4º DOMINGO/TEMPO COMUM/DEPOIS DA EPIFANIA – ANO C

Cor litúrgica: VERDE (na túnica, estola, panos da mesa da comunhão; branca, nas flores do altar)
Jeremias 1,4-10; 17-19 – Já te havia designado profeta
Salmo 71,1-6 – Minha boca proclamará sua justiça, e não outra coisa…
1Coríntios 12,31 – 13, 13 –  O amor é a maior das virtudes
Lucas 4,21-30 – Jesus foi enviado para evangelizar…

multidões

Evangelizar é viver pela utopia de Deus. “A utopia está lá no horizonte. Me aproximo dois passos, ela se afasta dois passos. Caminho dez passos e o horizonte corre dez passos. Por mais que eu caminhe, jamais alcançarei. Para que serve a utopia? Serve para isso: para que eu não deixe de caminhar” (Eduardo Galeano). “A evangelização tem que clamar pelo legado cristão aos novos evangelizadores, que encaixem a figura do fraco, do depreciado, do estrangeiro, migrante ou imigrante; o diferente nas opções da sexualidade ou na cor da pele; o oprimido socialmente, que necessita ser reconhecido dentro dos parâmetros evangelizadores. Os novos evangelizadores terão a função de trazer o futuro oferecido pelo Reino de Deus. Para dentro do verdadeiro lugar sagrado: o mundo onde se cumprem bem-aventuranças. Na pauta da utopia estão o próximo e a próxima, especialmente o pobre, o diferente; o fraco estigmatizado, oprimido e sofredor” (Juan Simarro).  

Depois da leitura que Jesus fez do profeta Isaías (Lucas 4,21-30), terminava a leitura do evangelho, dizendo que “todos os presentes tinham os olhos fixos nele”. Hoje se observa o prosseguimento da cena que desenrola-se na sinagoga de Nazaré (Jesus lê Isaías 61, sobre o Jubileu bíblico, o Evangelho do Ano da Graça, conforme o AT). Jesus diz que na pessoa dele cumprem-se as palavras de Isaías. Quer dizer, que ele é o ungido (mashiah, messias), para anunciar a Boa Nova aos pobres e oprimidos… o Reino de Deus chegou! [Nota: É imprescindível conferir a relação da pregação de Jesus com o Jubileu bíblico: Lv 25,31; Ex 21,2-11; Dt 15,1-6: a sociedade israelita obediente a Yahweh deve observar as leis contra a escravidão, a opressão, a exploração do pobre e do fraco].

As palavras de Jesus enfurecem os presentes, e tentam jogá-lo morro abaixo, expulsando-o do povoado. O cenário é atualizado nos dias de hoje: negamos a mensagem do nazareno, expulsando-o de nossas igrejas para dar lugar a pregares midiáticos da ganância e da prosperidade. É curioso como necessitados, oprimidos, excluídos, de Nazaré, sujeitos preferenciais do anúncio da Boa Nova, convertem-se em sujeitos de ódio e de morte, desprezando a Palavra evangelizadora em seu próprio ambiente. Jesus percebe que seus conterrâneos não estão interessados no que diz, mas em seus gestos; interessa-lhes antes de tudo o espetáculo de milagres, prestidigitação, hipnotismo coletivo (como nas igrejas recentes); que “cure” os doentes do povoado em espetáculo público, como tradicionais curandeiros. Mas não é essa “cura” que de fato interessa. Jesus lhes responde com adágios que percorrem o tempo sem perder o sentido: “nenhum profeta é bem recebido em sua pátria”; “em Nazaré não haverá milagre algum”. Nazaré não merece, nem quer o Reino… Jesus se refere ao Antigo Testamento, à força da pregação dos profetas contra os reis e os dominadores, para explicar sua situação.

