IV  DOMINGO DO ADVENTO ANO”C”          

natal 1
Miquéias 5,2-5 – Ele será o Shalom, Eirene, Paz para os humilhados da terra
Hebreus 10,39-45 – O sacrifício faz parte da revelação de Deus
Lucas 1,39-45; (46-65) – Bendito é o fruto do ventre de Maria

Pouco a pouco as ruas vão se enchendo de multidões.  Porém, quem está seguro de que as ilusões não ofuscarão o essencial, a injustiça que o cotidiano obscuro e opaco teima em fazer prevalecer? Tantas luzes escondem realidades que não se quer ver. A massificação sobrepuja as coisas comuns do dia-a-dia, o hipnotismo de tantas luzes ofusca ainda mais a verdade, que, aliás, já se esconde o ano inteiro. A conclusão com a qual compartilhamos é que esse tempo bem poderia ser utilizado para se parar um pouco, ao invés da correria do fim do ano e das festas. Parar e refletir sobre a razão que fez com que Deus se fizesse menino, antes de tudo, nascendo para que nos regalássemos com a esperança de vida eterna, plenitudes em direitos cidadãos, vida abundante, apesar das adversidades, do conformismo político, dos ajustes econômicos que não vão ao fundo das desigualdades, e da eqüidistância religiosa ensinada dos púlpitos religiosos.

A Natalidade do Senhor tem a ver com essas coisas? Comprar presentes, engabelar as crianças, adolescentes, com presentes que funcionam como uma chantagem para se obter “bom comportamento”; fingir que Papai Noel é como Deus, bonzinho, que sai lá do alto, do Pólo Norte, para nos trazer presentes, far-nos-á esquecer as desigualdades, a guerra do narcortráfico, a polícia envolvida com o tráfico de armas, a prostituição infantil, a ganância consumista ensinada com afinco aos jovens envolvidos com vestibulares? A macaquice das coqueluches da massa, a Tv superficial e rasa, o culto à insignificância, nos chama a atenção? Insinua-se a mercantilização das relações entre pessoas, amor e fraternidade com preço na etiqueta, faz-nos refletir. O Natal transforma-se em mercadoria em liquidação, como a graça barata vendida nos templos.

Bendita és entre as mulheres! Jael, Judite, Abigail (Jz 5, 24; Jdt 13, 18; 1Sm 25, 53 – TEB), são lembradas. Mas nenhuma maternidade se compara à de Maria. Maria dirige o louvor para Deus, que fez tudo! Entregou seu corpo à inseminação do Espírito Santo (cf. 1,35: pneuma ’agion epelêusetai epi sé). Ventre fecundo que recebe a semente de Deus. Corre o risco da exclusão que sofre a mãe solteira, enquanto a semente de salvação em seu ventre já vem condenada ao extermínio. A manifestação refere-se também à esfera econômica e política (1Sm 2,4-8; Sl 112,6-9). As coisas não deverão permanecer como estão. O espírito messiânico das bem-aventuranças, da felicidade, da ventura, alcançará a todos que reconhecem os valores do Reino de Deus. São bem-aventurados os ditosos que crêem, que praticam a Palavra, os que dão frutos, disseminam a salvação e a libertação. Os pobres e despojados de direitos, de cidadania, de dignidade, com quem o próprio Jesus se identificou como “benditos de meu Pai” (Mt 26,34).

Tudo isso está resumido numa humilde estrebaria de Belém. Imagem edulcorada em simplicidade, na tradição romântica da Natividade, quando na verdade somos chamados à atenção: faltam privilégios ao menino que se identifica com todos os meninos pobres, retirantes, migrantes, despojados e sem poder, no mesmo quadro natalino da criança parida na periferia, excluída dos shoppings e dos ambientes dos bem-postos, e suas festas de amigo oculto.

Mas as luzes estonteantes dos enfeites nas ruas, nas praças, nos templos de consumo à moda pagã, nas lojas abarrotadas de ofertas de bugigangas inúteis, nos lembrarão o que perdemos de nossa infância inocente, enquanto tomamos consciência do mundo real e sua brutalidade: juízes não crêem na justiça que devem aplicar; políticos cuidam de encher seus cofres enquanto garantem imunidade parlamentar; religiosos locupletam-se com o dinheiro da gente pobre, que já paga impostos embutidos nas coisas mínimas que adquiriram, porque acreditam na bem-aventurança comprada no altar.

Fala-se de bem-aventurança, no Evangelho deste domingo (Lc1,39-45). A relação é esta: “Bem-aventurada és tu que acreditaste, cumprir-se-á o que te foi prometido da parte do Senhor”. Pobres e pequenos são socorridos, em detrimento de ricos e poderosos. Israel é objeto da graça de Deus. Lucas retira das tradições antigas um cântico de exultação pela lembrança de Deus, que vem em socorro dos rebaixados, despojados, roubados de sua dignidade.  Bendizer o fruto do ventre (eulogeménos ’o karpós tês koilias sou) é falar bem, incensar, glorificar: “bendito é o fruto do vosso ventre…”, e assim se consagra Maria como a mãe do Senhor (42). O anjo disse que ela merece. Outros exemplos, como o de Zacarias, Simeão, Isabel, se juntam ao de Maria. Todos bendizem a Deus pelo que faz, e todas se dirigem ao mesmo Deus. Porém, o que é agora Deus menino dirá mais tarde, aos pequeninos, aos pobres, aos enfermos, aos perseguidos, aos discípulos: “Vocês são os benditos do meu Pai!”

Tagore disse: A história da humanidade espera com paciência o triunfo dos humilhados. A fome e a miséria eram o cenário onde nasciam os menininhos pobres e carentes, sem nenhum perigo para a sociedade que os excluía imediatamente, e logo depois, para eliminá-lo, promovia ou apoiava o genocídio herodiano, o mais clamoroso das histórias dos Evangelhos. Os meninos nasceram condenados à morte desde o nascimento. Conhecemos seus irmãozinhos, em todo o mundo, que nascem com essa condenação. “O Natal, é tempo de esperança porque Deus resgata o povo pobre e sem valor e o chama para o centro da história da salvação”.

A esperança, na mensagem do Advento, é uma “coisa maravilhosa” que brota nos corações infantis. Lembra Manoel de Souza Miranda, contudo, que há milhões de crianças que nunca ouviram falar de Natal. Esse com badalos de sininhos (Jingle Bells). Miranda  frisa que o grande desafio da humanidade é a partilha em meio às mesas fartas, dos presentes inúteis “que empurramos guela abaixo de nossos filhos, influenciados pela força da mídia, do nosso absurdo endividamento sobre coisa nenhuma”.

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