CRISTO REI DO UNIVERSO 

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34º Domingo Tempo Comum depois de Pentecostes- Ano “B”

(2Samuel 23,1-7) Daniel 7,13-14 – O Filho do Homem reina
Apocalipse 1,5-8 – Jesus reina acima de  todos os reis da Terra
João 18, 33-37 – Disse Jesus: “Tu o dizes: eu sou Rei”

UM REI CRUCIFICADO POR ELEIÇÃO POPULAR

Jesus Cristo está sendo julgado pelos poderes deste mundo. O evangelho proclama: o Reino de Jesus “não é deste mundo”. Ainda presos aos padrões, imaginamos um rei sobre a economia mundial; um governante ao estilo de um comandante de um  império mundial de interesses que vão da indústria de armamentos à garantia de acesso à economia global, impondo a compra de produtos que interessem tão somente ao protecionismo de um grupo de nações (cf. crítica de Dilma Rousseff à União Européia). E a opinião pública?  Rubem Alves disse: “na Bíblia, o povo eleito sempre está do lado dos reinos deste mundo”. Hitler, Mussoline, Stalin, foram aplaudidos. Pretendiam submeter nações às ideologias nazista, fascista e comunista, e controlá-las econômica e culturalmente. A Alemanha, a Itália e a Rússia Soviética alardeavam sua felicidade e superioridade diante do mundo. Não é difícil ler isso, também, na Bíblia: o povo sempre se encontra às voltas com bezerros de ouro, ídolos de pés-de-barro, os quais são surdos, cegos e mudos.

“Olha lá vai passando a procissão
Se arrastando que nem cobra pelo chão
As pessoas que nela vão passando   
acreditam nas coisas lá do céu                                   
Muita gente se arvora a ser deus
e promete tanta coisa pro sertão
Que vai dar um vestido pra Maria,
e promete um roçado pro João
Entra ano, sai ano, e nada vem,
meu sertão continua ao deus-dará
Mas se existe Jesus no firmamento,
cá na Terra isso tem que se acabar.”
(Gilberto Gil)

Esse povo bíblico subserviente, feliz por sua dependência a potências, potestades  estrangeiras, também é chamado de “prostituta”. Diz a Bíblia: “como Deus ama seu povo, o profeta Oséias amava uma prostituta”. Este, por sua vez, amava a prostituição. Parábola da perversão popular em todos os tempos, aplica-se também ao gosto de ouvir os falsos profetas e os bajuladores do rei. Diziam mentiras doces: “há paz, igualdade na distribuição de bens, solidariedade, partilha, comida, habitação, trabalho…” Os profetas verdadeiros, porém, contavam verdades amargas, falando dos frutos azedos das desigualdades, das omissões em políticas públicas, da miséria e das opressões, enquanto “reina o rei”. Festa para o falso, morte ao verdadeiro, é do que o povo mais gosta.

Na Bíblia, o povo é uma prostituta de barranco, como se diz no Nordeste, oferecendo e escancarando-se por uma moeda. Como os demais. Porém, o povo é uma gente prostituída. Pronta, inclusive, a dizer, conforme a oportunidade de manifestar-se pelos que morrem pela liberdade: “Crucifica-os, crucifica-os! César é o nosso rei”. Os romanos, no Novo Testamento, também sabiam disso: o que o povo gosta, mesmo, é de panis et circences, pão e circo. Outras vezes, o povo aprecia entretenimentos perversos (como o julgamento do goleiro Bruno, ou o “mensalão” exibido na televisão), diversão, gladiadores e leões ferozes nas arenas, sangue derramado em profusão, mártires e insurgentes destroçados… Tudo isso é muito divertido para o povo. Só a teologia ingênua idealiza o comportamento que não existe.

Categoricamente, o povo que sobrou do antigo e infiel Israel em fórum público declara: “César é o nosso rei” (João 18,33-37). Hoje, que posição tomamos? Ao lado de César, Pilatos, Caifás (poder político, judiciário, religioso) e do Templo (= religião)? Tratamos de consciências vendidas aos poderes dominantes? Utilizamos os avanços tecnológicos como desculpa de atualização necessária aos nossos fins econômicos? Queremos participar do “espírito” imediatista e consumista do mundo globalizado e dele tirar tudo “que temos direito de consumir”, inclusive no ambiente eclesiástico ou religioso? Submetemo-nos sem resistência ao poder e valores da cultura global; ao modo de pensar do mercado?

Nossas igrejas tornam-se simulacros do reality show e de toda a obscenidade e imitação cultural que se propaga como uma praga litúrgica no meio da Igreja Evangélica. Dobramos nossos joelhos aos reis deste mundo (mercado, economia, política), enquanto simulamos dobrá-los a Cristo, na liturgia corrompida que tomou o pseudo culto dos nossos dias. Impera a teologia da ganância.

No relato da Paixão, no quarto evangelho, não temos dúvidas: afirma-se que Jesus é o “rei dos judeus” [Por 6 vezes esta expressão aparece; a palavra “rei” (basileus) é encontrada por 12 vezes]. O contexto é o “julgamento de Pilatos”, o representante político de César na Palestina. O julgamento é político, sem dúvida. Claramente, Jesus define a sua realeza. No entanto, uma negativa se evidencia: “meu Reino não é deste mundo”. Se fosse um reino comum, para os judeus, ele não seria combatido ou preso por sua própria gente. A realeza de Jesus não está em função do reconhecimento público da sua gente, que o rejeita e aplaude a potência dominante. A realeza de Jesus é de outra ordem, não acompanha a violência do poder político, não se submete ao mesmo. 

O Reino do qual é Rei está sobre todos os reis deste mundo, inclusive o César. Pilatos pretende representa César, o rei de todos os reis no império romano. A inscrição sobre a cruz onde o mártir de Deus é pregado é irrefutável: “Rei dos Judeus”. Não havia engano possível: César não admitia e mandava crucificar aquele que se apresentava com “poder” concorrente com o dele. Pilatos, preposto, é advertido: “Se o soltas, não representas a César, ele (Jesus) enfrenta o imperador. Nosso rei é César, e ninguém mais” (Jo 19,12e15).

As opções por César por um lado, e a opção por Jesus, por outro, são incompatíveis. Há conflito evidente de poder, de finalidade e de reconhecimento relativo à autoridade de cada um. Um reino “deste mundo” representa a dominação, massacre cultural, morte de tradições e pulverização de princípios da fé genuína. O Reino de Jesus representa a Verdade e a Vida, Salvação e Libertação daquelas dominações. Jesus representa a libertação das cadeias culturais impostas (política, economia, religião, judiciário), sejam elas quais forem e estejam onde estiverem. O Reino de Deus já chegou, Jesus é o nosso Rei.

Derval Dasilio

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