3º Domingo do Tempo Comum  depois da Epifania – Ano C (27/01/2013)
Primeira leitura: Neemias 8,2-4a.5-6.8-10 – Este é um dia de festa consagrada ao Senhor, nosso Deus
Salmo responsorial: 18(19),8.9.10.15 (R. Jo 6,63c) – A lei do Senhor é perfeita, reconforta a alma
Segunda leitura: 1 Corintios 12,12-30 – Ora, vós sois o Corpo de Cristo e cada um é um dos seus membros
Evangelho: Lucas 1,1-4;4,14-21 – O Espírito do Senhor está sobre mim, ele me ungiupara libertar os cativos

Escravidão -1

O livro de Neemias fala de uma leitura pública e solene do livro da lei de Deus, Pentateuco, ou Torah para os judeus. Estamos em fins do século V a.C., os judeus há poucos anos regressaram do deserto na Babilônia, estavam de novo na província da Judéia, e a duras penas conseguiram reconstruir o templo, as muralhas da cidade, e suas próprias casas. Enfrentam a hostilidade de muitos vizinhos invejosos que os imperadores persas haviam permitido regressar. Faz falta uma norma de vida, uma espécie de “constituição” por meio da qual poderiam reger os aspectos da vida pessoal, social e religiosa. Esdras, um líder carismático, respeitado por todos, e considerado levita e escriba — quer dizer, sacerdote e mestre –, lhes oferece essa lei, essa constituição que necessitam, proclamando solenemente, diante do povo reunido, a  Lei de Deus. [Observação: O conjunto de textos componentes da Lei de Deus tem como referência direta o antigo Israel orientado pelos profetas clássicos; o Código da Aliança — “normas” de vida no cotidiano dos exilados; observância das leis libertárias do Jubileu bíblico véterotestamentário, prescrições dos textos “javistas” do Êxodo; atualização da concepção da libertação da escravidão no Egito, sob as dominações babilônica e persa; código para Incontaminação (Código de Pureza), sob a dominação babilônica, sua “ética”, seus costumes e práticas em regime de escravidão imposta; obrigações para com o trabalho, alforriando  escravos periodicamente; obrigações matrimoniais com o fim de evitar-se a contaminação pelos costumes impuros do meio pagão; submissão à religiosidade idolátrica, etc.; o moralismo legalista, racista, exclusivista, discriminatório étnica e religiosamente ainda estava por vir, sufocando a objetividade ética aplicada à política, economia e à sociedade israelita].

Já vimos como o povo respondeu: comprometendo-se a cumprir a lei e guardá-la, chorando suas infidelidades e, a pedido dos líderes, celebrando uma festa nacional: a festa da promulgação da Lei divina. Deste esse remoto dia, quinhentos anos antes de Jesus Cristo, até hoje, o povo bíblico ordenaria, em tese, sua vida política-econômic-jurídico/civil e religiosa segundo os mandamentos da Torah ou Pentateuco (a Tanah, ou Bíblia Hebraica, também seria construída sob a inspiração da autêntica Torah).

O texto de Lucas 4,14ss era sem relevância na vida prática da comunidade cristã até recentemente (teologia de raiz, evocando Isaías 61 e as questões do Jubileu Bíblico, o Pacto da Aliança, e textos fundamentais do Deuteronômio). Um texto esquecido, desprezado, como tantos outros que hoje nos parecem fundamentais. Foi a teologia latino-americana que colocou este texto em relevo, desde Richard Shaull, Milton Shwantes, Joaquim Beato,  José Luis Segundo, Leonardo Boff e outros teólogos ecumênicos. Lucas coloca-o no inicio da vida pública de Jesus. Pode não ter acontecido exatamente na ordem apresentada cronologicamente, porém sim na ordem da “significação”. Talvez as coisas possam não ter ocorrido assim (e não é possível saber historicamente), porém Lucas tem razão quando situa esta cena em seu evangelho como um início programático que contém, já e, germe, simbolicamente, toda a sua missão.

