. No dice a la mujer que se vaya a su casa… porque todo aquello es mentira. No era mentira lo que ella vivía, sino lo que vivían los “prestigiosos” de la religión que no eran capaces de ver y observar lo que él hizo aquella mañana y enseñó a los suyos con una lección de verdadera religión y culto.

III.3. Si nos fijamos, Jesús está proponiendo el culto de la vida, del corazón, ya que aquella viuda pobre ha echado en el arca del tesoro lo que necesitaba para vivir. Ella estaba convencida, porque así se lo habían enseñado, que aquello era para dar culto a Dios y entrega todo lo que tiene. Es, si queremos, un caso límite, con todo el simbolismo y la realidad de lo que ciertas personas hacen y sienten de verdad. Lo interesante es la “mirada” de Jesús para distraer la atención de todo el atosigamiento del templo, del culto, de los vendedores, de lo arrogantes escribas que buscan allí su papel. Esa mirada de Jesús va más allá de una religión vacía y sin sentido; va más allá de un culto sin corazón, o de una religión sin fe, que es tan frecuente.

III.4. Esa es, pues, la interpretación que Jesús le hace a sus discípulos. Los demás echan de lo que les sobra, pero la vida se la reservan para ellos; la viuda pobre entrega en aquellas monedas su vida misma. Ese es el verdadero culto a Dios en el templo de la vida, en el servicio a los demás. Sucede, pues, que la viuda (con todo lo que esto significa en la Biblia) ofrece una religión con fe, con confianza en Dios. Y solo Jesús, en aquella barahúnda, es capaz de sentir como ella y de tener su mirada en penetrante vigilancia de lo que Dios desea y quiere. Una religión, sin fe, es un peligro que siempre nos acecha… que tiene muchos adeptos, a semejanza de los escribas que buscan y explotan a los débiles, precisamente por una religión mal vivida e interpretada. Jesús ha leído la vida de aquella pobre mujer, y desde esa vida en unas pocas monedas, ha dejado que lleve adelante su religión, porque estaba impregnada de fe en Dios.

Miguel Burgos – Frei dominicano

Site: Predicadores Dominicos

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