EPIFANIA DE DEUS –  ANO “C”
1Samuel 2.18-20, 26
Salmo 148
Colossenses 3.12-17
Lucas 2.41-52

epifania

O Ano Novo, que não é comemorado no calendário litúrgico da Igreja é, no entanto, uma data bem interessante para se lembrar a Epifania de Deus. Envolve o famosíssimo mito do eterno retorno, quer dizer, o caos que, na crise (krysis) traz exigências de reorganização do mundo imediato (kosmos). Esforcemo-nos por uma resposta mais simples às perplexidades que nos incomodam, neste momento. Cuidemos um pouquinho de compreender a sociedade violenta dos nossos dias, se estamos tão distantes do Neandertal ou de Lucy, os mais primitivos fósseis encontrados, de seres humanos.

Não nos esqueçamos, porém, que o homo sapiens tem uma trajetória na história humana anterior, quando teve que ultrapassar a fase de auto admiração, por sua capacidade de modificar a natureza usando-a em seu favor, adormecido na adoração da mesma, enquanto construía totens e estabelecia tabus restritivos, impedimentos para o acordar de sua humanidade (cf.Erich Fromm, sempre oportuno reler sua obra). Os últimos quatro mil anos da história humana bem poderiam ter sido aproveitados para o acordar de Adão, segundo desejava o Criador, conforme as Escrituras. Muitas das visões para tanto poderiam ter vindo do Norte da África, do Egito, da China, da Índia, da Palestina e do Golfo Pérsico. Acrescente-se Grécia e Roma. Não fomos felizes, desse ponto de vista. A barbárie também bateria à nossa porta, neste Ano Novo?

A trajetória da existência humana, nos anos, séculos, milênios sucessivos, mostra o quão distantes estamos de compreender-nos a nós mesmos, enquanto achamos que deslindamos os mistérios do mundo. Bem poderíamos compreender a necessidade de uma visão sensibilizada do outro e da outra, da vida do mundo, enquanto pensamos em que a guerra na Bósnia, a ocupação do Iraque, os conflitos no Oriente Médio, Palestina, Irã, Emirados, têm a ver conosco, alerta Carlos Rodrigues Brandão (Aprender o Amor, Papirus). Por que diremos que uma criança morta no Afeganistão não tem a ver com o menino assassinado a tiros pelo crime organizado, terrorismo obsceno nos noticiários desta semana da Natalidade do Senhor.

Observe-se um quadro, painel na verdade, entre os que melhor transmitem todo o desespero advindo da violência, que é intemporal numa sociedade, na guerra ou no terrorismo do crime organizado. Guernica. Retrata um dia fatídico, trágico: 26 de abril de 1937. Demonstra os resultados do bombardeio nazifacista, os ditadores Franco e Hitler o haviam autorizado. Uma vila com pouco mais de sete mil habitantes teve metade de sua população morta pelas metralhadoras dos aviões nazistas. Estranha coincidência com o número de inocentes mortos no fatídico 11 de setembro de 2001, no desabamento das torres gêmeas de Manhattan, Nova York.

Picasso compôs esse monumento à insanidade totalitária da violência enquanto desenha um cavalo e um touro como se quisesse compará-los à mula e ao boi dos presépios natalinos, tão débeis e frágeis em sua mansidão, mas engrandecidos na representação de sofrimento, angústia e loucura que alcançam criaturas inocentes numa guerra inexplicável. Exemplarmente: Guernica, a vila, abrigaria revoltosos e inconformados com o nazifascismo dominante na Espanha. A violência sufocante, explorada midiaticamente, impõe-se também pelo extermínio das sementes de liberdade enquanto se insufla o medo, poderíamos pensar, hoje.

Junto ao touro e ao cavalo o autor colocou uma pomba moribunda, em estertores. Por quê? Ali está a simbologia do divino. O Espírito Santo de Deus testemunha a brutalidade da violência. Está identificado com o sofrimento humano, é vítima solidária na indústria de mortes violentas com as quais nos revoltamos ou nos conformamos. É, no entanto, Epifania: Deus se revela entre os homens e as mulheres e as crianças brutalizados pela violência imperante.

Derval Dasilio

Livro recente: Jaime Wright – O Pastor dos Torturados

 

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