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DOMINGO DEPOIS DO NATAL – ANO “C”

1Samuel 2,18-10; 26 – O menino desmamado será apresentado ao Senhor
Salmo 148 – O nome do Senhor está acima de tudo
Colossenses 3,12-17 – Revesti-vos de ternura, bondade, de mansidão e grandeza…
Lucas 2,41-52 – Maria conservava todas aqelas coisas em seu coração

O evangelista nos apresenta a família de Jesus cumprindo seus deveres religiosos (vv. Lucas 2,41-42). A purificação era imposta somente à mãe israelita, mas o resgate religioso era necessário à criança (BJ, p.1790). A apresentação da criança no santuário para a circuncisão não era propriamente uma prescrição obrigatória, mas elegível da parte dos responsáveis por ela. Mas Jesus foi circuncidado segundo o costume. Há um ato litúrgico, posterior, também cultual, de muita importância: o bar mitzvah (as meninas também, hoje, têm seu bah mitzvah, entre judeus contemporâneos; não há nenhuma evidência de que existiria cerimônia semelhante no tempo bíblico). Conforme a tradição judaíta consagrou, na dispersão.

O menino adolescente desconcertará os pais, anos mais tarde, permanecendo por sua conta na cidade de Jerusalém. Ao terceiro dia (período de tempo cheio de simbolismo nos evangelhos), será encontrado.  Segue-se um diálogo difícil, parece um desentendimento; começa com uma censura: “Por que nos fizeste isto? A pergunta surge da angústia sofrida (v. 48). A resposta do adolescente surpreende: Por que vocês me buscavam?(v. 49), surpreende porque a razão parece óbvia. Mas Jesus acrescenta palavras de uma outra ordem: “Não sabem que eu devia cuidar das coisas de meu Pai?”.

Maria e José não compreenderam estas palavras imediatamente, estavam aprendendo os sentidos  (v. 50). Não nos esqueçamos! Mas há três exigências fundamentais para entrar em comunhão com Deus: 1) Buscá-lo (José e Maria “se puseram a buscá-lo”); 2) Crer Na missão (Maria é “aquela que acreditou”); e 3) Meditar na palavra de Deus (“Maria conservava isto em seu coração”).

A quebra de tabus é verdadeira, mas o esquecimento dos fatos simbólicos que marcam nosso tempo, o modismo da falsa liberdade, a democracia compurscada, a pulverização de ideais para a transformação das sociedades e das pessoas, dão o tom na orquestração desafinada no ritmo desconexo do nosso tempo. Troca-se tudo pela variedade insípida, sem qualidade, efêmera como os modelos de celulares que mudam a cada instante.

Desde Descartes e Kant imaginou-se a construção de um planeta novo, ao estilo do Ocidente, ignorando ¾ do planeta não-cristão, e exaltou-se até às estrelas a sapiência humana. A história, entretanto, continuamente, desfaz essa imagem magnificadora da “razão”. Machado de Assis já dizia, em seu tempo: “Tem razão quem tem o chicote na mão…” Hoje, professores fazem curso de tiro e e buscam certificados para portar armamentos, para disciplinar seus alunos.

O debate sobre as armas de fogo nos EUA deu um novo giro com a decisão de dezenas de professores de fazer aulas de tiro, depois que outro jovem, em Newtown, Connecticut, matou 27 crianças e adultos e em seguida suicidou-se. Seria diferente, se fossem os professores seus matadores? Defensores do controle de armas dizem que uma pessoa morre a cada minuto como resultado da violência armada, e que uma convenção é necessária para evitar que armas negociadas ilicitamente apareçam em zonas de conflito e alimentem guerras e atrocidades.  Como essa medida alcançará  os lares das frequentes vítimas, residências tornadas em casa de armamentos? Quartos de bebês terão armas, no futuro, se a violência contra crianças continuar em ascensão.

