2º Domingo do Tempo Comum depois da Epifania – Ano “C”
Neemias 8, 2-4a. 5-6. 8-10 – Leram ao povo o livro da Lei
Salmo 19 (+ João 6, 63c) – Tuas palavras são espírito e vida
1Coríntios 12, 12-30 – Todos são membros do corpo de Cristo
Lucas 1, 1-4; 4, 14-21 – Hoje se cumpre a Escritura

mal falar.ouvir.ver

A missão de Jesus não pode pretender ser neutra, ou “de centro”, “para todos”, “sem distinção”. Ouvimos que esta missão “não é inclinada nem para os ricos nem para os miseráveis…”, de quem pretende confundir a igreja cristã com uma espécie de antecipação piedosa da Cruz Vermelha, recolhendo feridos nas batalhas da vida, enquanto ignora tiroteios e bombardeios que exterminam a vida ao redor. O pior que se poderia dizer do Evangelho é que seja neutro, que não se manifeste, que não opte pelos fracos, pobres, sem-poder, triturados, esmagados pelos sistemas vigentes, manifestos na religião, na política e na economia. A pior ideologia seria a que defende o Evangelho como neutro e indiferente aos problemas humanos, às desigualdades, e ao pecado estrutural das sociedades humanas.

Sem dúvida, Jesus teve que “interpretar” muitas vezes sua própria vida, com estes textos proféticos, tipológicos, de Isaías (BP 61,1-3: “O Espírito do Senhor Javé está sobre mim, porque Javé me ungiu. Ele me enviou para dar a boa notícia aos pobres para curar os corações feridos; para proclamar a libertação dos escravos e pôr em liberdade os prisioneiros, para promulgar o ano da graça de Javé, o dia da vingança do nosso Deus, e para consolar os aflitos, os aflitos de Sião, para transformar sua cinza em coroa, o odor do luto em perfume de festa, seu abatimento em roupa de gala”).

O Evangelho de Lucas era considerado um texto sem importância na vida prática da comunidade cristã, até uns cem anos atrás; um texto esquecido, como tantos outros que hoje nos parecem fundamentais (4,14-21). Foi a teologia latino-americana que o colocou em relevo como texto capital. Lucas o põe no início da vida pública de Jesus. Pode ser que não corresponda ao que aconteceu realmente no princípio (João de fato coloca outras passagens como começo de seu evangelho, em seu significado. Ou seja, talvez não tenham ocorrido coisas assim, nessa ordem, nem é possível sabê-lo historicamente, mas Lucas tem razão quando situa esta cena em seu evangelho como um início programático que contém o germe da missão de Jesus Cristo: “o Reino de Deus está diante de vós”).

Parece óbvio, que Jesus viu sua vida como o cumprimento, prolongamento daquele anúncio profético da “Boa Nova para os pobres”. A missão de Jesus é o anúncio da Boa Nova da Libertação (é chegado o reinado de Deus). A “evangelização” ( = boa, e  nova, notícia) não é mais que uma forma da libertação, a “libertação pela palavra” [o termo davar é a chave hermenêutica bíblica da evangelização profética: a Palavra que cria, transforma, renova, traz a grande novidade libertadora (“Eis que faço novas todas as coisas!”). João era hebreu, pensava no termo davar, enquanto a Vulgata, 405 d.C., consagraria a versão grega koinê, logos, traduzida para verbum, no latim, e passamos a pensar como gregos e romanos, afastando-nos dos textos originais.

O Verbo divino, Logos, passa a ser um conceito filosófico traduzido como razão, conhecimento, inteligência, tanto como capacidade de racionalização individual ou como um princípio cósmico da ordem e da beleza. Ouvimos durante séculos a exposição desse conceito falsamente “autêntico”, não-bíblico, “gnóstico”, “ariano”, “adocionista” (cf. C.H.Dodd)]. O intérprete da Escritura, que exclui a salvação do corpo e afirma a salvação da alma ou do espírito. Essa hermenêutica nega a humanidade de Deus em Jesus Cristo, em favor de ambiguidades, dicotomias. São todas elas espiritualizações inaceitáveis biblicamente.

Pode ser bom recordar uma vez mais: Jesus está longe da beneficência e do assistencialismo, em primeira instância. Não se trata de “fazer caridade” aos pobres, mas de inaugurar a nova ordem integral, a única que permite falar de uma libertação real. É importante dar-se conta de que muitas vezes quando se fala da opção pelos pobres na mentalidade assistencial, paternalista, distanciada do espírito de Lucas (4,14ss), (Karl Barth, Jesus e o Povo, in: Dádiva e Louvor, Sinodal, 2006, p.319), não estamos falando do autêntico Evangelho.

A palavra evangelizadora ou é ativa e concreta na prática da salvação e da libertação, ou é anti-evangelizadora. A palavra “evangelização” não é teoria abstrata. É uma “palavra” que se refere à realidade confrontada com o projeto de Deus. “Evangelizar é libertar pela Palavra” (A.Nolan). Uma palavra que não entra na história dos homens e das mulheres, que não se pronuncia; que se mantém acima dela ou das nuvens; que não mobiliza, não sacode, não provoca solidariedade (nem suscita inimigos), não é herdeira da “paixão” do Filho de Deus pelos pobres. Sempre, porém, dever-se-á perguntar: a) “salvar a quem?”; b) “salvar de quem?”; c) “salvar para quê?”. A paixão de Jesus é salvar e libertar.

“O conhecimento de Jesus é o bastante”? Não! Existencialmente, o evangelho de Jesus exige decisão por força da Palavra, do ensinamento apostólico, do kérigma libertador (Rudolf Bultmann). Não se deve especular sobre Deus, o conceito abstrato de Deus. Ao contrário, a Palavra evangelizadora falará do Deus real, e da Humanidade de Deus (Karl Barth); quando falamos de Deus, ao mesmo tempo falamos do homem, das suas lutas, e das opressões que o envolvem, das quais precisa ser libertado e salvo. A Palavra evangélica fala de Jesus, tem a ver com o homem e a mulher, antes de tudo, antes de qualquer coisa. Antes de qualquer discussão abstrata sobre sua divindade. O Evangelho apresenta o fato concreto, humano, verdadeiro, que Jesus faz parte da realidade histórica de cada um de nós, e de toda a humanidade.

z. derval p.orelha.livro JAIME W

Derval Dasilio

 

 

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