Quem reconhecerá neste texto a missão de anunciar a Boa Nova aos distantes, quer dizer, a Palavra que se lança ao destino final; que se amplia fora do âmbito racial, religioso e político, do povo originalmente eleito? O evangelho tem de ser uma palavra que busque sempre o caminho dos mais afastados e necessitados, estejam onde estiverem. Num tempo de tecnologias de ponta, de virtualidade, conecções espaciais, não podemos deixar-nos escravizar pela razão instrumental que envolve os conceitos de missão e evangelização salvacionistas ou doutrinários, petrificados ou superados historicamente pela ausência de resultados aceitáveis. Discute-se o que é evangelização e não se evangeliza.

Pregadores midiáticos, pentecostalistas, repetem as lições salvacionistas, em proveito próprio, e agora orientada pelo pragmatismo capitalista. Enriquecem, tornam-se milionários, e chamam os fieis para segui-los (e sustentá-los em seu luxo e ostentação). Mas a verdade é que, mesmo criticando a religião da prosperidade, as comunidades tradicionais não se questionam, não se perguntam se não fazem o mesmo, enquanto criticam os outros:

“O capital financeiro percorre o planeta 24 horas por dia com um único objetivo: buscar o lucro máximo. A globalização econômica é uma grande mentira. Os donos do grande capital que dirigem o mecanismo da globalização dizem: Vamos criar economias unificadas pelo mundo inteiro e assim todos poderão desfrutar de riqueza e de progresso. O que existe, na verdade, é uma economia de arquipélagos dependentes que a globalização criou” (Jean Ziegler). Com a palavra a religião contemporânea (em suas semelhanças) de maior sucesso numérico no Brasil, e os que criaram os meios para tanto, no protestantismo e catolicismo históricos que camuflam sua inveja.

“A palavra evangelizadora ou é ativa na práxis de libertação, ou é anti-evangelizadora. A palavra evangelizadora não é palavra de teoria abstrata, dominada pela razão. É uma palavra que faz referencia à realidade – política, econômica, jurídica, social –, e a confronta com o projeto libertador de Deus. ‘Evangelizar é libertar a Palavra’ (Nolan). Evangelizar é permitir e criar meios para a ação de Deus. Uma palavra que não entra na historia dos sofrimentos humanos, das escravidões e das opressões; que não se pronuncia contra as indignidades infligidas ao ser humano; que se mantém acima da história humana, ou nas nuvens, ou não mobiliza, são sacode, não provoca reações ao mal cultural, social, econômico, político; que não suscita solidariedade aos mais fracos (nem suscita adversários nas elites privilegiadas), não é herdeira da ‘paixão’ do Filho de Deus. Disse Jesus: Fui ungido para trazer libertação aos cativos” (cf. domingo anterior).

A Palavra será sua força na luta contra falsos profetas, sacerdotes cooptados, reis, ministros, sacerdotes e proprietários de bens, terra e imóveis. São os que esqueceram a aliança de Deus, oprimindo e marginalizando seu próprio povo. O profeta encontra-se forte na obediência à Palavra (davar = palavra que transforma; que cria a novidade na ordem injusta). Ele a anuncia (familiarizado com Israel, e não com o império helênico ou romano ou qualquer outro, sua linguagem e suas culturas). Isto lhe assegura a companhia permanente de Deus e da fé bíblica.

Derval Dasilio

derval p. teologia e liturgia

Nota: Nem tudo dá certo para os negociantes de igrejas. “Ex-jogador da seleção, o pastor pentecostal Muller admitiu recentemente ter perdido muito dinheiro ganho na igreja,  morando de favor com o ex-jogador Pavão. “O Muller não soube aplicar o que ganhou com o futebol, acreditou em supostos amigos e perdeu  também dinheiro em sua igreja”, conta Ronaldo Luís, outro amigo e pastor. Como empreendedor religioso, Muller teve prejuízos. Ainda como jogador, ele investiu na criação da Igreja Pentecostal Vida com Deus, em Minas Gerais. A instituição foi fechada pouco depois por Muller, dando grande prejuízo. A igreja do Muller acabou não indo à frente. Ele decidiu vender, relembra Ronaldo Luís, pastor da Igreja Batista Getsêmani, de Belo Horizonte”.

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