A duras penas, mesmo a contragosto, urge admitir que somos humanos. Não somos deuses nem semi-deuses. O ser-humano, homem/mulher, é supercomplexo. Comparece na história como homo sapiens, mas somos mais conhecidos como homo demens.  Há duzentos mil anos, já falante, o ser-humano fazia das suas (cf. Stanley Kubrich: Uma Odisséia no Espaço). Societário e trabalhador, desde quarenta mil anos atrás, já inventava a posse privada e a escravidão, das quais nunca nos livramos. Quando descobriremos que somos portadores de afeto, cuidado, inteligência, criatividade, arte, poesia e êxtase diante da beleza da vida? No lapso otimista do gênero ocuparíamos todo o Planeta, já sairíamos dele voando e rumando para  o céu infinito em naves espaciais. Mas nossas contradições fazem-nos morder a língua toda vez que exaltamos essas qualidades humanas, lembrando Duns Scotus, na Idade Média: “o homem tem a vocação do infinito”. Mas adotamos a violência e nos comprometemos com os assassinos de crianças, consentindo e entregando-nos naturalmente ao abreviamento da vida.

O lado da demência, da crueldade, dos massacres, dos extermínios em massa, de tantas culturas, etnias, acompanha a demolição de valores construídos em vários milhares de anos – e parece que se quer fazer tudo isso de uma vez, com a tecnologia avançada dos dias de hoje. Tragédia na rotina de uma escola da periferia do Rio de Janeiro onde um ex-aluno atirou contra crianças que assistiam às primeiras aulas do dia, matou 12 delas e feriu outros 13, antes de cometer suicídio, acompanham a tendência. O massacre causou comoção no Brasil. E professores pensam em fazer aulas de tiro.

Nossa arrogância faz-nos esquecer que só no século XX foram chacinados em guerras 200 milhões de pessoas, disse Hobsbawn. Cristãos estão envolvidos nisso até o pescoço, mesmo os engravatados ou com clergyman abençoando armamentos. A violência humana excede à de qualquer outra espécie, inclusive dos tiranossauros, dragões pré-históricos proverbiais e simbólicos da destrutividade. A demência não é ocasional. Configura uma desordem originária (1.).

Acostumamo-nos com outro jeito de comemorar as festas natalinas. Vemos fotos de Sta.Claus/Papai Noel no facebook   até mesmo em igrejas (não na Igreja Católica, que se atem às imagens da Sagrada Família: parabéns!). Não há o que comemorar, se observarmos a tragédia da incompreensão dessa data, segundo sua importância para o reconhecimento do significado da presença de Deus entre nós, Emmanuel, quando palavras e condutas já absorveram o vazio da sociedade dos nossos dias.

O que precisa ser visto, e ouvido, como Maria nos ensinará, quando Jesus lhe chama a atenção para a realidade: “Mãe, você não sabe que tenho que cuidar das coisas do meu Pai”? Aqui, nos reportaremos à sabedoria da mãe que silencia e ouve enquanto observa a realidade que o menino sobrevivente já denuncia. Os significados da revelação libertadora da presença do Reino de Deus estão naquele que foi chamado pelo Credo cristão de “fruto do ventre de Maria”.

Ninguém conheceu melhor o sentido de gerar-se um Salvador, o Filho de Deus. Maria, enquanto medita, ensina a humildade e a coragem para os enfrentamentos dos acontecimentos catastróficos e a dissolução que irrompem até a superfície da história. Maria já estava comprometida com o movimento de Jesus em prol da causa libertadora de Deus. Entre elas o combate à violência sistêmica que escolhe a criança e os jovens como vítimas preferenciais, porque  são fracos e indefesos. São os adultos que matam ou ensinam a matar.

Derval Dasilio

LANÇAMENTO  RECENTE:

Jaime Wright – O Pastor dos Torturados

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1.O homo sapiens é homo demens”, assevera com acidez incontrolável Edgar Morin, um dos que melhor nos fez aceitar a contradição uma (Os sete saberes necessários à educação do futuro, Cortez, SP). Enfim, Deus tem misericórdia de nós. Disse Jesus: “o Espírito do Senhor está sobre mim!”
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