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BATISMO DO SENHOR – ANO “C”   
Isaías 42,1-9 – És meu filho, fui eu que te gerei
Salmo 29 – Sobre as águas ouve-se a voz do Senhor
Atos 10,34-43 – Ele tem autoridade para atuar em favor dos oprimidos
Mateus 3,13-17 – Realize-se a justiça conforme Deus quiser  

Com a comemoração do Batismo do Senhor, no Calendário Cristão, acompanharemos o evangelho, inauguramos o Tempo Comum depois da Epifania (Ministério de Jesus Cristo), como todas as igrejas cristãs assumem, afirmando Jesus como um ser humano completo. A Natividade do Senhor e a Epifania marcam as celebrações mais importantes do mundo religioso cristão, no entanto: Deus tomou a iniciativa de vir até nós assumindo nossa humanidade, realizando o esvaziamento divino (kenosis), revelando-se como o Deus que comunica sua divindade, sim. Mas principalmente como Aquele que nunca abandonará o ser-humano e nem o deixará à mercê das forças cegas dos sistemas de pensar destrutivos, impiedosos e implacáveis, que parecem comandar o mundo. É necessário, portanto, dissociar o Batismo sacramental, da Igreja, do Batismo do Senhor Jesus pelas mãos de João Batista. Por mais que isso nos aborreça, compreende-se a abordagem teológica diferenciada. No primeiro caso, as formas aceitas, as variações existentes, as abordagens de sentido, em boa parte, corrompem a concepção apostólica original sobre o batismo. Não há comparação aceitável. No meu entender.

Por esta razão, o batismo pentecostal difere do batismo cristão biblicamente original. Este é interesseiro, retributivista (toma-lá-dá-cá), e corporativista. A entrega incondicional (batismo!) só pode fazer-se por meio do Espírito do Deus solidário que compartilha a dura condição de todos os que sofrem em conseqüência do “espírito diabólico” que reina e que oprime os seres humanos (cf. Atos 10). É assim que a convivência de Deus se faz com todos os homens e mulheres, de modo que o totalmente Outro viva na carne de cada um como um igual, eu|tu, conforme Karl Barth também gostava de expressar. E o evangelista João completaria: “a Palavra se fez carne e habitou entre nós”. O logos é também davar. Com a justiça tudo tem sentido, porque a Palavra penetra e é ela que cria os meios, as ações que libertam consciências (hebraico: davar, grego: logos). Assim se experimenta o verdadeiro sabor da vida de fé e da liberdade em Cristo. A Escritura está subordinada ao testemunho dos apóstolos sobre o batismo – que é sinal de entrega e renúncia; aos cristãos do primeiro cristinismo, perguntava-se, no batismo: “renuncias ao diabo?” – não à letra morta da lei religiosa (catecismo). A Palavra viva concretiza o testemunho da Bíblia, finalmente.  

A humanidade de Deus deve ser corretamente compreendida pelo significado de que Deus quer relacionar-se com o ser humano. Segundo Karl Barth, Deus quer ter com o ser humano um relacionamento de reciprocidade no batismo (Batismo, Fonte Editorial).  De Deus vem a Promessa e o Mandamento, que Emil Brunner chamará de “imperativo divino”. “Ouve, ó Israel, eu sou o teu Deus” (“shemah Israel”). A liturgia do batismo, então, celebrará corretamente a intervenção e a ação de Deus em favor do homem e da mulher, no batismo sacramental. Aqui, além do mais, está a força teológica da encarnação entre os grandes mistérios da nossa fé. O batismo significará um compromisso de comunhão que mantém o homem humano, enquanto Deus quer tão somente expressar-se em liberdade, a gratuidade que lhe é característica, na qual ele não quer nada mais nada menos que ser “humano” (Karl Barth).

Ora, até recentemente a teologia quis sobrepujar essa concepção na afirmação tão somente da “divindade de Deus”, a qual é recusada na encarnação de Jesus Cristo. Essa objeção poderia ser chamada de neodocetismo? Eu diria que é “docetismo”, que diz: o Jesus é homem, ser-humano, apenas aparentemente, enquanto “esconde-se” sua divindade. Pronunciar o nome de Deus significa, portanto, envolver-se com Deus; reconhecer que Ele se ‘des-cobre’; se ‘des-venda, enquanto se re-vela; tirar a maquiagem cênica de sua divindade é tudo que Jesus Cristo quer demonstrar, no Batismo. Só o mistério da escuridão da morte é comparável ao mistério da revelação: Deus se descobre, manifesta-se, revela-se ao homem e à mulher.  Cabe ao ser-humano (ser-homem e ser-mulher) entender apenas que Deus quer ser de fato gracioso porque só assim, vindo de seu querer, pode-se falar de misericórdia (hesed), de graça (xáris), de  compaixão e perdão, e reconciliação. A partir do movimento de Deus na direção do ser humano, passamos a entender o Batismo do Senhor por outro homem (João Batista), com as exigências de arrependimento.

A cena do Batismo de Jesus nos relatos evangélicos vem romper o silêncio dos oprimidos, eles alcançam sua vez e voz a partir de Nazaré, miserável e insignificante vilarejo, zero à esquerda nos interesses dos poderosos e dominadores da terra. A intervenção divina, assim, acontece graças à ação do Messias, sem fugir-se das debilidades próprias da condição humana. A Graça é anunciada em sua plenitude: chegou a libertação na carne humana enfraquecida, alternativa ao desespero, para  homens e mulheres imersos na noite escura dos tempos de opressão, que parece nunca terminar (Richard Shaull). Contudo, é preciso dar atenção ao sentido vocacional que o Evangelho imprime ao Batismo do Senhor. Toda vocação, então, dependerá da vontade e do querer divino, inclusive das conseqüências desagradáveis e dolorosas quanto ao sofrimento e a morte, ambos inerentes à condição humana. Se o homem sofre, Deus sofre com ele; se o testemunho (martyria) ocasiona a morte, também Deus morrerá para testemunhar o valor de sua Causa. O Batismo de Jesus é também o início de sua caminhada rumo à crucificação; a cruz é o maior castigo que se impõe a um humano, a partir do poder dominante. A entrega incondicional só pode fazer-se por meio do Espírito do Deus solidário.

Blog liturgiaDerval Dasilio

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