III  DOMINGO DO ADVENTO – ANO “C”

Zacarias 13,4-6; Is 12,2-6: Falsos deuses não mais nos enganarão

Filipenses 4,4-7: Por causa da justiça que praticais, estejam alegres

Lucas 3,7-18: Que devemos fazer?

Advento III domingo-blogDizia Woody Allen: Se a vida é tão ruim, insuportável, por que é que que rimos tanto e nos divertimos com ela?  Entramos no torvelinho da festa secularizada do Natal. Uma expressão está na boca de todos:  Comprar, comprar, comprar… As ruas são iluminadas por mil lâmpadas, milhares de luzes e cores. A cidade está enfeitada. Guirlandas, adornos brilhantes, pinheirinhos são enfeitados dentro de nossas casas, algodão imita flocos de neve. Mas nosso verão é tipicamente um tempo de chuvas e tempestades incômodas, e as metrópoles padecem com esgotos transbordantes, barrancos que deslizam sobre habitações precárias construídas em encostas perigosas. Tudo acontece num câmbio grotesco onde as precauções são completamente esquecidas, juntamente com a capacidade de discernimento. Comprar se torna uma tarefa árdua para alcançar, tantas vezes, o desnecessário.  Outro diria, no chiste popular: “Só doi quando eu rio”. Quer dizer, nos divertimos, mas vai doer quando vierem os boletos de janeiro…

Generosidade periódica dos presentes obrigatórios confunde-se com a sacralização do consumo. Os verdadeiros impulsores do mito de S.Nicolau, não explicam porque Nicolau transexualmente é uma “santa”… Santa Claus! Crendices em “duendes” também envolvem a história. Em 1931, a Coca-Cola encomendou ao artista Habdon Sundblom a remodelação do/a Santa Claus. Uma propaganda da coca-cola!, em cores de tom vermelho, mostra o Natal e o Papai Noel que a gente conhece e acabou adotando. Engana-se quem imagina esta festa comemorada por todos com bons vinhos, regando assados de lombo de porco, perus, chesters, frutas secas e coisa e tal, sem distinção de classe. A rigor, a coca-cola é a dona da festa, e tudo que está por trás da mesma.

Não há como comemorar um Natal à moda brasileira: Mulher, você vai gostar / Tô levando uns amigos pra conversar / Eles vão com uma fome que nem me contem / Eles vão com uma sede de anteontem / Salta cerveja estupidamente gelada prum batalhão / E vamos botar água no feijão (Chico Buarque: Feijoada Completa). De nossa parte, o que gostaríamos mesmo é de um Natal brasileiro à moda do que João Bosco cantou: Toca de tatu, linguiça e paio e boi zebu / Rabada com angu, rabo-de-saia / Naco de peru, lombo de porco com tutu / E bolo de fubá, barriga d’água / (…) Um caldo de feijão, um vatapá, e coração /Boca de siri, um namorado e um mexilhão /Água de benzê, linha de passe e chimarrão / Babaluaê, rabo de arraia e confusão… (Linha de Frente, Aldir Blanc). É o mínimo que poderíamos esperar de um Natal brasileiro.

O evangelho deste 3o.Domingo do Advento dá o tom para a comemoração da Natalidade do Senhor no calendário cristão original. Nada a ver comum ou outro. Prega a conversão, fazem exigências éticas, criticam o culto e as festas religiosas sem justiça, segundo os Evangelhos. O textos de Lucas (3,7-18), Zacarias (13,4-6) e Isaías (12,2-6) são quase “apocalípticos”. Lucas fala do testemunho de João Batista, precursor do Messias de Deus, em linha profética da mais antiga tradição de Israel. Sua pregação, cortante como o melhor aço temperado, é impressionante. O povo se comove, as gentes se aproximam para perguntar-lhe: “Que devemos fazer?” (v.10), uma prova de que compreenderam sua mensagem, perceberam que o batismo de João tem exigências quanto ao comportamento testemunhal da salvação que chega em Jesus de Nazaré. A resposta indica a conversão: no meio do povo somos iguais, quanto à inconsciência da realidade das opressões. Precisamos do Salvador.

Necessitamos da Salvação, de nós mesmos, até, inimigos que somos do projeto de Deus. João Batista nos lembra da peçonha que está em nós, como escorpiões suicidas que se envenenam picando-se com a própria cauda. Dramático! A mudança de conduta é bem mais que uma mudança de idéias: trata-se de empenho para a transformação das velhas situações de opressão consentidas e admitidas, em novidade, pela indignação expressa na denúncia. A exclusão, como uma velha idéia admitida no conformismo cotidiano, transmudada para a solidariedade e partilha de uma idéia de mudança profunda, através do arrependimento; pelo não reconhecimento dos pecados das estruturas de uma sociedade corrompida – da qual somos parte com a qual somos coniventes –; exclusão como alimento das injustiças dos magistrados que trabalham para as elites, dos políticos, dos dirigentes do mundo econômico, da religião oportunista que soma e acrescentam resultados estatísticos, sem diminuir suas culpas sociais (1. cf. comentário).

As multidões, cuja infidelidade é proverbial nas Escrituras Sagradas, prostituem-se facilmente, por isso não escapam da exortação: “Raça de víboras, façam coisas que mostrem que vocês se arrependeram” (Lucas 3,7). As alegações sobre o pertencimento a um povo eleito, álibi para desafiar a necessidade colocada pelo profeta, são respondidas com veemência: “Eu afirmo que até dessas pedras Deus pode fazer descendentes de Abraão! O machado já está pronto para cortar até as raízes das árvores…” O Novo Testamento explicita a alegria da justiça e da salvação que chega. Se somos insensíveis às raízes da fé, podemos ser substituídos até por pedras (… Digo-vos que, se estes se calarem, as pedras clamarão – Lc 19:41). O cumprimento das promessas de Deus é motivo de alegria, de gozo profundo.

“O Senhor está perto” (Fl 4,5). Todas as preces a Deus devem estar imbuídas da alegria em ação de graças. A prática, esperança de justiça, deve permanecer na vida e experiência da alegria que leva a uma “paz” autêntica: Shalom (biblicamente: paz espiritual, social, política, entrelaçadas, interdependentes, auto reguladoras; é paz com vida bem-aventurada por Deus; não separa a Graça (“hesed” ou “xáris”) da compaixão, da misericórdia, do cuidado, da ternura do Pai com os filhos e filhas; que para eles exige dignidade, integridade, justiça, em todas as relações entre homens e mulheres, onde quer que estejam).

O termo hebraico “shalom” deve ser traduzido a partir de seu significado desde a raiz. Literalmente significaria “estar inteiro” (J-Y. Leloup). Não há paz se as pessoas não estão inteiras, se lhes falta dignidade, cidadania, seguridade social, justiça elementar, trabalho, saúde, instrução para o desenvolvimento. Tem a palavra o profeta precursor que prega a correção de rumo num mundo impiedoso onde as pessoas não ousam olhar a realidade olho no olho… talvez porque não sejamos corajosos o suficiente para admitir o quanto somos responsáveis por tudo que criticamos nos outros, e ao nosso redor. Não basta uma “noite feliz”. Precisamos da epifania de Deus durante o ano inteiro.

Derval Dasilio

 

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