Jesus, sem dúvida, teve que interpretar muitas vezes sua própria vida com este texto profético de Isaías (61). A única vez em que a palavra “evangelho” aparece no AT ocorre nesse capítulo. Parece obvio que Jesus tenha visto sua vida como o cumprimento, o prolongamento daquele anuncio profético da “Boa Nova para os pobres”. A missão de Jesus é o anúncio da Boa Nova da libertação. A “evangelização” (“eu-angelion” = boa noticia, já na Bíblia Alexandrina, a Septuaginta) não é mais que uma forma de libertação. “Libertação pela palavra” (em hebraico é “davar”, ato criador, transformador, “novidador”, atualizador da libertação, da parte de Deus; “davar” sempre é a “palavra de Deus”). As aplicações são muitas e diretas:

A missão cristã hoje, continuando a missão de Jesus, tem que ser isso mesmo, ou seja: “continuação da missão de Jesus”, em sentido literal e direto. Ser cristão, será “viver e lutar pela causa de Jesus”, sentir-se chamado a proclamar a Boa Notícia, a “a Palavra libertadora” tem que ser “boa” e tem que ser noticia sobre as urgências de Deus. Não pode subsistir semanticamente pelo catecismo eclesiástico ou religiosos, ou pela “doutrina” sobre a infalibilidade da Bíblia.  A “evangelização” de Jesus não foi uma “catequese eclesiástico-pastoral”, nem refletia tão somente o que se diz sobre as virtudes da Bíblia, isoladamente… A instalação do reinado de Deus é a essência de sua Palavra.

Pode ser bom lembrar uma vez mais: Jesus está longe do legalismo “bíblico”, da beneficência e do assistencialismo… Não se trata de “fazer caridade” aos pobres, mas de inaugurar a ordem nova integral regida pelas “políticas” do Reino de Deus, justiça, igualitarismo nos bens culturais, sociais, econômicos; promover e fazer irromper  a única ordem em que se permite falar de uma libertação real… É importante levar em conta de que muitas vezes, quando se fala de uma “opção preferencial pelos pobres”, se está claramente combatendo uma mentalidade originada entre bem-postos, como forma de alívio econômico — ou lastro que se atira fora para facilitar a velocidade da nave econômica. A mentalidade  assistencial como sobra ou esmola dos socialmente melhor posicionados está muito distante do espírito de Lucas (4, 14ss).

A palavra evangelizadora, ou é ativa e prática na práxis de libertação, ou é anti-evangelizadora. A palavra evangelizadora não é palavra de teoria abstrata (cf. texto do domingo anterior). É uma palavra que faz referencia à realidade e — política, econômica, jurídica, social — e a confronta com o projeto libertador de Deus (estabelecimento do Reino de Deus). “Evangelizar é libertar a Palavra” (Nolan). Evangelizar é permitir e criar meios para a ação de Deus. Uma palavra que não entra na historia dos sofrimentos humanos, das escravidões e das opressões; que não se pronuncia contra as indignidades contra o ser humano; que se mantém acima da história humana, ou nas nuvens, ou não mobiliza, são sacode, não provoca reações ao mal cultural, social; que não suscita solidariedade aos mais fracos (nem suscita inimigos)… não é herdeira da “paixão” do Filho de Deus.Disse Jesus: “Fui ungido para trazer libertação aos cativos”.

Adaptação e acréscimos ao original creditado abaixo: Derval Dasilio

z. derval p.orelha

Oração: Ó Deus que em tantos povos e religiões suscitastes desde o início dos tempos, por obra do Espírito, homens e mulheres capazes de intuir teu amor libertador pelos pobres e que em Jesus não destes o modelo perfeito: faze, te pedimos, que também nós hoje, em nosso dia-a-dia cumpramos o sonho dos profetas, sentindo-nos enviados a anunciar a Boa Noticia aos pobres e a todos os que necessitam converter-se aos pobres. Nos te pedimos, inspirados por Jesus, teu filho e irmão nosso. Amém.

(Servicios Koinonia – Bíblico – Português)

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