JESUS DIANTE DAS CRISES DE NOSSO TEMPO

33° DOMINGO DO TEMPO COMUM – ANO “B”
1Samuel 2,1-10 – “… os que andavam famintos não sofrem mais fome”
Hebreus 10,11-14; 19-25 – É inútil repetir  sacrifÍcios cultuais
Marcos 13,1-8 – Sereis perseguidos por causa do nome…

Vai terminando o ano litúrgico. Podemos até pensar no Advento, o início do ciclo anual. O anúncio é escatológico, refere-se aos últimos dias de uma era, enquanto passado, presente e futuro se entrelaçam com surpreendente harmonia: é necessário voltar os olhos para futuro glorioso e a dinâmica que se espera na instalação definitiva do Reino de Deus. A humanidade, enquanto isso, espera que os acontecimentos orientadores da esperança, a Morte, a Ressurreição e a Exaltação do Cristo de Deus sejam devidamente assimilados no caminho da vida, e a comunhão dos santos – propósito e finalidade da Igreja de Deus – alcance seu destino último: o Reino de Deus definitivo. A salvação, enquanto isso, é celebrada pela grande comunidade de fé.

Uma obra de arte é sempre maior que seu intérprete, já ouvimos isso. Ouvimos também que a obra de um bom autor é melhor que o melhor artigo escrito por qualquer crítico literário. Carlos Mesters diz que o assunto “apocalipsismo” merece essa analogia: os escritos são mais importantes que seus intérpretes. Agrada a idéia de Mircea Eliade: “monstros e fenômenos sísmicos e climáticos povoam o passado mitológico da humanidade, onde elementos cósmicos catastróficos são evocados em situações extremamente críticas, através de uma linguagem reveladora, como a desorganização cósmica, universal, onde o poder sagrado se oculta”. O mundo entra em pânico. Nos mitos, uma forma de castigo — como o retorno ao caos (khaos) –, vem sobre o universo, enquanto se identificam forças naturais descontroladas operando contra a vida humana. Enchentes, nevascas, tsunamis, terremotos, transformam também a geografia social do mundo.

Toda a precariedade da idolatria, ou do culto idolátrico, manifesta-se em tempos de desgraça (Claus Westermann). Os ídolos como também a própria Lei, impõem pesadas cargas, necessitam de “bestas”, imagens simbólicas que comportam e transportam o peso insuportável da opressão. Uma analogia é construída sobre a incrível debilidade dos mesmos ídolos, diante de um Deus que é independente dos estatutos religiosos: o Deus de Jesus é diferente, é ele quem carrega as cargas impostas sobre seu povo, e as transportará até o fim (cf. Is 46,1-4). A história se resolve ao pé da letra? É certo que, ante a tirania, de um ou de todos os homens (da sociedade ou da nação totalitárias), em qualquer seguimento social ou político, em qualquer religião, existirá o chamado “apocalíptico” onde Deus revelará como se deverá resistir.

Devemos reconhecer o apocalipse sinótico nesta perícope (Mc 13,1-8). Presta-se a muitas interpretações, sem dúvida. O Templo reconstruído seguidas vezes no sentido de representar a unidade nacional perdida sucessivamente (a nação é dominada por babilônios, caldeus, sírios, gregos, romanos), enquanto representa o centro do culto de Israel, latente, gerador de comportamentos, naquele momento. A idolatria pagã convivendo com a “idolatria” da Lei religiosa não-bíblica, alienante, intimista, dispersa, distante da originalidade

Evoca-se o profeta Daniel, não sem motivo; a resistência dos macabeus aos helênicos, ao mesmo tempo [ricos comerciantes acabaram por comprar terras nos domínios históricos de Judá, surgindo uma classe de grandes latifundiários e outra de desempregados e mendigos, causando descrença na política atuante e fomentando a divisão ideológica. O helenismo se implantava, enquanto as tradições centradas no Templo eram cultivadas. Surgiam então três grupos, de características sociais religiosas e políticas distintas: Tzedukim (saduceus), Prushim (fariseus) e os Issiim (essênios); ocorria o desaparecimento dos movimentos proféticos rebeldes (tão a gosto do povo), enquanto sacerdotes da religião oficial, hierárquica, tomam seu lugar (o cargo de sumo-sacerdote é comprado a altos preços); a liturgia, o Templo e a sinagoga refletem a submissão. Isso indicaria a leitura, escuta e aplicação da Palavra, no testemunho (marturia) para unificar a comunidade na luta contra a injustiça. Mas a resistência é substituída pelo quietismo, ou fatalismo, ou pela equidistância política na religião. Pior ainda, o sincretismo cultual  idolátrico, mais uma vez, é admitido sem protesto.

O perfil sinótico apocalíptico, no evangelho de Marcos, reconhece quem são os seguidores de Jesus diante da crise avassaladora; de frente à guerra em andamento (cf. Macabeus), da perseguição, do novo exílio (Jerusalém cairá mais uma vez, no ano 70 d.C.. Tudo isso como resultado da crise na província da Síria, envolvendo o imperador romano Calígula e o legado comandado por Petrônio, 30 anos antes). Os cristãos da Judéia estão envolvidos, agora: o dia do Senhor (kuriaquê ’emera) “virá inesperadamente, entretanto, como um ladrão; o dia do Senhor, no qual os céus passarão com estrepitoso estrondo, os elementos naturais se desfarão em larvas, brasas minerais; também a terra e as obras que nela existem serão atingidas” (2Pedro 3,10).

A mensagem de Jesus, indica: “observem os sinais dos tempos”, “vê esse Templo: não ficará pedra sobre pedra…”. Mostra que a religião alienada, submissa, sem indignação e protesto, alienante, está em cheque. Não protege ninguém. Tudo isso traz a convicção fundamental que ele, Jesus, transporta a providência divina, em absoluta fidelidade aos “homens” que participam como atores e coadjuvantes da história da salvação. Jesus Cristo representa a libertação alcançada através do reinado de Deus, e não dos homens (Miguel de Burgos).

É assim que a história transformará a vida humana, e se estabelecerá de uma vez por todas como modelo (logotipo), “imagem”, do Reino de Deus. A imagem  ” apocalíptico-religiosa”  de Deus — para se fugir do Deus horroroso , apocalíptico-literalista, cruel, insensível, sem misericórdia e compaixão pelos homens –, não combina com a salvação, o perdão e a reconciliação da humanidade, que constitui com exatidão o conceito apocalíptico bíblico, no Antigo e Novo Testamento: “homens e mulheres do mundo inteiro se agarram a Deus através dos abismos profundos do sofrimento moral sob  poderes, sistemas de pensar autoritários, concretos, em razão das injustiças que estes poderes geram e alimentam. O universo inteiro está sob o juízo de Deus. É preciso observar os sinais dos tempos…”  Esta é a resposta apocalíptica , ela é reveladora do que vem no bojo da conjuntura política mundial, dominada por forças culturais poderosas (como o capitalismo, e quaisquer ideologias totalitárias): Deus intervirá na história “por nós”, nunca “contra nós”.  É a mensagem de Marcos, em seu apocalipse particular.

Derval Dasilio

Cf. Comentários abaixo:

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